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O clima é de pré-campanha e a aparição do Pedro Passos Coelho esta semana voltou a trazer à discussão possíveis alianças à direita. É hoje nosso convidado no Direto ao Assunto, o antigo líder do CDS, José Ribeiro e Castro, aqui para uma entrevista conduzida pela Judite França, Bruno Vieira Amaral e Vanessa Cruz.

Ribeiro e Castro, bem-vindo aos estúdios da Rádio Observador. O seu partido não tem assento parlamentar, mas tem nas próximas legislativas a oportunidade de voltar e vontade há. O atual líder, Nuno Melo, promoveu dois encontros no Largo do Caldas com destacadas figuras. Não aceitou o convite?

Boa tarde. Eu não fui convidado pelo doutor Nuno Melo. O doutor Nuno Melo não falou comigo e portanto eu não fui convidado.

Nem por ninguém do partido?

Não. Fui abordado por um vice-presidente do partido, que falou comigo sobre o assunto, mas não considero isso um convite do presidente do partido pra participar em qualquer encontro. Há tarefas que um presidente do partido não delega em ninguém, são qualidades que o próprio tem e usa como entende. Mas não foi por causa disso que eu não participei. Não participei porque esses dois encontros foram na semana do primeiro de dezembro. Como é sabido, eu sou presidente da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, que organiza com a Câmara Municipal de Lisboa as comemorações nacionais do primeiro de dezembro, e isso pra nós na Sociedade Histórica, eu admito que as pessoas desvalorizem, mas é uma tarefa muito importante, uma das duas datas mais importantes na Sociedade Histórica e para uma instituição que tem muitas dificuldades e limitações, isso exige uma carga de trabalho muito acentuada. Portanto, foi a altura mais inoportuna para eu poder participar no que quer que fosse. Eu prezo muito estas funções e essa foi a razão que não participei. Vendo a posteriori, eu não achei mal não ter participado. Enfim, eu assisti, acho bem que tenham sido feitas, mas não achei mal não ter participado.

Mas por quê?

Olha, eu considero que a tarefa da união do partido é muito importante. É mesmo talvez das tarefas fundamentais pra quem vai pra um desafio eleitoral que é decisivo. Eu espero que corra bem ao CDS. E creio que essa união passa em primeiro lugar por um encontro entre, já o escrevi aliás, entre o presidente do partido, Nuno Melo, e o anterior presidente do partido, Francisco Rodrigues dos Santos. Sem isso, o ramalhete fica sempre incompleto.

Mas não era importante a presença de todos os antigos líderes do CDS neste encontro?

Sim, eu não estou a dizer que não. Já expliquei porque é que eu não estive presente. Mas a pessoa que ali faz falta realmente, porque é institucionalista, é Francisco Rodrigues dos Santos ao lado do Nuno Melo. Toda a gente conhece a história recente do partido, não vale a pena fazer política de avestruz. E portanto, quem quer mobilizar e sanar todas as questões do passado, essa é uma questão principal, por muito que se queira diminuir. O resto é evitar essa questão. Não quer dizer que tenha mal que se faça, mas eu gostaria que isso acontecesse e desejo que isso aconteça.

E não tem acontecido por responsabilidade de quem? Da atual liderança?

Não sei. Mas enfim, se manda falar com o Francisco Rodrigues dos Santos também outras pessoas, como aconteceu comigo, isso não é um caminho certo. Quer dizer, há coisas que o presidente do partido só ele pode fazer. Eu já fui presidente do partido, eu sei como isso é. Há coisas que o presidente do partido só ele pode fazer, são indelegáveis, são intransferíveis. E portanto eu desejo que isso aconteça e espero que acontecendo exista espírito positivo.

E qual é a avaliação que faz da atual liderança de Nuno Melo? Será ele capaz de fazer regressar o CDS ao Parlamento?

Isso não depende só dele. Enfim, eu sou objetivo e eu considero que o CDS obviamente está numa situação muito difícil, mas eu até acredito que estas eleições podem ser uma excelente oportunidade. Eu sinto isso na rua, desde o dia 31 de janeiro, ou seja, do dia seguinte às últimas eleições, que eu sinto à volta de mim, é natural que à volta de mim se manifestam um conjunto de pessoas que foram ou que são do CDS, um grande desejo de votar no CDS. Eu atribuo isso a uma má consciência de algumas pessoas que são do CDS e que faltaram ao voto e que acharam que foi duro demais. E portanto, eu creio que existe uma grande vontade do CDS. Uma é essa. É vontade de corrigir um erro individual que cada uma pessoa no seu íntimo sente que cometeu. Segundo, é o sentimento de que no puzzle da direita portuguesa atualmente, que está mais fragmentado, há ali uma peça que manifestamente faz falta e que é o CDS. E portanto, quando as pessoas percebem que há ali um espaço entre o PSD e o Chega, esse é o espaço do CDS. E quanto maior for esse espaço, menos pesa o Chega. Isso parece-me evidente. Essa é a função que o CDS tem para desempenhar. E pode ser até uma oportunidade extraordinária, se o CDS tiver capacidade de reunir muita gente, mobilizar muita gente, e nomeadamente pessoas que pela sua presença respondam à preocupação do eleitorado, que frustrado, se desviou para um partido que tem uma expressão mais radical, isso tanto melhor. Porque um CDS com 4%, 5%, 6%, isso significa um Chega mais governável.

Escreveu ontem, eu queria falar-lhe disso, num artigo aqui no Observador, em que enfatizou dois problemas novos em coligações como a AD desde 2019, uma relação mais desproporcional entre PSD e CDS e o desaparecimento de outros partidos à direita do PS. Renovar agora uma coligação PSD-CDS não iria beneficiar mais o CDS do que o PSD?

Não sei. Eu às vezes vejo algumas notícias nos jornais que são nesse sentido, que é o CDS na paragem do autocarro apanhar uma boleia. Isso pode ser bom para duas ou três pessoas, mas do ponto de vista partidário e político pode não significar grande coisa. Eu creio que o papel do CDS é assumir o seu lugar histórico, o seu testemunho e o seu lugar no centro direita português.

Então pra isso o melhor era correr sozinho.

Eu creio que até deve correr sozinho ou pelo menos mostrar que está capaz de correr sozinho. Por isso eu gostaria que o CDS, por exemplo, nessa altura já tivesse preparadas listas com 230 candidatos. Ter listas preparadas com 230 candidatos não faz mal a ninguém. Se houver listas conjuntas, depois reduz-se. Agora, se depois falham, se se está à espera de Luís Montenegro, como Rodrigo Santos sempre à espera do Rui Rio e depois não há, é capaz de ser mais complicado apresentar listas quando não se preparou.

E quanto a uma eventual coligação, tendo em conta que está no ar que pode haver ou não, o CDS e o PSD estão a demorar demasiado tempo a dizer se vão ou não juntos a jogo?

Eu julgo que sim. Eu vejo com preocupação que desde o anúncio das eleições, no dia 9 de novembro, o PS tem tido uma vantagem extraordinária. O PS esteve um mês e meio sozinho no terreno, com a comunicação social, naturalmente, a seguir uma disputa que tinha interesse jornalístico e político evidente. Mas há opções estratégicas e políticas de fundo que devem ser esclarecidas o mais depressa possível. Cada um tem que saber quais são as cartas que tem e depois correr. Porque a meta está marcada, é dia 10 de março. As eleições não vão esperar nem um dia por quem se atrasou. E eu creio que as questões estão postas em cima da mesa, são sabidas quais são as possíveis vantagens teóricas de uma coligação. São conhecidas também as dificuldades e se existem resistências, o melhor é que elas se conheçam. Eu parto do princípio que Nuno Melo e Luís Montenegro têm falado lealmente e corretamente sobre isso e há aí um sigilo que eu respeito, mas acho que é importante que isso seja conhecido. Também são conhecidas as vozes que dentro do PSD apoiam essa coligação. Há sempre gente que é a favor e gente que é contra, mas que esse ajuste e essa interpretação seja feita a suficiente distância das eleições. A partir dessa altura, as pessoas partem pras eleições e é isso que importa. As pessoas apresentam os seus programas, apresentam os seus rostos, apresentam as suas propostas, sejam listas conjuntas ou separadas, e agora é uma corrida, depois os eleitores é que têm a decisão.

Nisso a Iniciativa Liberal vai um pouco mais à frente. Há pouco não referiu ao traçar esse panorama à direita a Iniciativa Liberal, mas já apresentou listas, também já disse que vai apresentar sozinha e isso também pode prejudicar o CDS. Há um eleitorado do CDS, que votava CDS, que entretanto passou para a Iniciativa Liberal e que pode, dado este avanço da Iniciativa Liberal, continuar a votar no partido.

Sim, a Iniciativa Liberal faz parte daquele problema que ali foi enunciado, que eu referi, que é diferentemente da AD histórica, nós nesta altura estamos confrontados com a existência de partidos não AD. Partidos que não têm uma história AD e que até podia haver AD e ficarem fora. Isso é um problema novo que nunca existiu. A AD quando existiu no passado ocupava a totalidade do terreno. Hoje não é assim. A Iniciativa Liberal, a meu ver, é diferente. Primeiro, porque não põe um problema de governabilidade, se houver um quadro de governabilidade à direita, a Iniciativa Liberal é pacificamente considerada por toda a gente, nomeadamente pelo ambiente político. O problema põe-se, todavia, com o Chega. O Chega coloca manifestamente um problema de governabilidade e é evidente pra toda gente que existe um jogo, uma valsa surda, ou talvez não tão surda quanto isso, e se calhar mais um tango, porque é com chafarizões, entre o PS e o Chega. Há ali um tango em que o Chega tem conveniência na atuação do PS e o PS tem manifestamente, como descaradamente se viu ao longo destas diretas, na existência e no crescimento do Chega.

Mas esse problema de governabilidade deriva da própria natureza do partido, de eventuais exigências que o Chega viesse a fazer?

Também por isso, porque o Chega tem tido sempre uma linha muito agressiva e muito demolidora pra com os partidos com que depois se torna impossível coligar. É muito apontado o que aconteceu nos Açores. Isso é um pequeno aperitivo do que nós podemos ver que pode acontecer no Parlamento nacional, se virmos cenas como já aconteceram no Parlamento, se virmos cenas como aconteceu com o presidente Lula da Silva, se virmos cenas que revelam a falta de sentido institucional que por ali existe. Mas o que aconteceu nos Açores também é revelador da instabilidade que dali pode advir. Mesmo num acordo indireto, essa instabilidade aconteceu. Isso tem a ver com o tipo de afirmação política que o Chega quer ter, que é o estilo que quer ter, mas que depois torna difícil, pra não dizer impossível, qualquer tipo de entendimento para o governo. Eu creio que o Chega deve ser confrontado com uma questão: se houver uma maioria à direita, que ele também faça parte dessa maioria, se ele derruba o governo liderado pelo PSD. Isso é uma pergunta que tem que ser repetida todos os dias ao líder do Chega. Se ele quer assumir a responsabilidade de derrubar o governo que se forme à direita do Partido Socialista. E essa é a questão Isto passou-se com a esquerda portuguesa durante muitos anos, até pelo menos 2015. O PS não tinha a maioria absoluta, portanto havia uma esquerda à sua esquerda e ele estava dependente de um certo equilíbrio parlamentar entre a esquerda, que o não derrubava, e o PSD e às vezes o CDS, que também o não fazia. E isso pode-se renovar agora à direita, porque esse problema inverteu de lado. Passou para o lado à direita.

Mas aí nesse caso o PS de Pedro Nuno Santos não parece disposto a viabilizar um eventual governo minoritário do PSD.

Magnífico. Vamos pra eleições. Eu acho que é preciso ser muito claro. Se da solução que os portugueses escolherem, os partidos que têm a chave complementar forem irresponsáveis, vamos outra vez pra eleições. Era, aliás, o que teria acontecido em Espanha, se não tem sido a irresponsabilidade de Pedro Sánchez de fazer alianças com partidos prófugos, com partidos inacreditáveis no sistema espanhol. Era isso que seria a saída natural do impasse espanhol. Portanto, se nós chegarmos a uma situação de impasse ou de instabilidade, à primeira quebra, vamos pra eleições, como aliás aconteceu no passado. Eu recordo que, por exemplo, Cavaco Silva teve um governo minoritário, ficou-se sempre à espera se o PRD caía pra esquerda ou caía pra direita, caiu pra esquerda, o que derrubou Cavaco Silva. Cavaco Silva foi à eleições e teve a maioria absoluta. Não tem problema nenhum. Quem tem que decidir essas questões, em última análise, é o povo. O que nós temos que trabalhar nessas eleições, que é todos os partidos do efetivo arco de governabilidade à direita, eu chamo esse arco de governabilidade à direita, o PSD, a Iniciativa Liberal e o CDS, é em soluções que permitam a formação de uma solução de governo contra o Partido Socialista, que retire o Partido Socialista do pântano em que o PS da maioria absoluta deixou Portugal.

Ontem Passos Coelho falou e de alguma forma deixou aqui uma porta aberta à possibilidade de o Chega poder dar a mão ao PSD. Acredita no não é não do Luís Montenegro?

Acredito. E acho, aliás, que a comunicação social devia respeitar isso e, portanto, não estar todos os dias a fazer essa pergunta. Mas de qualquer forma, se fizer, ele terá que responder de uma forma que entender.

O assunto parecia estar resolvido, mas Passos Coelho trouxe à tona outra vez, não é?

Eu acho que Passos Coelho não disse isso. E acho que é um bocadinho excessivo, embora percebo do ponto de vista-

Houve uma sucessão de perguntas dos jornalistas e a dúvida ficou no ar.

Mas ele não disse isso. Pode-se interpretar as suas palavras como se quiser. Como essa questão anda no ar, a gente tem aqui uma forma de voltar a pôr em cima da mesa. E como André Ventura se refere sempre a Passos Coelho de uma forma elogiosa, diversamente do que faz relativamente a Montenegro, está aqui o veneno político da questão. Mas só o Pedro Passos Coelho é que o pode dizer. Acho que ele jamais o faria. Ou se quisesse fazer, diluía claramente.

Estamos a aproximar do final da nossa entrevista. Há pouco falou da importância de o CDS ter listas o quanto antes, que até já deveria tê-las. Estaria disponível para integrar as listas do seu partido?

Nas alturas estou bastante fora, mas em outras ocasiões aceitei. Pode ser que sim, depende das circunstâncias. Há questões que me entristecem e, portanto, eu se estivesse, estarei pela declaração de princípios do partido de 1974, que é a declaração fundadora do CDS e que eu creio que mantém toda a sua importância, até justamente nós somos um partido vintage, nós somos um partido antigo. E portanto, esses documentos são datados porque datam de 74. Nós somos um partido que não nasceu ontem, nasceu em 1974, e portanto estaria em nome disso, que é o CDS a que eu pertenço.

Precisaria de uma conversa prévia com Nuno Melo, eventualmente de um pedido de desculpa?

Não, essas questões são pessoais. Quem faz esses convites é o presidente do partido. Agora, como eu tenho dito, o presidente do partido tem funções que são absolutamente indelegáveis, portanto, que apenas o próprio pode fazer. E não me quero chegar à frente nem pôr em bicos de pés. Não sei qual é o quadro político que está a ser definido. Tenho uma ideia clara do que o CDS deve fazer. Aliás, o meu pensamento é conhecido relativamente ao que eu penso do que é a identidade e a marca do CDS e do que pode fazer nesta circunstância. Eu acho que o CDS pode ter nesta circunstância, esse CDS conservador, de um quarto da questão, tem uma oportunidade extraordinária de afirmação e de prestar não só um grande serviço a si próprio, mas também um grande serviço ao país, porque constituirá a resposta própria a eleitorado que está sequioso disso.

Obrigada, Ribeiro e Castro, por ter vindo ao Direto ao Assunto, o ex-líder do CDS, que ia mostrar-se eventualmente disponível para integrar as listas, mas depende das circunstâncias.