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Reapareceu Pedro Passos Coelho, reapareceu Durão Barroso e também reapareceu José Sócrates. Todos foram hoje testemunhas no caso judicial que envolve Manuel Pinho, mas falaram também sobre a crise política e sobre as eleições legislativas, com alguns recados. Quem vai hoje direto ao assunto aqui na Rádio Observador é o secretário-geral do PSD, Hugo Soares, para uma entrevista conduzida pela Judite França, Bruno Vieira Amaral e Vanessa Cruz.
"Espero que ambos tenham uma aguda consciência da importância dos tempos que aí vêm." A frase é de Pedro Passos Coelho, que não exclui um acordo entre PSD e Chega. Já recentemente, o ex-líder do PSD, ex-primeiro-ministro, tinha dito que o Chega é um partido democrático. Hugo Soares, bem-vindo. Feito este contexto, encara isto como um puxão de orelhas a Luís Montenegro depois do "não é não" que o atual líder traçou em relação ao Chega?
Olá, muito boa tarde, obrigado pelo convite. Convinha contextualizarmos as declarações todas do doutor Pedro Passos Coelho. O doutor Pedro Passos Coelho começou por dizer que o governo que sairia das eleições tinha muito a ver com a estratégia dos partidos que se colocam em eleições no próximo dia 10 de março. E a estratégia do PSD é muito clara, muito conhecida, fosse a dos outros partidos que concorrem tão clara como a do PSD. O Luís Montenegro, candidato a primeiro-ministro do PSD e líder do PSD, teve já ocasião de dizer repetidamente que não governará com o apoio do Chega, nem com uma coligação pós-eleitoral com o Chega. Portanto, desse ponto de vista, não considero sequer nem um puxão de orelhas. Tenho, aliás, a certeza que não foi essa a intenção do doutor Pedro Passos Coelho em enquadrar a questão como eu fiz as declarações do ex-primeiro-ministro, antes uma constatação do óbvio. Os partidos políticos que concorrem em eleições no dia 11 de março devem ter consciência clara daquilo que foram as escolhas dos portugueses e, portanto, respeitar os resultados eleitorais.
Mas o que está em causa nas próximas eleições, como disse André Ventura, é de facto um confronto entre dois blocos, o bloco da esquerda e o bloco da direita?
O que está em causa nas próximas eleições legislativas é escolher o partido que está melhor preparado para poder governar Portugal. Aquele que tem melhores ideias, aquele que é mais credível, aquele que é mais responsável, aquele que não é radical, aquele que não se propõe a governar com radicais de esquerda ou com radicais de direita, com imaturos, com impreparados. E, portanto, o que está em causa é escolher, não me leve a mal, o PSD para governar, porque é esse o nosso desejo a bem de Portugal.
Hugo Soares, os partidos à esquerda, o Bloco de Esquerda já o fez e é muito provável que o PS o faça em breve, vão aproveitar estas declarações de Pedro Passos Coelho para colarem o PSD ao Chega de novo. Concorda?
Não sei. Quem não tiver mais nada para dizer pode fazer isso, de facto. Vejo que a comunicação social, e bem, já está a antecipar aquilo que tem sido a estratégia dos partidos aflitos. É mesmo assim. Quando não se tem mais nada para dizer, tenta-se fazer de um caso uma coisa que não existe. Eu não creio que o PSD possa ser mais claro. Quando o presidente do PSD e os seus dirigentes dizem que não governarão com o apoio do Chega, que não farão uma coligação pós-eleitoral com o Chega, porque não estão disponíveis para governar com partidos que não têm soluções, que são partidos de protesto.
Nem acordos de incidência parlamentar, Hugo Soares?
Fomos tão claros já quanto isso. Eu não sei onde é que nós podemos ser mais claros. Mas deixe-me já agora só dizer uma coisa a propósito da introdução desta nossa conversa, que me apraz dizer. Enunciaram a nossa conversa com o surgir hoje no espaço público e político de três ex-primeiros-ministros: Durão Barroso, Pedro Passos Coelho e José Sócrates. Eu queria dizer que bom é ser do PSD quando nós temos para apresentar ao país dois ex-primeiros-ministros como Durão Barroso e Pedro Passos Coelho. Não sei se o Partido Socialista hoje estivesse a comentar neste mesmo espaço, podia dizer exatamente o mesmo que eu estou a dizer.
Olhando para o que vai acontecer no pós-eleições, já disse que as pessoas vão escolher e o que interessa aqui é em quem é que vão votar, mas as sondagens dão um crescimento do Chega. O PSD vai ficar só à espera que o Chega viabilize um eventual governo, caso não consiga ter uma maioria absoluta ou possa só contar eventualmente com a Iniciativa Liberal?
Vamos fazer um comentário genérico às sondagens. As sondagens, como sabe, são para todos os gostos. Tenho visto sondagens que dão o PSD com alguma margem à frente e até sondagens que dão o PSD com alguma margem atrás. Recordo precisamente as sondagens que davam o engenheiro Carlos Moedas no bolso do doutor Fernando Medina, perdia por mais de 20% a Câmara de Lisboa e hoje o presidente da Câmara de Lisboa é o engenheiro Carlos Moedas. Lembro-me e recordo bem as sondagens que em 2011, em vésperas de eleições, davam o doutor Pedro Passos Coelho a perder por muito com o engenheiro Sócrates, e quem ganhou a eleição e foi primeiro-ministro, o doutor Pedro Passos Coelho. Portanto, quanto a sondagens, creio que estamos conversados. E portanto, eu não elaboro cenários com base em sondagens. Nós apresentamos aos portugueses um conjunto de propostas, um projeto político muito concreto. Melhorar a vida das pessoas em concreto, sem olhar a ideologias. Recuperar o tempo de serviço dos professores de forma gradual e responsável, devolvendo a autoridade aos professores na sala de aula. O programa de emergência entre setor social, setor privado e Serviço Nacional de Saúde para poder dar um médico de família a cada português, recuperar os tempos de espera das cirurgias e das consultas e não passarmos este caos que os portugueses vivem na saúde. Olhar para os pensionistas E olhar para aqueles que já tanto deram a Portugal e estabelecer um limiar mínimo, um rendimento mínimo, atendendo ao complemento solidário para idosos de € 820. Queremos um país onde a segurança seja uma palavra-chave, um país que não esteja de portas fechadas a quem quer cá entrar, mas que não esteja de portas escancaradas e que seja incapaz de dar dignidade a quem quer viver em Portugal. O nosso projeto é um projeto claro, e é assim que nós nos apresentamos às eleições. Veja, eu gostaria muito que os outros candidatos a primeiro-ministro, começando pelo André Ventura, terminando no Pedro Nuno Santos, fossem capazes de, com esta clareza, pôr as coisas em cima da mesa. Deixe-me só fazer uma nota. Nós ouvimos nos últimos dias, depois de terem sido convocadas as eleições legislativas em Portugal, o doutor Pedro Nuno Santos a defender a recuperação do tempo de serviço dos professores. Como sabe, depois de ter chumbado a nossa proposta na Assembleia da República e ter feito parte de um governo que recusou fazer a recuperação integral do tempo dos professores. Mas ele anunciou agora que é a favor. Só que também já disse outra coisa. Já disse que não quer nenhum orçamento retificativo e que o orçamento aprovado pelo Partido Socialista é para ser executado. Ora, as duas coisas não são compagináveis. Não é compaginável recuperar o tempo de serviço dos professores com o atual orçamento de Estado. Portanto, isto é um grau de impreparação, de demagogia, de eleitoralismo, que nós denunciamos, condenamos e queremos mesmo fazer diferente. E depois, se for o resultado da eleição, nós cá estamos para poder lidar com ele.
Há pouco falava de José Sócrates, o ex-primeiro-ministro também foi ouvido como testemunha de Manuel Pinho e respondeu a Pedro Passos Coelho acusando-o de um ataque político disfarçado de reflexão e que ainda estamos para ver quem fez má figura, se foi o primeiro-ministro, o Ministério Público ou a oposição. Este é um assunto que estará na mesa durante a campanha eleitoral. Se o Ministério Público vier a arquivar as suspeitas contra António Costa e se o fizer antes das eleições, isto será um golpe para o PSD? Há uma estratégia, um plano B, se isso acontecer?
Vamos dividir a resposta em duas. Primeiro, para comentar o engenheiro Sócrates. Ele é sempre bem-vindo à campanha. Não sei se o Partido Socialista tem tanta vontade assim que ele entre no combate político. Ele deve estar com alguma pedra no sapato, quer com o doutor Pedro Passos Coelho, quer com o Ministério Público, mas isso é lá um problema dele. Segunda parte da resposta, diretamente, tem a ver com a sua pergunta. O doutor António Costa não é candidato nestas eleições e não está acima da lei. Portanto, há uma suspeita, o Ministério Público anunciou essa suspeita, está a investigar. Não me diz respeito, nem a mim, nem ao PSD, aquilo que vai ser a consequência da investigação do Ministério Público. É que eu não sou daqueles que entende que a justiça, o que é da justiça, só às vezes e quando convém, como é o caso do doutor António Costa. Não. Para o PSD, o princípio da presunção da inocência, mas também da separação de poderes, são dois princípios que nós elencamos e que nos guiamos por ele. Portanto, a questão da decisão e da investigação sobre o primeiro-ministro, sobre o seu melhor amigo e sobre o chefe de gabinete do primeiro-ministro, é uma investigação que cabe ao Ministério Público e que deve ser deixada ao Ministério Público. Portanto, eu sobre isso não quero fazer nenhum comentário.
Durão Barroso também passou hoje pelo campus de Justiça, não quis fazer declarações sobre o PSD. Era um apoio importante nesta altura ou compreende o silêncio?
Eu não tenho dúvida nenhuma, sem querer falar pelo doutor Durão Barroso, que ele apoia não só o PSD, como apoia a candidatura do Luís Montenegro a primeiro-ministro. Entendeu que hoje não era dia para fazer comentários do ponto de vista da decisão política nacional e foi um entendimento pessoal dele, que respeito, que terá muito tempo, se entender, de poder fazê-lo e é uma voz muito respeitada por nós e pelo país, creio eu.
Mas fez melhor do que Pedro Passos Coelho?
Até creio que foi muito inteligente da parte do doutor Durão Barroso. Se falou hoje o ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, o doutor Durão Barroso falar em cima, ia só juntar ruído. Assim, a mensagem que o doutor Pedro Passos Coelho queria passar, e que eu saúdo, passou e muito bem.
E por falar em ruído e em mensagens, Hugo Soares, o debate está a ficar já muito extremado e ainda nem sequer estamos em campanha eleitoral, estamos em pré-campanha, digamos assim. Pedro Nuno Santos diz que já não vê diferenças entre o discurso de Luís Montenegro e de André Ventura.
Está a ver? Há pouco diziam que a campanha do Partido Socialista ia ser tentar colar o PSD ao Chega. Não têm mais nada para dizer. Isso é tão infantil. Não me leve a mal, é mesmo uma infantilidade de quem não tem mais nada para dizer. É evidente que uma campanha eleitoral se faz de contraponto de posições, faz-se de combate político, faz-se de denúncia daquilo que são os perfis e os caminhos de cada candidato até à eleição. Isso faz parte. Eu creio que os portugueses estão habituados a que haja uma confrontação de ideias e de projetos. Agora, nós temos vindo a apresentar as nossas ideias. Ainda este sábado eu vi o presidente do PSD, doutor Luís Montenegro, a desafiar Pedro Nuno Santos para poder comentar aquilo que eu há pouco enunciei como principais prioridades e eixos de ação do nosso projeto político. Olhe, posso juntar mais um: a baixa do IRS da classe média ou uma taxa única de 15% para que os jovens possam cá ficar e não terem que emigrar. Eu gostava de ouvir o doutor Pedro Nuno Santos a falar sobre isto, mas se ele se quer entreter a fazer comparações absolutamente infantis, está à vontade, os portugueses avaliarão. Eu não posso meter nessa conversa. Creio que hoje, deixe-me só voltar um bocadinho atrás para lhe dizer que aquilo que foi o comentário do doutor Pedro Passos Coelho, eu me revejo por inteiro. Eu já tive ocasião de dizer. Ele hoje disse que o primeiro-ministro saiu do governo por indecente e má figura. É curioso, porque eu no domingo usei convosco, num debate na Rádio Observador, a mesma expressão para dizer que foi assim Que Pedro Nuno Santos saiu também do governo. Nós temos a candidata a primeiro-ministro, alguém que não serviu para ministro. Estaria o doutor António Costa capaz de o recomendar para ser primeiro-ministro? Eu tenho sérias dúvidas.
Hugo Soares, cada vez que Pedro Passos Coelho fala, não tem falado muito, é certo, mas cada vez que fala publicamente, isso não diminui a liderança de Luís Montenegro? E agora até pelo conteúdo daquilo que disse.
Não consigo perceber a pergunta sequer, com toda a franqueza.
Se não faz sombra, se não é uma presença, neste caso, uma ausência demasiado presente a Pedro Passos Coelho.
Alguém que hoje expressou o apoio como expressou ao PSD e o combate onde quis estar contra o Governo Socialista. O professor Cavaco Silva, que tem intervindo várias vezes a favor do PSD, da candidatura Luís Montenegro, também incomoda? Não incomoda nada. Vamos lá pôr as coisas a que nos divulgarem.
Mas Cavaco Silva foi ao Congresso e Passos Coelho não.
Eu acho que hoje, mas hoje não falou e falou Pedro Passos Coelho. É assim, cada coisa tem o seu tempo. Acho que hoje quem tem razão para estar incomodado com o surgir de um ex-líder na comunicação social e no debate político é o Partido Socialista, não é o PSD. Eu tenho dito isso muitas vezes, vou repetir. Eu tenho um orgulho tremendo no legado de Pedro Passos Coelho.
Mas esse legado tem um peso, é por isso que lhe perguntava. Tem um grande peso que de alguma forma pode diminuir a atual liderança.
Não diminui a atual liderança de nenhuma. A atual liderança do PSD tem muito orgulho na história do partido e tem, sobretudo, os olhos postos no futuro e no que é fazer pelo país. Mas deixe-me só terminar dizendo. Acho que hoje a pergunta deve ser ao Pedro Nuno Santos e ao Partido Socialista. Estão eles confortáveis com o surgir do engenheiro Sócrates na campanha eleitoral? É que eu estou muito confortável com as declarações do doutor Pedro Passos Coelho. O contrário é que eu não sei se é verdade, e essa pergunta devia ser feita.
Deixe-me perguntar-lhe, Carlos Moedas afirmou-se favorável a uma coligação pré-eleitoral com o CDS. Concorda?
Tenho o maior respeito pelo engenheiro Carlos Moedas. Creio que a coligação pré-eleitoral que fez em Lisboa com o CDS está a correr lindamente. E o presidente do PSD já teve ocasião de dizer que a seu tempo falará sobre isso e que está a conversar com o CDS e, portanto, quando tivermos alguma coisa para anunciar ao país, faremos. Creio que, sinceramente, os portugueses sabem que o CDS é um parceiro privilegiado do PSD. Temos com eles tido momentos da história do país absolutamente decisivos. É um parceiro confiável, é um parceiro fiável e, portanto, a seu tempo anunciaremos o que temos que anunciar.
E quanto aos cabeças de lista, alguns partidos já vão anunciando os cabeças de lista às legislativas, até às europeias também, quando é que o PSD o vai fazer?
Isso tem que esperar pela decisão própria dos órgãos e pelas escolhas que o presidente do partido fará. Em última instância, a ele cabe essas escolhas. Fico contente que haja a vontade de conhecer os candidatos do PSD. Sabemos hoje duas coisas, que são dois compromissos do presidente do PSD: ter candidatos credíveis e ter, sobretudo, um leque de candidatos que sejam independentes e que representem aquilo que é o pulsar da comunidade portuguesa. Já na semana passada tivemos ocasião de apresentar um manifesto subscrito por mais de 100 personalidades que apoiam a candidatura do Luís Montenegro. Creio que ele é revelador da mobilização da sociedade em torno da candidatura do PSD ao Governo de Portugal, e assim será também nos cabeças de listas que vamos escolher, certamente às eleições legislativas e ao resto das listas que entregaremos nos respectivos tribunais para concorrerem, sendo essa uma responsabilidade do presidente do partido.
Trinta segundos só. Hugo Soares, falámos aqui do CDS. Quanto à Iniciativa Liberal, gostava que o partido do Rui Rocha fosse a jogo também, eventualmente com o PSD?
Eu aí tenho que ser muito claro também. Da mesma forma que eu não comento cenários que não existem, também não posso comentar esse, porque repare, a Iniciativa Liberal, imediatamente que se colocou o cenário de eleições legislativas antecipadas, veio dizer que concorreria sozinha e que era contra qualquer tipo de coligação. Portanto, nem sequer é um cenário que se discuta. Foi uma posição que a Iniciativa Liberal tomou, foi uma posição decidida pela Iniciativa Liberal.
Sim, mas se gostava que recuasse nessa posição.
Eu creio que em democracia, os partidos que assumem uma posição como esta não devem haver recuos. É bem da democracia e dos partidos, portanto, não tenho nenhuma expectativa que recue, não tenho estados d’alma quanto a isso.
Obrigada, Hugo Soares, secretário-geral do PSD, foi o convidado do Direto ao Assunto, aqui a olhar para essas declarações de hoje na reaparição de Pedro Passos Coelho.