Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Hoje falamos da propagação troposférica. É um fenómeno físico e meteorológico que pode beneficiar a propagação das ondas de rádio, fazendo com que as ondas viajem milhares e milhares de quilómetros. Eram 21 horas e 38 minutos, hora de Portugal continental, quando em Bromarf, na Finlândia, e a mais de 4000 km de Portugal, Jim Solati, um rádio amador de 50 anos, escutou pela primeira vez em território finlandês a Rádio Observador em 98.4 FM, a partir da antena que transmite para o Grande Porto, uma situação pouco comum que levou este ouvinte finlandês a entrar em contacto connosco para dar conta deste fenómeno.
E aquilo que se ouviu, Ana Filipa Rosa, nesse território finlandês foi mais ou menos isto. Ficam sozinhos. E foi uma lição de que não havia outra aliança para Portugal.
E a ilusão do regime?
Sim, aquilo pode ter ocasionado, obviamente, as vitórias, os triunfos diplomáticos. Ouvimos este excerto da conversa entre Rui Ramos e João Miguel Tavares, a conversa no programa "E o Resto é História" do passado dia 12 de julho, ouvidos ambos em 98.4 FM, mas na Finlândia. Um registo que foi enviado por Jim Solati, um apaixonado por descobrir emissões estrangeiras de rádio, que entrou em contacto connosco através de um e-mail. Nós devolvemos o contacto e numa breve entrevista, o Jim Solati explica-nos que onde vive, a cerca de 140 km da capital da Finlândia, consegue escutar rádios de vários países, mas que é raro conseguir ouvir as rádios portuguesas.
A partir do local onde vivo, consigo ouvir estações de rádio do Reino Unido, também de França ou de Itália, mas Portugal isso já fica um pouco mais longe. Já faço isto há 36 verões e só por duas vezes é que consegui ouvir estações de Portugal. A última foi no dia 12 de julho, antes disso tinha sido a 12 de junho de 2013, portanto há sete anos e um mês. Talvez haja aqui magia com este número 12. E é muito raro conseguir sinais vindos de Portugal, portanto, avisei logo os meus amigos que havia sinais portugueses em FM. Minutos antes tinha ouvido estações da Galiza, em Espanha, e sabia que podíamos chegar até perto de Portugal. Quando cheguei aos 98.4, a vossa frequência no Porto, soube imediatamente o que estava a ouvir. É que o mais engraçado é que os dados digitais da informação RDS indicaram logo o nome do programa. Portanto, eu soube, assim que sintonizei a vossa frequência, aquilo que estava a passar nesse momento.
São explicações de Jim Solati, ouvido pelo Observador. Ele que nos fala ainda deste hobby que tem, juntamente com outros amigos, que são também apaixonados pelo fenómeno da rádio e das frequências FM.
Nós temos à volta de 200 pessoas na Finlândia que têm rádio como hobby. Este tipo de ex-listening, este hobby, é um pouco diferente do dos amadores da rádio. Os rádio amadores típicos têm os próprios programas, mas quem tem o hobby ex-listening dedica-se a ouvir estações de rádio. Na Finlândia, somos um grupo de perto de 50 pessoas a ouvir em FM e vamos partilhando informação, vamos monitorizando essas estações. Quando um de nós descobre um novo sinal, comunica aos outros, através de grupos de WhatsApp, para que todos fiquem a saber. E nessa altura esperamos estar perto de um rádio para tentarmos também ouvir e não ter qualquer compromisso com a família ou com os amigos. O verão é uma altura em que estamos muito ocupados e em que acabamos por estar atentos a esses sinais de rádio e não participamos em qualquer tipo de atividades sociais.
É esse verão diferente para este finlandês, o Jim Solati.
O verão que, segundo este nosso ouvinte finlandês apaixonado por rádio, é a melhor altura do ano para captar as ondas de rádio a grandes distâncias. E para percebermos este fenómeno, convidámos o professor Nuno Borges de Carvalho, é diretor do Departamento de Eletrónica, Telecomunicações e Informática da Universidade de Aveiro. Nuno, muito obrigada por estar connosco. Uma boa tarde para si. E eu não sei se existe aqui uma forma simples de explicar tudo isto, como é que tudo isto acontece, mas peço-lhe que tentemos, pelo menos.
Sim. Em primeiro lugar, muito obrigado pelo convite. E de facto, o que foi referido é normal e é usual acontecer. Portanto, isto, como disse há bocado, é propagação na ionosfera e acontece exatamente porque a atmosfera, na componente ionosférica, fica ionizada. E ao ficar ionizada, a forma mais simples que eu teria para apresentar isto é como se fosse um espelho para as ondas eletromagnéticas. O que significa que se as ondas eletromagnéticas, imaginem um laser ou uma lanterna, forem apontadas para esse espelho, vão refletir e ao refletir, podem propagar-se ao longo de dezenas ou centenas de quilómetros. E desse ponto de vista é perfeitamente viável. No caso da Finlândia, poderá ainda haver um outro efeito que é a propagação auroral. Ou seja, as auroras boreais no norte da Europa são também um fenômeno desta ionização e também elas podem refletir estes sinais. Mas não é preciso ir até à Finlândia. Eu posso vos dar um exemplo que acontece muito em Portugal, que é devido às condições atmosféricas e principalmente à mudança entre o território terrestre e o Oceano Atlântico. Por vezes, rádios do norte de Portugal, eu estou me a lembrar uma rádio que eu conheço, porque eu passei a minha infância no norte de Portugal, a Rádio Afifense, que é uma rádio local de Afife, que é uma terra muito próxima de Valença, portanto no norte de Portugal, chega sem problemas a Óbidos, por vezes, ou a Aveiro, onde eu moro, exatamente pelo mesmo fenômeno. Nesse caso, ainda é mais interessante, porque cria-se um efeito como um túnel. Normalmente, até se chama efeito conduta. A onda entra para dentro quase como se fosse uma conduta com duas chapas, vamos imaginar assim, ou dois espelhos.
Nuno, e o que acontece? No fundo, deixa de haver aqui obstáculos que impeçam a propagação da onda e assim há essas condições ideais para a propagação?
Sim, é mais do que isso. Normalmente, quando se fala de rádio, e mais recentemente por causa dos telemóveis, as pessoas pensam sempre que há o que se chama a linha de vista. Eu tenho o meu telemóvel, o meu rádio, e tenho uma antena que eu estou a ver e há ali uma comunicação direta. Nesta situação é diferente. Eu envio onda para a atmosfera, neste caso para a ionosfera, e tenho uma reflexão. Essa reflexão pode voltar à Terra, pode ser uma reflexão com um arco muito grande, é quase como lançar um projétil. O projétil sobe e volta a descer, é quase o que temos aqui, só que é refletido na mesma ionosfera. Quando há este efeito de frente estar quente e frio, podemos inclusive criar, como eu estava a dizer, uma conduta de dois espelhos, se vocês quiserem, espelhos eletromagnéticos, por assim dizer, em que o sinal bate, reflete, bate no outro, reflete e vai se propagando até chegar a um ponto em que este efeito deixa de existir e o sinal chega a um determinado ponto da Terra. Isto, como este colega estava a dizer, é uma brincadeira, entre aspas, é um hobby. Foi utilizado muito tempo pela Voice of America ou por a Rádio Vaticano para propagarem o sinal de rádio à volta do mundo.
Ou seja, aguardavam por essas condições ideais, sabendo mais ou menos qual era a altura do ano em que essas ondas se poderiam propagar até mais longe.
Exatamente. E quando não tínhamos satélites, nós conseguíamos fazer comunicações utilizando estes efeitos da ionosfera, o que é em si só uma arte. Porque é preciso saber quando é que se conseguem propagar, quais são as condições. Tipicamente de dia é muito mais eficiente do que à noite, porque de dia temos a ionização. Esse efeito de ionização acontece devido à radiação solar. Utilizava-se e ainda se utiliza hoje em dia para algumas coisas muito específicas este fenômeno, exatamente para transmitirmos a grandes distâncias.
Falava-me dessa propagação ionosférica. Eu há pouco falava da propagação troposférica, que foi algo que também com uma pequena pesquisa no Google se encontra. Qual é mais precisamente a diferença?
Sim, a propagação troposférica é mais vulgar em refrações, quando eu tenho frequências bastante mais elevadas do que nós estávamos aqui a falar. Tipicamente, quando eu tenho este processo de propagação que eu estava a dizer, eu diria que ela será mais devido à camada da atmosfera que está ionizada, neste caso específico. Mas se nós falarmos em refração troposférica, também podemos ter situações em que as distâncias podem ser bastante longas e acima dos 10 km. É sempre muito difícil, neste caso específico, explicar e tentar perceber exatamente naquele dia, ainda para mais pelo que eu percebi, foi às 21h30.
Às 21h30 do dia 12 de julho
Exatamente.
E a última vez que tinha acontecido, segundo este nosso ouvinte finlandês, encontrar outra rádio portuguesa nas ondas de FM, tinha sido há sete anos e um mês, portanto, em 12 de junho de 2013.
Claro. E por isso é que eu digo que neste cenário específico, eu diria que provavelmente foi propagação ionosférica, porque é instável. Acontece em alguns períodos do ano, encontra-se devido a algumas situações, quer de radiação solar, quer da parte mesmo do comportamento da atmosfera em si e das condições meteorológicas que nesse dia permitiu criar este canal de comunicação entre Portugal e a Finlândia. E portanto, explicar exactamente qual é que foi o destes fenómenos conhecidos, qual é o que se deu naquele dia, teria que se avaliar muitas outras condições, especialmente a componente meteorológica e do que se chama o space weather. Qual é que foi a explosão solar naquele dia, qual é que foi a radiação solar naquele dia e como é que isso contribuiu para este tipo de comunicação nesse mesmo dia.
Obrigado, Nuno Borges de Carvalho. Nuno é director do Departamento de Eletrónica, Telecomunicações e Informática da Universidade de Aveiro. Conosco nesta rubrica de ciência, depois deste finlandês, Jim Solati, ter ouvido a Rádio Observador em FM a mais de 4300 km de distância. Rui Ramos e João Miguel Tavares, que conduzem o programa, "E o Resto é História", o programa que foi ouvido nesse território finlandês, já deixaram uma mensagem para Jim e fazem até uma promessa.
Eu quero dar os parabéns ao Jim, porque ele está duplamente de parabéns, porque não só foi capaz de sintonizar a partir da Finlândia a Rádio Observador, como ainda por cima revelou o extraordinário bom gosto de ser quando estava a passar o resto da história.
O que obviamente não foi coincidência.
Não foi.
E por isso as nossas saudações ao Jim. Força, Jim. Admiramos muito a Finlândia.
E se calhar fica aqui prometido, eu estava a conversar com o Rui sobre isso, se calhar fica prometida uma pergunta propositada sobre a Finlândia. Vamos falar da Finlândia num dos próximos "E o Resto é História", devido a toda esta comovente dedicação.
Vamos falar da Finlândia, sim, senhor.
Essa é a promessa do historiador Rui Ramos e também de João Miguel Tavares, depois de serem ouvidos em terras finlandesas.
É com essa promessa que terminamos a nossa rubrica de hoje dedicada a este fenómeno da propagação de ondas de rádio feita à boleia de um e-mail deste ouvinte finlandês, Jim Solate, que ouviu a Rádio Observador em FM a mais de 4000 km de distância. Foi no passado dia 12 de julho. Esta conversa que vai ficar disponível em podcast nas plataformas habituais, também no site do Observador. Se a quiser partilhar com alguém, basta procurar pelo nome da rubrica de ciência da tarde em direto: E=mc². Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto