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De máxima. Um grupo de investigadores já tinha descoberto um oceano global no planeta anão Ceres. Mas estas semanas chegaram-nos também mais novidades. Depois de analisarem os dados recolhidos em 2018 por uma sonda da NASA, percebeu-se que parte desse oceano sobreviveu e que está por baixo da superfície. Isto quer dizer que o planeta anão Ceres pode ter um mundo oceânico no interior.

E é para falar sobre esse mundo oceânico que convidámos Pedro Machado, investigador do Instituto de Astrofísica da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Pedro Machado, muito boa tarde. O que significa esta descoberta?

Olá, boa tarde. É uma grande surpresa. Já havia indícios de que havia um pouco de vapor de água residual, nós chamamos uma exosfera, ou seja, algumas moléculas no estado gasoso, mas em perda contínua, perto da superfície, mas com base na análise dos dados da sonda espacial Dawn, da NASA. Agora nós temos novos dados, novos resultados, que apontam para a evidência que aquilo que se pensava antes, de que no passado teria havido eventualmente água líquida ou subterrânea em Ceres, afinal mantém-se. E isto é uma grande surpresa para nós. Houve uma catadupa de artigos publicados na prestigiada revista Nature, que saíram há cerca de dois dias e que é realmente um espanto para nós, porque nós não estávamos à espera que, como disse bem, Ceres, o planeta anão na cintura de asteroides, entre Marte e Júpiter, que tem à volta mais ou menos 500 km de diâmetro e tem aproximadamente a forma esférica face ao seu tamanho, afinal parece que tem um oceano no seu interior, que é um mundo oceânico, como bem disse, e que há evidências de haver criovulcanismo, ou seja, uma espécie de geysers, de injeções de água salgada, uma espécie de água do mar, com vários compostos como o cloreto de sódio, etc. E que é ejetada para o exterior. E há marcas, há evidências disto na superfície e também em termos espectroscópicos.

E Pedro Machado, o que isto implica exatamente? Eu estava aqui também a ler um pouquinho da entrevista que esta equipa de cientistas deu e que diziam que os depósitos de sal pareciam resultar de uma acumulação que dura há dois milhões de anos. O que isto implica em relação aos estudos futuros?

Isto, para já, quer dizer que, como estavam a dizer, e bem, que afinal Ceres também é um mundo oceânico, além dos que nós já conhecemos: Europa e Ganimedes, que são duas luas de Júpiter, e Encélado, que é uma lua de Saturno. E, inesperadamente, nós temos na cintura de asteroides entre Marte e Júpiter, Ceres, que é o maior asteroide que está na cintura de asteroides, é um mundo oceânico também e com atividade no seu interior e que, como referi, é bastante inesperado. Por que isso é tão relevante? Porque torna Ceres, neste momento, um alvo preferencial para o estudo em termos de astrobiologia, ou seja, da possibilidade de poder haver vida nessa água subterrânea que existe, este oceano subterrâneo que existe em Ceres.

E, portanto, daí todo este entusiasmo à volta de tudo isto, destas novidades e os próximos passos serão continuar, obviamente, a estudar tudo isto, Pedro.

Sem dúvida. É necessária uma missão para seguir os resultados que foram agora obtidos. Repare que estes dados não vêm de uma missão dedicada para fazer este estudo. Era um dos objetivos da missão Dawn, mas não era o objetivo fulcral. Portanto, isto quer dizer que, neste momento, impõe-se uma missão dedicada para estudar este oceano, este mundo oceânico em Ceres, que é sem dúvida algo que ainda vai fazer correr muita tinta e que nos vai espantar bastante, porque é realmente um resultado que, para nós, produz uma surpresa enorme. É inesperado.

Pedro Machado, já agora, e de que depende essa nova missão?

De que é que dependem? Para já, tem que haver vontade política para fazer esta missão.

Mas é uma missão que, pelos investigadores, obviamente, vale a pena.

Sem dúvida nenhuma. E eu subscrevo na íntegra, porque estes alvos da astrobiologia, mesmo não havendo vida, vai nos ajudar muito a compreender como é que evoluem e como é que podem aparecer as moléculas que nós chamamos de tijolos base da vida. E isto é muito relevante para contextualizar as gêneses da vida no universo e a nossa no planeta Terra, claro.

Pedro Machado, falaremos em breve, porque como dizia, tudo isto vai fazer ainda correr muita tinta e, portanto, vamos falar do assunto com certeza aqui no nosso espaço de ciência da Rádio Observador também. Em breve. O Pedro Machado é investigador do Instituto de Astrofísica da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Ajudou-nos aqui a perceber então esta novidade: os cientistas que localizaram água salgada abaixo da superfície de Ceres, o planeta anão. Obrigada, Pedro. Uma conversa que vai ficar disponível também em podcast daqui a instantes, nas plataformas habituais e em observador.pt. Se a quiser voltar a ouvir ou partilhar com alguém, basta procurar pelo nome da rubrica de ciência E=mc². Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.