Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Houston, we have a problem.

Um estudo norte-americano indica que a perda do olfato e do paladar após a infecção por Covid-19 pode durar até cinco meses. Esta conclusão foi obtida após inquérito a 800 pessoas que testaram positivo à Covid-19. Dessas 800 pessoas, 500 responderam que não recuperaram o olfato ou paladar cinco meses após a infecção por Covid-19, João.

E é o nosso convidado na rubrica de ciência de hoje, Vasco Ricoca Peixoto, é médico e também investigador da Escola Nacional de Saúde Pública, a quem agradeço desde já a disponibilidade. Vasco Ricoca Peixoto, por que os doentes perdem o olfato e também o paladar?

Antes de mais, agradecer esta iniciativa de discussão de ciência, porque há muita incerteza associada a estas questões e temos que ver isto, de facto, da molécula à sociedade. É bom percebermos que estas questões da fisiopatologia, das células, dos mecanismos da infecção são complexas, mas devem ser pensadas e devem ser reconhecidas. O que acontece? Também é uma área de incerteza, exatamente, os mecanismos, mas o que se percebeu inicialmente é que os neurônios olfativos, que estão em contato com a mucosa nasal que recebe as moléculas que nós cheiramos, digamos assim, não têm receptores para o vírus, aparentemente. E, portanto, as principais duas hipóteses que surgem a partir daí é que o vírus infeta a mucosa nasal, especialmente as células à volta dos neurônios olfativos. Portanto, se essas células morrem, deixa de haver suporte para os neurônios olfativos, em termos de eles sobreviverem, de terem os nutrientes que precisam, etc. E a partir daí pode haver morte desses neurônios por causa disso. Por outro lado, também sabemos que o vírus infeta neurônios, é capaz de infectar os vasos sanguíneos e é capaz de entrar para o espaço do sistema nervoso central, do cérebro, porque infeta também umas células que fazem uma barreira entre os vasos sanguíneos e o cérebro, precisamente para proteger o cérebro, que é um local de excelência, é um local muito importante do nosso organismo e, portanto, tem mais uma barreira extra à volta dos vasos sanguíneos para proteger a passagem de substâncias inflamatórias. A inflamação causa problemas no cérebro e potencialmente a longo prazo, e evitar a passagem também de toxinas e outras substâncias e outros patogênios para o cérebro. E o vírus consegue infectar estas células e pode infectar diretamente na zona do olfato o cérebro, ou pode causar a morte dos neurônios olfativos da mucosa. E quando isso acontece, é preciso que haja outros neurônios a substituir. E como imagina, às vezes, há células que ficam guardadas, que são as células basais, que têm menos receptores para o vírus e que permitem regenerar os neurônios olfativos. Mas quando eles regeneram, precisam depois de reenviar o cabo desde a mucosa até outra vez ao cérebro, por meio de uma placa óssea cheia de buraquinhos.

Portanto, não estamos a falar de perda definitiva do olfato e do paladar, ou isso também pode acontecer?

Isso também pode acontecer se houver a destruição das células que permitem essa regeneração dos neurônios olfativos e se houver uma lesão maior a nível do centro cerebral, digamos assim, do bulbo olfativo, onde esses estímulos nervosos são captados.

Portanto, dito de uma forma muito simplista, depende, e perdoe-me a expressão, do grau de destruição das células, é isso?

Exatamente. Mas, por outro lado, há aqui coisas um pouco estranhas, porque de facto outros vírus que afetam a mucosa nasal não têm tanta perda do olfato, embora seja sabido que também há muitos outros vírus que causam essas perdas do olfato transitórias, mas aqui na Covid parece ser algo mais relevante e leva-nos também para as questões associadas a potenciais outras vias de perda do olfato que tenham a ver com lesão do sistema nervoso central. E sabemos que há, especialmente na doença mais grave, mas também em doenças mais ligeiras, existe lesão ou pelo menos sinais de inflamação a nível cerebral. Ainda não se sabe muito bem quais são as implicações.

Ou seja, há uma perda do sentido do olfato e do paladar, não pela destruição das mucosas nasais, mas sim por uma destruição do aparelho nervoso central, é isso?

Pode acontecer também. Essas são as duas grandes hipóteses.

E essa, obviamente, é mais preocupante, não é?

Essa é a mais preocupante e de facto vem se ligar também com aquilo que estamos a ver, de que há um conjunto de sintomas neurológicos. Há uma componente da falta de ar que pode ser neurológica, da falta de ar a longo prazo que se mantém, da fadiga, da perda de atenção, alterações do sono. Há até algum tremor que já foi detectado em alguns estudos após a infecção. Enfim, há aqui várias coisas que podem sugerir que não é assim tão incomum haver uma afecção do sistema nervoso pelo vírus. E de facto, há muita incerteza à volta disto tudo. Esperamos que as consequências a longo prazo sejam em uma porcentagem pequena das pessoas. Mas a verdade é que, por exemplo, o Reino Unido tem já muito investimento dedicado ao acompanhamento das pessoas que ficam com sequelas da Covid. E estamos a falar de sequelas de relativamente curto prazo. Há outros tipos de riscos que nós sabemos, até com outras infecções virais, a cinco, 10 anos, podem aumentar o risco de outros problemas. Há várias coisas que nós não sabemos, e isso é importante, apesar de termos incerteza, é importante pelo menos pensarmos nisso dentro das nossas equações de decisão, porque a perda de anos de qualidade de vida Pelas consequências da infecção a longo prazo, pode eventualmente ser relevante ou até, num caso extremo, mais relevante do que os anos perdidos por mortes devido à infecção aguda.

E significa que é preciso esse acompanhamento logo depois da doença, ou seja, nas semanas e meses subsequentes. Vasco Ricoca Peixoto, deixe-me só perguntar-lhe uma coisa, não sei se fiquei completamente esclarecido. E pergunto se é normal casos de pessoas que são diagnosticadas com a Covid-19, têm vários sintomas, mas não têm, por exemplo, essa perda de olfato e paladar, e que são dados depois como curados e que possam mais tarde ter esse tipo de problemas? Ou seja, são efeitos que podem acontecer mais tarde, semanas mais tarde, já depois de testes negativos?

Exatamente. Isso tem sido verificado, essa parte nós sabemos. Um estudo relativamente grande, um dos maiores no Reino Unido, diz que pelo menos uma em cada 10 pessoas teve sintomas de longo prazo até depois de três meses. E à medida que o tempo vai passando no follow-up, no acompanhamento, estamos a perceber que algumas pessoas têm ainda durante mais tempo.

É uma doença que traz um retardador, é isso?

Exato. Acho que não podemos ignorar os relatos que já há de pessoas que têm, de facto, um sofrimento, sintomas de mais longo prazo, que são relevantes. Isso é uma das questões que nós temos que considerar.

Que ter em conta. Vasco Ricoca Peixoto, há dados sobre a perda do olfato e paladar entre doentes portugueses? Sabemos sobre esta realidade em Portugal?

Sobre a perda do olfato, nós temos esses sintomas registados numa plataforma que nós temos de acompanhamento, em que todos os utentes com Covid são acompanhados. Esses dados ainda não foram, do meu conhecimento, analisados ou ainda não foram partilhados. É a plataforma Trace Covid, e seria muito importante ter essa análise, até para tentarmos aproximar do verdadeiro espectro de sintomas porque há várias evidências a apontar que se nós continuarmos a testar só a tosse, a febre e a perda do olfato, há muitos outros sintomas de pessoas que vão ter Covid com outros sintomas, que vão passar ao lado. Constipações, outros tipos de combinações de sintomas, que vão passar ao lado. E já agora dizer também que nós temos potencial com essa plataforma para registar as complicações. Nós podíamos estar a registar já nos 700 mil casos que nós já tivemos em Portugal, podíamos já ter o registo dos efeitos a longo prazo que essas pessoas mantêm. E portanto, seria uma coisa a acrescentar nessa plataforma, que permite, por exemplo, aos médicos de família ou a qualquer médico que acompanhe um utente que possa ter manifestações que possam ser atribuídas à Covid após a doença, que possa ter esse registo. E eventualmente manter isso mais a longo prazo para podermos detetar também epidemiologicamente eventuais aumentos de risco a dois, três, cinco anos, relacionados com a infeção. Porque depois o que nós vamos fazer é perceber entre as pessoas infetadas com características semelhantes, com a mesma idade, as mesmas características, se passado cinco anos, as pessoas infetadas têm mais probabilidade de desenvolver certos tipos de doenças ou de problemas que as outras. Só que infelizmente, quando nós começarmos a fazer isto, já é tarde para prevenir infeções. E portanto, é uma decisão difícil que nós temos aqui, porque obviamente estamos a prevenir a infeção por vários motivos, mas este se calhar também deve ser um deles. E não só a questão, obviamente, que também é muito relevante das mortes, em primeiro lugar, da sobrecarga dos cuidados de saúde e dos impactos sociais que têm essas dificuldades de acesso aos cuidados de saúde.

Vasco Ricoca Peixoto, apelava ao seu poder de síntese para responder à última pergunta. Estes sintomas, portanto, a perda do olfato e do paladar, podem ser indício de outras consequências a médio e longo prazo da Covid-19?

Isso é mais uma coisa que ainda não se sabe bem. Repare, por exemplo, na área do Parkinson, houve alguns investigadores que referiram, muitas vezes um dos primeiros sintomas de Parkinson pode ser a perda do olfato ou pode ser um sintoma relevante. Também é uma zona que está relativamente próxima da zona que é afetada no Parkinson, no cérebro. E depois também há a evidência de que as pessoas com perda do olfato podem ter, por vários tipos de causas, maior probabilidade de depressão. Repare, o olfato não é uma coisa secundária. Acho que tem sido relativamente desvalorizado e felizmente na maior parte das pessoas há recuperação. Mas o olfato, para quem perde o olfato totalmente, é um sentido importante, até na nossa forma como nos relacionamos com as outras pessoas, etc. E na comida, a forma como comemos, etc.

É obviamente um grande transtorno.

Sim, há associações entre a perda do olfato e outras doenças.

Muito bem, Vasco Ricoca Peixoto, médico e investigador da Escola Nacional de Saúde Pública, agradeço-lhe ter estado connosco em direto aqui na tarde, em direto da Rádio Observador. Muito obrigado.

Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.