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E hoje falamos de novos medicamentos para a enxaqueca que prometem controlar a dor de forma mais eficiente. Mais de um milhão e meio de portugueses sofre com esse tipo de problema, que pode ser extremamente debilitante.

E para nos explicar como é que atuam, afinal, estes medicamentos, temos conosco Isabel Luzeiro, a presidente da Sociedade Portuguesa de Neurologia, a quem agradeço desde já a disponibilidade. Isabel Luzeiro, muito boa tarde. O mais recente estudo permitiu descobrir um agente responsável pelo desencadear ou intensificar de uma enxaqueca. Afinal, que agente é este?

Muito boa tarde. É o agente, nós designamo-lo por biomarcadora. No fundo, é um neuropeptídeo constituído por vários aminoácidos, e que ao ser libertado de um terminal e ao ser conectado a outro, digamos assim, dois terminais entre dois neurónios, ele é libertado e a partir do momento em que entra na membrana do outro terminal, vai despoletar uma série de reações que leva ao aparecimento de sintomas associados à enxaqueca. Esse neuropeptídeo chama-se CGRP.

E, portanto, foi a primeira vez que se detectou esta ação deste agente?

Não, o CGRP já é conhecido há vários anos, mas as pessoas não se interessaram a ponto de verificar se essa ação era fundamental.

Portanto, a partir desta ligação com a enxaqueca e a influência que tem na enxaqueca, é que é um dado novo?

É um dado novo. Sabia-se já que essa substância, se injectada numa pessoa, num animal, ia provocar uma dor que os cientistas chamavam de enxaqueca like, e que o CGRP está aumentado no sangue das pessoas com enxaqueca, nos intervalos. Mas os constantes estudos é que levaram agora à descoberta que administrando determinados fármacos que atuam contra essa substância, vão eliminar a enxaqueca.

Portanto, tem aqui uma atuação mais rápida, que é isso que toda a gente procura, não é?

Não é mais rápido. O que esses fármacos provocam é uma prevenção, portanto, a pessoa não chega a ter crises.

Não chega a ter dores?

Não chega a ter dores, porque aquilo é dado uma vez por mês, é uma injeção subcutânea, naquelas seringas preparadas à autoinjeção, e previne, a pessoa não tem dores. Cada mês leva outro, durante seis meses a um ano, mais ou menos.

E doutora Isabel Luzeiro, este tipo de medicamento pode ser usado por qualquer pessoa, para todos os tipos de enxaqueca? Como é que funciona exatamente?

É usado na enxaqueca que é bastante frequente, que tem crises bastante frequentes, mais de quatro por mês, ou naquela enxaqueca que nós chamamos de crônica, que é aquelas pessoas que dizem que têm dor de cabeça todos os dias.

E que é mais comum nas mulheres, doutora, ou não?

É bastante mais comum nas mulheres. Não se sabe exatamente por quê, não parece haver um fator genético determinante, mas há claramente um fator familiar.

Ou seja, pode ter aqui uma questão hereditária?

Uma questão hereditária, uma questão hormonal, porque as mulheres têm muita enxaqueca a partir da adolescência até à menopausa, e depois da menopausa deixam de ter crises. Portanto, há aqui um conjunto de fatores. O estresse, a tendência maior à depressão da mulher. Nós vemos que há um conjunto de fatores que vão determinar que seja a mulher bastante mais afetada que o homem, de facto.

Isabel Luzeiro, deixe-me perguntar de forma muito clara, enquanto presidente da Sociedade Portuguesa de Neurologia e acompanhando também há já vários anos estas matérias, esses medicamentos dos quais falamos e que deram também início a esta conversa, esses medicamentos para enxaqueca, são muito mais eficazes do que aquilo que já existia e também de fácil acesso para a generalidade da população?

Primeira parte. Não existia, não havia fármacos. Para a prevenção, havia uma substância que é o Botox, a toxina botulínica, que era administrada de três em três meses, 31 pontos no escalpe, com eficácia máxima em alguns doentes, em outros nem tanto, mas era o que havia. Este fármaco tem a novidade de ser uma administração mensal ou até trimestral, alguns deles são de administração trimestral. O que havia eram os triptanos, que é o sumatriptano, o zelmitriptano, um conjunto de fármacos que havia para a crise e que de facto também resolvem. As pessoas que têm menos crises podem fazer os triptanos. Qual é o problema dos triptanos? Quem tem problemas cardiovasculares não pode fazer, porque aquilo tem efeitos cardiovasculares, aumenta a tensão arterial. E a segunda questão, recorde-me, por favor.

Em relação se era de fácil acesso pela generalidade da população.

Pois, exatamente. Os triptanos, sim, a prescrição normal pelo Serviço Nacional de Saúde ou outro subsistema. No caso destes novos fármacos, chamam-se anticorpos monoclonais, genericamente chamamos de mabos, para já, por enquanto, só podem ser administrados e prescritos a nível hospitalar. Tem que ser a farmácia do hospital público ou particular a ceder a medicação, mediante uma justificação do médico a dizer que aquele doente tem critérios para fazer aquele fármaco.

Para usar esta medicação. Doutora Isabel Luzeiro, muito obrigada por ter estado conosco. É a presidente da Sociedade Portuguesa de Neurologia, ajudou-nos aqui a perceber também o uso, a eficácia destes novos medicamentos para a prevenção da enxaqueca. Rádio Observador. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.