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Bom dia, bem-vindos de regresso ao "E o Resto é Ciência". Eu sou o José Manuel Fernandes, comigo está o Miguel Miranda, académico, típico presidente do IPMA, geofísico. Hoje desafiaram-nos aqui a falar de borbulhas, de verdade. Vamos falar de águas termais, de spas e vamos tentar perceber qual era, porventura, o erro de algumas ficções, pelo menos da nossa juventude, minha e do Miguel, como por exemplo, "A Viagem ao Centro da Terra", do Júlio Verne, que começava naquela fratura do eixo do Atlântico, no caso dele, da Islândia, e de um outro livro também muito engraçado, posterior, mais recente, mas talvez não mais conhecido, que é "O Enigma de Atlântida", as aventuras do Edgar Pitt Jacobs. As aventuras do Blake e Mortimer, quero eu dizer. Neste caso concreto, vamos falar de spas e de termas, porque uma das coisas que está associada às termas é que a água não brota delas à mesma temperatura com que, por exemplo, brota de um rio e não brota sempre à mesma temperatura, pode brotar a temperaturas diferentes. O que é misterioso, mas ajuda-nos a perceber algo com que temos andado obcecados aqui há uns tempos, em vários programas anteriores, que é como é que fazemos algumas medições. Nós temos feito medições de distâncias, de alturas. Agora vamos tentar perceber medições de tempo, não é, Miguel?
Exatamente. Vamos começar pelo passado. Portugal tem várias termas conhecidas, espero eu, que muitos daqueles que nos estão a ouvir, e que foram, em parte, desenvolvidas pelos romanos quando chegaram à Península Ibérica. A história mais famosa será a que tem a ver com Chaves, que nós hoje chamamos Chaves, mas que, na verdade, foi chamada Aqua Flávia em 80 d.C, em honra do imperador Tito Vespasiano, porque quando a legião que ocupou o norte de Portugal nessa altura, chamada a sétima gémina, chegou a esta localidade, encontrou ressurgências de água quente, que se tornaram tão interessantes para eles que criaram umas termas medicinais, ou seja, umas termas para saúde, e construíram uma bela ponte que hoje existe.
Por regra, são o que as termas são. São para saúde, por regra.
Hoje em dia, porque por vezes usas a palavra termas para a ideia de bens públicos, que é um pouquinho diferente. Ou seja, não propriamente com efeito medicinal, mas com efeito higiênico.
As termas ainda lá estão. Como disseste, a ponte é muito bonita. As termas ficam perto dessa ponte e não muito longe das lojas que vendem os pastéis de Chaves, mas isso é outra história.
Exatamente. E menos boa para a dieta de ninguém.
Para a dieta, exatamente.
Mas é interessante saber que as termas só foram desenterradas, na verdade, nos anos 30 do século passado e só em 2006, quando se construiu um parque subterrâneo, é que foram conhecidas na sua grandiosidade. É terrível como é que nós precisamos construir um parque subterrâneo para descobrir o que eram as termas. Quer dizer, elas foram esquecidas ao longo de séculos. Contudo, também sabemos que em Roma são muitas as descobertas que se fizeram com as construções do metropolitano.
Quase todos os dias, e por outros motivos. Mesmo aqui em Lisboa, quando nós construímos a estação do Rossio, descobrimos imensas coisas que tinham a ver com aquela zona e com o período pré-terremoto.
Portanto, nós temos termas em Portugal, temos águas termais, ou seja, são águas que têm um conteúdo mineral que é particularmente interessante e rico e têm, muitas vezes, uma temperatura que é superior à temperatura ambiente. E temos isso na Beira Interior, temos isso na zona Norte, essencialmente ligado a fraturas da crosta. Já agora, em regiões onde também acontecem muitas vezes pequenos sismos, que se pergunta sempre: "Mas isto vai outra vez acontecer ou não?" Mas é preciso ver que a fraturação hidráulica é um dos processos típicos de formação de pequenos sismos.
Nós estamos perante precisamente aquilo que nós chamamos as falhas que geram os grandes sismos. Não estamos perante aquelas que, por exemplo, já falámos aqui já elas no programa, as que afetam mais Lisboa ou o Algarve.
São pequenos sismos, são fraturas que são normalmente até muito antigas do ponto de vista geológico, estamos a falar de centenas de milhões de anos, que são reativadas pela compressão interplaca de forma mais ou menos regular. Mas a Direção Geral de Saúde, que é quem toma conta destas águas termais, em 2014, no caso da Beira Interior, declarou que elas tinham utilidade para os sistemas endócrino, metabólico, circulatório, respiratório, digestivo, urinário, da pele, problemas reumáticos e musculoesqueléticos. Parece o Vasco Leitão.
Dá para tudo.
Parece o doutor Vasco Leitão do filme "A Canção de Lisboa".
Mas já agora, estamos a falar de uma região que tem, sobretudo, granitos. O granito é uma rocha ígnea, portanto não deriva da deposição de outros materiais, não deriva mesmo da transformação desses materiais.
Sabes como é que se formam os granitos?É bom que se saiba, porque os granitos têm essencialmente a ver com a reação com a água, com o papel da água. E os granitos são uma rocha crustal que é menos densa do que a média. Portanto, eles sobem por impulsão. Os granitos sobem na Terra por impulsão, tal como o sal.
Mas arrefecem mais lentamente, por exemplo, que os basaltos.
Claro, os basaltos não. Os basaltos são produzidos na crosta média. É uma rocha oceânica. Pode ser também uma rocha vulcânica. Tem a ver com o arrefecimento rápido, em princípio, do material magmático. Os granitos, não, eles sobem na crosta como cogumelos. Na verdade, o que nós vemos à superfície é a parte de cima do cogumelo, pois há de haver um pé. É interessante saber-se também que esta questão das águas termais foi muito importante na transição de século. E por isso é preciso conhecer o nome de uma pessoa que toda a gente conhece, mas se calhar não sabe o que ele fez, que é o senhor Charles Lapierre. Toda a gente conhece porque é o nome do Liceu Francês.
O Liceu Francês em Lisboa.
Que foi criado em 50 e poucos. Ele morreu em Lisboa também, no fim dos anos 40, mas foi um químico muito importante, de origem francesa, que estudou com o Pierre Curie, que veio para Portugal na década de 80 do século XIX.
O Pierre Curie, para quem não souber, é o marido da Marie Curie.
Exatamente.
E também nobilizado.
Também nobilizado com a descoberta do rádio. É que tudo isto tem uma relação.
Nós já vamos ao rádio, mas daqui a pouquinho.
Exatamente. Tudo isto tem uma relação. E o Charles Lapierre faz a primeira análise das águas minerais em Portugal, em 1893, da água do Limeiro, e o rei Dom Carlos publica, então, uma classificação da água do Limeiro como água minero-medicinal. E se ouvirem bem a publicidade de muitas águas minerais, esta questão do nome Charles Lapierre e o nome minero-medicinal aparece com alguma frequência. E faz parte até dos logotipos de algumas das águas que se vendem em Portugal.
E nós temos bastantes águas e quando falámos há pouco, podemos distingui-las em águas quentes e frias, digamos assim. Umas que dão até banhos quentes e outras que, enfim, como a água aqui do oceano. Portanto, não é particularmente quente.
Exato, não é particularmente quente. Na verdade, existem águas com níveis diferentes de temperatura. Isto em Física às vezes diz-se mais entalpia, mas é digamos níveis diferentes de temperatura. E uma das questões que se levantou logo de início é como é que estas águas apareciam. Se eram águas que vinham de lençóis profundos e depois chegavam à superfície por uma razão qualquer, tipo artesianismo, ou se era água de precipitação que era reciclada na Terra. Já agora, o trabalho do Charles Lapierre, que depois esteve no Técnico cerca de 27 anos e que dirigiu o laboratório que ainda hoje tem o seu nome, foi depois seguido pelo Luís Aires de Barros, que penso que ainda é presidente da Sociedade Portuguesa de Geografia, e que continuou também este estudo, na altura usando também métodos mais modernos, do qual falaremos daqui a pouco, para detetar qual era a origem da água de precipitação e, portanto, chegando-se à conclusão que na maioria dos casos, que a água que precipita, desce na crosta alguma distância, alguns quilômetros, e depois volta à superfície de novo, aquecida e mineralizada por interação com a rocha.
Pois, mas não falta sempre à mesma temperatura, porque nós temos águas, como diz, as frias são abaixo de 25 graus. As quentes são acima de 25 graus, mas nós podemos ter águas que chegam a mais de 50 graus. Portanto, com temperaturas superiores a 50 graus, por exemplo, as de Chaves são das mais quentes. As de Chaves têm 76 graus.
O que quero, no essencial, dizer é que elas vão mais fundo aquecer. Repare que no fim do século XIX já havia muitas minas profundas, em particular na África do Sul. E essas minas, para quem já desceu uma mina, sabe que a temperatura aumenta com a profundidade.
Que é uma coisa que pode parecer estranha. Por que a temperatura aumentar com a profundidade? Nós diríamos que quando subimos a uma montanha, sabemos que a temperatura vai diminuindo. Mas aí atribuímos ao vento, atribuímos às condições climatéricas. Agora, entrar pela terra adentro e aquilo estar mais quente do que frio.
E está significativamente mais quente. É preciso ver, estamos a falar de três graus para cada 100 metros. Para terem uma ideia, uma mina como a Neves Corvo pode ter galerias a centenas de metros de profundidade. Portanto, estamos a falar de dezenas de graus de temperatura adicional. E então, se falares de minas da África do Sul, ainda são mais profundas. Estamos a falar de um grande problema, que é a circulação do ar e o arrefecimento nessas profundidades.
Sim, porque estamos a falar, de repente, um quilômetro de profundidade, estamos a falar de 30 graus.
30 graus por quilômetro.
30 graus é muito, não é?
30 graus é tanto que é uma das limitações da exploração mineral profunda. Agora, esse valor é certo? Esse valor verifica-se sempre o mesmo valor em todo lado? Não.
Há uma coisa curiosa, já agora, se me regressar àquele livro da nossa juventude, julgo que também leste, "Viagem ao Centro da Terra".
Claro.
Era quase impossível deixar de ler quando se era adolescente. "A Viagem ao Centro da Terra". O Júlio Verne tinha uma criatividade que era, ele fazia ficção científica, ele não desconhecia a ciência. Portanto, ele tinha uma noção do que era a ciência. E uma das coisas que acontece naquela descida, que é feita na Islândia, eles entram para um vulcão que está extinto há muito tempo, é que um dos aventureiros vai dizendo: "Mas isto devia estar a aquecer e não aquece." Evidentemente, depois aquilo se aquecesse, não dava direito à ficção, que é descobrir um mundo diferente lá embaixo, um lago, animais pré-históricos. Enfim, não seria possível se acontecesse o que a ciência previa que ia acontecer e que já se sabia na altura.
Já se sabia que a temperatura aumentava.
Não se sabia por quê, ainda.
Não se sabia.
Ou melhor, não se sabia exatamente por quê.
Não se sabia exatamente por quê.É preciso compreender-se que, como nós já falámos aqui também, todos os corpos emitem energias, uma forma de radiação. Arrefecem, difundem energia. E, portanto, a Terra, ao ter tido o seu nascimento e desde que se formou, tem estado sempre a perder energia para o espaço exterior.
Portanto, no fundo, a perder calor.
A perder calor. Uma parte sob a forma de calor, outra parte sob a forma que pode ser de radiação não térmica. Mas a grande questão que se levanta aqui é assim: se nós formos a uma região como a zona norte de Lisboa, que é um maciço calcário, ou formos para uma região como os granitos de Chaves ou da Beira Interior, a temperatura aumenta com a profundidade sempre da mesma maneira? E a resposta é não. O fluxo de calor da Terra, ou seja, a quantidade de energia sob a forma de calor que é emitida pela Terra, varia também com a formação geológica em que nós nos encontramos.
E por quê?
Porque tem a ver muito com duas coisas: tem a ver com a condutividade do material e tem a ver com a existência, dentro da formação geológica, de fontes de calor adicionais.
Esse é um dos aspetos mais interessantes, porque quando nós falamos de fontes de calor adicionais, nós não temos propriamente caldeiras. Mas temos algo que também gera energia.
Na verdade, nós já vimos que os granitos têm aqui um papel essencial, porque eles são levemente radioativos.
Isso parece uma coisa um pouquinho explosiva.
Nós já vivemos melhor com a radioatividade. A radioatividade é muito importante e, aliás, haver alguma radioatividade na superfície da Terra, provavelmente tenha também o seu papel até na evolução das espécies.
Sim, porque sem radiações, nós não teríamos mutações.
Exatamente. Portanto, nós precisamos sempre dessa energia.
Também teríamos erros de transcrição, mas basicamente as mutações são geradas pela radiação.
Mas a grande questão começou exatamente no fim do século XIX, quando se começou a querer saber a idade da Terra.
Lá voltamos nós às medições.
Voltamos nós às medições. Havia vários grandes problemas. É que o Darwin tinha publicado "A Origem das Espécies" e exigia a ideia de que havia seleção natural e que a seleção natural exigia períodos temporais elevados para que os melhores sobrevivessem e os piores desaparecessem. Isso não se verifica, infelizmente, em todas as áreas, mas talvez fosse interessante. E, por outro lado, os físicos, em particular Thompson, sabiam já quanto é que a temperatura aumentava com a profundidade e portanto, podiam imaginar em que estado do arrefecimento a Terra tinha que estar para que estivesse a emitir esta quantidade de calor. Isso não era muito complicado, por estranho que pareça, porque a ideia, que é digamos, já bastante antiga e que se tem confirmado pela astrofísica moderna, é que todo o sistema solar nasceu exatamente da mesma forma. E, portanto, que a temperatura da Terra no seu início não há de ser muito diferente da temperatura do Sol.
Mas isso é uma coisa bastante desafiante. Vamos a ela na segunda parte do programa. Agora interrompemos por uns minutos. Estamos de volta ao "E o Resto é Ciência", segunda parte. Estamos aqui a falar de águas termais, temperatura das águas termais, cálculo da idade da Terra. Estavas a falar de William Thompson, o físico inglês que começou a pensar neste problema, e a dizer que, em princípio, todos os corpos do sistema solar teriam começado-
Começaram em fusão.
A fusão tinha que ser obrigatoriamente idêntica à temperatura do Sol.
Naquela altura, não havia os conhecimentos de astrofísica que existem hoje. Naquela altura, a ideia é que tínhamos um corpo em fusão e o corpo estava a arrefecer. E quando um corpo arrefece, a taxa a que arrefece não é sempre a mesma. Isto é como uma sopa. Nós temos uma sopa em casa, em cima, que é feita, vamos lá ver, com boa vontade e a 50 °C, mais também não é. E está num ambiente que, se tivermos sorte, ou seja, se a casa não for muito mal construída, terá uns 20 °C. Mas a atmosfera é muito grande, o ar é muito grande e, portanto, a sopa vai arrefecer até ter a temperatura do ar. Mas ela arrefece primeiro mais rapidamente e depois mais devagar. Isso significa que eu tenho ali um relógio. E é esse relógio que o William Thompson vai utilizar e dizer: "Se eu tenho, neste momento, uma variação da temperatura com a profundidade de 30 °C por quilômetro, há quantos milhões é que isto começou a arrefecer?" E a ideia dele: "Olha, entre 20 e 40, e deve estar mais perto dos 20 que dos 40." Claro que isto pôs os cabelos no ar à comunidade que seguia o Darwin, dizendo: "É impossível."
Não dá para termos as espécies que temos só em 40 milhões de anos. E não dá, de fato.
E então, sucederam-se as tentativas para ver como é que nós podemos saber a idade da Terra de uma forma diferente. O que é engraçado é que uma das tentativas que existiu para determinar independentemente a idade da Terra teve a ver com o mar ser salgado, que nós também já falámos aqui. E com a tentativa de saber quanta erosão de sais minerais do continente é que devia ter existido pra chegarmos ao valor atual de 30 e poucos miligramas por litro de sal no mar. E a conclusão chegada estava entre 80 e 100 milhões, feita por John Joly praticamente já na mudança de séculoDizendo: "Este valor é muito mais alto que o Thomson". Que, como se sabe, depois foi designado por Lord Kelvin, em honra ao grande trabalho que ele fez na física, e ao Kelvin, que hoje é a medida da temperatura.
Temperatura absoluta.
É o que nós chamamos Celsius, mas é Kelvins. E na altura ele diz: "Não, temos aqui um valor que é bem mais elevado". Os geólogos também não estavam satisfeitos.
Portanto, o valor de que falavam Saint-Jolys era quanto?
Em 18100.
1100. Portanto, já era mais do dobro.
Para os geólogos era mais aceitável, mas os geólogos olhavam para as formações, para a forma como elas evoluíam no tempo e diziam: "Estamos a falar de pouco tempo para a evolução". Lyell, que é um dos grandes geólogos do fim do século XIX, princípio do século XX, diz: "Não é realista".
Para cavar um canyon como o Grande Canyon nos Estados Unidos, não dava.
Não dava.
Não dava.
E o que é interessante é que nós estamos no princípio do século XX. No princípio do século XX temos Becquerel e depois os dois Curies, que descobriram o rádio, e disseram: "Não, mas há aqui um problema. Nós temos aqui um fenômeno físico que ocorre espontaneamente e que tem a ver com a radioatividade, que também é um produtor de calor." E nessa altura chega-se à conclusão: "Atenção, que o que estamos a medir à superfície não é apenas o arrefecimento da Terra, é também o papel destes elementos que existem nas rochas."
No fundo, o que estamos a dizer é que a energia que permite, na sua face explosiva, fabricar uma bomba atômica, na sua fase domesticada, aquecer água para fazer funcionar turbinas nas centrais nucleares. É o mesmo princípio. No fundo, a energia nuclear faz carvão, ou gás, ou petróleo para aquecer água, é o que acontece numa central nuclear. Mas nós temos de saber é que essa energia tão dispersa conseguir criar o suficiente para manter o calor.
Hoje em dia sabemos perfeitamente que o que acontece, no essencial, é que os granitos têm quantidades significativas de potássio, urânio e tório, nos seus isótopos radioativos, que permitem funcionar como uma espécie de fonte adicional de calor.
Mas não é tão adicional assim. Pode representar uma parte muito grande.
Pode representar uma parte muito significativa. E é importante perceber-se que Rutherford, que é também um grande físico do princípio do século XX, diz numa conferência organizada em 1904 que Lord Kelvin limitou a idade da Terra desde que não fosse descoberta nova fonte de calor. Ora, essa declaração foi profética e referia-se ao que estamos a apresentar esta noite na academia, e que é o rádio. O que é interessante é que temos aqui uma situação em que isto é mesmo a vitória do método científico, mesmo nas asneiras, porque a questão está que nós temos uma forma de ver a idade da Terra, essa forma é cientificamente clara, é a difusão de calor, é conhecida, as leis da difusão de calor são razoavelmente conhecidas.
Podemos fazer contas.
É só fazer contas. Até se pode reproduzir em laboratório, mas tinha algumas considerações ab initio, e essas considerações é que era apenas o arrefecimento de um corpo quente que estávamos a falar. Era apenas a sopa. Não estava a contar que nós, dentro da sopa, temos ali alguns vegetais que são também capazes de produzir algum calor.
Vegetais ou um aquecedor qualquer. Mas enfim, nós estamos precisamente com isso, e estás a falar aqui de uma coisa que faz-nos voltar outra vez a Portugal e ao interior, que é: as rochas, como o granito, têm mais propensão para serem radioativas do que outras.
Claro.
Eu recordo-me, por exemplo, que numa das primeiras vezes que viajei pelo interior do país, fui a, na altura, uma aldeia ainda pouco conhecida, hoje em dia faz parte de todos os roteiros, que é Sortelha. Sortelha fica ali no concelho de Sabugal, não muito longe da Covilhã, nessa zona. É uma aldeia dentro de um castelo, muito bonito, mas quando se viaja para sul de Sortelha, a certa altura encontra-se uma coisa muito misteriosa, que é um edifício gigantesco, em granito, mas que está abandonado, que são as termas, umas termas que ali existiram e que foram construídas por um conde espanhol, porque tinha sido descoberta ali uma água que se pensava que fazia muito bem, que era uma água radioativa, que aliás chegou a ser comercializada, há anúncios de jornais a dizer: "Compre a água radioativa, faz muito bem à saúde."
Porque um dos produtos de decaimento do tal potássio, urânio e tório é o radão, que é um gás radioativo, que é muito mobilizável pela água e, portanto, a circulação da água até devida, por exemplo, à precipitação, leva a que esse gás seja libertado e, portanto, a água dita radioativa, ou seja, que tinha quantidades de radão significativas, era na altura considerada apetecível, porque ela tinha um efeito que era considerado ser medicinal. Sabemos que os efeitos medicinais têm dificuldade de ter alguma quantificação objetiva e que muitas vezes estão mais na nossa cabeça do que na química.
Mas mesmo assim, à conta do decaimento radioativo e das leis da física, nós conseguimos calcular outra idade que tem muito pouco a ver com esses 100 milhões de anos.
Exatamente. O que é interessante é que quando se desenvolve, durante o século XX, o conhecimento da radioatividade, consegue-se começar a estabelecer as famílias de decaimento dos vários elementos radioativos até ao chumboE esse decaimento, ou seja, a taxa temporal com que se dá a transformação de um elemento noutro e a emissão ou de radiação gama, ou de radiação alfa, depende dos casos, ou beta, que estamos a falar, funciona também como um relógio. Claro que nós estamos a falar essencialmente de potássio-árgon. Agora são pares que se vão procurar quimicamente identificar para saber quanto tempo já passou desde que a rocha se formou. Toda a gente já ouviu falar do carbono 14, que é aquele que é utilizado para as coisas mais recentes.
O carbono 14 é sobretudo usado para coisas orgânicas. O carbono faz parte da nossa arquitetura.
Quem já viu os dados, por exemplo, das idades das rochas dos Açores, já ouviu falar do árgon 40, árgon 39, já ouviu falar do potássio-árgon para coisas um bocado mais velhas. Existem vários. E quando estamos a falar da idade da Terra, então são pares ainda mais lentos no seu decaimento. A ideia é que nós temos um elemento que é radioativo, somos capazes de identificar qual seria a sua percentagem inicial, sabemos qual é a percentagem atual e a partir daí pode-se determinar de uma forma muito objetiva qual é a idade da Terra. E foi assim que se chegou ao tal número mágico de 4,6 mil milhões de anos. Repara que agora é tudo mil milhões, tudo que não é mil milhões não presta. Nisso a geologia antecipou-se. Nós aqui há uns anos, uma dívida de milhões era horrível. Agora, uma dívida que não é de milhares de milhões não tem sentido nenhum. A idade da Terra é a mesma coisa.
E se for passar para os Estados Unidos, já são milhões de milhões.
Exatamente.
É melhor não falarmos nisso. Trilionões.
Também o Thompson começou com alguns milhões, isto tinha que acabar em milhares de milhões, porque é aquilo que é um bocado mais realista.
Mas voltando a Chaves. Como é que nós, no caso de Chaves, podemos ter uma noção de onde é que está o reservatório só pela temperatura da água?
Exatamente, porque se nós sabemos que estamos a falar de 30 graus por quilômetro, se temos uma água que arrefece também um pouco na subida, atenção, mas não tão devagar como a Terra, então nós temos que ter um depósito a qualquer coisa como três quilômetros de profundidade, um reservatório.
De Chaves.
De Chaves. Claro que nas outras regiões em que a temperatura é mais baixa, os reservatórios são mais pequenos ou mais superficiais e, portanto, não há nesta circulação tanto aquecimento. Repare, quando a gente pensa em circulação, não pensem em geotermia dos Açores. Pensem mais numa situação em que a água precipita, infiltra-se, dá uma viagem significativa no subsolo, atinge uma situação em que tem rocha muito fraturada e em que ela pode permanecer algum tempo nesse reservatório e depois sai por um processo natural.
Nós estamos a falar de exatamente aquilo que nós encontramos, por exemplo, precisamente como tu disseste, nos Açores, nas Furnas, em que podemos andar numa rua e termos água a várias temperaturas a sair de fontes diferentes.
Mas aí temos vulcões. Aí temos vulcões, é um bocado diferente. Agora, é também interessante perceber se nós, na verdade, para além da radioatividade, ainda estamos a viver do arrefecimento da Terra. E a questão que se pode levantar é: "Sim, mas isto dura eternamente? Nós vamos estar quanto tempo a arrefecer desta maneira?" E, na verdade, nós hoje, que sabemos não só a gradiente da temperatura, mas também sabemos qual é a condutividade de cada elemento da litosfera, nós podemos fazer outra conta. Quanto é que a Terra já arrefeceu? E nós, na verdade, chegaremos à conclusão que só estamos a receber o calor ainda dos primeiros 600, 700 quilômetros da Terra, daí para baixo ainda nada chegou cá, porque a Terra é muito pouco condutora.
Exatamente.
Muito pouco condutora. Felizmente.
É isolante.
Exato, ela é muito isolante, o que significa que o calor primitivo, quando chegamos ao núcleo da Terra, nós ainda teremos uma temperatura similar àquela que teria no início da formação do planeta.
E essa formação do planeta terá resultado, o que se estima hoje, terá resultado do choque de vários corpos celestes e de uma enorme explosão?
Em princípio, o que se sabe, no essencial, o modelo é razoavelmente consensual, é começar por ter uma massa única a espiralar no espaço exterior, que formou um corpo central que é o Sol, e depois formou todos os planetas também da mesma forma. E tudo isto é a mesma massa primitiva. Claro que à medida que tu te afastas do centro, a composição química varia. Nós temos planetas gasosos lá mais para longe e planetas terrestres, ou seja, telúricos, cá mais para o centro. Mas à partida, todos temos, no essencial, a mesma idade. E por que nós dizemos isto com tanta certeza? Primeiro, porque nós somos capazes de ver, no caso do Sol, a temperatura a partir da radiação. E segundo, por causa dos meteoritos, porque existem esses testemunhos do sistema solar primitivo, que de vez em quando caem em cima da cabeça de algum passante. E nós somos capazes de ver aqueles meteoritos cuja composição química estará mais perto da composição primitiva do sistema, ou seja, estão menos diferenciados, e a idade deles também corresponde a este valor. E quando vemos a Lua, como falámos, quando estudamos as rochas da Lua, as mais antigas também têm este valor. E se perguntarmos onde é que estão as rochas mais antigas da Terra. Olha, uma boa parte está nos sedimentos, porque elas já foram rochas duras, já foram erodidas e na verdade, hoje em dia estão guardadas nos sedimentos para análises futuras.
Quando dizes guardadas nos sedimentos, no fundo quer dizer, foram arrancadas de rochas primitivas, transportadas e novamente depositadas no mar ou em bacias.
Normalmente no mar. Mas têm pequenos núcleos que nós hoje ainda podemos analisar. E o que começou por ser um erro de apreciação, veio-se a verificar que tinha justificação ser erro, acabou por haver o método que permite realmente calcular a idade, e nós hoje, quando vamos a umas termas, já podemos ter a ideia de que de certa forma estamos ainda no quentinho do arrefecimento da Terra.
Sim, mas quando olhamos para a Terra, estamos a falar de um valor de cerca de 6 mil graus no seu núcleo. E quase nada arrefeceu, estará a 6 mil graus, quase desde o princípio.
Quase desde o princípio. E não é uma temperatura assim tão má, se reparares bem, é a temperatura dos LEDs que tu costumas comprar quando queres luz branca em casa.
E há relação entre isso?
Claro que há. Podíamos um dia falar disso. A Lei de Stefan.
É que os LEDs têm a mesma temperatura do centro da Terra.
Exatamente.
Os microLEDs têm a mesma temperatura do centro da Terra, que é de facto mais um desafio que fica para um outro programa. Nós despedimo-nos hoje, mais este e o resto é ciência. Reencontramo-nos dentro de uma semana.