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E o resto é história.

É a pera escorada. 204 ainda na zona dos Chiados. Quer transformar este país numa ditadura. Não, não.

Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, sejam bem-vindos ao episódio número 81 de "E o Resto é História", com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Na madrugada do dia 22 de janeiro de 1961, fez agora 60 anos, um comando composto por 23 portugueses e espanhóis, liderado pelo capitão Henrique Galvão, tomou de assalto o paquete Santa Maria, que ia a caminho de Miami com mais de 600 passageiros, entre os quais muitos americanos, naquele que foi um dos mais aparatosos atos de resistência à ditadura de Salazar e de Franco, e um dos maiores embaraços internacionais do Estado Novo. Da chamada Operação Dulcineia, resultou um morto entre os tripulantes do Santa Maria e o navio seria libertado apenas em fevereiro, após fundear junto à costa brasileira e ter sido pedido e concedido asilo político a Henrique Galvão. Este, por sua vez, continuaria a conspirar no exílio até morrer em São Paulo, no Brasil, nove anos depois, aos 75 anos. Rui, a minha pergunta sobre este caso não é uma, mas são duas. Em primeiro lugar, gostaria que nos falasses do episódio em si, do seu impacto em Portugal e no mundo. Para os resistentes à ditadura, a Operação Dulcineia foi um grande golpe publicitário, mas em certo sentido, e tu explicarás isso, ela também foi um fracasso operacional, já que o objetivo megalômane de Galvão era dirigir-se à África e promover a insurreição nas colônias portuguesas. Mas em segundo lugar, gostaria também que nos falasses do próprio Henrique Galvão, que é uma das personagens mais fascinantes do século XX português, não só pelas suas atividades políticas, mas também pelos seus interesses intelectuais e pelos seus livros. Conte-nos tudo acerca disso.

Tudo não será possível contar, mas vamos falar de algumas coisas. E aquilo que eu iria dizer é, de facto, o episódio do Santa Maria teve um grande impacto noticioso internacional em 1961, mas não deu origem a nada. Isto é, o barco acabou por voltar a Lisboa, o regime, a ditadura salazarista continuou, pra não falar da ditadura de Franco em Espanha. E sim, é verdade, começou a guerra em Angola uns meses depois, mas as colônias continuaram portuguesas durante mais 13 anos, até 1974. Portanto, quando colocamos o episódio Santa Maria neste quadro, não vemos muita coisa a mudar, mas houve ali, de facto, uma operação espetacular. A Operação Santa Maria, a tomada do paquete na noite de 21 pra 22 de janeiro de 1961, é o resultado de duas coisas. A primeira coisa, e talvez a mais importante, é a chegada de nova gente à oposição contra Salazar. Até aí, a oposição, até ao fim dos anos 50, princípio dos anos 60, a oposição contra a ditadura salazarista assenta, sobretudo, em velhos republicanos, portanto, em gente ligada à Primeira República antes de 1926.

O pessoal do Reviralho.

Sim, a gente do Reviralho, aquela gente que tinha sido ministros, tinha sido membros dos partidos republicanos e que não se tinham reconciliado nunca com o regime. E depois umas gerações de jovens estudantes esquerdistas e até mesmo comunistas do pós-guerra. Por volta de 1945. Alguns deles, aliás, filhos dos republicanos, mas que agora aparecem como comunistas. Por exemplo, Álvaro Cunhal, Mário Soares, são figuras dessas. Filhos de antigos republicanos, mas que já não se definem como apenas republicanos, mas como comunistas, e também estão na luta contra o salazarismo. Portanto, esta era a base da luta contra o salazarismo em Portugal. E neste fim dos anos 50.

Ou seja, aquilo que tu vais dizer é que esta nova gente, que tu dizes na oposição ao regime, não é propriamente nova no sentido de idade.

Não, mas é nova gente na oposição, isto é, gente que chega à oposição.

Certo. Mas já com uma certa idade, digo eu.

Sim. São figuras como Humberto Delgado, o general Humberto Delgado, depois da campanha que fez como candidato presidencial em 1958, e o caso do capitão Henrique Galvão. Eles são homens que vêm do salazarismo. É verdade, tinham sido figuras controversas e polêmicas dentro do regime, mas que tinham sido protegidos por Salazar, ao contrário do que é costume dizer. Salazar gostava desse tipo de pessoa, deste homem da ação, desassombrado, irreverente. Eles eram muito úteis para fazer avançar certos projetos, certas coisas contra as rotinas, contra as burocracias. Era este o tipo do Humberto Delgado e do Henrique Galvão. Eles tinham sido tenentes de Maio, isto é, tinham sido aqueles jovens oficiais do exército que tinham feito o 28 de maio em 1926 e que tinham resistido às tentativas do Reviralho para voltar ao poder em 1927. Portanto, era uma espécie de capitães de Abril do salazarismo. Tinham estado nesse princípio. Tinham fama de corajosos O Humberto Delgado chegou a ser ferido, tinham participado mesmo em combates e tinham tido funções importantes no regime salazarista. O Humberto Delgado tinha estado associado ao desenvolvimento da Força Aérea e tinha sido diretor-geral da Aeronáutica. E o Henrique Galvão tinha tido uma carreira muito grande, quer ligada ao governo, quer ligada às grandes iniciativas do Estado Novo, tinha sido chefe de gabinete do ministro das colônias em 1931, tinha sido inspetor superior da administração colonial, deputado, tinha sido ele a organizar as primeiras exposições coloniais nos anos 30, tinha sido o presidente da administração da Emissora Nacional, grande homem da rádio no fim dos anos 30, princípio dos anos 40. E é só no fim dos anos 40, que ele, como deputado, começa a criticar a administração colonial. E a partir daí, afasta-se do regime e em 1951 apoia um candidato presidencial da oposição. E logo em seguida, em 1952, é preso e acusado de estar a conspirar ou organizar uma conspiração militar contra o regime, que até então tinha sido uma das figuras públicas mais conhecidas. Aliás, começam aí as histórias mais ou menos rocambolescas e curiosas, que fazem depois a lenda do Henrique Galvão. A PIDE consegue lhe apanhar os planos do golpe militar e ele em tribunal diz, com todo o desplante, como conta Mário Soares nas suas memórias, que esses planos do golpe militar eram apenas uns apontamentos para uma peça de teatro que ele estava a escrever. Portanto, ele diz isto.

Desculpa, esses interesses intelectuais dele existiam realmente?

Sim, ele é um escritor, autor de imensos romances, peças de teatro, traduz também muitas peças de teatro.

Com obras fundamentais sobre África, não é?

Sim, uma grande literatura de africanista, mas eu ia dizer é que ele mesmo na prisão, porque ele está preso a partir de 1958, e mesmo na prisão continua a escrever e continua a fazer propaganda contra o Estado Novo, de tal modo que na prisão, isto é, sem sair da prisão, é julgado outra vez, porque tinha conseguido distribuir um jornal clandestino a partir da penitenciária de Lisboa. Portanto, ele na prisão é julgado outra vez e condenado a uma pena então aí muito pesada, que é uma pena que não é costume, aliás, no Estado Novo. O Estado Novo usava-se tudo penas pequenas, dois, três anos, que era, por exemplo, a primeira pena de prisão que ele teve, e depois às vezes era prorrogada a situação prisional da pessoa. Isto é, a pessoa era mantida na prisão através de medidas de segurança. Isto é, dizia-se que já tinha cumprido a pena, mas era uma pessoa perigosa e ficava mais um tempo na prisão. Mas o Henrique Galvão foi mesmo condenado outra vez por causa dessa propaganda que estava a fazer a partir da prisão e é condenado a uma pena enorme, mais de 16 anos de prisão. E aqui havia quase uma espécie de punir especialmente alguém que tinha sido um dos grandes salazaristas e um dos grandes combatentes do salazarismo, e que do ponto de vista do salazarismo tinha se revelado um traidor, e um traidor, para os salazaristas-

Perigoso.

Irrenitente, quer dizer, e que não desistia. Tudo isto é uma história de aventuras. Ele consegue fugir da prisão, aliás, do Hospital de Santa Maria, onde estava a ser tratado, mas como preso, consegue fugir em janeiro de 1959 e depois refugia-se na embaixada da Argentina e é daí que vai para a América Latina. Mas portanto, é este aventureiro que tem um papel importante, por exemplo, na persuasão, pelo menos da campanha de Humberto Delgado em 1958. Ele conversa com Delgado e é uma das pessoas que terá convencido Delgado a avançar e terá também convencido uma parte da oposição a apoiar Delgado. Ora, o que acontece quando Henrique Galvão e Humberto Delgado chegam à oposição em 1958, 59, 60? Esses homens vão agitar o barco da oposição, porque eles não vêm para a chamada, como dizia o Humberto Delgado, guerra dos papéis. Isto é, não vêm assinar manifestos contra o Estado Novo. Não, eles são homens de ação e querem dar um golpe contra o regime.

Esperando aproveitar as suas próprias divisões internas.

Exato. Mais, eles conhecem o regime melhor, obviamente, do que os homens da oposição, que estiveram lá dentro. Conhecem as divisões que há dentro do regime, entre personalidades, entre correntes de opinião, e calculam que podem usar essas divisões para conseguir que o regime não consiga resistir a um golpe iniciado por eles, uma insurreição ou uma coisa qualquer desse gênero. Portanto, este é um dos fatores deste episódio do Santa Maria. Estes novos opositores, Henrique Galvão, Humberto Delgado, estes ex-salazaristas que vêm decididos a derrubar o regime de Salazar, com quem se compatibilizaram, que acham que já não serve ao país, querem agora um regime novo. Além disso, há um outro novo fator, que é uma nova situação internacional. Há, sobretudo, um novo governo americano, que é o governo de John Kennedy, do presidente Kennedy, que foi eleito em 1960, que vai tomar posse no princípio de 1961 e que basicamente tira a Portugal uma parte da proteção que Portugal tinha tido até então, sobretudo em relação ao problema colonial. Isto é, os Estados Unidos, e sobretudo Kennedy, vêm muito decididos até a resistir à União Soviética, ao comunismo, mas acham que ditaduras como a de Salazar, não são a melhor maneira de resistir ao comunismo e muito menos regimes coloniais como os portugueses tinham em África. Salazar não era o general Franco, não tinha tido holofotes internacionais apontados pro regime, portanto, era uma ditadura discreta em termos internacionais e agora vai sentir-se, de repente, sob uma nova pressão americana, que deixa no regime muita gente nervosa, sobretudo militares. Portugal estava integrado na NATO desde 1949 e muito das Forças Armadas portuguesas dependiam agora do apoio da NATO. Muitos militares e as chefias militares, incluindo no ministério, nos ministérios militares, Ministra da Defesa e os outros ministros ficaram um bocado nervosos com esta hostilidade dos Estados Unidos à ditadura portuguesa, esta nova hostilidade. Ora bem, homens de ação, por um lado, na oposição. Por outro lado, esta conjuntura internacional mais hostil ao regime, conjugaram-se para levar precisamente à ideia de um golpe espetacular, internacional, que chamasse a atenção para a ditadura portuguesa e até inspirasse alguma insurreição ou manifestação local que fizesse o regime dividir-se na necessidade de resistir a esse ato. Portanto, o Henrique Galvão e o Humberto Delgado sabiam que essa divisão era possível e queriam criar condições para criar essa divisão. Eles estavam os dois exilados em 1960, os dois na América Latina, e é na Venezuela que eles preparam o golpe. O Henrique Galvão entende-se com uns exilados espanhóis. Aliás, entende-se também com aquele que vai ser o novo presidente do Brasil, o Jânio Quadros, que lhe promete apoio.

Deixa só eu esclarecer. O que tu estás a dizer é que o assalto à Santa Maria foi planeado por Henrique Galvão e por Humberto Delgado.

E por Humberto Delgado. São eles que, na Venezuela, combinam-

Mas Humberto Delgado decide não participar, não é?

Humberto Delgado não vai participar, vai dar cobertura. O Henrique Galvão faz de conta ou vai tratar Humberto Delgado como o presidente eleito da República Portuguesa, dizendo que as eleições de 1958 foram uma fraude.

Tu estavas a dizer que existe apoio do Brasil, não é?

E havia apoio do Brasil, do novo presidente do Brasil, o Jânio Quadros, que vai tomar posse em 1961 e que está em contacto com Galvão. O Galvão, no meio destas coisas todas, ainda tem tempo pra ter um AVC. Ele já não é novo. Tinha nascido em 1895, portanto tinha 66 anos. Não estamos a falar de rapazes novos, mas estamos a falar de gente cheia de energia e muito decidida a atuar. Há aqui depois umas histórias, quem eram os espanhóis, eles dizem que são do TRIO, que era um diretório revolucionário ibérico de libertação, mas estes nomes são tudo invenções. O Henrique Galvão também inventa uma junta nacional independente de libertação, para depois quando esteve no barco emitir comunicados pra imprensa. Mas de verdade, não há grande organização, nem parece ter havido muitos meios. São eles mesmos que, enfim, umas vezes correndo melhor as coisas, outras vezes correndo pior, conseguem organizar-se. O Santa Maria tem 600 passageiros, também tem 300 tripulantes, é um paquete que faz cruzeiros às Caraíbas. As coisas não correm bem para o tal comando de 23 homens, são 12 portugueses e 11 espanhóis. E por quê? Porque desde o princípio não se percebe nunca bem quem é que comanda e quem é que dirige, e sequer o que se quer exatamente fazer. Aliás, a embaixada portuguesa em Caracas já sabia que estava a organizar um golpe, já sabia que iria tentar-se com o ataque ao paquete, provocar depois um levantamento em Luanda, em Angola, e já tinha avisado o governo.

Que a ideia era o paquete dirigisse-se pra África, correto?

Esse era o plano. Quer dizer, o plano que eles tinham era ir ocupar uma ilha espanhola, que era a ilha de Fernando Pó, e depois, a partir daí, seguir noutros barcos, não no Santa Maria, mas noutros barcos, para Luanda e tentar provocar um levantamento em Luanda. As coisas não correm como estava previsto. Neste tipo de ações, as coisas nunca correm como está previsto. Há muita trapalhada. Na noite de 21 pra 22 de janeiro, quando eles tentam tomar conta da ponte de comando do navio, imediatamente se dividem, quem é que manda, quem é que não manda, etc. O que acontece é que eles, no assalto, acabam por matar um dos pilotos Nascimento da Costa e feriram mais outras duas pessoas, o que começa logo por comprometer o plano inicial, porque depois isso leva o Galvão e os seus camaradas a decidir desembarcar os feridos na ilha britânica de Santa Lucia, isso permite identificar imediatamente onde está o navio, e aí eles passam para uma espécie de plano B, e no plano B dividem-se. Os espanhóis, aparentemente, queriam que o plano B fosse ir para a Guiné Conakry, onde estavam à espera ter apoio soviético. O Henrique Galvão não quer. O Henrique Galvão é um antisalazarista, mas também é um anticomunista, é profundamente anticomunista, manteve-se sempre anticomunista até o fim. Ele, em 1965, ainda vai publicar um livro que se chama mesmo "A Minha Luta Contra o Salazarismo e o Comunismo em Portugal". Portanto, para ele, as duas coisas estão equiparadas. Ele quer combater Salazar, quer combater o comunismo. Portanto, ele não aceita isso e prefere o Brasil. E prefere o Brasil até porque vai ter o apoio do novo presidente Jânio Quadros. Mas mesmo quando se chega ao Brasil, há um outro problema que é: quem é que comanda exatamente? O Henrique Galvão ou o Humberto Delgado?

O Henrique Galvão ou o Humberto Delgado. Desculpa, nós chegamos ao Brasil e também chegamos ao final do tempo desta primeira parte. Nós voltamos já a seguir com o resto da história do assalto ao Paquete Santa Maria. Até lá. Olá, sejam bem-vindos a esta segunda parte do programa número 81 do Resta a História. Nós tínhamos chegado ao Brasil, Rui. Estávamos a bordo do Paquete Santa Maria, que tinha acabado de ser assaltado. Conte-nos mais.

Bem, e aí-

E as coisas não tinham corrido bem.

As coisas correm bem para a operação, porque eles conseguem receber asilo político no Brasil, tem o Jânio Quadros como presidente do Brasil, que lhes é simpático, simpático pro Henrique Galvão, mas as coisas começam a correr mal de outra maneira. Isto é, eles próprios, os autores, os planeadores do assalto, eles próprios se dividem. Henrique Galvão, Humberto Delgado acabam por não se entender, logo a propósito do que devem fazer e, sobretudo, da chefia dos movimentos.

Não, mas espera lá.

O Humberto Delgado comporta-se como se fosse o presidente eleito de Portugal, ex-general. O Galvão era apenas capitão, era, sobretudo, um escritor intelectual e eles acabam por se dividirem. E isto nós estamos a falar do fim da operação de 3 de fevereiro de 1961.

Certo, mas só para-- Rui, estás me a ouvir? Deixa-me só interromper, este "estás me a ouvir?" é só porque nós continuamos confinados, agora só pra situar.

Sim, nós estamos no mesmo sítio, exato.

Sim, então a comunicação às vezes nem sempre é tão oleada. Mas deixa-me só interromper, porque tu saltaste, para quem não conhece realmente os membros da operação, tu saltaste já pro fim da operação. Só para se perceber por que ela acabou e como é que ela acabou. Tu explicaste parte disso, porque foram logo detectados quando tiveram que desembarcar os feridos, mas e depois, sabendo onde o barco estava, o barco já não pode seguir para a África, não é?

Não, e depois há um recurso, como eu disse, ao plano B, e nesse plano B, Henrique Galvão impõe-se e impõe o destino do Brasil, e no Brasil, o que eles decidem, o que eles conseguem negociar com as autoridades brasileiras, é a entrega do navio e o asilo político para eles, os assaltantes.

Sempre pelo caminho. Já há imagens, certo? Já houve imagens.

Já há imagens.

Portanto, isso já tinha passado na televisão do mundo inteiro.

Publicados na imprensa. Ora bem, aí está a maior vitória deles. É que o governo português tinha tentado obter colaboração dos governos aliados, sobretudo o governo britânico e americano, que eram outros países da NATO, e portanto aliados do governo português, tinha tentado obter colaboração deles contra aquilo que o governo português tinha chamado um ato de pirataria. Isto é, para o governo português, o Henrique Galvão e os seus companheiros a bordo do Santa Maria eram piratas. Ora bem, quer o governo britânico, quer o governo americano acabam por decidir que não se trata de um ato de pirataria, mas de um ato político. Eles não eram piratas, eram resistentes, eram dissidentes políticos que estavam a fazer uma manifestação política e a partir daí evitaram envolver-se no tipo de contraoperação que teria sido justificado se o que tinha acontecido no Santa Maria fosse, de fato, um ato de pirataria, que era tentarem abordar o barco.

Até porque estava cheio de americanos.

E, portanto, não o fizeram. E como disse, o presidente Jânio Quadros, que tomou posse no dia 1 de fevereiro, depois negoceia esta entrega do navio e o asilo político. Agora, a sequência disto. Eu tinha falado que isto não tinha tido uma grande sequência. Sim, o Henrique Galvão e o Humberto Delgado continuam ativos nesse ano de 1961, até a planearem outros golpes, mas já separados Eles estão a planear os mesmos golpes, mas separadamente. A ideia que lhes vem a seguir é de tentar provocar uma insurreição dentro do território sob administração portuguesa. Agora voltam-se para o território metropolitano, Portugal, europeu, onde querem provocar uma insurreição. A ideia é ocuparem um quartel e depois fazerem propaganda para um levantamento geral contra a ditadura salazarista. Ainda em 1961, nesse plano de tomarem conta de um quartel, há a ideia também de sequestrar, não um barco agora, mas um avião da TAP, a levar o Henrique Galvão e o Humberto Delgado para Portugal. E eles acabam por fazer depois só a parte do avião, em 11 de novembro de 1961, na véspera de eleições legislativas em Portugal, eles sequestram um avião da TAP que faz a carreira de Casablanca, em Marrocos, para Lisboa. E o que fazem não é desembarcar em Portugal, mas sobrevoar Lisboa e lançar panfletos contra a ditadura salazarista em Lisboa. O mais interessante disso é que a maior parte dos passageiros que iam no avião não percebeu o que se tinha passado. Apenas percebeu que tinha ido até Lisboa e que tinha depois voltado para Marrocos sem aterrar. Não tinha percebido que tinha andado a fazer propaganda contra o Salazarismo. Nesta operação participou o Hermínio da Palma Inácio, que era um homem que vai estar depois também envolvido em várias deste gênero de operações, este é um tipo de homem de ação. Aliás, deste grupo do Henrique Galvão vai sair a chamada LUAR, que é uma das organizações de luta armada contra o Salazarismo nos anos 60, de que o Hermínio da Palma Inácio vai ser um dos protagonistas. E o assalto ao Banco da Figueira da Foz também, não é? Exato, em 67. Além disso, do grupo do Humberto Delgado ainda resulta a tentativa de assalto ao quartel do Neja na noite de 31 de dezembro a 1 de janeiro de 1962. Foi um ano animado. Agora, nada disto, de fato, abala o regime. O barco volta a Portugal, a Lisboa, em 16 de fevereiro, o regime encena uma grande recepção que atrai uma multidão. O Salazar pronuncia aquelas palavras: "O Santa Maria está conosco. Obrigado, portugueses". E a ditadura sobrevive à revolta dos chefias militares, sobrevive a essas operações de Galvão e do Humberto Delgado, mas sobrevive também à própria revolta das chefias militares em abril de 1961, do próprio ministro da Defesa, que se volta contra Salazar em abril de 1961. Salazar continua e no verão de 1961 vence a guerra em Angola e sobrevive mesmo à invasão e ocupação de Goa pela união indiana em dezembro de 1961. E por quê? Porque é que afinal a ditadura consegue resistir? Mas foi um ano horrível, não é, esse ano de 1961? Sim, foi um ano difícil, mas é um teste que a ditadura passa perfeitamente. Acaba por ser uma grande vitória da ditadura salazarista. Não é fácil derrubá-la. E por quê? Em grande medida, porque esses ativistas de luta armada são pouca gente, são umas dezenas de pessoas comprometidas em atividades de oposição, sobretudo no fim dos anos 50, princípio dos anos 60, e pouco vão sendo identificados, vão sendo presos e vai limitando o campo das suas ações. Segundo, porque a oposição não está unida. Já falei das questiúnculas entre Henrique Galvão e Humberto Delgado, mas a antiga oposição, a oposição republicana e comunista, olha para os dois com muita desconfiança. Acha que eles são golpistas, são aventureiros. Não fica muito entusiasmado com o golpe do assalto ao Santa Maria. A oposição cessa atividades em janeiro de 61, quando se dá o golpe, e mantém-se muito calada. Eles acham que o Galvão está até com o golpe ao Santa Maria a arruinar a causa com atos de violência de que resultou um morto. É preciso ver, houve um morto e à volta desse morto, obviamente, o regime vai fazer uma grande propaganda, associar a oposição a atos de violência, assassínios, etc. Nos anos seguintes, a oposição, sobretudo a oposição comunista, aquilo a que se dedica é a tentar isolar o Henrique Galvão e o Humberto Delgado. De vez em quando fazem contactos, mas tentam isolar. O Galvão, totalmente, porque é um anticomunista, mas também o Humberto Delgado. E aliás, o Humberto Delgado vai ser assassinado em 1965 pelo PIDE, mas esse assassinato em 1965 resulta da operação da PIDE, mas também do isolamento em que a oposição, e sobretudo o Partido Comunista, o vai deixar. Portanto, a oposição não vai dar grande apoio, sobretudo as forças liderantes, os líderes e as organizações oposicionistas, a essas atividades do Henrique Galvão e do Humberto Delgado. Havia uma dimensão internacional, não é? Internacionalmente, essa atenção internacional que há sobre Portugal em 1961 não dura, desvanece. Porquê? Porque há outras coisas. Obviamente, a agenda internacional tem outros temas, a Guerra Fria tende a reacender entre os Estados Unidos e a União Soviética à volta de Cuba, do Vietname. As independências africanas depois, isto é uma época de independências africanas, começam a correr mal e muitos destes novos Estados começam a aproximar-se da União Soviética e tudo isto faz o governo americano tornar-se muito mais compreensivo. Mesmo o governo de John Kennedy, tornar-se muito mais compreensivo e amigável para com a ditadura portuguesa e a sua política africana. Portanto, este ano de 1961, este golpe do Santa Maria não é o começo do fim do salazarismo. Pelo contrário, com o golpe do Santa Maria, o governo de Salazar, aliás, começa a aperceber-se da importância, por exemplo, da opinião pública internacional e começa até a recorrer, nos Estados Unidos, a empresas de relações públicas e de lobby para melhorar a sua imagem. Portanto, todo o ambiente e as expectativas que foram suscitadas pela operação do Santa Maria desvanecem-se a partir de 1961. A oposição anti-salazarista volta ao costume, isto é, da chamada guerra dos papéis, como dizia o Humberto Delgado, e aquilo que vai ser depois a luta armada vai ser protagonizada, sobretudo, por organizações de extrema-esquerda e com bombas aqui e ali, sobretudo a partir de 1970. A verdade é que os americanos deixam de fazer pressão, como tinham feito pressão em 1961 sob o governo salazarista para mudar, pelo menos, a sua política colonial, e o mundo esquece praticamente Portugal e as suas colónias até 1974. Portanto, não é o princípio, digamos, do fim do salazarismo. É um ano difícil, mas que o regime consegue ultrapassar.

Muito bem. Olha, Rui, nós temos cerca de sete minutos de programa e eu aproveitava para regressar à pergunta do Tiago Gabriel, que nos tem acompanhado durante este mês de janeiro: o que acontece no dia seguinte aos grandes acontecimentos históricos? Tu tinhas aqui há dois programas umas histórias para nos contar do pós-revolução de 1789, em França, que valia a pena recuperarmos, porque apesar de ter havido muita gente decapitada, nem toda a aristocracia francesa morreu na guilhotina. Portanto, às vezes o instinto de sobrevivência é mesmo muito forte. Diz-nos mais coisas acerca disso.

Ora, bem. Podemos ir ao princípio, à Revolução Francesa de 1789. E a primeira coisa que tínhamos de dizer é que a monarquia francesa perdeu o poder que tinha em 1789, através da revolução, em grande parte porque a aristocracia foi a primeira a revoltar-se contra a monarquia. Alguns dos maiores fidalgos e titulares de França estavam contra Luís XVI, antes de 1789, porque achavam que ele lhes estava a tirar a eles, aristocratas, poder e estatuto. Por exemplo, queria obrigá-los a pagar mais impostos ou a pagar impostos. E depois de 1789, esta aristocracia continuou mal disposta com Luís XVI, com o rei, porque o acusaram de fazer o jogo dos revolucionários quando os revolucionários chegaram ao poder. Portanto, a revolta da aristocracia antes de 1789 é fundamental para haver Revolução Francesa. E depois, também para a Revolução Francesa continuar, uma vez que muitos destes aristocratas alinham com a revolução. Por exemplo, o primo do rei, o duque de Orleans, um dos príncipes de sangue, é deputado em 1793, portanto já durante a República. França torna-se uma república a partir de 1792. Este primo Luís XVI, um dos maiores aristocratas franceses, o duque de Orleans, dos mais ricos, dos mais importantes, associado à família real, portanto um membro, aliás, da família real, ele é deputado da Convenção Nacional e é um dos que vota a favor da morte do rei Luís XVI. Portanto, a aristocracia faz parte da revolução. Eu estou a falar aqui da aristocracia. E este é o segundo ponto que vale a pena fazer. As pessoas pensam logo, quando se fala de aristocracia ou de nobreza, pensam logo nos duques, nos marqueses, nos fidalgos de linhagem, com direitos fiscais, judiciais e políticos, com isenções disto e daquilo, portanto, os chamados privilégios, a nobreza hereditária. E estes, sim, foram sempre mal vistos pelos revolucionários, sobretudo os titulares. E acabaram exilados, acabaram chacinados em grande escala.

Rui, tu deves estar a bater com o microfone e estão a haver aí umas pancadas fortes.

Ok, vou tratar disso.

Estavas inspirado na guilhotina, já que estamos a tratar do tema.

Exatamente.

Desculpa. Estavas a falar dos fidalgos.

Muitos destes aristocratas acabaram na guilhotina, foram expropriados. Eles eram cerca de 40 mil homens adultos e depois com a família cerca de 200 mil pessoas, e um quarto deles servia nas Forças Armadas. Portanto, os revolucionários caricaturaram-nos sempre como uma espécie de classe parasita, que viviam de rendimentos e favores garantidos pelo Estado e herdados, mas a verdade é que a maior parte deles eram magistrados, membros do clero, agricultores ou mesmo negociantes. Mas além desta aristocracia propriamente hereditária, quer dizer, destes titulares e destes fidalgos de linhagens, havia uma nobreza que não De que esta aristocracia fazia parte, mas que compreendia muito mais gente além destes aristocratas. Tal como em França, tal como acontecia em Portugal na mesma altura, chamava-se nobreza aqueles que tinham uma vida respeitável, aqueles que tinham um estatuto, que não eram aristocratas, não tinham títulos, nem eram fidalgos, mas por causa das suas profissões ou pela maneira como viviam, ou eram funcionários, eram magistrados, eram militares, ou eram homens ricos, faziam parte daquilo que era a nobreza também. Portanto, também eram nobres e eram vistos como nobres. E às vezes adquiriam títulos nobres, de aristocratas, títulos aristocráticos, que o rei dava em larga escala e até vendia. Essa nobreza era uma classe muito variada pelas funções, níveis de riqueza e educação, mas sentia-se nobre. Eles vão ser chamados de burgueses depois pelos historiadores, porque não tinham linhagem, mas eles sentiam-se parte da nobreza neste sentido aristocrático. Ora bem, desta nobreza, neste sentido mais vasto, que incluía uma espécie de classe média com estatuto, saem muitos dos líderes revolucionários. As grandes figuras da revolução não eram plebeus nem proletários, eram gente da nobreza militar, da nobreza dos tribunais, essas famílias respeitáveis. Portanto, por um lado, a revolução, sim, a revolução é contra os aristocratas também. Depois, volta-se contra os aristocratas. Em 1789, há a abolição dos privilégios. Em 1790, a abolição do estatuto nobre, que extingue todos os títulos e exige que as pessoas usem apenas o nome de família. E sim, a revolução destruiu muitas famílias da aristocracia, através de prisões, mortes, exílios, desapropriados. E também, à altura, aristocrata começou a se tornar sinônimo de contrarrevolucionários, aqueles que estavam contra a revolução. Mas também é verdade que muitos dos revolucionários eram eles próprios originários destes grupos, quer de aristocratas, quer de nobres, naquele sentido mais vasto que eu dei à palavra. E por quê? Pura e simplesmente porque em França, em 1789, era nestes grupos que havia os homens capazes de desempenhar papéis fundamentais na revolução, como era o dos grandes oradores das assembleias revolucionárias, eram eles que para isso tinham educação, que tinham profissão, eram advogados, eram magistrados, ou então desempenhar papéis como os comandantes dos exércitos revolucionários, porque era também eles que para isso tinham treino e tradições militares. Portanto, apesar de haver mobilização popular, num sentido ou noutro, isto é, contra ou a favor da revolução, são estas classes respeitáveis, são figuras destas classes respeitáveis que predominam. E isto porque basicamente as revoluções são feitas pelas sociedades que existem e não pelas sociedades imaginárias que as revoluções se propõem fundar. Com isto, não estou a dizer que a revolução não fez nada, isto é, que manteve tudo na mesma. Não. O que acontece é que estes antigos nobres e aristocratas, alguns deles quando se tornam revolucionários, já não se vão identificar como nobres. Eles em 1789, aliás, muitos aparecem como membros do chamado Terceiro Estado, isto é, diferentes da aristocracia e do clero. Mas a partir de 1792, com a proclamação da República em França, eles passam a conceber a si próprios como cidadãos de uma república igualitária, em que eles se distinguem pela virtude cívica e pela competência e pelos lugares que exercia, que essas virtudes e essa competência lhes assegura. Agora, havia muita gente que sabia de onde eles vinham.

Rui, tu falaste no Terceiro Estado e nós temos que ir pra nossa terceira parte, porque a segunda acabou agora e temos que encerrar aqui para as pessoas que nos estão a ouvir diretamente na antena da Rádio Observador. Para os outros, têm o privilégio não aristocrata de nos ouvir em podcast. Está bem? Portanto, interrompo aqui. Até pra semana, pra quem nos está a ouvir na antena. Para os outros, continuamos a nossa conversa. Diz, Rui.

Ora bem, eu estava a dizer que uma parte destes aristocratas, muitos destes nobres, naquele sentido de pessoas que viviam como nobres, em Portugal dizia-se viver além da nobreza, que tinham uma vida respeitável. Eu estava a dizer, é daí que saem a maior parte dos líderes revolucionários, os grandes líderes revolucionários, Mirabeau, Lafayette, até 1782, depois Robespierre, Danton, vêm destes grupos. O Lafayette e o Mirabeau eram mesmo fidalgos. O Robespierre e o Danton vêm também desta nobreza, neste sentido de classe respeitável, que a nobreza também tinha em sociedades como eram as do antigo regime de França e de Portugal. Eles, a partir de 1792, com a proclamação da República em França, eles obviamente não fazem muita gala, não fazem questão de lembrar que vêm destes grupos. Dizem-se também representantes do povo, identificam-se com a nação como cidadãos, mas havia quem lhes lembrasse onde é que eles vinham. E, por exemplo, isso aconteceu de uma maneira um bocadinho caricata. Àquele que vai ser o principal líder da República Francesa, membro do diretório, que é Barras, a partir de 1795. Ora, Barras não era só Barras, ele era Visconde de Barras, era um fidalgo. E do exílio O Conde de Provence, que era um irmão de Luís XVI, que depois vem a ser rei de França, a partir de 1814. Esse Conde de Provence faz sempre questão, em cartas que dirige ao governo da República Francesa, de se dirigir ao Visconde Barras, querendo lembrar aos franceses que a República está a ser dirigida por um visconde, isto é, por um nobre, por um aristocrata do antigo regime. O que acontece a esta antiga aristocracia e nobreza? Eles vão aproveitar o facto de os regimes da França revolucionária passar por vários regimes. Numa primeira fase, até 1792, que é a fase da monarquia constitucional, quando Luís XVI ainda é rei. Há muitos aristocratas que sentem que há uma deriva revolucionária e abandonam a França, mas outros continuam. Isto é, continuam a ter um lugar em França. Depois, com a República, a partir de 1792, e sobretudo durante a época do terror, 1793, 94, quando há um regime revolucionário em França, muito mais empenhado em perseguir aqueles que julga serem contra a revolução, e aí sim, há uma perseguição àquela que é a antiga aristocracia, que é acusada de conspirar, que é acusada de estar contra a revolução, e que é condenada à morte. Homens condenados à morte em grande quantidade. Isso é uma época má para a aristocracia em França, há imensos nobres exilados, os exilados são expropriados. Essas famílias aristocráticas são mesmo atacadas, massacradas, perseguidas. Mas a partir de 1795 as coisas mudam. Com a queda dos jacobinos, dos robespierristas, com o fim do chamado Terror, a República começa a tentar, com o chamado diretório, apaziguar a situação em França. E depois, com Napoleão Bonaparte, a partir de 1799, e sobretudo 1804, quando Napoleão, depois de ter sido primeiro cônsul da República, se torna imperador. Napoleão quer reconstituir, refundar a República Francesa como uma nova monarquia hereditária, com ele à frente, enquanto imperador. E essa nova monarquia hereditária, quer ter também a sua aristocracia. E Napoleão faz dos seus generais, dos seus colegas, começa a dar-lhes títulos aristocráticos, duques, príncipes, mas também se abre à reentrada no regime de aristocratas do anti-regime, que o aceitem a ele como imperador. E portanto, há aristocratas que regressam, aproveitam as anistias, aproveitam a boa vontade de Napoleão, para no princípio do século XIX começarem a regressar à França. E claro, isso acontece depois numa escala ainda maior, quando depois da derrota de Napoleão, em 1814, nas guerras com as potências europeias, ele acaba por ser derrotado, e as potências europeias restabelecem os Bourbons, a antiga família reinante, como reis de França, isto é, restabelecem a monarquia francesa e restabelecem os Bourbons como reis de França. E aí, os grandes aristocratas voltam à vida pública.

Rui, é só pra te dizer que tu de vez em quando continuas a fazer ao teu microfone aquilo que a aristocracia fez, o que os revolucionários fizeram à Maria Antonieta.

Vou tentar não guilhotinar, não fazer muito barulho. Os aristocratas, a partir de 1814, voltam à vida pública em França, e agora até com mais influência, porque esta monarquia restaurada depois de 1814, é uma monarquia constitucional, à imitação da monarquia constitucional inglesa, e tem uma Câmara dos Pais do Rei, onde estes aristocratas, tal como acontecia em Inglaterra, estão presentes. E além disso, eles vêm agora com uma nova consciência de grupo. Isto é, depois das perseguições revolucionárias, é um dos resultados paradoxais da revolução, isto é, faz da nobreza antiga e da sua aristocracia, gente que se sente como alternativa a uma sociedade onde começam a predominar os ricos, isto é, onde as classes altas começam a ser definidas pela riqueza. E eles, estes antigos aristocratas, fidalgos de linhares, antigos titulares, querem representar perante essas novas classes altas, um outro tipo de classe alta que é representada pelo sentimento de honra, de herança do passado e não simplesmente pela riqueza. Eu falei de vários regimes, falei dos que perseguiram a aristocracia, dos que voltaram a aceitar a aristocracia, e no meio disso temos histórias de aristocratas espantosas. A mais espantosa de todas é talvez a de Talleyrand, Charles Maurice de Talleyrand-Périgord, uma das grandes famílias aristocratas de França Ele tinha nascido em 1754, era membro da grande aristocracia de corte do Antigo Regime, Talleyrand. Antes da revolução, tinha sido bispo. E a revolução não foi o fim da carreira e da influência dele, pelo contrário. Talleyrand conseguiu, a partir de 1789, fazer uma carreira espantosa. Ele foi membro da Assembleia Constituinte em 1789, 1791, portanto, foi um dos que fizeram a Constituição da França. É verdade, depois esteve exilado no princípio da República, e sobretudo durante o Terror, entre 1792 e 1794, mas logo em seguida volta, consegue ser Ministro dos Negócios Estrangeiros da República Francesa em 1797. Reparem, alguém que tinha sido um bispo do Antigo Regime, da antiga monarquia. Napoleão volta a contar com os serviços dele. Ele é Ministro dos Negócios Estrangeiros de Napoleão a partir de 1799. E depois quando a monarquia é restaurada, com Luís XVIII, em 1814, talvez pensasse que o novo rei não perdoasse alguém que tinha traído a aristocracia, que tinha servido à República e que tinha servido a Napoleão. Não. Talleyrand continua Ministro dos Negócios Estrangeiros porque adere imediatamente à causa do novo rei. E em 1830 há uma nova revolução em França. Os Bourbons são substituídos pelos Orléans na chefia do Estado, portanto, há uma nova dinastia, começa a monarquia de Julho. E Talleyrand, que tinha servido o antigo regime antes de 1789, que tinha sido membro da Assembleia Constituinte, que tinha sido Ministro dos Negócios Estrangeiros da República, que tinha sido Ministro dos Negócios Estrangeiros de Napoleão, que tinha sido Ministro dos Negócios Estrangeiros da monarquia restaurada dos Bourbons, não é Ministro dos Negócios Estrangeiros de Luís Felipe de Orléans, o novo rei, mas é o embaixador em Inglaterra de Luís Felipe de Orléans, em 1830. Temos um grande aristocrata das maiores famílias fidalgas de França, destes Talleyrand-Périgord, Talleyrand, que serviu todos os regimes franceses: a monarquia de Luís XVI, a monarquia constitucional de 1791, a república de 1792, o império de Napoleão de 1804, a monarquia restaurada de Luís XVIII de 1814 e a nova monarquia orleanista de 1830. E sempre nas mais altas posições do governo e sempre também como o mais corrupto membro do governo. Ninguém foi nunca mais corrupto do que ele. Para quem acredita que as revoluções são substituições de pessoal dirigente, aqui está uma prova em contrários. Por mais revoluções que houvesse em França, ninguém tirava Talleyrand do poder. E conta-se mesmo uma anedota. Talleyrand morre em 1838 e quando ele morre, a notícia chega ao Chanceler Metternich, que era o chefe do governo austríaco e também um grande diplomata. E Metternich, quando ouve a notícia de que o Talleyrand tinha morrido, em 1838, fica desconfiado e faz o comentário a dizer: "Onde é que ele quer chegar com isto? Isto é, qual é que é a nova manobra? Morreu, deve estar a preparar qualquer coisa, deve ter aqui uma manobra qualquer". Eu tenho a ideia que o Metternich já começou a ficar mentalizado pra ideia de que um dia quando morresse e fosse para o sítio onde fosse, imaginando ele que talvez para o céu, fosse encontrar Talleyrand lá numa posição à mão direita de São Pedro ou de Deus, já numa posição importante lá. Mas para completar esta história da aristocracia depois da revolução de 1789, o que nós temos são duas transformações. Por um lado, temos esta aristocracia do antigo regime que perde o estatuto que tinha antes de 1789, que não o recupera mais, mas que se torna um foco de uma consciência histórica alternativa à revolução e depois aos regimes revolucionários. E aqui, por aristocracia, estou a falar dos titulares, dos fidalgos de linhagem. Mantêm-se na sociedade francesa do século XIX, sobreviventes, aqueles que sobreviveram às perseguições da revolução, e a revolução perseguiu-os mesmo severamente, mantêm-se como uma espécie de exemplos de um outro tipo de sociedade, e de uma outra ética, de uma outra maneira de viver, assente no conceito de honra, no conceito de herança, no conceito de passado, na ideia do passado. Temos isso. E, por outro lado, temos a transformação daquilo que era a nobreza, naquele sentido das classes respeitáveis, que na sua ascensão social aspiravam a ser consideradas nobres, e algumas delas até a adquirir depois títulos, etc. Vemos essas classes respeitáveis a passarem a conceber a si próprias de outra maneira, já não como nobreza, mas como classes médias Ou como classe de cidadãos, isto é, de pessoas que têm em relação à sociedade direitos, mas também deveres, isto é, deveres de contribuir para o bem público, de assegurar uma boa governação. Portanto, temos estas duas transformações. Basicamente, a segunda é a substituição da ideia da aristocracia por uma ideia mais vaga de elite, onde o mérito e até os diplomas acadêmicos substituem o mérito individual e os diplomas acadêmicos que o indivíduo obtém, substituem a ideia de linhagem, isto é, a ideia de herança. Portanto, temos estas duas transformações. No século XIX, a sociedade francesa é uma sociedade pós-revolucionária, no sentido em que a igualdade é assegurada não apenas pela Constituição, mas pelo Código Civil entre os cidadãos está assegurada, mas que não apenas continua a haver desníveis de riqueza em uns mais ricos, outros mais pobres, mas continua a haver entre os mais ricos, mas também entre os mais qualificados, digamos, uma ideia já não tanto de aristocracia, mas de elite, isto é, de serem uma elite, uma elite baseada no mérito e baseada na competência. E ao lado dessa elite do mérito e da competência, continua a haver este resto da antiga aristocracia a representar, digamos, o passado, a continuidade e muito dedicado às genealogias e às suas tradições e memórias ou cultos seus antepassados. Portanto, continua a haver uma aristocracia, mesmo, por exemplo, quando a França se torna definitivamente uma república, a partir de 1870, continua a haver muitos aristocratas no serviço do Estado, por exemplo, na diplomacia da República Francesa continuam a ter um papel importante muitos aristocratas, inclusive aristocratas que têm origens familiares na antiga monarquia antes de 1789. Portanto, a aristocracia não acabou com a Revolução Francesa, ajudou a fazer a Revolução Francesa em 1789 e depois o que aconteceu foi atingida pela revolução, mas foi sobretudo atingida pela maneira como a sociedade passou a ser concebida. Uma sociedade ainda estratificada, mas onde o estrato superior já não é aristocrata, não é nobre, mas é uma elite, mas é uma elite de notáveis, uma elite da gente que julga em relação a si própria que tem mais competência ou que tem mais mérito.

Ok, Rui, muito obrigado. E termina assim o programa número 81 de O Resto da História. Voltamos para a semana.

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