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"O Investidor" é na Rádio Observador, hoje com Judite de França, Helena Garrido e Raquel Abecasis. Hoje temos para servir aqui neste lanche de fim de tarde, já quase um lanche ajantarado, uma abstenção exigente, um sistema de comunicações seguro, tipo WhatsApp, que foi encomendado pelo governo de António Costa, custou 1,6 milhões de euros, mas que ninguém usa no atual governo, e há ministros até que nem sabem que sistema é este. E ainda vamos falar da reposição de 25 dias de férias para a função pública, que nos tempos da Troika foram reduzidos a 22. E ainda vamos ter tempo, eu prometo, eu cumpro sempre tudo o que prometo. Vamos falar de presidenciais. Raquel Abecasis, espero de ti nada menos do que um comentário exigente sobre a abstenção exigente.
Não é só sobre a abstenção exigente, é sobre a tarefa exigente do António José Seguro. Também é exigente, mas do José Luís Carneiro.
Senão me estragas o alinhamento.
Porque herdou um partido em cacos. Estávamos aqui a falar de microfone fechado, acompanhei as eleições à distância e, portanto, não partilho daquela ideia que esteve muito em voga na noite eleitoral, de que isto para o PS tinha sido um cenário bom. Acho que só se pode considerar isso se achasse que a tragédia ia ser pior e que o PS já não tinha recuperação possível. Acho que é a única forma de ler os resultados assim. Mas o meu ponto é que José Luís Carneiro, que herdou o partido assim, está a conseguir fazer o seu caminho, ganhando tempo, que é essencial, e seguindo uma estratégia que me parece que não será consensual no interior do Partido Socialista, mas que aproveita o estado traumático em que a elite socialista está, para conseguir ganhar esse tempo para fazer o seu próprio caminho. E é assim que eu leio esta abstenção exigente, e também o facto de ele ter feito uma leitura dos resultados autárquicos muito antes de tudo estar fechado e até de algumas questões essenciais, como era, por exemplo, a Câmara de Lisboa e do Porto, quando ele falou, ainda não era claro que essas duas câmaras estavam perdidas, nem sequer Sintra. E, portanto, acho que ele antecipou-se às pressões internas, e isso é uma boa estratégia. Ou seja, eu acho que o resultado não foi bom para o Partido Socialista, acho que o resultado serviu para José Luís Carneiro poder, agora sim, estar de mãos livres para tentar pegar neste partido em cacos e tentar fazer dele aquilo que o partido já foi e aquilo que é importante para o país que o partido volte a ser. Vai ser já? Não vai. Vai dar trabalho? Vai. Provavelmente, ele não vai poder fazer este caminho com as figuras do establishment socialista que estão permanentemente na comunicação social. Ainda agora estava aqui, já estava a ver também ali um post ou uma coisa qualquer que o Duarte Cordeiro vem dizer na sequência daquilo que Pedro Nuno Santos também disse, no fundo, carregando nas tintas em relação ao mau resultado que o Partido Socialista teve. E portanto, não será com essas pessoas que José Luís Carneiro pode reabilitar o Partido Socialista. Agora, o caminho é o caminho certo. E é o caminho certo também para quem está a olhar para o adversário que tem do outro lado da mesa, que muito mais do que o governo é o Chega e o partido de André Ventura. E esta decisão que José Luís Carneiro tomou praticamente na sequência das eleições, pouco mais de 24 horas depois, já deixou incômodo André Ventura, que agora acusa o Partido Socialista de ser cobarde, de não ter coragem para enfrentar a situação política, mas retira o Chega da equação orçamental. E isso é uma vitória para José Luís Carneiro.
Helena.
Sim, também me parece que é a estratégia correta para este enquadramento e para este momento, levando em consideração não só os condicionalismos que existem neste momento, mas também todo o enquadramento político. Depois da dramatização do ano passado, não se justificava uma dramatização este ano. José Luís Carneiro colocou quatro condições, elas foram todas satisfeitas e por isso não tinha muita margem se não a aceitar. E a própria forma como colocou essas condições foi inteligente, ou seja, eram condições atendíveis por parte do governo, facílimas de cumprir. Facílimas de cumprir. Há aqui um alinhamento dos astros. As condições eram fáceis de cumprir, o próprio governo, face a um orçamento arriscado que tinha, não queria fazer, também adotar muitas medidas, como se viu. As medidas são mínimas, têm um custo da ordem dos 600 milhões, quando no ano passado tiveram mais de 2000 milhões.
Também simplificou a proposta, simplificou um pouco o processo.
Muito. Até para não criar tensão com os partidos.
Deixando para o Parlamento legislar sobre matérias e não pondo no orçamento de Estado.
Sacralizado, como disse o presidente do Conselho Europeu.
O orçamento até aqui tem sido um caldeirão de propostas.
E bem. Bem o quê? Ser um caldeirão ou ser este orçamento? Ser este orçamento. Sem dúvida, há muito tempo se pedia que não se transformasse o orçamento num sítio onde se fazia as reformas todas. Não faz sentido absolutamente nenhum. Não havia tempo para se debater, não havia tempo para se analisar.
Era o grande documento político do ano.
Exatamente. Eu espero que esta prática se mantenha e não seja apenas fruto desta conjuntura Porque esta conjuntura de facto convidou a que isto acontecesse. Por um lado, as condições do José Luís Carneiro, em segundo lugar, o facto de ser um orçamento arriscado e portanto tinha de assumir uma estratégia recuada e finalmente, não menos importante, e esse é o grande desafio do José Luís Carneiro, o governo sabe que o drama não está este ano e deixou margem para medidas no próximo ano, que pode ter um orçamento muito mais desafiante. É preciso recordar, eu penso que já recordei aqui, que o governo prometeu ao AD que iria reduzir o IRS em 2000 milhões de euros. Reduziu 500 milhões este ano, mas para o ano só vai reduzir 111 milhões, resultado até da proposta do Chega aprovada este ano. Portanto, falta quando se esperava que pudesse ser 500 milhões. O governo está também aqui a criar uma margem, a fazer uma gestão eleitoral da sua legislatura, querendo ter ferramentas eleitorais para quando a situação se tornar mais tensa, o que pode ocorrer já no próximo ano.
Judite, vês algum problema no adjetivo? Se no princípio era o verbo, no fim é o adjetivo.
Eu não vejo nenhum problema no adjetivo, acho que podia ser outro adjetivo qualquer, podia ser uma abstenção sensata, por exemplo, porque é a única coisa que de facto o José Luís Carneiro podia fazer, era ter a sensatez e o bom senso, até porque não tem margem política para impor seja o que for. E também assim não deixa nas mãos do Chega nenhuma das decisões. Quer dizer, o Chega passou a ser irrelevante neste momento.
Nesta matéria.
Nesta matéria. Neste momento, no Orçamento Estado, que estamos a falar. É o que dá ter agora um sistema tripartido no Parlamento. Mas eu acho que José Luís Carneiro podia ter dito de forma clara, enfim, não o disse assim, mas podia ter dito: "Não concordamos com este Orçamento Estado." Isso disse. Mas de facto esta não é a altura para crises políticas, porque tivemos eleições há cinco meses, portanto, não faz sentido. E eu acho que de facto não podia fazer outra coisa. Este Orçamento de Estado tornou-se um instrumento sem aquele entulho todo que se costuma pôr. E, portanto, tornou-se uma ferramenta muito mais...
Um verdadeiro orçamento.
Um verdadeiro orçamento.
Que são chatos, sempre.
Sim.
De todo lado.
Portanto, passou de sopa da pedra a uma canja.
Ou um consommé. Está passadinho. Um consommé, sabes que eu gosto muito de consommé.
Eu também.
Portanto, está tudo passado e eu acho que foi uma decisão sensata. Acho que esta questão do adjetivo e de repente as pessoas falarem da abstenção.
Mas ele junta uma coisa ao adjetivo, e eu acho que essa coisa não é despicienda, passou agora um bocadinho ao lado, mas no tempo, pode ser um argumento para José Luís Carneiro, que é: não queremos dar nenhuma desculpa para que o PRR não se cumpra.
Claro. Isso é muito importante.
E isso é muito importante e este discurso vai ser recordado quando começar a haver problemas de cumprimento e de execução do PRR.
Aliás, deixa-me só recordar a frase a propósito dessa questão do PRR e das reformas que são precisas fazer também. Diz: "Não queremos que o governo venha utilizar a desculpa do voto do PS para esconder a sua incapacidade e incompetência." Portanto, os recados estão lá. O que eu acho é que esta comparação com a abstenção violenta de António José Seguro é uma coisa daquelas que os jornalistas gostam.
Pessoas com mentes perversas e retorcidas como a minha, quando ouvi essa expressão, pensei logo na abstenção violenta.
Pois, porque ficou. Aquilo ficou, de facto.
Mas isso não fica também junto da opinião pública?
Eu acho que a abstenção violenta e na altura...
Deixa-me só concluir. Eu acho que a abstenção violenta foi um pouco mais tonta. Porque a abstenção não é violenta. A abstenção pode ser exigente, neste caso pode ser sensata e foi, e é, e tem que ser.
Mas violenta, não.
Mas violenta, não. E atenção, na altura, António José Seguro também não tinha alternativa nenhuma. Estávamos com a intervenção da troika em 2021. António José Seguro não tinha alternativa. Dito isto, acho que a comparação não é justa para José Luís Carneiro.
Mas eu acho que ele por acaso não faz isso ingenuamente. Eu posso estar aqui com as teorias da conspiração, mas o enquadramento atual releva na atitude patriótica que António José Seguro teve na altura e que José Luís Carneiro tem agora, no sentido em que os vários atos eleitorais que se têm vindo a repetir provam que a estratégia e o tempo da geringonça está morto e enterrado. E que o caminho para o PS é muito mais um caminho a António José Seguro e a José Luís Carneiro do que um caminho a António Costa ou a Pedro Nuno Santos. E mais, daqui a dois dias, José Luís Carneiro vai declarar o apoio do partido, mas seu pessoal, ainda que possa ser considerado, bem, já lá vamos daqui a bocado, a António José Seguro. E, portanto, eu acho que ele recuperar uma adjetivação à abstenção no orçamento, também tem essa subleitura que neste momento, para o eleitorado insatisfeito do Partido Socialista, não é tão desconfortável Como na altura foi a declaração da abstenção violenta
Até porque esse orçamento era duríssimo
Ao qual ninguém queria estar ligado. Aqui, ao menos, ainda há uma redução de impostos.
Sim.
Vamos ainda falar de presidenciais, se calhar os presidenciais são um tema que vai ficar pendurado para a segunda parte. Não sei se alguém quer dar notas nesta parte do orçamento.
Eu posso dar a José Luís Carneiro e dou-lhe um 12, porque acho que se sente que de alguma forma está obrigado a fazer isto e, portanto, a decisão é imposta de alguma forma por esse valor que estavas a falar, mas também acho que não merece mais do que isso.
Eu também dou um 12.
Um 12. Helena.
Eu sou um bocadinho mais generosa, porque acho que ele foi bastante racional. Eu tinha aqui um 14 pelo seu bom senso.
Helena, vamos aquecer contigo já o tema das presidenciais. Servimos depois o completo na segunda parte. Finalmente, o PS arrumou este assunto? Podemos dizer finalmente ou não?
Eu penso que sim, que finalmente arruma o assunto.
Porque não tinha alternativa.
Claro, era muito difícil o PS não apoiar António José Seguro, por muito que os costistas tenham resistido a que isso viesse a acontecer. Procuraram por todo lado, não encontraram ninguém disponível para se candidatar e obviamente que não fazia sentido nenhum. Cá está mais um caso de bom senso. Neste momento, já só se pede bom senso. Não fazia sentido nenhum o Partido Socialista não apoiar a candidatura de um ex-secretário-geral.
Mas foi ao fim do mundo à procura de soluções.
Exatamente. Eu não sei se José Luís Carneiro andou, mas houve pessoas do Partido Socialista que andaram desesperadamente à procura de candidato. E não conseguiram encontrar e parece-me que acaba por tudo convergir no sentido da melhor solução. Obviamente que António José Seguro foi o líder do partido, herdou o partido numa situação muito difícil e teve de gerir o partido numa conjuntura muito difícil, como nós acabamos aqui de dizer, quando o país estava a aplicar políticas económicas altamente restritivas e que doeram muito às pessoas, e que ele teve de assumir uma posição de responsabilidade que acabou por não retirar daí nenhum retorno, como sabemos. Mas parece-me que é o que, de bom senso, o Partido Socialista devia fazer.
E fica prometida para a segunda parte a opinião da Raquel Bocasis e da Judite França sobre esta decisão do PS em relação a António José Seguro, decisão que será fechada no próximo domingo. E eu cumpro sempre aquilo que prometo. E Raquel Bocasis, vamos à tua opinião sobre o apoio do PS, que será decidido neste domingo. A António José Seguro fica finalmente arrumada esta questão.
Sim, fica finalmente arrumada depois de um processo deprimente nos últimos meses. E acho que aqui, mais uma vez, não só José Luís Carneiro faz bem, como não pode ele pessoalmente ser acusado do atraso no apoio, porque evidentemente quando ele tomou posse como secretário-geral não era o timing, o timing era tratar das autárquicas, prometeu fazê-lo logo a seguir e é isso que está a fazer. E por outro lado, por muito que possa parecer cínico o apoio que o Partido Socialista vai finalmente dar a António José Seguro, José Luís Carneiro não é cínico, porque ele foi braço direito de António José Seguro quando ele foi secretário-geral do partido, é uma pessoa que toda a gente sabe que é próxima de António José Seguro e portanto, se alguém naquela sala hoje à noite vai sentir um certo incômodo, como eu ouvi há bocado também o Miguel Costa Matos aqui aos microfones do Observador.
Vai ser no domingo.
Vai ser no domingo.
No domingo, a tentar justificar o injustificável e virar o bico ao prego, eu acho que essa pessoa não vai ser José Luís Carneiro e portanto acho que resolve mais um problema e evita mais uma série de discussões internas que só têm deteriorado o Partido Socialista ainda mais do que ele já está eleitoralmente.
Judite.
Eu acho que de facto a Raquel tem razão. Já cabasta tanto tempo de espera para António José Seguro. Eu acho que o que o Miguel Costa Matos quis dizer, e eu acho que isso é importante, é que todos os socialistas são chamados a isto e vamos esquecer o que aconteceu no passado. Ele diz sem as questões de antigamente.
É verdade, mas a maneira como o diz denota um incômodo.
Haverá muitos socialistas que pensam assim.
Pois, exatamente.
Há muita gente que não gosta de António José Seguro no PS.
Mas também há muita gente que gosta. Atenção. António José Seguro ganhou o partido em tempos, tinha o poder local, e os autarcas, sem ser a elite do PS com ele. E portanto, ainda há muita gente que gosta de António José Seguro.
O que eu quero dizer com isto é que a partir de domingo, há duas figuras que ou vão desaparecer do mapa até às presidenciais, ou então vão declarar apoio a uma outra candidatura à esquerda. Um chama-se Augusto Santos Silva e o outro Eduardo Ferro Rodrigues, que depois do que disseram de António José Seguro, que ele não cumpria os mínimos, que era abaixo da média, que tudo isso, não podem de forma nenhuma Ou desaparecem das presidenciais ou vão apoiar um outro candidato e eu não acho isso impossível. Eu também não e acho que é perfeitamente legítimo. Sim, porque de fato as eleições presidenciais são o que são. Aparentemente, o único que está à mão chama-se António Filipe. Não vai deixar de ser interessante.
Ou Catarina Martins.
Mas entre os dois.
Temos de falar do sistema de comunicação tipo WhatsApp que foi encomendado pelo governo de António Costa e custou 1 milhão e 600 mil euros. Já lá vamos agora, Helena Garrido, vamos passar de 22 para 25 dias de férias. Eu voto nesta proposta.
Mas não é para o funcionário público.
Eu sei. "Não é para ti", diz a Helena.
Não é para nós. Já deu um recado à tua administração, Ricardo, esquece.
Sim. Pronto, obrigado, Helena. Um abraço a todos.
Não, podes comprar, Ricardo. Acho que o que está na concertação social é a possibilidade de comprares.
Comprar dias.
Comprar dias, mas dado, parece que não. Acho incrível isso de comprar dias. Enfim, um dia vamos falar disso.
Cada um gasta o dinheiro onde quer.
Exato. Mas o que está aqui em causa é uma notícia de hoje, que aparentemente os sindicatos dizem que o governo está disponível para reverter, lá voltamos nós às reversões, uma medida que foi adotada na era da dita troica, de reduzir as férias de 25 para 22. De 22. Diminuir de 25 para 22.
E agora passar outra vez para 25.
Nós estamos perante o risco de uma espécie de-
Não tenho a certeza, mas na altura penso eu que isto estaria também relacionado com a assiduidade, porque seria um prêmio de assiduidade.
Exatamente, como se isso não fizesse parte das nossas obrigações enquanto trabalhadores. Trabalhar todos os dias. Exatamente. O que eu receio, espero que o governo tenha bom senso, é que isto seja uma versão 2.0 da redução do horário de trabalho, que nos custou muito dinheiro, que o Presidente da República, na altura, prometeu que ia avaliar e nunca avaliou. Porque é muito bonito este tipo de reduções para alguns serviços que não precisam de estar abertos 24 horas, mas para serviços que têm de estar abertos 24 horas, veja-se o caso da saúde, isto é muito grave e custa muito dinheiro e recursos, e depois não há pessoas. Deixa-me só perguntar uma coisa, Helena. Está provado que, claro que os problemas no Serviço Nacional de Saúde têm várias origens, mas que o que fez desencadear esta crise brutal de urgências a terem que fechar, de não haver pessoal médico, etc, foi essa redução do horário de trabalho? Foi um dos fatores, porque repara, se tu tiveres de fazer horários, uma coisa é teres 40 horas em que tens três pessoas. Nós sabemos bem o que isso é.
Ou seja, três turnos de oito horas é fácil de arrumar num dia de 24. Não é quatro turnos de oito horas, quatro turnos de sete horas, ficam a faltar quatro horas. É preciso mais uma pessoa para preencher esse período.
E nós não temos só falta de dinheiro, temos também falta de capital humano na saúde. E as férias representam exatamente o mesmo problema. Eu espero que o governo tenha bom senso, porque é natural que os sindicatos peçam, mas espero que o governo tenha bom senso e não comece a reverter este tipo, já basta o erro que se cometeu, foi esse e a redução do IVA para a restauração, dois erros gravíssimos. O da redução do horário de trabalho é mais grave. Até porque é mais grave por causa da desigualdade. Nós já temos um mercado de trabalho muito dual, ou seja, pessoas que estão com recibos verdes, pessoas que estão com contratos a prazo e pessoas que estão no quadro. A função pública tem a grande vantagem, os funcionários públicos não podem ser despedidos, é preciso matar o chefe para ser despedido. Têm a segurança no emprego. Num quadro destes, isso vale muito dinheiro hoje em dia. Num quadro destes, não faz absolutamente sentido nenhum estar a oferecer-se à administração pública vantagens que não têm os outros trabalhadores e, sobretudo, porque isso tem um custo elevado.
E tens uma nota?
Tenho uma nota, eu vou dar uma nota, um nove ao ministro das Finanças e à secretária de Estado da Administração Pública, Marisa Garrido, não é da minha família. Um nove à espera que eles- Se fosse da tua família, tinha positiva. Exatamente.
Já sabíamos.
Vou à oral para ver se têm juízo.
Fica dada a nota. E Judite, sim?
Deixa-me só acrescentar agora, porque estava a Raquel a perguntar se isto teve alguma relação com o caos da saúde. A verdade é que nunca foi estudado, não é? Pois. Mas era muito importante estudar o impacto disso.
E agora, Judite França, queres falar da Tagline.
Quero falar da Tagline. O que é a Tagline? A Tagline tem um nome pomposo.
Podia ser uma abstenção Tagline. Não dá.
É uma espécie de WhatsApp interno, um WhatsApp para comunicação. Hiper encriptado. Super encriptado. Para comunicação segura dentro do Executivo, dentro do governo. Ou seja, o governo anterior decidiu adquirir esta plataforma pela módica quantia de 1,6 milhões de euros, para poderem ter conversações seguras, não sei se para aprovar uma indenização
A uma administradora da TAP.
Por exemplo.
Por exemplo, não ser feita por WhatsApp.
Podia ser feita por TagLine.
Podia ser feita por TagLine, que é mais seguro. O problema começou já no anterior executivo, que já não usava muito isto. Chegaram a reconhecer, na altura, ao Expresso, que já não se usava muito esta TagLine. TagLine, estou a ler aqui, foi um dos investimentos previstos no PRR exactamente para reforçar a cibersegurança dos sistemas da administração pública. Ora, 10 meses depois disso ter sido implementado, o próprio governo de António Costa admitia que não era usada de forma generalizada e o secretário de Estado à época dizia que era difícil contrariar hábitos. Não era hábito, era difícil contrariar hábitos. Ora, ontem, o Observador perguntou diretamente ao ministro da Reforma do Estado se usava esta TagLine, se conhecia esta TagLine, e o ministro desconhecia por completo. Não faz a mais pequena ideia do que seja e portanto ninguém a usa. Problema disto: custou 1,6 milhões de euros e eu não sei se é fácil de usar, se é user friendly, se é muito importante, se não é muito importante. Para questões de cibersegurança, nos dias que correm, tudo parece importante.
É suposto o governo ter uma forma segura de comunicar.
Segura de comunicar. Mas dito isto, o que me choca é que isto deve acontecer em diversas outras coisas no Estado.
Achas?
Acho que custou 1,6 milhões de euros e depois ninguém usa. Não ficou a ganhar pó, porque é uma aplicação. Não está a ganhar pó numa estante, mas é mais ou menos a mesma coisa.
Com as atualizações dos sistemas operativos, facilmente ganha pó.
Ganha pó e passa a não ter utilidade nenhuma. Se calhar não serve, de facto, não faço ideia. O que eu não entendo é que não passe de um governo para o outro, a começar pela informação em si, a informação apenas. Podia ser dito: "Olhe, temos isto, não queremos usar, vocês fizeram, mas nós não queremos." Mas nem a informação passa, ponto um, nem a aplicação é usada, e portanto o dinheiro...
Helena, tinhas melhor sítio onde gastar 1 milhão e 600 mil?
Claro. Olhando para os mapas, agora que nós estamos ainda a falar de autárquicas, olhando para os mapas das transferências do Estado para as freguesias, nós vemos que para todas as freguesias de Évora foi pouco mais do que 1 milhão e 600 mil euros.
Foi uma TagLine para as freguesias.
Este é um bom exemplo de que não devemos andar a fazer apelos para gastar por gastar. É gastar por gastar, na perspectiva de que o dinheiro de Bruxelas é grátis e não é. As pessoas têm de ter consciência que vamos pagá-lo, porque isto é um empréstimo que Bruxelas fez e esse empréstimo paga-se, todos nós vamos pagá-lo. Este é um exemplo de como é que se atira dinheiro.
Mas este é o mesmo Estado, Helena, isto vai soar a defesa de Carlos Moedas, mas não é essa a intenção, é uma comparação, em que Carlos Moedas diz que não consegue reformular a aplicação da Gira, das bicicletas em Lisboa, porque o processo é complicadíssimo, tem que abrir um concurso, é tudo hipercomplicado e às vezes quando fica resolvido, já a aplicação passou de prazo. E depois temos estes casos.
Este caso foi aparentemente feito internamente. Tudo isto é uma irracionalidade, porque se, como disse a Judite, os ministros não usam, o governo não usa, porque não considera prático, não gosta.
Não sabemos.
Pois, aparentemente não gostaram, não gostam. Na aplicação, gostam mais do WhatsApp.
Se calhar não tem gifs.
Exato. Pois, não tem gracinhas. Não tem o "fixe" que o Pedro Nuno Santos pôs na indemnização da Alexandra Leitão.
Desculpem, Helena, interrompi-te.
Mas sabes que este caso concreto também revela que a aplicação é feita sem perguntar às pessoas, ou seja, sem vir de baixo para cima, sem perguntar às pessoas quais eram as necessidades delas para depois desenhar a aplicação. Parece que é mesmo tudo feito, gaste-se o dinheiro o mais depressa possível e depois fica uma aplicação que ninguém usa, com dinheiro que podia ser usado de outra maneira. Se calhar as freguesias de Évora, mesmo sendo PRR, terão com certeza muita coisa para fazer e nós vemos. Nós vimos nas nossas terras a quantidade de coisas que há para fazer. E há dinheiro para deitar fora uma aplicação.
Tens uma nota para a TagLine?
Eu tenho uma nota para o governo de António Costa, que é um sete, porque está muito a história de que só queriam o cheque.
Raquel?
Eu sobre isto vou só dizer uma coisa. Nós passamos o tempo a encher a boca com a questão da digitalização e as empresas onde nós todos trabalhamos e no dia a dia, e as próprias juntas de freguesia, a minha é um caso disso, entraram nesse mundo da digitalização e o Estado e a coisa pública são do tempo da-
Da Maria Cachucha.
Da Maria Cachucha.
É esta a expressão que procuravas.
Enfim, é isto que eu tenho para dizer.
Judite, tens uma nota? O tema é teu.
Tenho uma nota. Vou dar aqui um cinco, antes de mais esta noção de que não se passa informação de governo para governo. Este governo não sabe da TagLine porque nem sequer recebeu essa informação do governo anterior.
Olha, distribua-se a TagLine a todos os portugueses. Já que ninguém usa, pode ser que os cidadãos possam usar. E o "Vencedor É" regressa amanhã, nas manhãs da 360, depois das 08h30.