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Começa agora uma nova edição do "Ivens Ouré", da Rádio Observador. Carla, esta sexta-feira juntam-se a nós, às manhãs 360, a Filomena Martins e o Miguel Santos Carrapatoso. Esta manhã vamos falar olhos nos olhos, lado a lado, com o príncipe perfeito, mas também com o presidente perfeito, porque, Filomena, bom dia, já temos o perfil do candidato perfeito a Presidente da República.

Clarissimamente.

É, não é?

Só faltou escrever, eu acho que neste ensaio no "Expresso" desta manhã, Santos Silva, só faltou escrever qualquer coisa como cerca de 1,75 m, meio calvo, 68 anos, do Porto. Não estava lá.

Com experiência na presidência do Parlamento.

Talvez. Eu não li até ao fim. Acabei ali num determinado momento.

Porque percebeste logo que Augusto de Silva estava a falar de si próprio.

Eu percebi logo. Eu acho que no dia em que Gouveia e Melo resolveu despedir-se com aquelas ilustrações na revista da Armada, ao lado do príncipe perfeito, realmente, de D. João II, com aquele tom laudatório, pondo todos a criticá-lo, o Santos Silva não tinha melhor dia para chamar a si o pugilismo. E apareceu, provavelmente, se calhar desiludido com as sondagens, que lhe devem parecer uma falta de consideração e de ingratidão dos portugueses, a escrever este ensaio no "Expresso". Traça este perfil perfeito para candidato presidencial, em que diz que tem de ser uma figura com sólida experiência política nacional e internacional, claro, um profundo conhecimento da sociedade portuguesa e rejeita esta ideia de caudilhos ou personalidades providenciais que se apresentem como salvadores. Também rejeita comentadores omnipresentes que não compreendam plenamente o papel presidencial. Que é claramente um texto à atenção do almirante.

Ó Filomena, ele está posto de fora.

Não me confundas hoje com a tua parceira de sempre. Tem que haver.

Ele foi comentador.

Claro, mas espera, já vamos falar do papel de comentador dele e como é que ele saiu. Ele esqueceu-se dessa parte, porque ele esqueceu-se de muita coisa. Este é claramente um texto à atenção do almirante, que é agora um dos maiores pavores da classe política portuguesa, mas é um texto à atenção do Marques Mendes, do Mário Centeno, do José Seguro, a todos os que estejam a equacionar a candidatura a Belém. É de todos aqueles que merecem mais atenção que ele, Zé. Mas é preciso lembrá-lo que ele já desapareceu das sondagens, que o seu nome não entra. Que a última vez que entrou, que eu na pesquisa rápida que fiz pelo Google apanhei, é numa sondagem do Instituto pra SIC e pra o "Expresso" de outubro do ano passado, e ele aparecia em 11º lugar, com 2,8%, ligeiramente abaixo de Rui Rio. Ou seja, os portugueses do continente e das ilhas parecem identificar-se com as escolhas dos portugueses que votaram no círculo fora da Europa nas legislativas. Esses eleitores que o deixaram fora do Parlamento, preferindo o José Cesário do PSD e o Manuel Magno do Chega. Santos Silva fez com que o PS tivesse naquele círculo o seu pior resultado de sempre. E o artigo do Santos Silva não é mais que um belo anúncio, que é publicidade à borla. Ele coloca-se ali como um candidato potencial que preenche os critérios que ele próprio elenca, nomeadamente a tal sua vasta experiência política e académica. O problema é que eu acho que Santos Silva deve achar que a memória das pessoas é curta, como o Zé acaba de dizer, não se lembrou de recordar algumas coisas. Eu posso fazê-lo por ele, o Zé também. Não se lembrou que este potencial candidato é o homem do malhar na direita, que até disse que o fazia com especial prazer em relação ao PCP e ao Bloco de Esquerda, referindo-se a estes partidos como forças mais conservadoras e reacionárias, mas que agora foi aquele fora ao socialismo do Bloco e quer uma esquerda unida a apoiá-lo. Comparou a concertação social com uma feira de gado. Disse que o Costa ainda tinha muita broa a comer para chegar ao governo. Lembram-se que ele também queria, quando o PS exigia que o Cavaco homenageasse o José Sócrates, disse que Sócrates não merecia tal nódoa no currículo e que haveria um dia um presidente merecedor da honra de condecorar Sócrates. Teve que ali se incomodacionar na Assembleia. Provavelmente.

O Popper ser o próximo presidente. Ter a honra de condecorar Sócrates.

É óbvio. Muito recentemente, o ano passado, envolveu-se no 25 de Abril, naquele episódio em que as câmaras do canal Parlamento o captam a fazer comentários sobre o Chega e a Iniciativa Liberal e depois abre um inquérito ao canal Parlamento, que isto da liberdade de imprensa é tramada, sabemos nós. Exigiu à PGR, em novembro do ano passado, que acabasse com a Operação Influencer antes das legislativas, que isso também influencia a política no sistema judicial e a separação dos poderes também é tramada. E depois há essa saída da TV de que o Zé acaba de falar, em que foi acusado de ter saído não por ser incômodo, como ele se queixava, mas por ser malcriado. São episódios que ilustram a compreensão de Santos Silva se for eleito.

A razão, como explicaram na altura, é que ele uma vez disparatou na TVI porque suspenderam um comentário dele por causa de um jogo de futebol. Ele achou que não podia ser. Mais ou menos, houve quem tivesse feito isso em direto, o Santana Lopes, o país inteiro discutiu. Ele fez passar por censura aquilo que era apenas audiências, que é uma coisa que temos que viver.

Filomena, vais dar nota ao Augusto Santos Silva, não é?

Vou. Estes episódios ilustram a propensão de Santos Silva para, imagine-se, se um dia viesse a ser eleito, contribuir para que a discussão política tivesse o nível e o protagonismo que teve quando ele foi presidente da Assembleia da República. E é preciso nós lembrarmos que se o Chega hoje em dia tem 50 deputados, eu diria que algumas das suas ações contribuíram para isso, infelizmente. Mas veremos o que os portugueses vão dizer deste seu notável ensaio e do perfil nobre que ele nele traça, ou se não se ensaia nada, mas depois de o retirarem do Parlamento, o continuarem a ignorar em sondagens e eleições. E por isso deu a este ensaio um simples e magnífico chumbo direto do Zé, dá quatro, mas eu sou muito de baixar as notas do Zé, portanto eu baixo para um simples dois. Simpático. Sexta-feira 13. Fica em 1.3.

1.3. Não perdes a oportunidade de ir baixando a nota. No outro extremo das sondagens para protocandidatos presidenciais, temos o almirante Gouveia e Melo e Miguel falava em publicidade gratuita que teve Santos Silva neste ensaio. Gouveia e Melo também utilizou instrumentos da Armada para poder ir dando espaço para o seu perfil a possível candidato.

É verdade, mas justiça seja feita a Augusto Santos Silva, ao menos o próprio escreveu um ensaio. Aparentemente, Gouveia e Melo foi brindado com uma brilhante ilustração feita em sua homenagem. Entretanto, a Marinha respondeu ao Correio da Manhã, acho que enviou uma nota ao jornal Correio da Manhã, em que se dizia que Gouveia e Melo é alheio à ilustração e que a contracapa e o cargo em questão são uma colaboração recorrente e desinteressada do autor, que expressa na sua nota descritiva a ideia subjacente à ilustração. Gouveia e Melo seguramente não teve a oportunidade de ver esta homenagem que lhe fizeram e até prova em contrário, é inocente de ter sido homenageado de tal forma. Eu gostei particularmente da ilustração, sobretudo do golfinho robô. Acho que é um belíssimo exemplar do mamífero.

Quando quisermos falar com o Miguel, já sabemos qual é o caminho.

E a bandeira portuguesa pendurada ao contrário também não esteve mal durante uns tempos.

Sim. Mas isto para dizer mais a sério.

O Miguel gosta muito de golfinhos, mas isso é uma outra história que não podemos contar aqui.

Podemos explorar depois noutro programa ou noutro fórum, se quiserem. Mas isto para dizer o seguinte: tem-se discutido muito o favoritismo evidente de Gouveia e Melo. Os seus detratores também vão dizendo que assim que abrir a boca e começar a dar entrevistas, já sem farda, as coisas vão correr mal. A verdade é que Gouveia e Melo ainda não deu entrevistas como presidente ou candidato a presidente da República e os erros vão se sucedendo. Este aqui, aparentemente, é o mais gritante, ainda que se diga que Gouveia e Melo é alheio à ilustração, mas é prova de que não basta ter muito boas intenções, é preciso ter uma campanha profissional. E se Gouveia e Melo continuar a insistir na ideia, ou alguém por ele continuar a insistir na ideia de que Gouveia e Melo é de facto o homem providencial que vem salvar o regime, o potencial de asneira é muito grande e acho que esta capa é um primeiro indício do que podemos vir a ter numa longa corrida presidencial.

Sim, ainda assim, José Manuel, é uma bonita homenagem ao almirante?

Não, porque eu não gosto de ilustração, não gosto do ilustrador. Acho uma coisa um bocadinho infantil, é demasiado infantil. E depois o Miguel estava aqui a dizer uma coisa que é: em política o que parece, é. E se aquilo não é uma encomenda, parece. O que nos garantiria que não era e ficaríamos todos tranquilos? Era a Marinha enviar-nos cópias das anteriores edições daquela revista da Armada quando um chefe de Estado-Maior deixou a Armada. Se são todas naquele mesmo registo, não foi encomendado pelo almirante. Se são naquele registo, das duas, uma: ou o almirante tem uma corte de seguidores que olha para ele como se fosse o Deus na Terra, ou então a hierarquia nas Forças Armadas ainda tem importância e um pedido é uma ordem, uma vontade, mesmo que subentendida, é uma instrução e por isso faz-se aquilo que se manda, ou que se quer, ou que se deseja, sem necessidade sequer de perguntar. Eu sobre isso, infelizmente, não tenho grandes ilusões. O almirante quer ser candidato, o almirante está a preparar tudo para ser candidato, mas o almirante também nisto que nos deixa, acaba por abrir o flanco e abre o flanco não apenas por isto ser aquilo que é, isto é, uma instrumentalização de meios públicos para uma candidatura ou uma protocandidatura presidencial, é disso que estamos a falar. Estamos a falar de uma coisa que não é inocente, não é Não tem ausência de malícia, não tem ausência de um aspecto criticável. Tem, trata-se de meios públicos, trata-se de uma revista que não é dele, é da Armada, e foi instrumentalizada para a sua campanha. E depois, isto obriga-nos a fazer mesmo o balanço do que andou a fazer o almirante na Armada. Ele acha que andou a transformar a Armada. É preciso escrutinar melhor aquele famoso porta-drones, é preciso escrutinar melhor quanto é que vai custar, é preciso escrutinar melhor os problemas que a sua construção teve e está a ter e o custo que vai ter. E já agora, eu gostava de perceber o que é que Portugal ganhou. O que o almirante ganhou, já sei. Mas o que é que Portugal ganhou em termos de treino e eficácia operacional com aquelas duas expedições submarinistas, uma por baixo do Polo Norte e outra até ao Equador, que não são propriamente feitos extraordinários. Eu penso que já terá havido mais submarinos a passar o Equador e seguramente há muitos submarinos também a passar por baixo da calote do Ártico. Mas tudo isto permitiu que o almirante nunca tivesse saído das notícias e fosse sempre apresentado como uma espécie de salvador da pátria ou pelo menos como alguém que está acima do comum dos mortais.

Mares calmos e ventos de feição. É uma boa expressão. Mares calmos e ventos de feição.

Os submarinos penso que não precisam de vento para andar, é a minha ideia.

Não sei. Mas isto é para o D. João II, príncipe perfeito.

No tempo do D. João II, príncipe perfeito, por aí adiante, aí sim eram precisos ventos. Podia-se navegar, nós tínhamos sabedoria para navegar contra o vento. Eu não sou especialista em vela, mas sei que se pode navegar contra o vento e que se navegava contra o vento nos descobrimentos portugueses. Nada que me tenha surpreendido demasiado, infelizmente.

E a nota, José Manuel?

E a nota?

Sim.

A nota vai para o desenho e aquela qualidade estilística merece, sei lá, talvez, não sei. Eu acho que aquilo se fosse na quarta classe, talvez desse uma boa nota. Para uma publicação de grande circulação, supõe-se, merece um quatro, é um chumbo, não passa. Um bom editor não deixava passar uma coisa daquelas.

Miguel, a que vais dar nota?

Eu tenho que dar nota ao ilustrador, visto que a culpa foi exclusivamente do ilustrador. Tenho de homenagear o ilustrador que conseguiu aquilo que qualquer ilustrador sonha, que é ver o seu trabalho reconhecido e discutido na praça pública.

Viral. É preciso dizer que o ilustrador se chama Vasco Ferreira. Vamos dar aqui informação.

Uma homenagem a Vasco Ferreira, que conseguiu que o seu trabalho chegasse a todo o país. Um sólido 15 a Vasco Ferreira.

Um 15 a Vasco Ferreira, não será um dos convidados do Explicador, mas o assunto vai estar já a seguir também aqui no Observador. Tentámos e ainda não conseguimos. Paulo, quer dizer para outro assunto e para a primeira entrevista do novo procurador-geral da República, a que estamos também aqui a dar destaque, porque se refere à Operação Influencer.

Exato. E só isso que acabaste de dizer, o procurador-geral da República, dois meses depois de tomar posse, deu uma entrevista. Só isso já era uma diferença em relação à antecessora Lucília Gago. E é precisamente isso. Amadeu Guerra dá a ideia que tem um estilo diferente e um entendimento diferente daquilo que são as suas obrigações de prestação de contas e de escrutínio do seu trabalho, do trabalho do Ministério Público. Com poucas semanas, dois meses depois de tomar posse, porque arranjou tempo, vontade para se sentar perante dois jornalistas, os repórteres da TVI, o David Diniz e o Henrique Machado, que acompanham estas áreas da Justiça. Foi uma entrevista a um podcast, um podcast do Conselho Regional de Lisboa da Ordem dos Advogados, que é dirigido e coordenado pelo João Massano, mas de qualquer maneira, está ali, foi gravado em vídeo, é utilizado por quem quiser, e Amadeu Guerra não se furtou a responder a tudo, não se refugiando até, muitas vezes, naquelas respostas mais redondas. Assume que vai mudar muita coisa no Ministério Público e também avisa que as coisas demoram tempo, não é com estalar de dedos que se conseguem resultados. Diz também que acha que há razões para os cidadãos terem uma certa desconfiança. Aceita que os cidadãos tenham uma certa desconfiança em relação à Justiça e há aqui uma dose de realismo. Não há aquelas frases redondas de: "As pessoas têm é que perceber que estas coisas não são como elas pensam, que é muito complexo" e por aí fora. E diz outra coisa que eu acho que é importante, referindo-se expressamente aos procuradores, às pessoas que estão com o processo Influencer, esse que é mais importante, politicamente mais importante, se quisermos. Diz que vai chamar as pessoas que estão a trabalhar nesse caso, os principais responsáveis, e falar com os procuradores, a expressão é dele, e falar com os procuradores olhos nos olhos. No fundo, isto é para perguntar como é que está o processo, por que não anda mais depressa, o que levou a esta decisão ou àquela em toda a tramitação do processo. E eu acho que isso, de facto, é uma diferença muito grande em relação à antecessora, da qual não sabíamos nada, cujo trabalho não percebíamos muitas vezes as decisões. E eu acho que a Justiça e o Ministério Público, sobretudo, que tem o exclusivo da iniciativa criminal, se quisermos, é demasiado importante e sensível numa democracia, como se tem visto, para que não seja escrutinado e para que os seus responsáveis não assumam que falar com o país, prestar contas do seu trabalho ao país, é uma das funções mais importantes que podem desempenhar. E saúda-se que Amadeu Guerra tenha saído do banco, aliás, é uma imagem que ele próprio, uma metáfora que ele próprio utiliza, saído do banco, porque ele já estava na reforma, para liderar o Ministério Público. Obviamente que é cedo para fazer balanços, vamos esperar, mas para já é positivo que o espírito seja muito diferente e seja um espírito muito mais correto e adequado àquilo que o país precisa do que outra coisa qualquer.

Aliás, Paulo, como tinha sugerido logo no discurso da tomada de posse. Que nota é que vais dar?

Vou dar um 15 a Amadeu Guerra. Obviamente, as intenções são boas, a abordagem é boa, a disponibilidade para falar, prestar contas é boa. Vamos ver os resultados. O caminho não é isento de obstáculos, como sabemos, vamos ver os resultados, mas para já, uma mudança para bem melhor, claramente, como precisávamos.

E por isso um 15, igualando o ilustrador do almirante, que foi a nota atribuída também pelo Miguel Santos Carrapatooso. Está feita aqui a ronda pelos protagonistas desta sexta-feira. No fim de semana, o "Vencedor É" aparece sempre depois da síntese das 10h30. Nós vamos estar de regresso na segunda-feira. Bom fim de semana.