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You Vences Doré na Rádio Observador e em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador, hoje com a Judite França, o Nuno Gonçalo Poças e o Alexandre Borges. Vamos começar pela Prestação Social Única. Foi hoje a debate na Assembleia da República, mas não foi a votação. Desceu à especialidade sem votação. Há aqui uma abertura para um entendimento entre AD e o Chega. Judite França, que sinais é que nos deu o debate de hoje e esta possibilidade de consenso de uma prestação social única assinada à direita?

O sinal que o debate nos deu foi esse, de que aparentemente o Chega tinha posto sete condições e que o governo acolheu seis e, portanto, falta a sétima, que é a tal do prazo de cinco anos de residência e descontos para um imigrante aceder a um apoio, que, recorde-se, é não contributivo. Não sei como é que se consegue pôr uma prestação não contributiva a obrigar a contribuições. Não sei exatamente como é que isto pode ser feito. Hugo Soares fez questão de dizer a André Ventura que era preciso separar o contributivo do não contributivo. Isso parece-me mais ou menos evidente. Eu não sei se eventualmente aquilo que o PSD estará disposto é a aceitar um prazo, não uma contribuição, mas um prazo. Não sei. Acho difícil misturar os dois regimes e acho que misturá-los até deve ser inconstitucional, presumo. Depois, faltam todos os pormenores da proposta, o valor, a elegibilidade, os custos. Basicamente as coisas combinam-se a duas mãos nos corredores e depois chegam à especialidade. É normal que a Iniciativa Liberal diga que a negociação foi feita em segredo, que o Parlamento está a votar às escuras. Eu acho que tem razão nessa crítica que faz. E também acho que o Partido Socialista, de alguma forma, tem que arranjar aqui uma maneira de não estar completamente a leste desta prestação social única, que partiu da mão do Partido Socialista. Eu acho que há vários pontos que podem ser complicados, nomeadamente a questão do trabalho social pra quem tem cancro, por exemplo, e hoje dizia a ministra: "A verdade é que isso já está no RSI desde 2012 e o PS nunca quis mudar a lei." Ontem eu perguntava quanto é que nós pagávamos indevidamente e hoje a ministra disse: "Pagam indevidamente 159 milhões em rendimento social de inserção pra quem não merece, pra quem não precisa." No meio disto tudo, a prestação prometia simplificar a fragmentação normativa e entra na especialidade bastante fragmentada. Agora vamos ter que esperar que saia da especialidade.

Alexandre, o governo estava a pedir um cheque em branco à oposição com esta questão da autorização legislativa. Fez bem a oposição em forçar a negociação mais prolongada do assunto?

Isso fez. Creio que teria de acontecer sempre assim. A única coisa que não tenho a certeza é se o Chega já contava com isso ou não. Penso que sim. Parece-me que já contava, porque chumbou em primeira instância, o que era estranhíssimo, aquele primeiro chumbo, aquele primeiro voto contra. Era estranhíssimo perante o que é o discurso habitual do Chega. E afinal, pelos vistos, estava sempre disponível pra negociar na especialidade. Vou só registar, antes de ir a esta importante questão, que há muito tempo não fazia o Vences com o Nuno Gonçalo Poças e começava a desconfiar que era uma coisa deliberada. Não sei se da parte da Rádio Observador: "Isto é demasiado."

O nosso sistema de sorteios estava a gives and goals.

Exatamente. Também pensei que podia ter sido o próprio Nuno a dizer.

Diz: "Cusa, já chega."

Eu escrevo aquele artigo dos 12 anos da Ventura, mas só se for morto. Não meto mais com este tema. Sobre o tema da TSU.

Da PSU.

PSU, imensa desculpa. O tema da PSU. Há um problema com essa terminação, pelos vistos. Leva sempre a um certo rocambole depois, ou a uma certa dificuldade em se fazer aprovar. Nesta discussão, em primeiro lugar, diria da ministra Palma Ramalho que tem um dom pra estas coisas, porque com a lei laboral conseguiu que andássemos meses e meses a discutir a amamentação e se havia algumas mulheres, em número indeterminado, que eventualmente tiravam mais uma hora ou duas de trabalho por dia pra amamentar crianças com mais do que dois anos e com isso conseguiu intoxicar uma discussão em que isto representaria uma migalha e conseguiu condicionar moralmente toda essa discussão aqui. Quase que parece: "Olha, vamos dar aqui um descansozinho a este tema, vamos passar à PSU." E agora com a PSU, vamos ficar a discutir se pessoas com deficiência ou cancro ou um grau de incapacidade de 79% devem ser chamadas a trabalhar. E é difícil, de fato, discutir isto. E sobre estes números que a Judite estava aqui A citar há pouco o que a ministra disse hoje no Parlamento, acontece outra vez a mesma coisa com a amamentação. Ela diz: "Nós pagamos 159 milhões de euros indevidos em prestações sociais". Grosso modo, portanto, RSI e outros.

Sim, eu disse RSI, mas são alguns.

Exatamente. Alguns dos quais decorrentes de fraude. Fica outra vez: alguns? Quantos? Outra vez, é a mesma questão com a amamentação, de que é que nós estamos a falar? Isto é uma sensação que a ministra tem? Por que estes números chegam sem uma circunstância objetiva? Por que o governo se volta a colocar numa discussão destas, vai pagar o preço político de estar a fazer esta guerra, assente não se percebe muito bem no quê. Dizer que esta questão da incapacidade estava na lei, no RSI, desde 2012, isto é, desde o governo de Passos Coelho, e que o PS nunca quis mexer, mas não havia trabalho social, portanto, eu não consigo perceber qual é a questão. Ou seja, não estava lá a dizer que estas pessoas iam ter que trabalhar 15 horas por semana, mesmo tendo este nível de incapacidade. Isso é problemático, acho eu, porque a discussão já está outra vez num plano absolutamente demagógico. Isto é, em primeira instância, eu pessoalmente não via nada de chocante na questão de se pedir o trabalho social, por duas razões. Um serve para combater a demagogia total, facílima, de dizer: "Estas pessoas estão aqui a viver à conta do Estado." Havia mais de meio milhão de beneficiários do RSI em 2010. Hoje em dia, são pouco mais de 150 mil. O valor são 247 €, como sabem, na prática, depois tem tudo a ver com se a família tem mais algum rendimento, quantos dependentes, na prática, em média, os beneficiários do rendimento social de inserção em Portugal recebem 155 € por mês. Uma família recebe 327 € por mês. Se estas pessoas conseguem viver à mama, à conta disto, estou a usar o tipo de expressão que o Chega utiliza, por favor, deem-lhes ao menos uns podcasts sobre contas e finanças, que eu gostava de perceber como é que se consegue viver com este dinheiro, assim à grande. Portanto, valia a pena desconstruir isto, impedir este discurso de dizer: "Olha, eles não fazem nada", então muitas dessas pessoas passariam a fazer alguma coisa. E depois o outro plano muito importante, que é a questão da inserção. Isto já não é há muitos anos rendimento mínimo garantido, é rendimento social de inserção. Como disse a ministra, e bem, muitas dessas pessoas estão há mais de cinco anos com subsídio. Portanto, de facto, isto prova que alguma coisa falha. Estas pessoas não estão a conseguir ser reabilitadas, digamos assim, para voltarem a ter um contributo para elas e para a própria comunidade. Portanto, é preciso mexer. E estou perfeitamente de acordo, e acho que a discussão se devia colocar aqui contra aquilo que é a demagogia do outro lado, quer dizer, isto é escravatura, é punir a pobreza. Não, isto não se trata de nada disso. Não é escravatura se estamos a pagar às pessoas. Não é seguramente escravatura pedir três horas de trabalho por dia. Não é seguramente pedir umas horas de trabalho que terão que ser acompanhadas. Estas pessoas, de repente, depois de anos fora do mercado de trabalho ou eventualmente de nunca lá terem estado, não vão chegar e ser trabalhadores iguais aos outros, como é evidente, são pessoas que têm que ser acompanhadas nesse trabalho. É como um estagiário ou numa situação até mais débil do que isso. Portanto, isso é um trabalho importantíssimo do outro lado pra conseguir que estas pessoas voltem a sentir-se úteis, voltem a desenvolver rotinas saudáveis, voltem a estar integradas em equipes, etc., uma quantidade de coisas. Já não é nada disso que está na mesa, ou seja, neste momento estamos do lado de quem diz: "Isto é escravatura, punir a pobreza", e o outro lado que diz: "Temos aqueles que vivem à mama", ou como fez o CDS outra vez, lembrar que nós é que fomos os primeiros a chamar a atenção pra lei de subsídio à preguiça. Eu acho que só há uma coisa pior do que ser populista, é ser um pseudopopulista. É dizer: "Eu fui o primeiro populista e ninguém reparou." Isto é chato, porque o populismo, em princípio, se gaba de entrar pelos olhos dentro das pessoas. Portanto, ter feito isto e ninguém ter reparado, é pior. E acho que este não costumava ser o discurso do CDS antes. E portanto, tudo isto está fora do ponto e eu terminaria dizendo isto assim: o que quer que saia daqui, vale a pena dizer que Portugal está a fazer isto, o governo português, e que a medida vinha atrás, apresentada pelo PS, porque nós precisamos muito ou queremos muito não perder os 620 milhões de euros que vêm do PRR. Portanto, quem gosta de viver de subsídios tem de pensar nisso. Para já dá dois anos de RSI, porque o que o Estado gasta é essencialmente 300 milhões de euros em RSI por ano. Quem é que afinal é dependente de subsídios? Ou seja, parece-me que é o país inteiro que gosta do seu RSIzinho vindo da Europa.

Nuno, o governo pegou neste assunto pelo prisma errado, novamente. Novamente, digo, porque comparo com a reforma laboral, quando começou com esta questão da amamentação e depois a coisa nunca mais se endireitou. Aqui, também este assunto do trabalho para pessoas com deficiência, para jovens, está a inquinar o resto do debate.

Eu estava a ouvir o Alexandre e estava a me lembrar por causa dessa questão dos populistas e do primeiro populista, e não sei o quê, se calhar era afinal o CDS, aquela coisa dos políticos postiços.

Engraçado isso, sim. Sim, e direcionamos mal a crítica.

O que mais uma vez demonstra que foi um comentário bastante genérico e que serve muita gente. Eu tinha uma dúvida também sobre isso, sobre esta história toda, que ficou uma pairar a pergunta um bocado no ar, mas enfim, pode ter sido de mim, mas essa questão dos 159 milhões de euros que são mal pagos.

Parece que aparentemente uma parte que é mal paga é porque os serviços de segurança social atribuem erradamente a prestação.

Pois, mas é que a pergunta é um bocado essa, que se são mal pagos, por que estamos a pagar?

Sim. Já sabemos quantos são.

Já sabemos que há 159 milhões de euros que estão a ser mal pagos.

Ainda por cima, é por erro nosso.

Sim, parem. O serviço não está aqui um erro, não sei o quê. Há fraude. São os 159 milhões. Ok, descobrimos o número. Se descobrimos o número é porque descobrimos a origem. Então por que estamos a pagar?

Deve ser mais fácil estar a pagar do que estar a mexer.

Isto tudo faz-me um bocado de confusão e a tua pergunta, Miguel, também temo que-- mas isso se calhar pode ser de mim, pode ser da minha neurodivergência. Eu tenho imensa dificuldade com estes debates, porque às tantas me parece tudo meio embrulhado, como um novelo em cima disto, e depois há uma série de pontas soltas em que de repente se começa a discutir uma coisa qualquer que já não tinha nada a ver com aquilo, são debates paralelos e coisas assim um bocado pontuais. Eu às vezes não sei se isto não é feito de propósito, que é para nos baralhar a todos e às tantas já ninguém sabe o que é. Formam-se duas tribos, uns são a favor, outros são contra, e agora vamos ver quem é que tem mais força no meio disto. E no final parece que ganha sempre o mesmo. Esta questão da PSU e do facto de ter ou não trabalho a favor da comunidade. Eu acho que isto assenta aqui num princípio básico. Eu há umas semanas falava daquela questão da agenda social, que eu achava que a direita devia ter. É nós tentarmos olhar para isto e perceber se o caráter social do Estado que nós temos se reveste essencialmente de uma forma temporária ou definitiva. E eu acho que isso, de facto, há aqui uma grande distinção de princípio. Há duas posições, que acho que são as duas legítimas e, portanto, podem estar em desacordo legitimamente. E depois com essas nuances todas das deficiências, das doenças prolongadas, etc. Mas no fundo, aquilo que eu acho que está aqui um bocado em causa é só isso, é perceberes se o Estado social não contributivo, que é outra coisa também que me fez imensa confusão. Uma coisa lembro-me sempre: quando ouvia os mais velhos, funcionários públicos, militares e não sei quê, falar daquelas questões da reforma, em que falavam dos anos da tropa que valiam 75%, e depois tínhamos a percentagem e havia uns anos que valiam mais do que outros, e aquilo parece-me um fim do mundo. Como é que se calcula uma pensão de uma pessoa?

Era o tempo em que os 10 melhores anos contavam mais.

Pára!

E em que não havia computador.

Sim! Não havia sequer um algoritmo para aquilo. Isto tudo faz-me imensa confusão. Parece que quase dá vontade. Isto é como o urbanismo nacional. Dá quase vontade de mandar tudo abaixo e fazer de novo. Isto é muito cansativo. Uma ideia que aparentemente quando surgiu parecia ser quase unânime, ou seja, tinha sido uma ideia que tinha vindo do PS, que vinha do PRR e não sei quê, que de repente o governo estava a implementar. Havia a questão do trabalha, não trabalha. Isso, de facto, parece-me ser uma grande discussão que podia gerar alguma controvérsia. E até acho que tem uma boa base, uma substância quase filosófica, intelectual, para nós decidirmos e uma disputa ideológica legítima. E de repente nós estamos embrulhados em discussões que eu acho que, mais uma vez, vai voltar a acontecer uma coisa que é: já ninguém quer saber. Ainda por cima está a começar o mundial. Já ninguém quer saber. Mas agora o coiso tem 70%, 80% e já não há saco para isto. E, portanto, a paciência, pelo menos a minha, mas imagino que a de muita gente, esgota-se para estes temas ao final de três ou quatro dias, porque depois às tantas já ninguém percebe o que se está a discutir, em que é que eles discordam, qual é que é o ponto. E eu acho que o ponto, de facto, é só esse. Ou seja, se voltarmos a baralhar tudo, pôr dentro do cesto e tirar aquilo, tentar fazer como se fazia naquela coisa para separar o trigo do joio, agora não me lembro como é que se chamava. Uma peneira. A grande discussão é só essa, que é: quem recebe prestações sociais por ter necessidade delas para subsistir, faz sentido ou não faz sentido que isso tenha um caráter temporário e que ao mesmo tempo o país tenha uma estrutura de economia institucional que permite fazer com que essas pessoas tenham uma vida normal, de trabalho familiar, profissional, etc. Eu acho que é só isso que está em discussão agora, o resto... desisto.

Mas pera, antes de desistires, que notas é que dás a isto tudo?

Fui. Pensava que era à Judite. Vou dar um oito ao debate, por causa disso, porque acho que nos estamos aqui a perder.

Alexandra?

Focando na questão da deficiência e do cancro e das pessoas nestas dificuldades, como disse a Associação de Deficientes, estas pessoas é que precisam de ajuda. Não é de ir ajudar. E exatamente que trabalho é que elas poderão fazer é difícil imaginar. Então vá, fiz uma conta complicada, que é quanto é que é tirar 79%, ou 21% de capacidade, de 20 valores. Então a senhora ministra está 4.2.

Judite.

Eu a esta fragmentação da discussão, que chega à especialidade um bocado em frangalhos, vou lhe dar um oito.

Judite, foi o primeiro veto político de António José Seguro, presidente da República, ao diploma do CDS e também do Chega sobre a proibição de bandeiras ditas ideológicas em fachadas de edifícios públicos. Que mensagem é que o presidente da República quis passar?

Eu acho que o presidente da República quis passar a mensagem de que há bandeiras que são consentâneas com os valores do Estado e essas bandeiras não deveriam perturbar ninguém. E eu acho que o presidente da República ganha ao fazer este veto, primeiro pelo conteúdo e pelo enquadramento, e depois pela questão formal. O diploma do CDS, do PSD e do Chega chamava-se Regras de Utilização de Bandeiras em Edifícios Públicos. Seguro pega neste texto e devolve-o como quem diz: quem fica a proibir, por exemplo, a paz? Se for uma bandeira pela paz, alguém fica a proibir a paz? Aparentemente, este decreto queria proibir a paz na fachada de um edifício. E eu acho bem que seja o presidente da República a defendê-la. E depois no terreno jurídico, porque o decreto fala em bandeira ideológica, em bandeira associativa, e não está definida nem uma coisa nem outra. E eu acho que o texto tal como está, com essas indefinições, pode ser corrigido e sendo corrigido, é admitir que o presidente tem razão. Mas eu acho que Seguro fundamenta o veto em valores na Constituição, nos compromissos internacionais, nos direitos humanos e, portanto, reserva-se, claro, esta porta da saída técnica, mas eu acho que se o atacarem pela ideologia, ele pode defender-se com a questão da indefinição dos conceitos. E se o atacarem pela indefinição, ele pode responder com a questão dos valores. Portanto, eu acho que ele está nas duas frentes bem defendido, sem flancos a descoberto. O CDS já veio dizer que quer reconfirmar.

Já?

Já.

Pensava que era só o Chega. O CDS também?

Sim.

Ok.

E, portanto, se a maioria se mantiver, julgo que não estou enganada, PSD, Chega e CDS, o veto cai e a lei passa.

A questão é saber se o PSD quer entrar numa lógica de confronto com o veto.

Essa é uma boa pergunta. E com tantos problemas que o país tem, perder tempo com bandeiras parece-me absolutamente uma questão pífia, apenas.

Nuno.

Também...

Se não tinhas paciência pro resto, então agora para bandeiras.

Não, para esta não tenho. Quer dizer, tenho mais ou menos. Eu acho que aqui, em resumo disto, eu acho que toda a gente fez o seu papel. Acho que o veto político era mais ou menos esperado. O Parlamento fará aquilo que entender. E é de facto, talvez o elemento aqui mais interessante nisso é perceber o que é que vai fazer o PSD. Se acha que de facto isto é uma questão importante, se não é, se tem outras guerras que quer ter e que eventualmente lhe sejam mais favoráveis. Também se for bater outras e perdê-las, se calhar às tantas mais valia ter ganho esta. Mas eu também tenho aqui uma questão de princípio relativamente a isto. Eu nem sequer sou particularmente dogmático nestas coisas. Não tenho passadeiras arco-íris, bandeiras arco-íris, etc. Eu tenho sempre a minha referência nestas coisas, e em várias, é normalmente a Isabel Ayuso, que sendo uma mulher conservadora, não tem pruridos em hastear bandeiras, por exemplo, LGBT, e não sei o quê. Portanto, isso não a demove, nem sequer o eleitorado tradicional do PP se afasta dela, bem pelo contrário. Portanto, acho que há toda uma dimensão para lá disso. Agora, em relação ao tema de fundo disto, eu perceberia mais se de facto a coisa fosse apresentada de outra maneira. Eu acho que foi o Filipe Nunes Vicente, tinha um tweet qualquer esta semana que dizia uma coisa engraçada, que eu acho que nos pode pôr aqui em perspectiva relativamente a isto, que é: vamos imaginar que agora um grupo de monárquicos ou o PPM ou qualquer coisa do gênero punha a bandeira monárquica, resolvia hasteá-la na praça do município.

Vamos admitir que isso já aconteceu.

Sim, mas se calhar a esquerda aí depois também já, afinal, se calhar não, há certas bandeiras que não se devem pôr. E portanto, para resolver esse problema, eu acho que é muito fácil, que é de facto o Estado ser como deve ser, neutral, porque é precisamente a neutralidade do Estado que permite que a diversidade e o pluralismo se verifiquem depois no cotidiano das pessoas. É um bocado indiferente se o Estado se hasteia ou se não hasteia.

Se hasteia ou não hasteia, foi bem.

O Estado. O Estado hasteia.

O Estado hasteia. Hasteia ou não hasteia? Eis a questão. Mas ao mesmo tempo, fico aqui curioso relativamente à posição do PSD, um bocado por causa disso, porque essa também é uma discussão que eu acho que vale a pena ter um bocadinho mais aprofundada. Mas em tempos de inteligência artificial e partidos que se renderam mais ou menos à tecnocracia e acharam durante imenso tempo que não tinham que tomar partidos em posições Mais morais, vamos chamar assim, facilmente são substituídos por uma máquina, porque para tomar decisões técnicas, se calhar até é mais fácil. E portanto, os partidos serão cada vez mais chamados precisamente a voltar a discutir política e não propriamente técnica. Mas enfim, esse é outro tema. Mas eu gostava que o PSD tivesse uma posição sobre isto, já agora, para clarificar.

Que não deixasse o assunto morrer pelas corredeiras.

Não, quer dizer, morrerá de qualquer maneira. Se for confirmado, se não for, o assunto morrerá. Daqui a uma semana já ninguém se lembra disto. E se for só hasteada a bandeira nacional, mais a da CE, a do município e de mais qualquer coisa que agora não me lembro, da freguesia, já nunca mais ninguém se vai lembrar disso. E bandeiras arco-íris, monárquicas, outra coisa qualquer, continuarão a ser levantadas ao ombro pelas ruas e por lá calha sem siga. A diversidade e o pluralismo que nós defendemos passa muito para além disto. Mas eu compreendo o veto, acho que faz parte. Acho que está cada um a fazer aquilo que era expectável.

Cada um a fazer o seu papel. Alexandre, queres nos falar também de um outro, não foi bem um veto, foi mais um falhanço na eleição do Provedor da Justiça.

Ah, sim. Por acaso pensei que ias fazer a passagem para outro assunto.

Já vamos.

Mas é isso, a gente vai conseguir.

Queria despachar primeiro os grandes temas. Perdão, os pequenos, e depois já vamos aos grandes temas.

Ao grande tema. Exato. Brevemente, a questão de Luísa Neto hoje na assembleia. Depois da questão de Tiago Caldeira Antunes. Novo chumbo. E depois de andarmos meses e meses, quase um ano, a tentar eleger os órgãos externos da assembleia, do desprestígio para toda a gente, de adiar e adiar prazos, de se andar pra frente e pra trás com aparentemente o compromisso assumido entre os três maiores partidos. Depois de uma guerra enorme, soube-se se o Chega tinha direito ou não a eleger, ou se havia uma espécie de direito vitalício do PS, independentemente dos seus resultados eleitorais, por ser fundador da democracia, a integrar estes órgãos, maioritariamente, ainda por cima, porque o PS estaria sempre representado no Tribunal Constitucional. Depois de toda esta guerra, depois de se ter resolvido pelo afastamento, pela decisão pessoal do presidente do Tribunal Constitucional de se afastar, eis que hoje acaba por passar tranquilamente a lista conjunta com os nomes escolhidos pelos três partidos. Portanto, o acordo funcionou e está resolvida a questão do Constitucional, e volta a bater no poste a questão do novo Provedor de Justiça. Aparentemente, por quê? Porque o próprio PS não tinha os deputados todos para votar a favor disto.

Não tinha cinco.

Não tinha cinco.

Faltavam sete.

Portanto, o próprio PS reconhece.

Mas é o mínimo, não é? É o mínimo.

É o mínimo.

Sim, os próprios termos próprios é o mínimo.

É o mínimo.

É como convidar alguém pra jantar e não ter nada na mesa.

Exatamente. Isto é, depois do que aconteceu com Tiago Antunes, que acabou basicamente crucificado por ficar como um ativo tóxico, quer dizer, porque qualquer ligação a Sócrates queima qualquer pessoa que lá tenha estado, a menos que seja António Costa e uma quantidade de gente que fez parte desse governo. Aparentemente, toda esta gente conseguiu passar incólume. O PS não foi capaz de ter uma pessoa, que eu me lembro, a vir defender Tiago Antunes do que ali se passou. E agora vem queimar. Ou seja, foi alguém que não foi acusado de ter feito nada errado enquanto secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, que estava na coordenação do governo no momento da Covid, na altura talvez mais difícil que a Presidência do Conselho de Ministros esteve nos últimos 20 anos em Portugal. Não lhe foi apontado um erro enquanto secretário de Estado dos Assuntos Europeus. Não lhe foi apontado nada. Foi-lhe apontada a sua colaboração com Sócrates, lá está, com o governo de Sócrates há 20 anos. E o PS achou o quê?

Não foi com Sócrates, Alexandre.

Diz?

Não foi com Sócrates.

Com o governo de Sócrates.

Foi com a Câmara Corporativa.

Sim, mas isso era uma colaboração com o governo de Sócrates.

Certo, mas era com muitas nuances.

Muito bem.

Secretismo, etc.

Mas de acordo. Muito bem, certo, certíssimo. Mas viste alguém do PS defender isto?

Para quem se estava a propor defender direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Muito bem.

Para irmos ao grande tema, já não vamos conseguir explorar muito esta questão da Câmara Corporativa.

Tens razão, mas o PS queria defender esta pessoa.

Não, claro.

E deixou dizer que não, que o PSD é que tinha falhado o acordo ou alguém assim. Agora, lança outra pessoa e deixa que isto aconteça. Quer dizer, nem se dá o trabalho, de facto, de estar lá toda a gente pra votar em Luísa Neto. Agora, eu não sei o que é que Luísa Neto vai fazer. Eu, pessoalmente, se estivesse no lugar dela, acho que dizia: "Obrigadinho, mas se calhar continuo aqui na minha vida no Porto."

Aqui a tarde vais jantar.

É isso.

Alexandre, pra terminar, uma imagem publicada por André Ventura.

Uma imagem publicada.

No Dia de Portugal.

Exatamente.

Com André Ventura em cima de um cavalo, bandeira de Portugal numa mão, espada na outra.

Ora bem.

Vestido que nem um combatente.

Isso, dizendo: "Vamos lá, Portugal, lutar pela nossa enorme nação." Isto rapidamente, uns pontinhos rápidos. A minha primeira questão: enorme? Enorme. Já foi há algum tempo, mas ok, tudo bem, percebo a ideia. Agora, há lá coisa mais patriótica do que imitar o presidente dos Estados Unidos. Há lá coisa mais portuguesa do que fazer como o presidente americano, que constantemente usa a AI pra se retratar como uma grande figura histórica e, em princípio, nesse ato, tentar provocar uma discussão e que as pessoas falem de nós. Portanto, eu, neste caso, faço a vontade, esse ato patriótico, e vou comentar. Esta coisa do assumir o Deus, pátria, família, pelo visto assumidíssimo, está lá em inscrição na imagem.

Já nem tem o trabalho, que era uma coisa que acrescentava sempre.

É verdade. Acho que o André Ventura e o Chega, se estão disponíveis pra assumir isso numa brincadeira, têm que assumir isto até o fim. Sim, senhor. Portanto, o nosso mantra é o da ditadura, vamos lá falar disto. Não sei. Ou eu quero da ditadura só o mantra? Não entendo. Acho que vale a pena perceber isto melhor Queremos uma polícia política que defenda isto e que persiga quem não defenda Deus, pátria, família? Queremos acabar com as eleições? Vamos lá perceber. Depois, eu acho que aproveitar para retocar a sua imagem, convido os ouvintes a irem ver a imagem, André Ventura está um bocadinho aperfeiçoadinho. Este cuidado de maquilhar. Apetece-me usar uma palavra que André Ventura às vezes diz. Não sei se estes cuidados, eu não vou dizer. Veja lá, que insegurança é esta, se é que há aqui uma insegurança que o leva a precisar deste trabalho estético. E depois, e era por aqui que eu chegava à história, que é: já que nos vamos meter com a história, ele retrata-se como um cruzado, basicamente, aparece ali como Dom Afonso Henriques, com a bandeira da República. Eu precisava de algum rigor aqui. Se é a bandeira do Columban, Bordalo Pinheiro e do Afonso Costa, nas mãos de Dom Afonso Henriques, tem algumas incongruências, não sei se históricas, se isto funciona, se isto provoca algum curto-circuito ou não na cabeça de André Ventura ou do criativo que fez isto. Há um erro ligeiro de 767 anos aqui. Lembro-me daquela que era no Ben-Hur. No Ben-Hur, ele usava o relógio de pulso. Perto disto, isso era rigor, o Ben-Hur com o relógio de pulso. E depois, terminava dizendo isto: o que me chateia mesmo é a quantidade de água e de energia que se anda a gastar para que algumas pessoas andem no ChatGPT a fazer desenhinhos egocêntricos com estas coisas. Eu só gostava de um cuidado, um recurso mais parcimonioso aos recursos comuns antes de fazer isto. Ainda há bocadinho tive que ir levantar dinheiro, fui a um daqueles restaurantes onde já não aceitam Multibanco e voltei-me a lembrar no ATM diz: "Antes de imprimir este talão, pense no ambiente." André Ventura, antes de fazer a sua próxima brincadeira no ChatGPT, pense no ambiente.

Fica o apelo. A fechar a semana, Alexandre Borges, Nuno Gonçalo Poças e José Eduardo Freitas, obrigado por participarem nesta edição do "You investor".