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Nada lhe dá mais prazer do que calçar as sapatilhas para ir treinar. Pratica atletismo há mais de 30 anos, se não falha aqui as contas. Sempre soube que queria ser atleta, feliz, concretizado, especialista em triplo salto, embora também pratique salto em comprimento. É competitivo, exigente consigo próprio. Adora o gaming, mas confessa que tem alguma dificuldade em desligar. Hoje, Nelson Évora, em 40 minutos aqui na Rádio Observador. Nelson, bem-vindo.
Bem-vinda, muito obrigado.
Obrigada por teres aceitado o convite. Eu sei que é sempre muito difícil a tua agenda, não é?
É.
Porque tu estás quase sempre em Espanha a treinar. E quando vens, se calhar, também tens muito para fazer, nomeadamente para matar saudades da família, dos amigos.
Sim, eu aproveitei uns dias para vir para estar com a família e amigos, mas na realidade tive que treinar muito na mesma. Eu achava que ia ter muito mais tempo e não tive tanto tempo, mas tudo se arranja.
Tudo se arranja.
Tudo se arranja.
Há pouco, ainda antes de estarmos aqui em estúdio, estávamos ali em off a falar que tu sentes que as pessoas não têm noção do quão exigente é o atletismo, a preparação.
Sim. Embora já há muitos anos para cá, alguns atletas tentamos mostrar a nossa realidade, eu acho que para o público, comparando com outros desportos como futebol, que existem n documentários, o ténis, atualmente Fórmula 1, é uma febre agora com Fórmula 1. Quando eu tinha oito anos, nove anos, havia febre da Fórmula 1, mas fazia parte da cultura desportiva naquele momento. Depois houve um desinteresse completo e atualmente voltaram a investir neste tipo de comunicação, Netflix, documentários e outras plataformas que as pessoas aderem muito, porque já as têm e acabam por ver. Naquele dia: "Já vi tudo, deixe-me ver este documentário sobre K1"
Sim.
E estes desportos têm trabalhado muito bem essa parte de dar a conhecer um pouco da realidade dos seus melhores protagonistas e verem que não é fácil. E no atletismo, tirando o Usain Bolt, que fez dois ou três documentários e era um atleta supertalentoso, se calhar o mais talentoso de sempre do desporto do atletismo. Ele comunicou que ele o que queria era retirar-se, reformar-se para poder curtir a vida. Não mostrou realmente aquilo que é a essência do atletismo, que são anos e anos a semear e a trabalhar, sem saber se realmente vamos lá chegar.
Sacrifício é a palavra de ordem?
É, sem dúvida. É muito sacrifício. E não temos garantias de absolutamente nada. Por isso, o público não conhece isto. Acha que temos sempre uma garantia de alguma coisa. Se algo correr mal, na realidade não temos.
E que sacrifícios é que foi preciso fazer?
Todos, aqueles mais simples, imaginários, desde deixar de ver família durante n tempo, deixar de ir a casamentos, deixar de ir a batizados, deixar de ir a festas de anos, estar longe.
Estar longe da mãe durante 20 anos ou mais de 20 anos.
Estar longe de toda a gente.
Mas esse foi um dos maiores sacrifícios?
Sim, também posso dizer que foi. Porque ou era estudos ou era atletismo e este ciclo, ano após ano, quando nós olhamos para trás, já passaram 10, 20 anos. Mas muitas mais pessoas que estavam perto de mim, eu percebi que realmente eu não tenho estado com estas pessoas, porque eu estou sempre em loop. Imagina, a época do atletismo, o período competitivo começa em janeiro e termina em setembro. Início de setembro. Início de setembro, toda gente começa a trabalhar. Ok. Podemos ter ali uma semaninha de férias em março, que é esta semana, e eu sei que não vou ter verão. E já toda a gente tem as suas férias de verão já planeadas.
Planeadas.
E eu não vou poder porque eu vou estar na época mais competitiva, mais importante da minha época. Então eu vou terminar a minha época, o verão aqui em Portugal já acabou, o tempo começa a arrefecer, toda a gente já está a trabalhar e eu digo: "Pessoal, eu estou de férias, bora fazer alguma coisa."
E agora? Exato.
Agora não posso. Agora só tenho folga daqui a 10 dias ou sei lá, é sempre as mesmas desculpas. E isto ano após ano, eu me apercebi que eu não estava com as pessoas durante muitíssimo tempo. Eu ia falando com as pessoas, mas estar assim como nós estamos aqui tranquilos, uma boa refeição na conversa, sem tempo, sem pressas, sem preocupações, que no dia seguinte tem que ir para a cama cedo, tem que trabalhar, já não estava há muito tempo. E apercebi-me que teria que fazer mais por mim, porque é por mim que eu tenho que fazer, tenho que estar com essas pessoas, tenho que arranjar tempo para essas pessoas e para mim. Mas o tempo voa. Eu já tenho 31 anos de atletismo, 20 ao mais alto nível. Então acaba por ser: "Já passou assim tanto tempo?"
Imagina, às vezes em conversas com os teus amigos e se calhar quando eras mais novo e faz parte da vida, vão sair grandes jantaradas e tu não, não posso, focado, porque amanhã-- alguma vez tiveste aí essa luta do: "Eu não sei se quero isto para a minha vida", ou sempre definiste: "Não, é isto mesmo que eu quero. Sei que tenho que levar para frente. Custa, mas é isto que eu quero."
Eu costumo dizer e vou repetir: para mim nunca foi tão difícil, porque antes de lá chegar eu já era apaixonado por atletismo. Eu devorava tudo o que fosse atletismo. Tinha cassetes, punha as cassetes para trás, gravava provas, revia as provas, analisava movimentos, experimentava, brincava na rua.
Ou seja, sempre soubeste que querias ser atleta.
Eu adorava brincar ao atletismo, se assim posso dizer. Depois eu tornei-me profissional de atletismo. Então para mim nunca foi tão difícil, porque o meu tempo investido naquilo que era a minha paixão sempre surtiu logo um efeito imediato, porque eu tive sempre muito bons resultados. Eu ganhei medalhas. Para dizer o quê com isto? Eu admiro é quem nunca lá chegou e continua. Esses são os verdadeiros heróis desta caminhada.
Que fazem os sacrifícios, mas não conseguem ver os resultados.
Nem a nível monetário, nem a nível de resultados. Ainda chegaram, estão perto. E é sempre: "O próximo ano vai ser melhor". E vão passando dois, três, quatro, 10 anos, 15 anos e já não são os jovens, já não têm 20 anos. "Ah, é um jovem atleta." Não. Assim que o atleta faz 31 anos já é cotado como já velho, já está em fase final da carreira. E nós sentimo-nos ainda jovens, porque "o próximo ano é que vai ser". Para mim, eles é que são os verdadeiros heróis. Nós, os que conseguiram realmente ganhar medalhas, têm o sacrifício ali: "Está aqui a medalha, eu consegui isto. Eu consegui duas, três, quatro, cinco." Embora eu seja apaixonado, eu digo, para mim nunca foi tão difícil, porque eu sei o que eu tive que fazer para lá chegar e consegui lá chegar. Se eu nunca tivesse lá chegado, aí é que se viveria entre a procura do sucesso, do meu sucesso, e a frustração de nunca ter chegado. E muitos deles acabam com este sentimento, acho eu, de frustração.
Já falámos aqui superficialmente da sua mãe, mas qual é que foi o papel do seu pai na carreira que conseguiu construir?
O meu pai era uma pessoa supercarinhosa. Embora não me dissesse diretamente, mas através de outros detalhes. Tanto o meu pai como a minha mãe deram-me sempre a liberdade de eu escolher para fazer aquilo que eu mais amasse. Sem dúvida, tinha a obrigação, enquanto jovem, de terminar a escola, o 12.º ano e depois a faculdade. E aí eu tive que negociar com eles entre escolher o caminho acadêmico ou ser profissional. E eu estava num ano muito importante, que era 2004. No ano anterior, eu tinha sido duplo campeão europeu de juniores, no salto em comprimento e no triplo salto. E eu faço sempre um relatório no final da época, eu fazia na altura já: "Mãe, o que eu posso fazer mais aqui no atletismo? O que eu tenho em mãos? Ou vou aos Jogos, ou sigo a minha vida acadêmica e deixo o atletismo." E eu pedi à minha mãe: "Olha, eu chumbei a Matemática, tenho que fazer três disciplinas, vou ter muito mais tempo. Deixa-me dedicar-me 100% a isto." A minha mãe nem pestanejou, disse: "Claro, eu acho que deves seguir aquilo. Isso já está quase feito, também não é tão difícil assim. Por isso, dedica-te." E nesse ano eu descurai completamente. Fiz, terminei o 12.º. Se me perguntares se eu me lembro dos meus cadernos, de absolutamente nada.
Já não era para ali que estava o foco.
Não, foi completamente. É quase como a realidade nos Estados Unidos, eles acabam a vida acadêmica, a universidade. Eu naquele momento disse: "É agora ou nunca. Ou vou aos Jogos ou desisto disto." E eu dediquei-me de setembro até janeiro. Eu em janeiro já tinha os mínimos para os Jogos Olímpicos. Em muito pouco tempo de investimento no atletismo, eu consegui fazer aquilo que muitos demoram oito anos, 10 anos para fazerem mínimos. E eu fui aos Jogos Olímpicos. Depois tive um pequeno percalço, lesionei-me e acabei por não ter o resultado que eu queria. Aqui está um pequeno à parte: na altura nem a Federação Portuguesa nem a equipa técnica me queriam levar porque eu estava embaixo de forma. E eles me fizeram uma pergunta.
E isso em que ano?
Em 2004. Disseram-me: "Nós, Federação, vamos te levar, tens que nos explicar porquê." E eu, na altura, já tinham dito que eu não estava em forma, porque eu tinha tido um problema, uma fratura de estresse no pé, não tinha podido completar todos os volumes de treino que deveria ter feito para chegar lá em boa forma. E na altura eu lembro que eu virei-me para o presidente Fernando Mota e disse-lhe nos olhos, quase a chorar: "Se me levarem aos Jogos Olímpicos para eu ganhar experiência neste ano, nestes Jogos Olímpicos", que eram os meus primeiros.
Eram os de Atenas?
De Atenas. Eu disse-lhe: "Não se vão arrepender nos próximos." E mal sabia que ia ganhar os próximos. Eu fui aos Jogos Olímpicos, foi no segundo dia a minha prova, não passei, fiquei em penúltimo lugar E saí de lá com uma frustração, uma crise existencial enorme. E durante três ou quatro anos, eu acho que foi dos Jogos Olímpicos de Atenas até aos Jogos Olímpicos de Pequim, eu nunca fiz férias. Eu fiz tudo seguido. Treinei. E quando cheguei aos Jogos, eu tinha tido a experiência de ir aos Jogos Olímpicos, de sentir o espírito olímpico, de divertir-me nos Jogos Olímpicos. E quando cheguei aos Jogos Olímpicos que eu era um dos favoritos, embora não o viam assim, eu sabia que era um dos favoritos, para mim eu era um dos favoritos.
Já voltamos, se calhar, um pouquinho a esta questão, mas eu gostava de recuar aqui um pouquinho à parte da infância. Veio para Portugal com que idade?
Eu vim com sete anos.
Com sete. De quem é que foi a ideia? Foi do seu pai?
Fazer atletismo?
Não, de vir para Portugal.
O meu pai é cabo-verdiano. Ele trabalhou toda a vida dele. Ele viveu um pequeno período da adolescência dele no Senegal, depois foi para Costa do Marfim para trabalhar.
Foi onde ele nasceu?
Foi onde eu nasci. Mas o meu pai, trabalhando num país de ex-colônia francesa, sendo cabo-verdiano, foi-lhe dado a escolher para onde é que ele queria que fossem as poupanças dele, para onde é que queria aquilo que ele ganhava. E ele escolheu, claro, Portugal. Ele disse: "O meu dinheiro vai para Portugal." Na altura tinha passaporte português, antes do 25 de abril, e todos os investimentos dele sempre foram em Portugal. Ele tinha duas casas aqui em Portugal. Então quando ele realmente faz 50 e poucos anos, eu era muito novo. Ele começou a trabalhar com 16 anos. É-lhe dada a reforma. Obrigaram-no a ter a reforma. Disseram: "Você tem que vir para a reforma, já tem muitos anos de casa, já não lhe podemos pagar mais." E o meu pai, por mim, resolveu vir para a Europa para ter uma educação e ter oportunidades diferentes do que aquelas que se têm em África.
Veio só com ele?
Não, vim com a minha mãe e com a minha madrasta, neste caso, que era a mulher do meu pai, que eu trato por mãe. E foi aí que eu fiz o meu percurso, de estudar em Portugal. Para mim foi um grande choque na altura, embora fosse muito novo. Falava francês, percebia crioulo, língua de Cabo Verde, mas não falava absolutamente nada de português. E atrasaram-me um ano porque eu tinha que aprender em três meses a falar até voltar para a escola. Então fui aprender o português. Frio, que eu não estava acostumado. O frio do inverno. E é das poucas coisas que eu me lembro, é o frio. Sou uma pessoa muito friorenta. Hoje em dia já nem tanto, que agora vivo num país ainda mais frio, que é a Espanha. Mas foi um bocado duro no início, mas graças ao destino, vim viver para um prédio em que em todos os andares havia um miúdo da minha idade.
Onde é que era esse prédio?
Em Odivelas. E a partir daí, a integração foi bastante fácil, bastante rápida. E pronto, falar português foi em um mês e tal, dando calinadas na gramática. Ainda hoje existem piadas familiares de coisas que eu dizia, misturava francês com português e crioulo no meio. E foi assim, foi bastante natural, embora eu tenha sentido, já me lembro de como foi, mas posso dizer que tive sorte, até aí tive sorte.
Já falaste da tua mãe, do teu pai e também já falaste dos Jogos de Pequim. Como é que se prepara uma participação olímpica, neste caso, e estou a falar dos Jogos de Pequim 2008, com a informação de que o teu pai tem três meses de vida?
Para mim foi uma mistura entre o maior pesadelo, porque eu e o meu pai éramos muito próximos. E para mim foi um momento agridoce. Eu vou outra vez a uns Jogos Olímpicos, no estatuto que eu sempre sonhei na minha vida. Desde miúdo eu via os Jogos Olímpicos na televisão e eu sonhava com aquilo. E eu estou onde sempre lutei para estar e tenho a pessoa que mais conexão tenho neste momento, toda a minha vida, às portas da morte. Então foi bastante dramático, eu posso assim dizer. Era das tais coisas que se fosse feito um documentário mesmo sobre esse momento, as pessoas iam ver o quão pesado foi e o quão roubo eu tive que ser. Eu não pude desfrutar realmente desse momento. Não sei se vocês já tiveram algum ente querido diagnosticado com uma doença assim tão forte. Os médicos para mim são espetaculares, o que eles fazem, ter a vida de uma pessoa nas mãos e conseguirem salvá-la, eu acho que são os verdadeiros super-homens da nossa sociedade. Mas em termos de sensibilidade humana, são as pessoas mais frias, também para se terem que proteger. E a forma como foi dito naquele momento em que eu venho de estágio do Algarve, vejo o meu pai naquele estado, levo o meu pai ao hospital. Obriguei-o. Eu disse que não ia treinar mais, não ia comer mais, se ele não fosse ao hospital para ver o que é que ele tinha. E ele foi ver. E o médico depois de fazer os exames e tudo, as análises e tudo, disse: "O seu pai tem um "O seu pai vai durar três meses e vamos lhe operar."
Com esta frieza?
Com esta frieza. O meu pai era muito sensível. E ele deixa a pior notícia de todas pra eu dizer ao meu pai. Eu no corredor e o meu pai dentro do quarto a olhar pra mim e eu levei literalmente um soco no estômago e agora aguenta. Eu tive que ter uma conversa com meu pai ali, não foi fácil. Não lhe disse realmente o que ele tinha, disse que era grave e fiz lhe prometer para que me dissesse: "Pai, olha, vem o pior momento das nossas vidas, mas eu quero que tu me prometas uma coisa. Eu quero que tu me prometas que vais lutar mesmo, porque eu sei que tu és forte." Eu nunca vi o meu pai ter uma constipação. Imagina passar de não ter uma constipação a um cancro do pâncreas. Eu fiz-lhe prometer que ia lutar com unhas e dentes. Eu disse: "Eu preciso de ti, mas eu trago-te a medalha de ouro. Eu trago-te a medalha de ouro e tu lutas." E foi com esta que eu fui. Eu tive que deixar meu pai no hospital e a partir deste momento, eu digo-lhes uma coisa, como eu vos disse, eu tenho nuvens com muitas fotos e tudo. Eu tenho que ver pra me colocar nessas situações e recordar, porque eu estava num modo de transe tão alto. Eu estava em muito boa forma também, verdade seja dita, mas a minha memória pra captar coisas pequenas, detalhes, belezas que nós normalmente desfrutamos, a 7.000 pés ver o pôr do sol, não me lembro de absolutamente nada. Não me lembro da viagem pra lá. O meu antigo treinador, eu lembro dele dizer, eu dormi a viagem toda, eu não me levantei uma única vez. Eu posso assim dizer, eu entrei no modo de transe profundo.
E o seu pai ainda viu a medalha ou não?
Meu pai viu-me ganhar a medalha, porque a equipe de enfermeiros meteu a televisão pra ele me ver ganhar a medalha, e disseram que exatamente nesse momento ele começou a melhorar. Ele durou mais dois anos e meio a lutar contra esse cancro. Pra mim, a medalha foi pra ele mesmo e valeu mesmo a pena, porque ele mudou a postura dele, ele começou a lutar e ainda hoje, a medalha é dele. Eu tenho a medalha em casa, mas eu dei-lhe a medalha, disse: "Está aqui a medalha." E aí é que eu vi o orgulho que ele tinha em mim, porque ele mudou tudo, ele mostrou alegria de viver. Eu nunca tinha reparado em certos pequenos detalhes, porque eu estava sempre muito mergulhado no meu trabalho, viajar, competir e treinar. E nesses dois anos e meio, 2009 foi um ano que eu não tinha vontade de competir. É um ano pós-jogos olímpicos, muito sucesso, muita fama, muitos trabalhos, muita fotografia, muitos autógrafos. Eu queria ficar em casa. A minha maior vontade, o momento que eu mais gostava, era ficar em casa e se tivesse uma pandemia naquele momento, pra mim era a melhor coisa. E eu posso dizer que eu sou sortudo, porque eu desfrutei, a partir desse momento, desfrutei de todos os momentos com meu pai, e foi espetacular. Por isso eu cumpri, ele cumpriu e posso dizer que já o conhecia muito. Mas nesses dois anos, se assim pode ser, porque depois houve seis meses de muito sofrimento final, foi espetacular. Contar-me histórias que eu já sabia, mas muito mais detalhado. Fiquei a conhecer realmente as minhas raízes. As nossas raízes estão nos nossos pais.
Completamente. Sentes que como campeão olímpico, tens a responsabilidade de ser um exemplo para os portugueses?
Já me preocupei muito mais em ser um exemplo, não me preocupo mais. Mas eu sei que quando nós atingimos certo estatuto, somos um exemplo, e temos que ser esse exemplo. E tem que ser de forma mais natural. Se realmente podemos ser um exemplo, temos que ter a noção daquilo que somos, daquilo que podemos dar à sociedade. Por isso, já me preocupei muito noutros momentos em ser esse exemplo. Não é algo que me preocupe neste momento, porque já está tão enraizado em mim, em ser a melhor pessoa possível. E se realmente isso for um exemplo pros outros, que seja. E o melhor que eu posso receber, a melhor medalha, o melhor reverso das medalhas que eu ganhei, se assim posso dizer, é esse respeito das pessoas, me verem como um exemplo e esse carinho, porque como eu sempre disse, eu sempre fiz tudo com paixão, sempre me entreguei com o máximo de paixão e poder ser um exemplo é bom, mas exige muito. Mas o mais importante é que seja o mais natural possível. Não temos que pensar nisso. Eu acho que ou somos ou não somos. E eu digo isto porque os meus pais me prepararam pra ser o melhor ser humano possível, mesmo com os meus defeitos todos que eu tenho, sou superteimoso.
Conta lá tudo.
Sou superteimoso. Mas eu não vejo isso como teimosia. Aprendi com meu pai, não tenho problemas em pedir desculpa. Não tenho problemas em perdoar quando erro, em pedir perdão ou em perdoar as pessoas quando erram comigo. Porque acho que não há tempo a perder. Estamos cá por tão pouco tempo, não temos que guardar rancores nem nada. Acho que as coisas têm que passar e temos que seguir a vida para nós próprios. E eu, como ser humano, tento ser a melhor versão de mim mesmo, e falo muitas vezes isso com amigos, com família. Mas depois do estatuto que eu ganhei, se isso puder ser um exemplo, que assim seja. Eu vou tentar ser o Nelson que sempre conheceram. Há pessoas que me conhecem toda a vida, desde que cheguei em Portugal e este fim de semana passado estive num cross, numa corrida de corta-mato em Santo António dos Cavaleiros. Foi-me feita uma homenagem, uma caminhada Nelson Évora, e revi pessoas que, eu sendo muito novo, já corriam, já iam às provas, já levavam os miúdos às provas, já influenciavam muitas pessoas a praticar desporto.
São os tais que também nunca desistiram.
Continuam lá. Para mim foi espetacular rever toda a gente e sentir isto, porque vocês não me conhecem desde sempre. Eles me conhecem desde sempre.
Claro.
E há uma coisa tão boa de sentir, que é o olhar deles nunca mudou quando olham para mim. Quando eu era miúdo, eles olhavam para mim com carinho, amor e admiração, e eles continuam a ter aquele olhar. E foi tão bom sentir isso para mim.
Mas isso é porque tu também continuas igual. Eles veem.
É difícil. E a verdade é essa. É difícil continuarmos. Levamos tantos golpes com a fama. Quando atingimos um estatuto, levamos tantos golpes que é difícil isso não mudar.
Eu estava a dizer que tu continuares igual, porque, e nós sabemos exatamente, com a fama, com tanta medalha, há pessoas que se deslumbram e que às vezes acabam por mudar. Mas como tu estavas a dizer, e eu também acredito muito nisso, vem do berço, da educação
Sim, sem dúvida
Da família, dos pais, dos valores que tu nunca perdeste, por muito que já tenha passado.
Não mesmo. E eu sei que o que me fez chegar lá foi mesmo estes valores. Se não tivesse tido este berço, nunca teria lá chegado. E as pessoas que realmente mudam, eu acho que são pessoas que nunca tiveram a verdadeira noção do porquê que fazem aquilo. São muito boas a fazer aquilo. E as pessoas que realmente deixam o sistema mudar-lhes é porque não sabem quem são.
É o que mais te irrita nas pessoas?
Eu acho que é o mais triste nisto da fama. As pessoas realmente não se conhecerem, não saberem aquilo que gostam, aquilo que é importante, aquilo que é uma prioridade e aquilo que realmente interessa nesta vida. E as pessoas que se deixam mudar por momentos de fama.
Não consegues entender?
Eu consigo entender, mas são pessoas ocas. Eu vejo-me assim, eu espero um dia ser pai, eu espero um dia influenciar jovens a fazer desporto, eu espero continuar ligado ao desporto.
Já influencias.
Já influencio, sem dúvida, não como atleta, mas como seja lá o que for. Eu quero fazer parte da formação do atleta e da pessoa. E isso sim, são exemplos desses que nós temos que seguir. Não é só o grande atleta, mas depois fora da pista é uma pessoa super arrogante, é uma pessoa que não tem empatia com uma criança que olha para ela com admiração.
Ou seja, estamos a falar de valores dentro e fora.
Sem dúvida. A pior coisa que me pode acontecer, que já me aconteceu em grandes competições, é um amigo meu, uma pessoa que eu admiro muito, uma pessoa que eu considero meu amigo, ou mesmo se não considerar meu amigo, é um ser humano, lesionar-se à minha frente. É a pior coisa que me pode acontecer. Por isso, tive que criar aqui certos mecanismos. Eu estou na prova, mas não estou a ver nada, porque eu não quero que nada me influencie. Trabalhei para aquele momento. Já me aconteceu deixar-me influenciar por um acidente de trabalho e senti-me frustrado. Eu treinei tanto para isto e senti-me tão vazio durante a prova, preocupado se a pessoa estava bem. Eu acho que não está documentado, mas na realidade nota-se quem realmente se preocupa com a competição e o que são as prioridades.
Vamos continuar precisamente a falar de competição. Pedro Pablo Pichardo é uma espécie de sucessor do Nelson Évora no atletismo português. Está tranquilo com isso ou estás tranquilo com isso?
Eu estou. Aliás, encontrei uma foto muito engraçada há pouco tempo, numa das nuvens que eu tenho estado a organizar. Uma foto em que, em 2015, nós demos a volta de honra ao estádio juntos, ele ainda representando Cuba. E a conversa que nós tivemos foi super agradável, embora a imprensa portuguesa tenha feito aqui o bom e o vilão para vender mais. E eu olhava para aquela foto e dizia: "A vida dá voltas incríveis". E eu acho que é bom haver sucessores, é bom saber que somos uma referência. É bom saber que mesmo que não seja Ele tem resultados melhores do que eu, já conquistou os maiores títulos que eu já conquistei, mas é bom saber que outros virão e isso será uma referência para eles.
Mas na altura a troca de palavras foi muito acesa quando te lesionaste nos Jogos de Tóquio. Disseste que se cruzasses com o Pichardo, não o cumprimentarias.
Eu nunca disse isso.
Foi citado pelo menos em alguns órgãos de comunicação social.
Eu nunca disse isso.
Fica aqui a tua reposição.
As pessoas-
Mas já conversaram depois do que aconteceu?
Não, porque ele nunca me cumprimentou. Já disse isso várias vezes. Eu sempre fui super educado com ele e com o pai dele. E não sei se foi por assumirem as dores de outras questões clubísticas. Deixou de me cumprimentar e eu não tenho que correr atrás de ninguém, eu sou educado para toda a gente. Se eu sou educado para quem eu não conheço, por que não hei de ser educado para um colega meu de trabalho?
Mas mantêm-se as críticas à rapidez do processo de nacionalização?
Eu acho que a imprensa aproveitou-se disso para criar aqui uma história, uma rivalidade. E eu nunca disse que não. A única coisa que eu disse, e eu fui crucificado e sofri bullying a sério, e as pessoas olharam torto para mim por aquilo que eu nunca disse. Eu nos Jogos Olímpicos de Tóquio, eu lesionei-me. E eu vou vos dizer uma coisa que eu vou guardar para sempre e recordo-me mais vezes disso do que a minha própria medalha de ouro. Aquilo foi mais valioso que a minha medalha de ouro. Eu lesionei-me e todos os meus adversários vieram me abraçar e cumprimentar, dizendo coisas para mim super humanas. Dá-me um orgulho enorme. "Eu aprendi a saltar triplo salto com os teus vídeos."
E o Pichardo não.
"Eu aprendi a ver, eu queria ser como tu." Eu era a referência deles. Em algum momento da vida deles, eu fui a referência deles. E isso fez-me chorar, porque eu estava cheio de dores pela lesão.
Mas por outro lado sentias esse carinho.
E eu senti o carinho de todos.
Mas do Pedro Pichardo não sentiu esse carinho.
Esperem. E quando eu saí do estádio, eu disse isso ao jornalista. E o jornalista perguntou: "E o Pichardo? Disse-lhe alguma coisa?" Eu disse: "Não, não me disse, mas a vida é assim. Hoje não diz nada, amanhã pode ser que diga. Hoje estamos em cima, amanhã estamos embaixo. A vida encarrega-se de nos dar as maiores lições de vida." Foi a única coisa que eu disse. Eu nunca disse que não falava com ele ou que ele era isto ou aquilo.
Mas nunca considerou que o processo de nacionalização ou naturalização de Pichardo foi mais rápido e, portanto, há uma citação sua que é feita várias vezes, que é: "Eu tive de esperar 11 anos pela nacionalidade." Naquilo que se entendia uma crítica ao Pedro Pablo Pichardo, cujo processo foi muito mais célere. Creio que durou alguns meses, apenas.
Não acho justo. E vou continuar a não achar justo. Como existem N atletas que ainda estão à espera da nacionalidade.
Mas não é melhor que seja assim, que seja mais rápido do que demore tanto tempo, como demorou na altura do Nelson?
Mas tem que ser igual. Aqui a questão é a igualdade da oportunidade. Não faz sentido termos uma atleta como a Ágate, que é de São Tomé, e a colega, que não têm nacionalidade e têm que andar a binchar a nacionalidade. É uma ex-colónia portuguesa. E são atletas que podem fazer resultados espetaculares.
Sentes que há uma dualidade de critérios, é isso?
Elas só querem, e eles só querem uma oportunidade. Então que seja dada da mesma forma. Foi o que eu disse. Eu tive que esperar 11 anos. Não achei justo.
Eu prometo que vou já passar este tema porque a carreira do Nelson é muito mais do que isto. Mas houve também críticas no sentido de, há também outra frase que é: "Estou aqui a dar uma entrevista em português e não é preciso pôr legendas. Todas as minhas vivências são daqui, expresso-me em português, escrevo e falo em português, andei na escola portuguesa." Mas acha que isto deve ser considerado como uma vantagem para um atleta ser português ou deve ser um plus para que um atleta consiga ser português?
A única coisa que eu quero é igualdade da oportunidade. Um atleta vem, faz o seu pedido de interesse à nacionalidade, é analisado o caso, é visto que o atleta tem interesse em ficar no país, como qualquer estrangeiro que venha para Portugal, tem que viver cinco anos, tem que ter o papel de residência durante cinco anos. Aqui é uma questão de esporte. Cinco anos é muito tempo para um desportista. Eu entendo que seja três meses, mas que seja três meses para toda a gente. Não que seja 10 anos por um atleta, porque realmente não teve a mesma oportunidade ou não teve as mesmas cunhas, mas para outro atleta, por uma questão clubística.
Pedro Pichardo teve uma cunha.
Teve. E é isto que eu fui sempre contra, porque as pessoas acham que eu estava a dizer isso porque não é tão difícil de lá chegar. E desculpem, eu não tenho papas na língua. Não é à toa que o Pichardo está em Portugal.
Mas teve uma cunha?
Houve um triplo saltador que fez coisas que eu fiz e tive que sair de um clube para substituir. Mas Nelson Évora vai ser sempre Nelson Évora. Nem eu próprio tenho a noção daquilo que eu fiz. Eu às vezes tenho que olhar duas vezes para trás e recordar as coisas assim: "Mola, eu já fiz isso tudo?" Nunca vou ter a noção das coisas que eu fiz.
Calha estarmos a falar numa semana em que Pedro Pablo Pichardo ganhou mais uma medalha de ouro nos Europeus de Pista Coberta na Turquia. Está feliz com isso?
Eu estou muito feliz. Eu prefiro que as medalhas venham para Portugal Do que sejam para outros países. Ficamos em sexto lugar na tabela de medalhas, mas a realidade é que sexto lugar à frente de Espanha e à frente de França, não espelha a saúde desportiva do atletismo. É tudo uma fachada, porque tudo o que está abaixo disto é oco. Não temos jovens a surgir no encalce do Pichardo, no meu encalce. Não temos. E nem temos incentivos para isso, nem temos referências para isso. Em todas as áreas, neste caso. No triplo temos, mas não temos um sucessor. O Pichardo não tem um sucessor. Temos o Tiago Pereira, que já é um atleta com 29 anos, espero que ele salte. Ele treina comigo agora e eu digo: "Salta, eu quero que tu saltes." Mas a seguir a ele, não temos um jovem júnior que esteja a saltar 16 metros, que possamos dizer: se ele salta 16 metros em júnior, quer dizer que ele vai saltar 17 metros em senior. Se ele saltar 17 metros, pode ser que ele ganhe uma medalha, muitas medalhas. Não temos. Eu fico contente que ele traga, mas isto espelha o quê? Interesse de quem? Foi o interesse de quem? Quem lucrou com isso? Foi Portugal? Claro, a curto prazo. O investimento foi feito a curto prazo. Foi comprado um atleta para poder ter resultados a curto prazo.
Comprado é uma palavra forte.
Mas é. Porque temos atletas que chegaram antes do Pichardo, que ainda não têm a nacionalidade. Eu dei aqui uma referência exata. Não pode acontecer isto. Eu sei que amanhã vão estar outra vez nas minhas redes sociais a massacrar-me, mas não pode. Eu não tenho nada contra ele, eu nunca tive nada contra ele. Eu estudei 11 anos em Portugal, eu optei não competir por Cabo Verde, não competir por Costa do Marfim. Até me senti envergonhado quando dou de caras com eles, com as federações das minhas origens, eu baixo a cabeça como dizendo: "Eu não quis competir por vocês." E são as minhas raízes. Eu não quis, porque eu vim para cá com seis anos e é isso que estamos a falar hoje. O que eu sei sobre Costa do Marfim? Não sei nada. O que eu sei sobre Cabo Verde? Sei, porque eu tive em casa duas pessoas cabo-verdianas que me deram educação baseada nos valores da terra. À parte disso, todos os meus amigos são portugueses, tudo aquilo que eu adquiri é de Portugal. E quando foi dado a escolher, em grande frustração, como juvenil, eu recusei-me. E fui criticado na altura: "Mas tu recusas-te por quê?" "Porque não me vou sentir bem a vestir uma camisola de um país que eu não me sinto."
Vamos avançar, até porque, Nelson, já também introduziste aqui e já falaste das redes sociais.
Sim, sem dúvida.
Queria só dizer mais alguma coisa para fechar?
Eu só queria dizer que as pessoas têm que perceber e deixar de atacar sem perceber o contexto ou aquilo que leem, porque eu nunca ataquei. Eu quando disse isso foi porque me equipararam a este processo e eu nunca passei por isso. Eu fico extremamente ofendido quando dizem que também me deram. Eu lutei muitos anos, eu passei muitos anos em embaixadas, em registos centrais, com o meu pai. Vocês já viram À Procura do Will Smith?
Sim. Que filme.
Parte desse filme faz-me lembrar a minha infância. Eu nunca faltei às aulas. Eu faltei às aulas para tratar de documentos. Eu saía de casa às 04h30 da manhã para tirar senha nos registos centrais. Por isso, eu sinto-me super ofendido quando dizem: "Tu também." Eu sou uma pessoa mais brincalhona, mas são coisas que me ferem.
Mexem contigo.
Eu digo: "Como é que as pessoas podem dizer isto?" Mexe comigo. Eu digo: "Não!" Eu já vos disse, sou carneiro, sou teimoso, não aceito e nunca vou aceitar. E é de morrer, eu vou dizer: "Não é a mesma coisa." São três meses. E eu cumprimento todos os responsáveis e digo assim: "Graças à vossa cunha, mudaram uma coisa, que agora o atleta não tem que esperar cinco anos, que é o processo de naturalização. Qualquer estrangeiro que vem para Portugal tem que esperar cinco anos para ter a nacionalidade. A não ser que seja fugitivo político ou esteja refugiado de guerra. Pronto. Ele não era nem uma, nem outra. Ele e outros muitos atletas, mas eu sei da realidade. A minha equipa, metade são cubanos e eles contam da realidade de Cuba. Cortarem a eletricidade e estar 40 graus dentro de casa. Não poderem matar uma vaca para comer e terem fome, porque se matarem uma vaca, vão para a prisão. Eu acho muito bem o que ele fez. Quando fala dele, fala de todos que deram. Agora, deem oportunidade aos outros, por favor. É isto.
Igualdade.
Igualdade. Estamos numa época de igualdade, porque aquilo não é essa igualdade.
O esclarecimento está feito.
As pessoas atacam-me e resolvem me atacar.
Mas olha, ainda continua Atenção, agora introduzindo o tema das redes sociais, falamos cada vez mais abertamente. As redes sociais têm coisas maravilhosas, tu estavas a dizer e tens muita coisa para mostrar, e nós ansiosos, obviamente, que tu partilhes. Mas depois também tem o outro lado, o lado da exposição, o lado em que alguém que está do computador se sente com todo o poder para chamar e para dizer tudo o que apetece, pura e simplesmente porque não está frente a frente. Como é que tu lidas com essas mensagens menos positivas?
Eu vou ser muito sincero. Eu, durante muito tempo, afastei-me das redes sociais, tanto que as minhas redes sociais não são muito ativas. Afastei-me muito. E agora, pouco a pouco, vou fazendo coisas, porque tem que ser orgânico, tem que ser natural. Para cuidar de mim e voltar a sentir a essência daquilo que eu sou, daquilo que eu sempre lutei, daquilo que nós somos, nós portugueses somos. E acho que as redes sociais vieram camuflar muitas frustrações que existem por aí, muito ódio que existe por aí. Por isso, eu senti-me num momento em que eu estava a absorver esse ódio. Por isso é que eu te disse: ser o exemplo já não é aquilo que eu quero, não é aquilo que eu procuro. Eu procuro ser eu mesmo. Se servir de exemplo, que assim seja. Se as pessoas gostarem, se as pessoas quiserem replicar aquilo que eu fiz, eu vou me sentir superfeliz com isso. Quer dizer que eu tive uma boa conduta. A minha pessoa, meu lado esportivo e meu lado humano serviu de exemplo. E já sei que serviu. Que tenha servido de exemplo a uma pessoa, para mim, já valeu a minha existência, já valeu todo o esforço, todas as lágrimas, todas as operações que eu já fiz, todos os momentos de dor que eu já tive, todos os dramas da minha vida pessoal que eu tentei congelar para ganhar mais uma medalha, valeu a pena. Por isso, eu mais não posso fazer. Eu, neste momento, já estou em fase final de carreira. A única coisa que eu quero é desfrutar do meu corpo enquanto jovem atleta. E quando realmente deixar de ser atleta, eu acho que vou continuar assim jovem, já não vou ser jovem atleta. Porque um atleta tem que levar o seu corpo a 110%. E se nós não pensarmos como jovem atleta, não seremos capazes de recriar resultados espetaculares. Esta é uma grande verdade. Por isso eu estou aqui, eu tenho 38 anos e hoje cruzei-me com uns amigos meus que já têm 60 e 70 anos e eles tratavam-me como um atleta que já tinha terminado. E a verdade é que eu me sinto um jovem atleta, porque eu sou jovem. Eu consigo recriar tudo que eu fazia quando tinha 20 anos. Eu não consigo é recuperar tão rapidamente.
Claro. Ninguém consegue.
Mas aqui não é questão do recuperar.
Sim, eu percebi.
Aqui é recriar alta performance. E isso eu consigo fazer. Por isso eu sinto-me um jovem. E é isso que eu quero fazer até aquele dia que eu disser a meus amigos: "Foi um prazer."
Obrigado.
"Foi um espetáculo. Obrigado por me acompanharem."
E vemos por aí.
E esse dia já está marcado no calendário ou ainda não?
Na minha cabeça está.
Qual é que é?
Não vou dizer. Eu acho que é triste dizer.
Mas tens uma data?
Eu tenho.
Ok.
Eu não quero que as pessoas olhem para mim como se fosse a última. Eu não quero que compitam comigo como se fosse a última. Eu quero que compitam comigo como se fosse a primeira vez. Eu quero que as pessoas olhem para mim com a mesma vontade, mesma garra, mesma fé que olhavam para mim naquela altura. E quando nós dizemos: "É aqui", as pessoas dizem: "Então vamos dar uma margem de erro, porque já está na reta final." Eu não quero isso. Eu não quero esse olhar. Eu sinto muito o olhar das pessoas. Já falei disso aqui. Eu não quero isso. A fase que eu mais sofri foi quando eu me lesionei e parti a tíbia, e o olhar das pessoas me verem barbudo, cabeludo, descuidado em termos visuais, superdeprimido, a fazer uma recuperação superpesada, e as pessoas olharem do gênero: "O que este homem foi? O que ele é?" Porque a nossa maior vaidade é nosso corpo, fazermos as coisas que fazemos. Um atleta que parte uma tíbia passa muito mal. Foi o que eu passei. E sentir isso no olhar das pessoas, olharem e dizerem: "Isso já não vai dar". As pessoas falavam isso entre elas e eu ouvia. Aquilo era uma facada para mim. Eu dizia: "Mas porque eu estar embaixo quer dizer que já estou acabado? Não pode ser." Por isso, eu tenho esta postura e prefiro ter esta postura de não anunciar quando eu me vou retirar. Eu quero que as pessoas olhem para mim, eu quero que quando eu estiver qualificado para uma grande competição, as pessoas depositem a fé que elas têm em mim como sempre fizeram. "Bora, vai!"
E vai acontecer.
"Vou, Nelson, vou, Portugal. Bora, todos." É isso que eu quero. Eu não quero: "É a última vez, vamos voar." Não quero que as pessoas saibam que é a última vez. Eu quero desfrutar. Eu vou saber que é a última vez.
E só depois de acontecer é que tu aí depois decides comunicar. Quando esse dia chegar, depois de ter feito.
Eu quero que o momento de tristeza seja curto.
Já está.
Não é? Dizer: "É uma pena." Não quero que seja: "É uma pena."
Olha, e depois disso, obviamente, já pensaste Gostavas de ter um projeto ligado ao atletismo, uma escola?
Sim, gostava.
Sempre ligado, não é?
Eu gostava. Eu acho que é um desperdício tantos anos de atletismo serem desperdiçados. Toda a experiência que eu adquiri até hoje ser desperdiçada, fazer outra coisa qualquer.
Não podes desperdiçar e tens de pensar seriamente num documentário. Nós começámos em off a falar nisto, portanto acho que sai daqui, cheguem-se à frente, quem quiser, para realizar.
Eu posso dizer-vos isto com 100% de certeza. Seria algo espetacular, muito dramático e muito profundo, e eu sei que se as pessoas realmente soubessem da minha história, iria ser referência para todo o sempre na cultura portuguesa. Para além das medalhas, porque isto não é uma história sobre medalhas, é uma história da vida de alguém que lutou pelos seus sonhos, teve os seus dramas como qualquer outro ser humano, mas que sempre optou por fazer o melhor que podia para si e para todos aqueles que ama e para toda uma nação. E eu estou muito feliz hoje. Já disse isso há pouco tempo. Sinto-me uma pessoa muito concretizada por ter esse respeito a nível internacional e a nível nacional, das pessoas olharem para mim e dizerem: "Uau, espetáculo!". E é aí que eu vou tendo a pequena noção daquilo que eu fiz, porque como eu já vos disse, isto é um loop. Nós ganhamos uma medalha, metem-nos a medalha no peito, olhamos para ela, metemos dentro da caixa móvel, vem a próxima. E não há tempo para desfrutar.
Nada de saborear. Ficas logo a pensar na próxima.
Vem a próxima. Onde é que eu falhei? Será que eu posso saltar mais? Será que o meu corpo chega mais além? E é isto que nós fazemos no dia a dia. Desafiamos o nosso corpo a ir mais além.
Então dissemos tudo certo logo no início. Feliz e concretizado.
Super feliz e super concretizado.
Olha, e nós também. Muito felizes e concretizados.
Já passaram 40 minutos?
Já.
Mais até.
Vês? Eu disse que isto ia passar muito rápido, mas queremos muito agradecer o facto de teres vindo. Sabemos que normalmente neste tempo que tu vens, como dissemos no início, é muito para aproveitares para estares com a família. É sempre um tempo muito corrido e obrigada por teres arranjado um tempo para vir aqui à Rádio Observador.
Foi um prazer para mim sempre poder falar e partilhar a verdade, a minha verdade, sem dúvida, e partilhar um bocadinho mais também.
E olha, és uma referência.
Obrigado.
E acho que lês tão bem os olhos, acho que consegues ler os nossos olhos e sentes o nosso orgulho, carinho.
Acho que somos feitos de energia e temos que estar abertos para sentir a energia das pessoas. E é isso que eu procuro hoje em dia para ser uma pessoa mais feliz, completa e tranquila no meu canto.
Muito bem. Nelson, obrigada.
Obrigado.
Sigam o Nelson Évora nas redes sociais. Nelson Évora, hoje em "40 Minutos", aqui na Rádio Observador.