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Considera que, de alguma forma, se excedeu com o ministro das Finanças holandês?

Está a brincar comigo? Desculpe, é preciso-

Pergunto se acredita que a União Europeia ainda vai fazer o que é suposto, ou seja, emitir a dívida.

A União Europeia ou faz o que tem de fazer, ou a União Europeia acabará. Quanto ao senhor ministro da Holanda, se alguém se excedeu, foi manifestamente o que ele disse. Porque eu acho que é preciso as pessoas não terem a menor sensibilidade, a menor compreensão do que é esta realidade dramática que estamos, neste momento, a enfrentar, perante dramas que se vive em Itália com a dimensão que nós vemos, que se vive em Espanha, que se vive em todos os nossos países e que se vive também na Holanda. Alguém perguntar que o que é preciso é ir saber porque a Itália e a Espanha não têm condições orçamentais para enfrentar estas situações. A razão pela qual, aliás, a União Europeia flexibilizou o Pacto de Estabilidade é por uma razão muito simples: é que não há nenhum país da União Europeia que esteja preparado, à partida, para enfrentar situações com esta dimensão. Nós fechámos as contas de 2019 com um excedente de 0,2% do nosso Produto Interno Bruto, a crescer mais que a média da União Europeia, com a taxa de desemprego a 6,5%. Aprovámos já o Orçamento do Estado para este ano e a crítica que muita gente fazia era que íamos ter um excedente orçamental quando havia tantas necessidades no país. E no espaço de um mês, toda esta realidade se alterou completamente. E não se alterou porque deixássemos de ter uma gestão rigorosa do nosso orçamento. Não se alterou por os nossos empresários terem deixado ter a capacidade e a competitividade para exportarem. Não se alterou por os nossos empresários terem deixado ter a capacidade para sustentar o crescimento interno. Agora, quando toda a economia mundial paralisa, é muito difícil exportar. Quando nós fechamos as lojas e pedimos às pessoas para ficarem em casa, é muito difícil vender. E se não há vendas, não há encomendas, não há produção e, portanto, a paralisação geral da economia é global. E é preciso não ter a menor noção do que é viver num mercado interno como aquele que nós vivemos, para alguém poder ter a ilusão que consegue resolver o problema da pandemia na Holanda, se o problema da pandemia se continuar a generalizar na Itália, em Espanha ou em qualquer outro sítio. Nós vivemos num mercado interno, vivemos numa Europa de fronteiras abertas e, portanto, a infeção que existe em Itália é exatamente igual àquela que existe aqui entre nós. E a última coisa que qualquer político responsável pode fazer neste cenário é não compreender que a prioridade das prioridades é salvar as vidas, é combater este vírus, é criar condições para, tão rapidamente possível, as empresas poderem voltar a funcionar, os empregos voltarem a ser seguros, as famílias poderem voltar a ter os rendimentos, porque só assim, aliás, é que as finanças públicas são sustentáveis. O resto é ficção. Não há finanças públicas saudáveis com economias mortas, com pessoas no desemprego e no colapso no sistema de saúde. Isso são ficções dos manuais neoliberais, mas que não existem na vida do dia a dia. E, de facto, um ministro das Finanças, seja de que país for, tem que compreender muito bem quais são estas prioridades. E quem quer estar numa União Europeia a 27, tem que perceber que estar numa união não é viver em isolamento, não é viver por si só, é partilhar com os outros as dificuldades e as vantagens. Sobretudo, quando é ministro das Finanças de um dos países que mais beneficia com a existência do mercado interno, mais beneficia com a existência da zona euro, devia ser dos primeiros a perceber que nós, num espírito de união, estamos cá para nos apoiar todos uns aos outros. E é assim que nós fazemos. E foi assim que Portugal, aliás, sempre fez, porque mesmo no momento em que estávamos na nossa maior crise económica e muitos dos nossos parceiros estavam a enfrentar uma terrível crise migratória, Portugal foi dos primeiros a disponibilizar-se para acolher os migrantes que estavam a ser recebidos nesses países, a acolher refugiados. Demos sempre o exemplo. E foi assim ao longo de todo o período da crise. E esta, modéstia à parte, acho que é a boa forma de estar na União Europeia. E a boa forma de estar na União Europeia não é voltar a repetir agora, ainda por cima a propósito de uma situação dramática como estas, o espírito e o comportamento que já tiveram em 2008 e 2009, com as trágicas consequências económicas e sociais que tiveram essas atitudes, com uma agravante agora. Agora não se trata só de economia, nem se trata só de emprego. Trata-se mesmo de salvar vidas humanas. Vidas humanas. E por isso é mesmo repugnante reações desse tipo. Muito obrigado.

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