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Para acompanhar tudo o que se passa após este ataque com bombardeiros a três centrais nucleares. Diz Donald Trump que o projeto nuclear do Irão ficou destruído. Em sentido inverso, as forças iranianas falam em efeitos que não terão sido tão graves como os que foram anunciados. O que é certo é que são três centrais nucleares, três centrais importantes que são atingidas e é natural a preocupação precisamente com a segurança de centrais nucleares. É nesse sentido que convidámos para se juntar a esta nossa emissão especial o presidente do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear, o Bruno Gonçalves, a quem agradeço ter aceitado este nosso convite. Bruno Gonçalves, a Agência Atómica Internacional diz que para já não há um aumento de radioatividade. Acredito que seja uma boa notícia, mas é um sinal que pode ser preocupante, é uma questão à qual é preciso manter uma atenção especial?
Bom dia. Antes de tudo, é preciso chamar a atenção que não estamos a falar de centrais nucleares, estamos a falar de infraestruturas nucleares que eram usadas quer para processamento de urânio, quer para enriquecimento de urânio. Não são centrais no sentido tradicional para produção de energia elétrica.
Ainda não produzem energia de processamento, precisamente.
Nem produziriam. São infraestruturas dedicadas exclusivamente ao enriquecimento e produção de urânio para eventualmente ser usado ou em armamento nuclear ou em centrais civis. Neste caso, o urânio tem alguma perigosidade, é um material tóxico, é um metal pesado, tal como o mercúrio ou o chumbo, e tem alguma radioatividade. A principal preocupação nem é a proximidade ao urânio que possa eventualmente ser espalhado, mas sim a sua ingestão ou inalação. Sendo centrais, a maior parte delas subterrâneas, a maior parte do urânio que eventualmente puder ser libertado e os efeitos que se esperam serão sempre locais e nunca uma distribuição generalizada do urânio. E por isso, a Agência Internacional de Energia Atómica dizer que não há motivo para preocupação, porque não estamos a falar de combustível usado, estamos apenas a falar do urânio combustível.
E o que é que implicaria então essa libertação de radioatividade? Falou em um impacto local, mas isso seria o quê exatamente?
O impacto local é em alguns dos sites o urânio está sob a forma de um gás, o hexafluoreto de urânio, que é usado nas centrifugadoras. O que acontece é que primeiro está em sites subterrâneos, é pesado. Mesmo que haja um incêndio, haverá tendência para ficar localmente parte das partículas, haverá alguma emissão para a atmosfera, mas muito reduzida. O principal problema até é local, porque em contacto com a humidade ou com a água, o hexafluoreto forma ácido fluorídrico e esse será corrosivo, mas sempre com efeito local e o urânio também. O urânio tem alguma radioatividade, mas as suas emissões são facilmente absorvidas até pela pele. A principal preocupação é que esse urânio, de facto, possa vir a entrar na cadeia alimentar humana ou possa vir a ser inalado, mas tudo naquela zona, não numa distribuição generalizada que poderia eventualmente acontecer se houvesse uma fuga radioativa numa central nuclear.
Mas que importância é que têm todos estes químicos, falou em estado gasoso, como é que tudo isto funciona para ser considerado um alvo por parte dos Estados Unidos e de Israel?
O Irão explora o seu urânio em minas, depois envia-os para Isfahan, onde é transformado em óxido de urânio e posteriormente em hexafluoreto de urânio. O hexafluoreto de urânio é necessário para o processo de enriquecimento, é introduzido nas centrifugadoras para fazer o enriquecimento do urânio 235. Este urânio, este hexafluoreto, é transportado para Natanz. Natanz teria a capacidade para enriquecer até 60%, e depois de Natanz, ainda sob a forma de hexafluoreto de urânio, o urânio seria transportado-
E como é esse processo em si? Fala-se muito em o Irão estar a enriquecer o urânio e a preparar a bomba. Esse processo é assim tão complexo, demora assim tanto tempo?
É complexo. São processos morosos. O urânio natural tem urânio 238 e urânio 235. O urânio 235 é cerca de 0,7% do que existe no urânio natural. Para fazer uma bomba nuclear, é preciso uma porcentagem da ordem dos 90% do urânio 235, e é isso que significa enriquecer, é aumentar a fração do urânio 235. Esse é um processo moroso nas centrifugadoras. O que as centrifugadoras fazem é separar o urânio mais pesado, o urânio 238, do urânio 235, mas trata-se de uma diferença de massa pequena e, portanto, são precisas muitas cascatas centrifugadoras a funcionar para ir conseguindo uma separação sucessiva. Quando se chega aos 60%, já é mais fácil passar para os 90% nas centrifugadoras nova geração, que é o caso das que existem alegadamente em Fordow, e aí sim atingir já um enriquecimento necessário para produzir o combustível nuclear.
Todo este processo é moroso, é a minha pergunta, e isto no sentido de Donald Trump diz ter neutralizado o programa nuclear do Irão. Isto que já estava montado, já há algum tempo que estava a trabalhar, se caso o que Donald Trump disse seja verdade, ou seja, caso tenha sido efetivamente destruído, isto é um atraso de quanto tempo para que o Irão consiga voltar ao estado em que estava antes destes ataques?
Depende do grau de danos, mas eventualmente os Estados Unidos terão conseguido neutralizar Natanz, onde eles fazem o enriquecimento a 60%. Terão de neutralizar toda a infraestrutura de processamento do combustível em Isfahan e ainda está para ver se conseguiram neutralizar efetivamente Fordow. O que é preocupante ou que pode levantar alguma preocupação é que a Agência Internacional de Energia Atômica já no dia 12 tinha dito que havia três outros sites onde havia evidências de urânio antropogênico. Era um dos alertas que eles tinham na sua decisão. Não diziam quanto, nem diziam se era enriquecido, mas eventualmente poderá existir urânio em alguns outros sites. O ataque a Isfahan também é particularmente elusivo para o programa nuclear iraniano, porque após o urânio ser enriquecido em Fordow, ele teria que voltar a Isfahan para ser transformado em urânio metálico, que poderia ser usado em armas nucleares. O urânio em outras formas poderia ser usado, mas precisa de muito mais urânio. E de fato, este tipo de ataques poderá ter neutralizado em vários anos o programa nuclear iraniano, porque terão de reconstruir toda a sua infraestrutura, desde o processamento à centrifugação, até depois produzir o combustível necessário pra uma bomba nuclear.
Em sentido inverso, o Irã diz que muito do material nuclear já teria sido retirado dessas infraestruturas. A minha pergunta está relacionada precisamente com esse processo. Há riscos no transporte deste material nuclear e como é que se guarda? É preciso alguma atenção extra?
O material de Fordow era transportado, em princípio, sob a forma de hexafluoreto de urânio. Como eu disse, é um pó, mas que volatiliza muito facilmente acima de 56 °C. É preciso algum cuidado particular pra garantir que a massa de material transportado não atinja a massa crítica, mas sendo em forma de gás, é mais difícil de atingir a massa necessária pra que haja um incidente nuclear. A haver algum derrame, eventualmente, como eu disse, será sobretudo efeitos locais. O material armazenado, já processado posteriormente, estará sob a forma, muito provavelmente, do oxido, que é o usado em reatores, ou sob a forma de urânio metálico, que é o mais adequado ou o mais normal pra usar em bombas nucleares, e poderá estar armazenado em vários sítios. O único risco é que tem que ser acondicionado e têm que manter o material suficientemente separado em termos de massa, porque atingindo uma massa crítica, temos uma reação nuclear, ele tem que estar suficientemente separado em massas distintas para garantir que tal incidente não acontece. Sendo um material com algumas especificidades, naturalmente o Irão terá esse cuidado. Mas neste momento não há risco, em princípio. Num ataque, há sempre a possibilidade de mobilizar metal o suficiente que naquele caos do ataque se junte material suficiente, mas o mais normal é que o Irão tenha garantido que está suficientemente separado pra que não aconteça por acidente uma reação nuclear.
Era precisamente a minha questão. Este material, nesse estado em que falava, corre esse risco de haver uma reação nuclear caso seja atingido ou seja mal acondicionado?
Corre o risco. Se atingisse a máxima crítica, e se mobilizasse o suficiente pra que essa massa se juntasse, poderia haver uma reação nuclear, não sendo uma coisa imediata. Não é como uma bomba que comprime o metal e obriga a ter uma reação. O que poderia acontecer é atingirmos a criticidade, mas poderia ser muito mais similar a um reator nuclear a funcionar. O material começaria a derreter, a produzir calor e obviamente a ter reações nucleares, mas não seria de se esperar que mesmo a acontecer uma situação dessas limites, que houvesse uma explosão nuclear. O que haveria era um conjunto de material que atingiria a criticidade e começaria a ter reações nucleares e a derreter localmente.
Picos de radioatividade nesse cenário?
Nesse cenário, haveria alguma radioatividade, porque temos as reações nucleares, há alguns resíduos radioativos a serem produzidos, mas tendo em conta que estamos a falar, na maior parte dos casos, de um ambiente subterrâneo, no subsolo, todos os escombros também limitam muito toda a emissão de radioatividade para o exterior.
Bruno Gonçalves, uma última questão, um pouco mais no "e se". Muito se tem falado de possíveis cenários catastróficos. A própria Agência Atômica Internacional tem deixado esse aviso para que se tenha contenção em ataques a infraestruturas deste gênero. Há muita conversa, muita discussão sobre esses possíveis sinais catastróficos. Que cenário é esse, efetivamente, até porque já chegamos a ter notícias em imprensa internacional que falam nestas infraestruturas como possíveis nova Chernobyl. Isto é demasiado, no seu entender? Que cenário é este, este cenário possivelmente catastrófico?
É demasiado no meu entender. Obviamente, infraestruturas nucleares não deveriam ser alvo e é preciso cuidado no seu ataque. O principal alvo onde poderia acontecer um cenário mais perigoso até seria a central civil de Bushehr. E tanto quanto eu percebi, até ao momento, tem havido contenção no ataque a essa central, que também não é alegadamente um alvo militar, não é esperado que tenha lá combustível enriquecido, e é apenas uma central pra produção de energia elétrica. E nesse caso, estaríamos a falar do ataque a uma central que está em funcionamento, que tem resíduos nucleares, que não é expectável que pudesse ser um cenário similar a Chernobyl. Temos um edifício de contenção que Chernobyl não tinha, e é expectável qualquer ataque, os próprios escombros servissem como blindagem, à semelhança do que aconteceu em Fukushima, mas de fato seria preocupante e aí sim poderia haver alguma libertação de material radioativo. Penso que há alguma contenção também no ataque a essa central, porque está muito próximo de Omã, muito próximo do mar, e portanto as implicações políticas também seriam bastante mais gravosas. Nas outras infraestruturas, há alguma perigosidade, sobretudo de efeitos locais. Não é expectável um cenário similar a Chernobyl em caso algum.