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É, de facto, uma emissão especial aqui em direto de Aveiro, do Raiz. Nos próximos minutos tenho comigo o Luís Sarabando, é diretor técnico da Associação Florestal do Baixo Vouga. Luís, muito obrigado por ter vindo à Rádio Observador. Olhemos um bocadinho para esta região, antes de olharmos para o país. Que floresta temos na região de Aveiro e no Baixo Vouga?
Boa tarde a todos, antes de mais, e obrigado pela oportunidade. A floresta da região de Aveiro caracteriza-se, sobretudo, por ter duas das principais espécies florestais representadas em Portugal, o eucalipto e o pinheiro-bravo.
Sendo que o eucalipto é a grande fatia.
Sim, os dois em conjunto representam 90%, o eucalipto representará hoje 50% da mancha do nosso território, e ambas são resultado de políticas públicas desde o final do século XIX, para o pinheiro, e depois também a meio do século XX, para o eucalipto. Logicamente, esta floresta é influenciada pelas políticas. Era um território basicamente de matos e arbustos abandonados, e as políticas públicas apoiaram o facto de termos hoje uma floresta com duas das espécies principais produtivas em Portugal.
O que faz a Associação Florestal? Representa os proprietários florestais?
Sim, a Associação Florestal existe porque 97% da propriedade é privada, ainda por cima de minifúndio, portanto, está dividida em muitas pequenas parcelinhas de muitas pessoas que não estão conectadas, nem têm ligações diretas, nem conhecimento do território, nem das práticas de gestão. A associação existe porque um grupo de proprietários decidiu criar uma estrutura técnica que os apoiasse na gestão para melhor gestão das suas pequenas áreas.
Ainda assim, há muitos pequenos proprietários que continuarão sem saber o que fazer da sua parcela florestal.
Sim, existem muitos pequenos proprietários que não sabem, outros nem querem saber, porque efetivamente a floresta tem sido, diria, um conjunto de problemas para a maior parte das pessoas. Hoje, ser dono de floresta é ser dono de um conjunto de problemas porque-
É uma carga de trabalhos.
É uma carga de trabalhos, sim. E tentando passar uma mensagem positiva, não é exatamente bater nessa parte do negativismo que entendemos ser relevante, mas é importante compreendermos o problema. A floresta, com todo o êxodo rural que aconteceu e com toda a saída das pessoas dos mundos rurais, perdeu-se toda a capacidade de trabalho manual ou motomanual. Isto por si só implicou um desligamento das pessoas que estão na sua vida normal, nos seus trabalhos, porque a floresta em si não é normalmente uma fonte única de trabalho para alimentar os agregados familiares, é um complemento importante, mas a maior parte das pessoas não vive, não tem uma atividade exclusiva ligada à floresta. Por este motivo, as pessoas desligaram-se um pouco e é uma dificuldade, sim, fazer a gestão.
Às vezes essas pessoas desligaram-se um pouco, se calhar, desses terrenos florestais por falta de conhecimento. É uma atividade que pode ser rentável.
Eu diria que não é por falta de conhecimento, eu diria que é por falta de rentabilidade econômica da floresta. Sempre que há uma relação direta com a expectativa de rentabilidade, as pessoas aproximam-se e temos aqui a oportunidade de encontrar oportunidade de negócios e de fazermos vida do setor. A floresta, o principal problema, e é isso que é importante todos em Portugal entenderem, é que a floresta não é rentável. Mesmo uma floresta de eucalipto, que tem um ciclo mais curto, que é entendida pela maior parte da sociedade como muito rentável, não é rentável porque tem um prazo de retorno longo. Doze anos é curto pra floresta, mas é longo pra maior parte das atividades econômicas. Tem um risco enorme.
O incêndio.
O incêndio florestal. Para além do incêndio, uma outra coisa desconhecida à maior parte das pessoas são as pragas e as doenças, que têm um ritmo de crescimento galopante nos últimos anos, fruto, provavelmente, também destas mudanças climáticas que estamos a assistir, e a ausência de mão de obra, isto é, de pessoas que se interessem por trabalhar nesta atividade, que complementa este ramalhete de dificuldades. Tudo isto leva à desmotivação. Neste caminho de procura de soluções, há aqui responsabilidades tripartidas ou há necessidade de trabalho repartido entre três grandes grupos, na minha opinião. Primeiro, somos nós próprios, proprietários florestais. Temos que encontrar as formas de viabilizar a floresta. Isso passa, numa região como a nossa, de minifúndio, de muitas pequenas áreas dispersas, por encontrarmos soluções para ganhar escala e gerir de forma agrupada.
Uma ideia poderia ser se um pequeno produtor vende pouca madeira, se tivesse num grupo de vários produtores, venderiam a outro preço. Pode ser essa uma ideia.
Essa pode ser uma ideia e foi a ideia base que esteve na gênese e no trabalho de 25 anos da nossa associação, da Associação Florestal do Baixo Vouga, foi exatamente isso que fizemos. Nós agregamos tudo que são fatores de produção, trabalhos e vendas, e tentamos retirar alguma vantagem de uma negociação em escala, em tudo, em produtos e serviços de compra e venda. Mas chegou o momento em que também só não chega, porque temos que passar a uma escala de gestão em escala de território suficiente. Já não temos mão de obra para fazer gestão em propriedades de 5 mil, 6 mil, 7 mil metros quadrados. Não é possível hoje. Não conseguimos tornar uma máquina eficiente em termos de custos, trabalhando esse tipo de áreas. Temos que aumentar esta escala para 10, 15, 20 hectares. É aqui que não só cria a escala numa zona geográfica, juntando as intenções de muita gente, mas é preciso mesmo agrupar a gestão, isto é, num terreno com 20 hectares, identificar todos os proprietários e as parcelas e conseguir que todos estejam disponíveis pra fazer uma gestão coletiva dessa mesma área.
Isso é fácil de fazer, é fácil de os convencer a isso?
Não é nada fácil, nós temos, porque acreditamos que é a única via, nós temos persistido, também com o apoio da Navigator, que tem sido um belo aliado, numa tentativa de criarmos aqui alguma atração, via incentivos de fomento à gestão. Temos conseguido, nesta relação com a indústria, colocar alguns exemplos em prática. E é uma mudança cultural que leva muito tempo a desenvolver ou a mudar a cultura, pelo que tem que se persistir na solução. Como eu estava, só terminando o raciocínio, um dos agentes somos mesmo nós, proprietários florestais, que temos que entender que a gestão do minifúndio como foi feita a vida toda, já não é minimamente interessante, que temos que encontrar novas formas de gestão. E para conseguirmos concretizar isto, porque efetivamente é muito difícil, precisamos de duas ajudas estruturais: o Estado, por um lado, na criação de ferramentas que promovam a adesão a este tipo de iniciativas.
Como é que eu poderia fazer? Através de incentivos?
Através de incentivos. Na minha opinião, acho que o modelo mais equitativo é a parte da fiscalidade, que é abrangente e atinge todos de uma forma. Sim, dedicada. Nós estamos muito habituados a que a política seja repressiva, é sempre na ameaça, no medo, na coima, na taxa. Falta o contrário, falta a cenoura na frente, como atrativo. Quais são os benefícios? Porque a floresta, afinal, a minha floresta e a de todos os associados e de todos os produtores florestais, não presta serviços só a nós. É redundante olhar para uma floresta apenas como produtora de madeira, você já deve ter ouvido toda esta conversa hoje. A floresta não é produtora de madeira, essa é a parte menor da importância da floresta. Mas pra nós, produtores, que temos que a gerir, é a única fonte de rendimento que nos permite retirar dali alguma receita para reinvestir na sua gestão. Essa é outra parte, via Estado. Nós temos que conseguir que a sociedade civil, via Estado, valorize os chamados serviços de ecossistema. Neste dias chuvosos é uma boa oportunidade. A proteção da água, a proteção dos solos, o oxigênio, o carbono, são tudo serviços prestados pela floresta, principalmente, e eles têm que, de alguma forma, chegar à conta de cultura da floresta, porque no final do dia, se qualquer proprietário florestal faz a sua conta entre o conjunto de custos que teve e com o resultado da venda e no final desiste, porque falta uma conta de cultura. Essa conta de cultura tem que ser equilibrada via valorização dos serviços de ecossistema, não tenho qualquer dúvida. Por outro lado, e dedicando também uma palavra à indústria, os mercados devem ter uma posição de justiça na distribuição de valor pela cadeia de valor. E os produtores, como estão no fim da linha, são esmagados por tudo que são os outros até lá. Portanto, nós ficamos com aquilo que sobra da cadeia de valor e eventualmente também é pouco. Daqui que a Associação Florestal, desde há bastante tempo, criou uma relação direta com a indústria, tentando dar um salto na cadeia de valor, ligando-nos diretamente ao mercado. E foi isso que conseguimos e isso foi extremamente importante numa parte do nosso percurso e que nos permitiu também levar uma solução praticamente de chave na mão, uma solução integral aos proprietários que lhes permitem ter alguma confiança no nosso trabalho e que permitem termos confiança num futuro que vamos conseguir continuar a colocar estes nossos modelos de gestão agrupada no terreno, de uma forma lenta, mas de uma forma sólida, e que ficam como exemplos pra mostrar aos outros que é possível fazer algo diferente e positivo.
Já ouvi aqui durante esta tarde também uma frase que é: "A união faz a floresta." Também poderia ser um lema aqui adaptado à Associação Florestal do Baixo Vouga. O Luís Sarabando esteve conosco nos últimos minutos para nos dar também aqui este retrato da região e deste setor do produtor florestal. Luís, muito obrigado pelo trabalho e pelos esclarecimentos que fez aqui nesta emissão especial da Rádio Observador. Vamos sair por breves instantes, mas vamos regressar, porque o Paulo Farinha daqui a pouco vai estar à conversa com o psicólogo Eduardo Sá, com um tema que também toca aqui nas florestas. Até já.