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Nos próximos minutos vou estar à conversa com Jorge Fernandes, politólogo, também Bruno Cardoso Reis, historiador e investigador. Vamos falar do que pode acontecer nesta eleição. Começo precisamente por Bruno Cardoso Reis. Bruno, estamos numa longa emissão, já desde as 19h, muito temos falado dos vários cenários, das principais figuras, mas gostaria de perceber contigo, olhando para daqui a pouco essa hora 10 da noite, quais vão ser os principais pontos de destaque que vais procurar nesta noite eleitoral. O que importa aqui retirar também desta noite eleitoral?
Boa noite a todos. Boa noite também ao Jorge. Eu acho que desde logo temos que perceber se confirmam as sondagens ou não. O sistema eleitoral britânico é diferente do nosso, enfim, há muitos sistemas diferentes. Agora tivemos aqui também um curso acelerado, por exemplo, no sistema francês, que mais uma vez também é muito distinto. Mas aqui no fundo temos esta questão, são 650 círculos eleitorais em que basicamente a regra é o vencedor fica com o lugar. Isto tem uma grande virtualidade, são círculos uninominais, a pessoa sabe exatamente qual é o seu deputado. Esse deputado tem aquilo que em Inglaterra se chama uma surgery, um consultório no seu círculo, onde recebe todas as semanas os seus eleitores, onde as pessoas podem colocar as suas questões até diretamente. Mas realmente isso significa também que um partido pode ter 20%, pode ter 16%, o Reform Party de Nigel Farage provavelmente andará por esses números, e eleger muito poucos deputados ou até nenhum deputado. O que conta é ter voto concentrado em alguns círculos, chegar em primeiro lugar nalguns círculos. Mas a primeira questão é perceber exatamente se confirma o tamanho da maioria trabalhista. Podemos ter até este efeito um pouco paradoxal de com sondagens muito consistentes, sempre a darem uma vantagem de em torno dos 18, 20% em relação aos trabalhistas, e de uma maioria que seria histórica, ou seja, esta expectativa é que só terá comparação com as eleições de 1832, que foram elas próprias quase uma revolução, foram as primeiras eleições com o sufrágio já um pouco mais alargado. E portanto, perceber se essa supermaioria, como é o termo que também começou a ser usado até pelos conservadores para tentar recuperar algum voto, se essa supermaioria trabalhista se confirma ou não. À partida, acho que ninguém põe qualquer hipótese que os trabalhistas não vençam e até não vençam com maioria expressiva. Mas qual é o tamanho dessa maioria? A segunda questão é qual será o segundo maior partido. À partida, mais uma vez, as sondagens foram evoluindo, chegou-se a pensar que poderia ser até o Reform Party, este partido da direita populista identitário de Nigel Farage. Enfim, isso sempre pareceu pouco provável, porque era preciso elegerem muitos círculos, em muitos casos esses deputados não são conhecidos ou são pessoas com ideias muito estapafúrdias e declarações muito improvisadas. Realmente acabou por não se confirmar aparentemente essa possibilidade, mas enfim, serão os conservadores à partida, mas confirma-se isso, serão eventualmente os Lib Dems, que eventualmente até tiveram aqui uma oportunidade de crescer muito mais que terão desperdiçado. E depois esta grande questão também de saber exatamente qual é aqui, no fundo, o resultado destes outros partidos que não o número dois. Os Lib Dems já referi, à partida continuarão a ser o número três, mas o Reform Party, os ecologistas, até que ponto é que há aqui partidos a conseguir romper esta tendência muito forte, de facto, no sistema eleitoral britânico para haver alternância entre dois grandes partidos e haver muita dificuldade de outros partidos subirem a ponto de conquistar lugares. Realmente a tendência, que se verifica no resto da Europa, também se verifica na Inglaterra, de os dois principais partidos estarem a perder votos. Já chegaram a ter 90% dos votos, agora muitas vezes não há volta dos 50, 60% dos votos, mas os outros partidos que vão crescendo em votos não conseguem realmente ter muitos lugares no Parlamento. E depois ainda há aqui também a interpretação, por exemplo, da Escócia, que poderá ser potencialmente também importante em termos da força ou não, continuar ou não a força da tendência mais independentista. Não nos podemos esquecer que as eleições são realmente no Reino Unido e não apenas na Inglaterra, que é de longe a parte mais importante e que elege mais deputados, mas temos sobretudo a Escócia e também Gales e a Irlanda do Norte.
Jorge Fernandes, olhando para esta eleição, o Bruno já deixava aqui alguns pontos importantes, mas perceber qual será a dimensão do Partido Trabalhista e qual será a queda do Partido Conservador será certamente o ponto central desta eleição. Claro, somando a isso também a possível eleição de Farage.
Olá Miguel, olá Bruno, boa noite. Penso que sim, eu acho que esta eleição eu estou particularmente curioso. Há várias coisas sobre as quais eu estou curioso. Acho que a vitória é absolutamente garantida para os trabalhistas. De resto, a vitória de alguma maneira só tinha sido adiada em 2019 pelo facto de o Partido Trabalhista, na altura, apesar da má performance do Partido Conservador, a vitória no fundo foi adiada em 2019 por dois motivos: pelo facto de haver ainda uma grande embrulhada acerca do Brexit e o Boris Johnson, na altura, concorreu com uma mensagem muito simples e muito eficaz, que na altura era o Get Brexit Done, e ao mesmo tempo porque os trabalhistas tinham um líder claramente que não era talhado, por vários motivos, nomeadamente ideológicos, não era talhado para apelar, no fundo, ao eleitor médio, ao eleitor moderado do centro, que especialmente no sistema majoritário, como é o sistema inglês, é absolutamente central para conseguir ganhar eleições. Há uma coisa muito interessante que deverá sair desta noite e que eu estou particularmente interessado em saber. Para além da questão da Escócia, que o Bruno já aludiu, que eu acho que é curioso porque nesta última década e meia em que o Labour esteve afastado do poder, perdeu Praticamente a Escócia toda, a dado momento, e foi substituído não pelos conservadores, mas pelo Partido Nacionalista Escocês, e agora aparentemente haverá o regresso do Labour à Escócia e haverá uma distribuição, até depois dos escândalos políticos que existiram, nomeadamente corrupção na Escócia com o SNP, portanto haverá aqui um regresso do Labour a isto. Mas há dois pontos fundamentais que eu acho interessantes sob o ponto de vista da geografia eleitoral. O Reino Unido, na altura do Brexit, mostrou um território muito partido, digamos assim, em que basicamente havia o sudoeste, Londres e o sudoeste, e depois alguns pequenos pontos no território que correspondiam no fundamental a ilhas de progressismo, cosmopolitismo, e que votaram na altura para permanecer na União Europeia, e que foram de alguma maneira a alavanca para a supermaioria que Boris Johnson conseguiu em 2019. E agora a posição parece reverter-se completamente, de tal maneira que na altura a narrativa que Johnson tinha contado, de alguma maneira, e a história contava, era que ia no fundo canalizar recursos para uma zona que supostamente tinha sido abandonada pelos políticos, por Londres. Enfim, esses planos nunca se chegaram a concretizar, por um lado, pela questão do Covid, por outro lado, por inépcia do próprio líder, e portanto a incapacidade de gerar recursos para fazer essas promessas também explica em grande medida o colapso total praticamente dos conservadores neste momento. E ao mesmo tempo, a última coisa que estou interessado em saber sob o ponto de vista da geografia eleitoral, corresponde a alguns distritos eleitorais no centro de Londres, que são distritos que há dezenas e dezenas de anos votam conservador e que pela primeira vez estão a ser competitivos nesta eleição e são distritos muito afluentes com o tipo de eleitorado que tipicamente seria sempre conservador, e são distritos que curiosamente nesta eleição estão a ser competitivos, portanto estão em jogo e em risco de saírem para o Labour. O facto destes distritos estarem em jogo, a simples hipótese de eles estarem em jogo, significa muita coisa. Significa que realmente os conservadores têm que fazer uma reflexão profunda, quer dizer, os partidos de Inglaterra, um bocadinho à luz dos Estados Unidos, o facto de serem partidos que acabam por ocupar uma franja tão grande do espaço de competição política torna-os no fundo uma coligação de fações. Aliás, é essa coligação de fações e essas lutas entre fações que originam o Brexit, em primeiro lugar, porque o Cameron na altura queria matar a facção mais extremista e mais antieuropeísta do seu partido e utilizou um referendo para tentar fazer isso, mas falhou e portanto não conseguiu chegar ao objetivo e portanto teve uma grande derrota pessoal e do próprio país. Por último, encerro só esta intervenção dizendo que os ciclos políticos no Reino Unido são tipicamente longos. Portanto vamos assistir hoje, esta noite, a uma mudança de ciclo político. A última mudança tinha sido em 2010, a última em 97 e antes de 97, em 79. Portanto, o que assistimos sempre, há sempre momentos geralmente de grande viragem política. Setenta e nove foi uma grande viragem política, 97 foi uma grande viragem política. Portanto, eu acho que também não devemos ler excessivamente esta noite como o fim dos conservadores. Enfim, estas derrotas copiosas de um dos lados e a vitória, que neste caso vai ser mais folgada do que o habitual, até porque de facto estes últimos anos foram bastante duros, mas acho que não devemos ler demasiado nisto. Penso que se as coisas correrem como estamos habituados na política inglesa, provavelmente teremos o Labour por 10, 12 ou 14 anos e no próximo ciclo, sendo tudo normal, veremos a inversão das posições e os conservadores novamente a terem uma grande vitória e o Labour a perder.
O que se espera é uma mudança política no Reino Unido, é isso que indicam todas as sondagens. Daqui a pouco vamos perceber as projeções, vão sair às 22h, portanto faltam cerca de 10 minutos e meio para essas primeiras projeções. Bruno Cardoso Reis, para todos os que nos escutam em Portugal e para se perceber também se de fato esta mudança política no Reino Unido leva também a alguma mudança naquilo que são as relações internacionais. Estou a imaginar a relação do Reino Unido com a Ucrânia, por exemplo, que tem sido um forte aliado, a relação do Reino Unido com a Europa e também do pouco que podemos falar daquilo que é a relação entre o Reino Unido e Portugal. Muda alguma coisa neste aspecto com uma mudança de conservadores para trabalhistas?
Não, não penso que mude muito. Eu aliás também estou muito de acordo com o Jorge. Acho que vamos ter de ver agora a sondagem, depois sobretudo os resultados, mas à partida, realmente os conservadores são os grandes sobreviventes da política britânica. Os trabalhistas, desse ponto de vista, são um partido recente, só têm um século como o principal partido de oposição. Mas os conservadores começam a aparecer no século XVIII e já começam a aparecer como um partido com algumas características modernas no sendo século XVIII. Portanto, acho que dá-los como mortos politicamente realmente será bastante arriscado. Mas em relação à questão da política externa, realmente o que se espera é grande continuidade. Também acho que é por isso que, por exemplo, estas eleições têm suscitado menos interesse do que as eleições em França ou até nos Estados Unidos. Também há aqui uma questão importante que é, por causa do Brexit, a Grã-Bretanha tem muito menos
peso e interessa muito menos, obviamente, no contexto da União Europeia, deixaram de ser um Estado-membro. Para estas contas todas que importa fazer de votos no Conselho, vão apoiar este ou aquele para presidente disto ou para presidente da Comissão, a Grã-Bretanha deixou de contar. Mas sobretudo, também há este fator adicional que é o Partido Trabalhista, para recuperar votos, para voltar a ser um partido realmente credível como partido de governação, virou bastante ao centro em várias áreas, mas no caso da política externa, isso é bastante evidente. O próprio Partido Conservador também com o Rishi Sunak já tinha procurado virar um pouquinho mais ao centro, adotar uma postura de menos confronto, por exemplo, mesmo com a União Europeia, do que tinha sido o caso do Boris Johnson. E portanto, realmente é expectável grande continuidade, apesar de haver um número crescente de britânicos, sobretudo entre os eleitores trabalhistas, que levam a sua insatisfação com o Brexit ao ponto de defenderem abertamente, no fundo, um regresso à União Europeia. Mas realmente, o Keir Starmer também foi muito hábil ao dizer que não quer reabrir essa caixa de Pandora, que seria um alvo ideal para ataques da parte do Reform Party, do Nigel Farage ou dos próprios conservadores. Também não há nenhum apetite, diga-se, do lado da União Europeia, dos Estados-membros, para voltar a ter negociações muito complexas com a Grã-Bretanha. Portanto, eu diria que certamente há uma vontade de melhorar relações, até de reforçar relações comerciais. Como é que se consegue fazer isso sem negociações muito complicadas, sem algum tipo de regresso da Grã-Bretanha ao mercado único, com as imposições que isso implica? Parece complicado perceber como é que isso se fará, mas até por isso há limites realmente àquilo que um novo governo trabalhista poderá fazer, seja da questão de Gaza, ou seja, uma posição de equilíbrio, de dizer que somos a favor dos dois Estados, somos críticos de muitas das opções do Netanyahu, da sua política militar, mas somos também críticos sem qualquer tipo de qualificativos do Hamas e do terrorismo do Hamas. E em relação à Ucrânia, também uma posição muito clara de continuar o apoio militar, de continuar o apoio humanitário e financeiro. Portanto, realmente não são expectáveis grandes mudanças na política externa britânica e obviamente aqui Portugal está longe de ser um aliado tão importante como foi no passado. E a mesma coisa, aliás, se aplica em relação ao peso da Grã-Bretanha em termos de prioridades externas de Portugal. Geralmente, há uma predisposição para acordos, para cooperação, até houve algum impulso para acordos bilaterais pós-Brexit, mas a verdade é que Portugal não é uma prioridade para a Grã-Bretanha pós-Brexit e também por causa do Brexit, a Grã-Bretanha não tem tanto peso como teve no passado, mesmo no passado recente, em que pesava por via da União Europeia, portanto também aí não espero grandes alterações, embora isso não seja uma coisa negativa, ou seja, acho que continuará a haver predisposição dos dois lados para a cooperação quando ela faça sentido.