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A cimeira Data with Purpose é organizada pela Nova IMS e pelo município de Oeiras. Vai realizar-se no dia 25 de junho, no Centro de Congressos do Tagus Park, e tem o Observador como parceiro. O evento vai reunir CEOs, investigadores e criadores, todos a discutir o papel dos dados. Um debate que lançamos também aqui. Hoje falamos com Miguel Castro Neto, é diretor da Nova IMS, e Francisco Rocha Gonçalves, vice-presidente da Câmara Municipal de Oeiras, precisamente as instituições organizadoras. Dou as boas-vindas a ambos, é um gosto recebê-los aqui. Miguel Castro Neto, começando por si, a Nova IMS é a única escola, a única faculdade, se quisermos, do país dedicada exclusivamente à ciência de dados e à inteligência artificial. Esta vai ser a quarta edição desta Data Summit. Muito mudou nestes quatro anos. Quando começaram, estavam mais ou menos a falar pra um nicho de especialistas e agora estão no centro do debate da revolução tecnológica.
É verdade, estes últimos quatro anos foram transformadores pra sociedade em geral. Nós assistimos uma aceleração absolutamente extraordinária da nossa vida, não apenas nas organizações, que era um bocadinho onde nós estávamos há quatro anos, em que assistíamos a uma transformação digital das organizações, à procura de talento na área da gestão de informação, da ciência dos dados, da inteligência artificial. Mas de repente o mundo mudou, as capacidades tecnológicas aceleraram de uma forma avassaladora e esta realidade hoje impacta as organizações, a sociedade, a nossa vida no cotidiano. E nós próprios também sentimos a necessidade de sair fora de muros, lançar este Data with Purpose Summit e em parceria com Oeiras, nós temos vindo a construir um projeto em conjunto, nós próprios nos instalarmos em Oeiras. E portanto fazia-nos todo o sentido que alargassemos esta discussão em torno do potencial da ciência dos dados e da inteligência artificial nas mais diversas áreas da nossa vida em sociedade, mas fazê-lo fora do ambiente universitário, fora do nosso campus, e portanto levá-lo até a um território, e agora que o Francisco me permita já antecipar, que melhor território, senão aquele que hoje representa 30% do potencial tecnológico nacional.
O Tagus Park.
É de facto absolutamente extraordinária esta capacidade. E portanto nós, enquanto a Escola de Gestão e Ciência de Dados, queremos estar onde está a atividade e colocar a nossa capacidade de investigação, de criação de talento, de mobilização do poder intelectual ao serviço do nosso país.
Francisco Rocha Gonçalves e a Câmara Municipal de Oeiras acolhe certamente de braços abertos esta iniciativa, o tal território com 30% do potencial ou da capacidade tecnológica. Aliás, a escala municipal talvez seja aquela mais eficiente na aplicação de tecnologia e de economia de dados. Oeiras é uma referência a esse nível. O que já está acontecendo no terreno, no município de Oeiras, em economia de dados, por exemplo, na tomada de decisão municipal?
Bom, boa tarde, Paulo. Boa tarde, Miguel. Deixem-me começar, se me permitem, fazendo aqui uma resenha histórica. Olhemos pra 1994, ano que data do primeiro plano diretor municipal do município de Oeiras, na primeira gestão de planos diretores municipais, e dizer que nessa altura, quando o plano diretor municipal de Oeiras foi aprovado, Oeiras tinha mais planos de pormenor que todos os outros municípios portugueses somados. O que isto significa? Da planificação, que era feita no município de Oeiras e que é feita de muito longo prazo, introduzida, naturalmente, pelo presidente Isaltino Moraes, naturalmente que muito se correu neste ano, mas o que isso tem? Uma cultura de planeamento de muito longo prazo, que é feita sempre no município de Oeiras. E como o Miguel sabe, não há planeamento sem informação, e a informação vem dos dados que se recolhem. No passado, fazia-se muito esta recolha dados a partir dos sistemas de informação territorial, os SIG, Sistemas de Informação Geográfica, disponíveis à época. Muita cartografia, ortofotomapas. E agora, veja, se o município de Oeiras criou uma empresa que nasce de um gabinete de estudos do município, a empresa é a Municípia, que é uma empresa intermunicipal, que é uma coisa divertidíssima, que é muito discutida em Oeiras politicamente, por ter dois aviões, por exemplo. Tem dois aviões, que é uma empresa municipal. Tem dois aviões pequenos.
Pra fazer referenciação do território.
Para fazer fotografia aérea. Mas por que nós tivemos que transformar em empresa? Porque o gabinete de estudos não podia vender serviços aos outros municípios. Como a informação disponível pelos serviços cartográficos do exército não era suficiente, tivemos que criar dentro, foi crescendo. Gabinete de estudos, passa para a criação da Municípia, porque tem que vender serviços aos outros municípios que não tinham. E começamos por aí a fazer o planeamento estratégico do município. Não se faz planeamento sem informação e sem os dados. Isto é a evolução da ciência dos dados aplicada no município daquela data dos anos 90 até agora. O que acontece, entretanto? Acontece uma revolução digital nas tecnologias de informação e comunicação que permite uma recolha de dados através da captação de dados no território e permite, através da computação e da computação avançada, a junção e o trabalho nesses dados.
Uhum!
Eu estou aqui com dificuldade, porque senão eu não calo e só eu que falo.
Não, eu estou cá para não permitir isso.
Eu ontem falei sobre isto na abertura de um evento onde o Miguel também esteve. Nós há pouco tempo introduzimos um módulo de inteligência artificial no nosso sistema de gestão urbanística do município. E o que percebemos? Que mais de 90% dos projetos urbanísticos entram no município com erros. Vou tentar explicar isto brevemente, o que significa. Nós temos o sistema de gestão urbanística já introduzido por nós no mandato 2017-21, é todo digitalizado. Quando entra um projeto, entra online, vai pra plataforma, a plataforma envia para o dirigente correspondente, o dirigente distribui pro técnico. Chega ao técnico, o técnico detecta um erro, tem que ir para trás. Volta para o dirigente, o dirigente manda notificar. Em certos casos, manda para o vice-presidente, o vice-presidente manda notificar, vai notificado para o requerente, o requerente tem que corrigir.
Portanto, perde-se aí nesse vai e vem de documentos imensos.
Dois meses.
Claro.
Agora, com a introdução deste módulo de inteligência artificial, o que acontece? Mais de 60% dos erros são resolvidos pelo próprio sistema.
Pois, e não permite sequer. Portanto, logo aí é uma poupança e uma eficiência de tempo.
De dois meses.
De toda a gente, do município e do requerente.
E aqui, agora esquecemos de um elemento fundamental. O técnico, o arquiteto, deixa de estar a ver os erros. O sistema da digitalização, o que nos permite? Que o saneamento dos processos, que é verificar se os erros estão bem, se está mal, se está entregue tudo, não seja feito por técnicos superiores arquitetos, e os arquitetos se dediquem a fazer o que têm que fazer, que é aplicar o seu conhecimento técnico no concreto.
Do que estar a fazer tarefas burocráticas.
Burocráticas e repetitivas que de nada servem. É demasiado caro um técnico superior, ainda que ganhem mal, é demasiado caro pra estar a ver estas coisas. Portanto, isto é a aplicação concreta.
Isso é só um exemplo, imagino, entre muitos outros.
Isto é um exemplo do que nós fizemos nos últimos tempos. Naturalmente que está a criar que muitos municípios queiram visitar para conhecer, mas eu aproveito o observador para avisar, por favor, nós também temos o nosso trabalho do dia a dia, não podemos estar é só a fazer visitas guiadas.
Sem dúvida. Miguel, o programa deste ano da cimeira cruza aqui várias áreas do saber muito diversas, vai da geopolítica às empresas, passa pelos oceanos, as cidades, como é evidente, Oeiras também, a arte, ética na IA, que é um tema muito importante. O que liga isto tudo? Isto está tudo ligado, de facto.
Está tudo ligado. Liga, talvez, o fator mais importante, que são as pessoas. É o foco desta cimeira, que nós tentamos trazer aqui à discussão, os data visionaries. Como é que, na realidade, os dados e a utilização depois da inteligência artificial é de facto crítica, mas ao mesmo tempo nos coloca tantos desafios, tantas oportunidades em todas estas áreas. É hoje inquestionável que, em termos geopolíticos, a guerra, não sabemos se temos um problema com os dados da guerra ou se é a guerra dos dados. Temos o desafio que é hoje real, vemos hoje até já que o próprio acesso aos modelos de inteligência artificial está a tornar-se uma questão geopolítica, com o governo norte-americano a decidir que empresas privadas podem ou não podem disponibilizar os seus modelos à escala internacional, o seu uso ético, o que é que nós fazemos ou não fazemos com esta capacidade, e depois nos múltiplos setores de atividade e pelas empresas, pela criação de valor, como é que isso vai impactar o emprego, como é que a fiscalidade tem que se adaptar para redistribuir o rendimento que estes novos negócios estão a criar. E por último, uma área que este ano pela primeira vez introduzimos no nosso Data Summit, que é a questão também destas ligações entre tudo o que fazemos e a própria criatividade humana com a arte, e como é que tudo isto se liga, e sendo que o que liga tudo isto é, de facto, a pessoa, e isso eventualmente lembrando também as palavras de Leão XIV. Não esquecermos a humanidade no meio de tudo que fazemos.
Claro. No fundo, o objetivo será sempre esse da tecnologia, se calhar de uma forma bondosa, digo eu, mas melhorar a qualidade de vida das pessoas e por aí fora, otimizar isso. Francisco, o município de Oeiras acolhe esta Data Summit. Sabemos também que a Nova IMS não está em mudança ainda, mas vai instalar o seu campus no Conselho de Oeiras. Esta ligação ao conhecimento, ao saber, à produção de saber, é cada vez mais importante também para as entidades públicas, como é o vosso caso.
Bom, permitam-me meter aqui uma colherada. O Miguel já me conhece, sabe que este é um tema que eu trato com algum cuidado. Eu não estou aqui a fazer propaganda política, mas o modelo de desenvolvimento do município de Oeiras nas últimas décadas, e eu digo isto sem qualquer pejo, não foi devidamente apreciado em Portugal até agora.
Apreciado no sentido de quê? De ser conhecido?
De ser reconhecido.
Não sei se concordo muito, mas não é suposto também estar aqui.
Ô Paulo.
Pelo menos Isaltino Moraes é visto como um dos autarcas mais eficazes, mais eficientes.
Mas não na sua extensão completa.
É possível.
Vou explicar por quê. Passou Oeiras de ser um subúrbio deprimido, pobre Com a mais elevada taxa de tráfico de droga da região metropolitana de Lisboa, com 10% da população a viver em barracas, com o modelo económico local assente em indústria poluente, Fundição de Oeiras, Fábrica da Póvoa de Bacarena, Autozil, para ser o município com o mais elevado nível de literacy em Portugal, maior rendimento per capita e mais justiça social. Isto é a cobertura do círculo, que é aquilo que todos nós ambicionamos: desenvolvimento económico.
E a transição de uma economia mais antiga.
E eu nem disse isso, sendo também o município português número um na adaptação às alterações climáticas. Isto não é olhado em Portugal com o cuidado que é olhado fora de Portugal. E isto acontece por duas ou três razões evidentes. O presidente Isaltino costuma dizer que Oeiras é o único município que continuou, em Portugal, a fazer o caminho para o centro da União Europeia.
A convergência.
A convergência, a famosa convergência que se perdeu no último quartel de século. Nós, neste quartel de século, do século XXI, perdemos essa convergência. E por que se fez isso? Exatamente porque Oeiras percebeu que a riqueza não estava no chão, estava na cuca.
Nas pessoas.
Na cuca. Na cabeça, no conhecimento. A atração de empresas, na altura que se chamava de terciário superior, que não são mais do que o início das tecnologias de informação e comunicação. Chamar as empresas de tecnologias de informação e comunicação.
E o Tagus Park aí, simbolicamente, acompanhado.
O Tagus Park foi uma alavanca. O Tagus Park não era para ir para Oeiras, o Tagus Park era para ir para Santarém, porque o Cavaco Silva dizia que não podia ir para o município Laranjinha, senão iam falar mal dele. Mas o presidente Isaltino forçou. E trazer isto para aqui é trazer o conhecimento, é trazer a investigação. Nós hoje temos a universalização do acesso ao ensino superior. Todo o jovem que acaba o 12º, se a família não tiver rendimento suficiente, tem universalmente acesso ao ensino superior, podendo reprovar uma vez.
Claro, recebendo uma ajuda do conselho.
O dinheiro público não é para brincar, naturalmente. Nós queremos atrair a IMS para o concelho. Por que queremos que a IMS venha para o concelho? Porque o que nós queremos lá são os centros de saber. Tal como Oeiras não é devidamente reconhecida, a IMS é uma novidade no panorama mediático português ou público, quando, na verdade, a IMS é uma das melhores escolas de data science do mundo. Isto é pouco reconhecido. E é curioso, já agora, Miguel, nós estamos numa época do pós-verdade. E na época do pós-verdade, os dados são muito importantes. E o que é pernicioso nisto é a utilização dos dados para a deturpação e construção de uma realidade paralela. Eu não quero falar muito mais sobre isso, mas é disso que nós vamos falar no próximo dia 25.
É mais um tema. E a questão da ética também é relacionada.
O Papa Leão XIV falou sobre isto, mas atenção, não faltaram filósofos a falar sobre isto nos últimos 15, 20 anos, sem que se ouvisse.
Muito bem. Fechamos também o ciclo da nossa conversa, Francisco Rocha Gonçalves, Miguel Castro Neto. Obrigado a ambos pela presença nesta nossa conversa.
Muito obrigado, Paulo.
Foi um gosto. Estivemos aqui a antecipar uma parte do que se pode passar na Data with Purpose Summit. É organizada pela Nova IMS e pelo município de Oeiras. Tem o apoio também do Observador. Realiza-se no dia 25 de junho, no Centro de Congressos do Tagus Park, precisamente em Oeiras. Quem quiser assistir, a entrada é gratuita, mas atenção, está sujeita à inscrição prévia e podem fazê-lo no endereço ou na página datawithpurpose.pt e fazer aí a sua inscrição. Já sabem, dia 25 de junho. Até lá.