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▲Os drones Gerbera são mais pequenos, mais baratos e menos potentes que os Shahed

Getty Images

▲Os drones Gerbera são mais pequenos, mais baratos e menos potentes que os Shahed

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A nova etapa da guerra híbrida pode estar mais próxima de Portugal. Seis respostas sobre o plano russo para lançar drones no Mediterrâneo

CIA denuncia que a Rússia equaciona estender a guerra híbrida a toda a Europa, visando o sul do continente, com recurso a drones. Um ataque a Portugal é "plausível", dizem os especialistas.

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Um drone, com dois metros e meio de comprimento de asas, e capacidade para alguns quilos de explosivos, lançado a partir de um navio mercante no Mar Mediterrâneo. Este pode ser o plano mais recente da Rússia para continuar a escalar a guerra híbrida contra a Europa. O modelo não será novo. Afinal, os incidentes em países europeus atribuídos à Rússia — incêndios, ciberataques, sabotagens — têm-se repetido de forma cada vez mais frequente, naquilo que os especialistas e os Governos europeus dizem ser uma tentativa de semear a desconfiança e a divisão entre os países europeus e enfraquecer o seu apoio à Ucrânia.

Ciberataques, drones e sabotagem. A guerra híbrida da Rússia contra a Europa

Todavia, estes possíveis ataques têm algumas diferenças em relação aos restantes incidentes que têm sido registados, destacam os especialistas militares ouvidos pelo Observador. A mais evidente destas diferenças são os alvos. Em vez de visarem os Bálticos, a Polónia ou a Roménia — países mais próximos da Rússia, que têm apoiado a Ucrânia de forma mais significativa e que também têm registado o maior número de ataques — os novos ataques terão como alvo o flanco sul da Europa, nomeadamente França, Espanha e Itália.

O alerta terá sido deixado pela CIA, os serviços de informações norte-americanos, em documentos partilhados com os aliados europeus no final do mês passado e revelados esta quarta-feira à noite pelo jornal espanhol El Mundo — que cita uma fonte próxima do Ministério da Defesa da Lituânia, com conhecimento dos diálogos em volta destes documentos. Feito o alerta, os países procuram dissuadir o Kremlin antes de o plano sair do papel.

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▲ Os navios da chamada frota fantasma podem ser utilizados como plataforma de lançamento no Mediterrâneo

Lehtikuva/AFP via Getty Images

De onde surgiu o mais recente aviso de escalada?

A possibilidade de uma nova escalada na guerra híbrida da Rússia foi levantada na semana passada pelo primeiro-ministro polaco. Perante o Parlamento da Polónia, Donald Tusk afirmou ter conhecimento de relatórios dos serviços de informações que dão conta de um plano russo para lançar drones e mísseis contra países que apoiam a Ucrânia. No domingo, o The Guardian noticiava um plano semelhante que seria concretizado no prazo de “meses, não anos”, citando agentes dos serviços de informações de vários países europeus.

Na origem dos alertas mais recentes estará um relatório da CIA, que começou a circular nas capitais europeias depois da visita do diretor das secretas dos EUA, John Ratcliffe, a Moscovo, no dia 25 de agosto. A informação é noticiada pelo El Mundo, que cita fontes nos serviços “de um país báltico”. Na viagem, Ratcliffe terá efetuado uma paragem na Letónia, tendo posteriormente informado as autoridades letãs sobre os detalhes do encontro. O jornal espanhol detalha que o relatório obtido pelos norte-americanos era “muito preciso” na descrição de um potencial ataque a sul e que, por isso, o aviso foi considerado “consideravelmente credível”, principalmente por Paris.

Que tipo de ataque estará a Rússia a planear?

“Eles vão utilizar drones lançados do mar, escondidos em contentores. Não é nada difícil“, resumiu a fonte lituana ouvida pelo El Mundo. Mais especificamente, os drones utilizados seriam drones do modelo Gerbera, lançados de navios da frota fantasma russa, que circulam no Mar Mediterrâneo no trajeto entre o Estreito de Gibraltar e o canal do Suez, a caminho da Ásia para exportar petróleo russo.

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▲ Drones Gerbera já se despenharam em território europeu, na Moldávia

AFP via Getty Images

A utilização de cargueiros e petroleiros da frota fantasma para propósitos da guerra híbrida não é surpreendente. O Tenente-General Marco Serronha salienta ao Observador as suspeitas europeias de que estes navios são equipados com “pelo menos equipamentos de guerra eletrónica, de inibição de frequências e de inibição de sinais de GPS que afetam os aviões comerciais”. Todavia, “não havia a noção de que pudessem transportar drones de guerra”, contrapõe. Ao contrário dos outros equipamentos, mais simples, o lançamento de drones exige uma infraestrutura própria, de maiores dimensões.

Quais as características dos drones Gerbera?

O Gerbera é um drone de fabrico russo, com um custo de produção de cerca de 10 mil euros. Com cerca de dois metros de comprimento, dois metros e meio de diâmetro das asas e 18 quilos, é ligeiramente menor que os drones Shahed, de fabrico iraniano, e que têm sido utilizados nos ataques noturnos praticamente diários contra as cidades ucranianas. Os Gerbera podem, ainda assim, transportar uma carga de até cinco quilos de explosivos e têm uma autonomia de voo de 600 quilómetros, chegando a velocidades de 160 quilómetros por hora.

Estas características explicam a sua utilização no terreno de batalha na Ucrânia, muitas vezes a par com os Shahed, maiores e mais potentes. “São [principalmente] uma arma de distração e saturação [dos sistemas de defesa]”, afirma o Coronel José Carmo, que destaca que são drones “suicidas, armas que se destroem no local”. Ainda que estes drones não sejam tão destrutivos como os Shahed, são, ainda assim, equipamentos mais avançados do que os drones que foram detetados no mês passado no aeroporto de Leipzig/Halle, que interromperam o tráfego aéreo e espoletaram uma resposta diplomática por parte de Berlim. Os Gerbera já estiveram envolvidos em incidentes noutros países da Europa — um foi recuperado depois de se ter despenhado na Moldávia, por exemplo. Mas a sua utilização tão longe da linha da frente seria inédita.

"Essa lógica [de a Rússia tentar influenciar eleições] aplicada à França tem alguma razão de ser. Aplicada a Itália, aplicada a Portugal, aplicada a Espanha... Tenho algumas dúvidas. Não julgo que se possa meter tudo no mesmo saco."
Tenente-General Marco Serronha

Qual o interesse da Rússia em atacar França, Espanha e Itália?

Keir Giles, analista britânico especializado em estratégia militar russa, aponta ao El Mundo que a escolha de alvos por parte da Rússia não está relacionada com a distância da linha da frente, mas com a identificação do “ponto fraco da Europa”. A fragilidade destes três países está, em parte, no facto de irem ter em 2027 eleições relevantes — presidenciais em França e legislativas em Espanha e Itália. O Tenente-General Marco Serronha faz uma ressalva nesta análise: “Essa lógica aplicada à França tem alguma razão de ser. Aplicada a Itália, aplicada a Portugal, aplicada a Espanha… Tenho algumas dúvidas. Não julgo que se possa meter tudo no mesmo saco”, argumenta.

Em causa está a posição dos diversos partidos de cada país em relação à Ucrânia. Enquanto em França uma vitória de Marine Le Pen ou da extrema-direita poderia levar a uma mudança de política externa, muito menos definitiva no apoio à Ucrânia e com uma possível reabertura de portas à Rússia, o mesmo não se verifica nos outros países. Aliás, em Itália, a direita conservadora de Giorgia Meloni lidera o país e mantém uma política firmemente pró-Kiev, salienta o especialista.

Além da questão política, a “fragilidade” do flanco sul da Europa poderá estar nas suas capacidades de defesa aérea. “Não há drones nestes países [que sejam] capazes, de forma barata, de abater [os drones russos], portanto, terá que ser com armas caras”, sintetiza o Coronel José Carmo. Todos os especialistas concordam, ainda assim, que o objetivo primário, de espalhar medo e fragilizar o apoio à Ucrânia, é o mesmo, seja no Mediterrâneo ou no Báltico. A única diferença está no raio de ação desta estratégia.

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▲ As eleições em França podem fazer do país um alvo mais frágil a pressões externas

AFP via Getty Images

Portugal também pode ser alvo desta escalada?

No trajeto da frota fantasma até ao Mediterrâneo, onde estarão a ser planeados os ataques, todos os navios passam necessariamente ao largo da costa de Portugal. A frequência destas passagens e o facto de as infraestruturas necessárias para lançar os ataques já estarem nos navios, seja no Mediterrâneo, seja no Atlântico, levam o coronel José Carmo a afirmar que a possibilidade de a Rússia lançar um ataque contra Portugal é plausível. “É realista e executável. Não é nada difícil de executar“, destaca.

A agressividade da Rússia, as novas estratégias da Europa e as “oportunidades” de Portugal. O combate à frota russa nas costas europeias

O tenente-general Marco Serronha salienta por sua vez que poderá haver um interesse em atacar alvos em Portugal. “Nós temos infraestruturas e capacidades de produção em território nacional que têm prestado apoio à Ucrânia. Portanto, [um ataque contra Portugal] entra dentro da lógica da narrativa russa de atacar infraestruturas ligadas a empresas que estão a apoiar a Ucrânia”, admite.

De qualquer forma, os dois especialistas sublinham que esta se trata apenas de uma análise puramente teórica e que a decisão de atacar ou não Portugal depende quase exclusivamente do racional que guia os estrategas do Kremlin sobre se uma possível resposta europeia justifica uma ação de menor dimensão do outro lado do continente. “Esta operação pode estar apenas pensada”, argumenta o coronel José Carmo, enquanto o tenente-general Marco Serronha diz que a possibilidade pode ser encarada “de uma forma benigna nesta fase, sob o ponto de vista exclusivo da narrativa e do ‘meter medo'”.

A Marinha portuguesa acompanhou e escoltou a passagem do navio russo Ursa Major

▲ A passagem frequente de navios russos na costa portuguesa faz de Portugal um alvo plausível

Marinha portuguesa

Os países visados reagiram à potencial ameaça?

Uma das variáveis que pode pesar na equação do Kremlin para decidir se deve ou não avançar com este novo tipo de ataques é a resposta dos países europeus: a sua inação, em particular, pode encorajá-los, destacam os especialistas. Para além da resposta coordenada da União Europeia (UE), cada vez mais focada em fazer frente à guerra híbrida com a Rússia, os alertas da CIA parecem ter despertado particular atenção em Paris, um dos países diretamente visados. Esta informação é relatada pelas fontes ouvidas pelo El Mundo, mas também é visível nas palavras de Emmanuel Macron nos últimos dias.

Na passada sexta-feira, ainda antes da publicação da notícia pelo jornal espanhol, o Presidente francês reuniu no Eliseu líderes dos vários partidos políticos para um briefing confidencial por parte dos responsáveis dos serviços de informações franceses. “A intenção por detrás [destes ataques] é intimidar-nos e minar o nosso esforço de apoio à Ucrânia. A consequência será o oposto”, disse, no final da reunião.

Na reta final do mandato, Macron procura ainda passar das palavras de resistência à ação. Nesse sentido, o chefe de Estado ordenou a criação de um “plano para a proteção das infraestruturas críticas”, que procura colmatar a fragilidade defensiva apontada pelos especialistas. Se a resposta europeia pesa na decisão russa de lançar os ataques, Paris procura dissuadir Moscovo ainda antes de a decisão ser tomada, prometendo impor um preço elevado aos ataques. “Isto não vai ficar sem resposta”, assegurou.

[Dois meses após o desaparecimento, e já depois de o genro, Raymond Quendoz, lhes ter anunciado que ia divorciar-se dela, os Silva Pais recebem finalmente notícias da filha. Annie está bem. Recusa dar detalhes sobre o seu paradeiro mas há cada vez mais evidências de que fugiu do marido para se juntar à revolução cubana. E, se isso aconteceu, uma coisa é certa: Annie tem de ter tido a ajuda e o aval do próprio Fidel Castro. Resta apenas saber porquê. Já pode ouvir o segundo episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]

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