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Eu é que sou o presidente. Arrancam agora os debates das eleições autárquicas na Rádio Observador. Começamos com Cascais. De um lado vai estar Alexandre Faria, que encabeça a coligação Todos por Cascais, tem o apoio do PS, do PAN e do LIVRE, é advogado, 48 anos, presidente do Estoril Praia. Já foi vereador, até com Carlos Carreiras, que estará do outro lado, o atual presidente da autarquia, eleito em 2011 pelo PSD e pelo CDS, coligação Viva Cascais. Antes de ser presidente da Câmara, foi vice-presidente, vereador e fora da política esteve também ligado ao mundo das empresas como gestor. Este é o programa de debate das eleições autárquicas, vai começar agora. Eu sou o Miguel Viterbo Dias e comigo na moderação está o Diogo Teixeira Pereira. Carlos Carreiras, por sorteio, responderá à primeira pergunta. Eu começava pelo fim. Em caso de vitória, vai entrar nesse último mandato. Pode garantir aos habitantes de Cascais que vai cumprir até o fim este último mandato?

Olha, Miguel, essa é uma pergunta recorrente por parte dos candidatos socialistas que já concorreram em duas anteriores eleições, e nomeadamente na última, em que me acusavam, tinham a certeza de que eu não concluía o mandato. E o que é certo é que foi a candidata, nesse caso era uma senhora, a candidata socialista que passados seis meses abandonou a Câmara. Peço desculpa, mas não é uma pergunta criativa, porque se é tudo o que fazem é sempre a mesma pergunta e a minha resposta é sempre a mesma, salvaguardando questões de ordem de saúde, como tive, por exemplo, neste mandato, que podia não ter chegado ao fim e não era por minha vontade, mas não vejo outras alternativas que não seja fazer o mandato até ao fim.

E olhando para a sua lista também dos últimos mandatos, vê em Miguel Pintoluz o seu sucessor para esse lugar de presidente da Câmara como candidato pela coligação PSD/CDS?

Eu sou republicano, não sou monárquico, portanto não entendo estas questões como questões dinásticas. De qualquer dos modos, isso depois na altura o PSD, daqui a quatro anos, escolherá quem é que quer como candidato à Câmara Municipal de Cascais. De qualquer dos modos, o que posso afirmar é que Miguel Pintoluz tem sido o meu braço direito, tem trabalhado comigo desde o início, é um homem completamente capaz de exercer estas funções, que tem toda a competência, toda a dedicação, todo o empenho e, portanto, não vejo razões para que não seja. Mas como disse, não vou ser eu a indicar o meu sucessor.

Vamos introduzir também no debate o Alexandre Faria, que foi vereador com o Pelôrz entre 2009 e 2013, durante a liderança de António Capucho, mas também esteve junto com Carlos Carreiras. Alexandre, já trabalhou com o atual presidente e recandidato do PSD/CDS. O que é que mudou para oito anos depois querer ser a alternativa a uma pessoa com quem trabalhou?

Nada mudou. Boa tarde a todos. Aproveito para cumprimentar também o Carlos Carreiras. Nada mudou, porque de algum modo, eu entendo que os mandatos devem ser cumpridos na resolução dos problemas das pessoas e tenho muito orgulho desse período, porque foi felizmente uma altura em que se conseguiram resolver determinadas questões e desenvolver determinados projetos que foram importantes para Cascais. E de algum modo, este repto que resulta do mandato popular que nos é conferido, deve sempre ser depois prosseguido em prol da nossa comunidade.

Portanto, não está zangado com Carlos Carreiras?

Não, de forma alguma. O que eu penso, de alguma maneira, é que temos ter uma responsabilidade acrescida nos mandatos que recebemos. E os mandatos são para cumprir. E de algum modo, independentemente de ter sido eleito na altura pelo Partido Socialista, não deixei por isso de dar o meu contributo forte para a vila que tanto amo e que de alguma maneira também me tem dado tanto ao longo da minha vida.

Mas agora se for eleito vereador, está disponível para aceitar novamente um convite de Carlos Carreiras?

Nós temos, de alguma maneira, um projeto que está a ser criado de 12 anos, com esta coligação que junta, apesar de eu ser independente nesta altura, o Partido Socialista, o PAN e o LIVRE, e dentro deste projeto político de 12 anos, estamos preparados para governar. E é para isso mesmo que estamos nestas eleições, porque pretendemos colocar em prática uma série de projetos e de ações que me parecem bastante relevantes para o novo futuro do município de Cascais. E por esse motivo, de alguma maneira também, todos aqueles que vierem por bem e que se identifiquem com este projeto, serão sempre bem-vindos.

E se Carlos Carreiras o chamar por bem?

Eu entendo que, de alguma maneira, tem de existir uma ligação muito próxima com estes princípios e com estes projetos que nós estamos a defender. Acredito que Carlos Carreiras também se identifica com vários deles.

Perdemos a reta final da sua resposta, mas julgo que ficou clara essa ideia. Eu avançava, antes de olharmos também para aquilo que os dois procuram para Cascais nos próximos quatro anos, a olhar aqui só para mais uma outra questão. Carlos Carreiras, Cascais tem diversas empresas municipais. E noto aqui que entre os presidentes e administradores executivos, todos tiveram uma passagem ou pelo seu gabinete, ou foram vereadores do PSD, ou são deputados municipais do PSD ou do CDS. Não se exige nesta matéria um maior cuidado e transparência na escolha destes órgãos, ou acredita mesmo que estas são as pessoas mais competentes para liderar estas empresas municipais?

A afirmação que diz não é uma afirmação correta. Aliás, o melhor exemplo está aqui, que é o próprio Alexandre Faria, que aproveito também para cumprimentar, há pouco não cumprimentei, também já passou por uma empresa municipal. E a maior parte dos que estão na empresa municipal, a esmagadora maioria, nunca passaram pelo meu gabinete.

Por exemplo, Cascais Ambiente teve ligação ao seu gabinete, também outras empresas.

Quem?

Da Cascais Ambiente.

Mas quem?

O atual presidente, foi seu adjunto.

Não. É uma informação que não está correta. Isso não é verdade.

Portanto, a maioria dos atuais líderes e gestores não tiveram ligação àquilo que é a coligação PSD/CDS?

Não tiveram, não passaram pelo meu gabinete. Também sou franco, se tivessem passado, também não via nisso nenhum problema em concreto e não vejo que isso seja alguma situação que possa levantar alguma suspeição. Aliás, suspeições é aquilo que nós nos habituamos. Passei estes anos todos com suspeições e até agora nenhuma delas se concretizou, porque a realidade é muito mais forte do que a própria suspeita e a tentativa de com isso manchar o nome de alguém.

Passo agora para o Alexandre Faria, que lidera o Estoril Praia, de resto, um clube que chegou à primeira divisão. Se vencer estas eleições, deixa o clube?

Eu sou presidente do clube, não tenho nenhuma ligação ao futebol profissional. Nós temos uma entidade que gere o futebol profissional, o Estoril Praia Futebol SAD, onde eu não tenho responsabilidades. Tenho, sim, uma responsabilidade perante os sócios e perante todos os adeptos do Estoril Praia, não só nas modalidades, mas também no futebol de formação. Defendo, como sempre defendi, e como disse há pouco, de facto, que os mandatos são para cumprir. Eu aceitei este desafio que me foi lançado como independente no âmbito desta coligação, para servir Cascais. E é isso mesmo que irei fazer, mas tenho um enorme orgulho no percurso que tem sido feito no Estoril Praia. Sei que há muito ainda por fazer e acredito que como instituição sem fins lucrativos e de interesse público, poderá ser possível, de algum modo, continuar a desenvolver essa atividade.

Mas não vencendo e ficando como vereador, com ou sem Pelouros, qual é que vai ser a sua postura no que toca à relação entre a autarquia e o clube, que tem uma relação próxima?

O que sempre fiz, aliás, quando tinha precisamente funções executivas na Câmara, abstinha-me de participar em todas as matérias relacionadas com o clube, até porque Cascais tem 111 clubes. Temos uma série de eleitos que também coincidem depois com mandatos associativos e de algum modo, o que deve existir acima de tudo é uma enorme transparência e uma enorme isenção nas funções que exercemos. As situações não se devem misturar e devem ser todas encaradas com maior seriedade dentro dos mandatos que nos são conferidos.

Alexandre Faria, deixe-me só também passar esta pergunta para o Carlos Carreiras, porque nós abrimos este debate também aos leitores e ouvintes da Rádio Observador e chegaram-nos muitas perguntas sobre este tema. Portanto, é um tema que os cascalenses querem também ver debatido. Carlos Carreiras, não está preocupado com este possível conflito de interesses?

Não. Aliás, isso é daquilo que eu há pouco dizia, só pode ser uma tentativa de lançar uma suspeita para depois daí tirar alguma vantagem e tentar enlamear o nome de alguém. Penso que quando o Alexandre foi aqui vereador e teve pelouros, já eu era presidente e não era ainda presidente do Estoril Praia. Mas não vejo, em momento algum, até porque conheço o Alexandre suficientemente bem para saber, para ter a certeza de que é uma pessoa idônea e que não mistura os vários patamares.

Mas é possível manter a liderança da Câmara com cargos num clube?

Se é possível? Aqui a resposta é igual à do Alexandre Faria. Há muitos outros dirigentes autárquicos que ao mesmo tempo também são dirigentes associativos.

Isso é certo ou errado?

Não considero que tenha qualquer coisa, porque senão temos que ver, também não podem fazer parte de uma direção de uma associação cultural, não podem fazer parte de uma associação ambientalista, não podem fazer parte de qualquer movimento associativo. E aí eu acho que é errado, porque cada vez leva a que se esteja distanciado dos problemas e do próprio conhecimento do conselho. Portanto, não vejo nisso nenhum mal quem possa exercer as duas funções em simultâneo.

Muito bem, creio que este assunto também ficou claro, a opinião de ambos. Vamos avançar agora para as questões relacionadas com a pandemia. A autarquia de Cascais tem feito muitos investimentos no combate à pandemia, fretou aviões com material médico, criou uma fábrica para produzir e oferecer máscaras, fez testes sorológicos à população, mas tudo isto tem um preço e no início do ano, o Tribunal de Contas chegou à conclusão de que Cascais foi o conselho que mais gastos teve no combate à pandemia. Carlos Carreiras, as medidas que tomou foram todas elas necessárias?

Não foi o conselho que mais gastos teve, foi um dos que teve mais gastos. Qualquer das formas, isso foi reportado aos primeiros seis meses da própria situação pandémica. Se fizerem neste momento as contas, claramente que não é, já fomos ultrapassados por outros conselhos. No início, tivemos um investimento inicial que foi importante, até foi em antecipação em relação ao que se estava a passar no nosso país e não vejo questão nessa matéria e não deixarei de investir nenhum cêntimo enquanto a pandemia não estiver regulada. De qualquer dos modos, se me pergunta se algum deles possa ter sido escusado, não foi. Não foi dinheiro mal gasto, foi dinheiro bem aplicado, que por sua vez também é reconhecido pelos munícipes nessa mesma dimensão. Portanto, mantenho e reafirmo, qualquer que seja a necessidade. Repare, no princípio da pandemia, eu tive cinco ministros que me telefonaram a pedir EPIs, equipamentos de proteção individual. É preciso perceber como é que estava o próprio país na altura, ali não só Portugal, como é que estava o mundo naquela altura. Nós não deixaremos de investir um cêntimo na proteção e na salvaguarda da saúde dos munícipes de Cascais.

Muito bem, Alexandre Faria, estávamos a falar deste combate à pandemia e no fundo é para perceber se concorda com a estratégia seguida pelo presidente Carlos Carreiras e pela autarquia de Cascais.

São tempos de grande imprevisibilidade. Nós temos de reconhecer que todos fomos muito apanhados de surpresa com toda esta circunstância da pandemia, que naturalmente Tivemos que deitar mãos a uma série de circunstâncias e situações para as quais não estávamos preparados. A única situação que me preocupa, aliás, já tenho transmitido isso também, é que as medidas que estão a ser lançadas, não têm, lamentavelmente, e isto não é responsabilidade de ninguém, contribuído para que Cascais saia dos lugares cimeiros em termos de número de infectados. Penso que deve existir uma grande pedagogia e um grande trabalho junto dos mais novos, junto de todas as instituições, para que se consiga realmente combater devidamente esta pandemia e conseguirmos eliminar de vez ou pelo menos conseguirmos voltar a viver e ultrapassar esta situação da pandemia. É importante também não esquecermos as empresas, não esquecermos também os apoios que devem ser dados para que o setor da economia também comece a retomar. Penso que teria sido importante que Cascais também tivesse assumido uma posição de apoio direto. Fê-lo com diversas instituições e com diversas associações, mas no setor econômico optou-se por uma estratégia diferente e a estratégia, no meio de tudo isto e no que respeita à pandemia em geral, medem-se pelos resultados que se alcançam. E de facto, de algum modo, continuamos no topo e é isso que temos que fazer todos um esforço enorme para que baixe.

Carlos Carreiras, recebe este apontamento de Alexandre Faria sobre a falta de apoio ao setor econômico.

Permita-me dizer uma boa notícia, Alexandre, porque hoje baixámos o nível de risco e portanto já estamos abaixo dos 480, já não estamos em risco muito elevado, mas isto para quem está a viver esta pandemia desde o primeiro minuto, já percebeu que isto é uma montanha-russa. Aliás, lembro-me até alguns colegas meus, até aqui vizinhos, que a princípio se vangloriavam que o conselho deles estava com níveis muito abaixo e que as críticas que faziam de não investir no combate à pandemia caíam por terra, porque o conselho deles estava muito abaixo. Eu na altura pensei para mim que esperava, sinceramente, que eu não viesse a engolir essas palavras. E o que é certo é que engoliu logo em seguida, porque foi um dos conselhos que mais disparou. Cascais tem estado ainda assim muito controlado em termos de incidência da própria pandemia. Estamos abaixo da média nacional daquilo que representa a percentagem em relação ao todo nacional, e também em relação àquilo que há pouco o Alexandre referiu sobre a questão econômica, eu penso que das duas, uma: ou o Alexandre ainda não teve contato com a Associação Empresarial de Cascais, porque eles poderão esclarecê-lo, de facto, de qual é que é a apreciação que fazem. Nós fizemos um estudo e temos estado a trabalhar em conjunto com a Associação Empresarial e esse estudo que foi feito junto dos próprios empresários, a esmagadora maioria reconhece o trabalho que a Câmara fez. Agora há que identificar duas coisas. Cabia ao governo, e o governo tomou essas medidas, de lançar programas de incentivo direto às empresas. E há algumas queixas por parte dos empresários de que esse apoio ou não chegou ou chegou tarde, mas nunca sou defensor de a autarquia meter dinheiro numa empresa privada. Agora o que fizemos foi reunir com a Associação Empresarial de Cascais, criar um gabinete de aconselhamento aos empresários para que pudessem fruir desses apoios que estavam a ser anunciados pelo Estado e depois isentámos de taxas, ou seja, de não pagamentos. Fomos o primeiro conselho, por exemplo, na restauração, a aumentar o espaço público para as esplanadas, depois isso expandiu-se por todo o país. Portanto, demos os apoios que considerámos que eram importantes e que têm sido reconhecidos pelos empresários de uma forma muito esmagadora, de que sentiram esse acompanhamento da Câmara e sentiram esse apoio da Câmara.

Deixe-me pegar ainda na questão desse incentivo ao mundo empresarial, porque também durante a pandemia falou sobre a criação de uma fábrica de vacinas no Conselho. Ainda não tivemos mais novidades depois desse anúncio inicial. Como é que está esses contatos que fez? E aqui também em jeito de provocação, se no ano de autárquicas fazer esse tipo de anúncios depois sem esse follow-up, se não pode ser aqui considerado um bocadinho eleitoralismo.

Não, há uma relação. Aliás, o próprio Alexandre teve o pelouro das relações internacionais na Câmara, sabe que a Câmara tem e continua a desenvolver de uma forma muito ativa esse relacionamento com outras autarquias. Nós temos, pela via cultural, um grande relacionamento com a Câmara de Moscovo, e pôs-se a possibilidade de comprar ou até de fabricar numa altura em que não havia vacinas. Sempre com a condicionante de que a Sputnik, que era a vacina em questão, tinha que ser validada pela EMA, que é a Agência Europeia do Medicamento, coisa que ainda não aconteceu. Qualquer dos modos, desde o início, mantive sempre o senhor primeiro-ministro informado destas démarches e não fiz nada que o senhor primeiro-ministro tivesse tido para não fazer. E, portanto, tem havido uma forte colaboração, mas neste momento nem a EMA validou a vacina Sputnik, nem foi possível desenvolver mais, porque essa é uma limitação óbvia e que nós colocámos como consideração. Agora, o processo mantém-se ativo, mantém-se vivo Estão identificadas as empresas que em Portugal podem concorrer em consórcio para fabricar a própria vacina e está tudo tratado. Se houver essa validação por parte da EMA e se houver falta de vacinas, coisa que neste momento há alguma abstenção, mas continua a haver bastante vacinas, não se coloca para já a questão.

Muito bem, continuamos o debate centrando aquilo que podem ser os próximos quatro anos. Naturalmente, o recandidato Carlos Carreiras responderá também em parte pelos últimos mandatos. Carlos Carreiras, a questão da Quinta dos Ingleses é um tema que voltou a ficar quente nos últimos tempos. A Câmara não fez tudo o que podia para salvaguardar este espaço?

Não, Quinta dos Ingleses é um processo recorrente de quatro em quatro anos, quando chegam eleições autárquicas, há sempre um setor da sociedade de Cascais, mais radical, que tenta com isso ganhar vantagens. A Quinta dos Ingleses é um processo que começa em 1961, não vou estar aqui a explicar, senão ocupava o tempo todo sobre a Quinta dos Ingleses. Aliás, o próprio Alexandre conhece o processo bem, até porque quando foi também aqui vereador, no tempo em que foi, aprovou uma série de procedimentos com vista à aprovação da Quinta dos Ingleses. A Câmara estava em vias de ter que pagar uma indenização no processo que foi colocado pelos proprietários, mas esse não era o meu principal problema. O problema era que nesse processo não só tinha que pagar a indenização na ordem superior a 300 milhões de euros, que obviamente a Câmara não tinha, mas que tinha que executar aquilo que tinha sido consignado por direito em escritura pública por uma presidente da Câmara Municipal de Cascais à época, em cartório notarial. E, portanto, isso era então o pior dos piores. O que fizemos foi negociar, foi reduzir, foi dar uma nova urbanidade ao próprio projeto. E agora há uma recomendação do PAN com o Partido Socialista para o governo, que é o único que pode neste momento intervir sobre esta matéria, de travar o processo da Quinta dos Ingleses. Eu já manifestei essa disponibilidade para colaborar naquilo que o governo quiser, colocando como condição que, obviamente, eventuais indenizações não caberá à Câmara pagá-las e também as próprias contrapartidas que estão nesse plano a favor dos munícipes de Cascais, terá que o governo encontrar meios financeiros para poder fazer essas mesmas contrapartidas.

O Carlos Carreiras é ou não a favor do projeto que está previsto para a Quinta dos Ingleses?

Ninguém é a favor do projeto da Quinta dos Ingleses. Isso é um mito que tem que acabar. O que é certo é que há ali compromissos e num Estado de direito como é o nosso, esses compromissos prevalecem sobre o restante. Mas isso melhor do que ninguém, o próprio Alexandre, que é advogado, que é jurista, terá essa mesma informação. E portanto, aqui a questão é: não pegámos num papel em branco, naquilo que pegámos, melhorámos muito substancialmente e, portanto, é um processo que neste momento está suspenso por seis meses a aguardar que o governo cumpra a recomendação que foi feita pelo Parlamento, pela Assembleia da República.

Havendo esta questão, ela foi criada pela Câmara, mesmo que tenha sido há 20, 30, 40 anos. A questão aqui é: faz sentido pedir à Assembleia da República ou ao governo que assuma as despesas de um problema criado pela Câmara?

Ponto um: primeiro, eu não pedi nada a ninguém.

Estou a falar da indenização.

Eu não pedi nada a ninguém, é uma recomendação da Assembleia da República ao governo, por iniciativa dos vários partidos.

Mas isso fará com que o governo assuma a indenização aos promotores do projeto.

Isso é a recomendação da Assembleia da República. Eu não pedi nada a ninguém. Segunda questão, a decisão não é da Câmara. É preciso perceber como é que todos esses processos se desenvolvem. E, portanto, as entidades públicas do governo central que deram parecer, que aprovaram, que de alguma forma permitiram chegar ao processo de alvará, neste caso o que falta é o alvará de loteamento, o plano de pormenor já foi aprovado e já foi publicado. Portanto, isso não é só a Câmara, isso são processos em que estão envolvidas muitas entidades e todas as entidades foram sugerindo. Por exemplo, lembro-me que a própria entidade a nível do ambiente fez um conjunto de recomendações que ajudou a que melhorássemos ainda mais o próprio plano de pormenor e, portanto, todas elas estão corresponsáveis nesse processo. Aliás, como foi dito na própria comissão da Assembleia da República por algumas dessas entidades que foram convidadas a participar e que participaram. Portanto, é uma questão que aguardarei até o final deste mês, enviarei uma carta ao senhor prime ministro, exatamente alertá-lo para isso e mostrar essa disponibilidade de colaboração por parte da Câmara e aguardaremos qual é que é a decisão do próprio governo.

Alexandre Faria, tendo também tido já um papel ao longo deste longo processo também, entende que a Câmara de Cascais fez tudo para proteger este local do investimento imobiliário, em particular aqui, claro está, nos últimos dois mandatos.

Miguel, quero deixar claro algumas questões. Primeira, eu não aprovei rigorosamente nada. Aliás, as deliberações em que participei foram deliberações para a comissão de toda a documentação para pareceres obrigatórios de outras entidades. E quero deixar aqui muito claro que não sou favorável a este projeto. O que me parece é que existe aqui uma questão importantíssima, que é respeitarmos ao máximo esta resolução da Assembleia da República, que permite classificar a Quinta dos Ingleses como uma paisagem protegida de âmbito local e implementando com isso todos os mecanismos necessários à preservação E à resolução dos passivos ambientais. É isto que consta na resolução e é isto que tenciono que seja devidamente cumprido. Também deixar claro que estamos aqui a perder uma grande oportunidade para conseguirmos transformar aquela zona, em especial, no maior parque urbano para o Conselho de Cascais. E é isto que deve ser feito com toda a determinação. Eu não gosto do projeto como ele está. Eu penso que deveremos ter aqui um papel de resolução ao nível municipal. E aqui manifesto a minha discordância em relação ao que foi dito, porque tem de ser a Câmara Municipal a resolver esta questão. E tem de ser dentro de toda a capacidade negocial que tem, indo ainda mais longe, e não perder esta oportunidade de transformarmos aquela zona no que deve ser: um grande espaço e um grande parque urbano que sirva não só a população de Carcavelos e Parede, mas também de todo o concelho. E que seja uma grande referência ambiental para Cascais.

Ou seja, se for necessário, pensa estar na disposição de ir mais longe do que a ideia de Carlos Carreiras e assegurar, por exemplo, o pagamento das indemnizações?

Essa é uma questão que terá que ser analisada, uma vez tomada toda esta decisão. Agora, não me parece que exista aqui essa inibição de podermos continuar a trilhar este caminho de estrategicamente considerarmos aquele espaço como um parque urbano que deve ser classificado como tal. Aliás, a própria resolução da assembleia é clara em relação a essa matéria. Isto tem que ser resolvido a nível local e há aqui a possibilidade de o fazer e acredito que sim.

Carlos Carreiras, se há possibilidade, por que ainda não o fez?

Não só dizer, em primeiro lugar, que vai nascer na Quinta dos Ingleses, como é conhecida, o maior parque verde urbano do Conselho de Cascais, que tem 10 hectares. E só que são 10 hectares perfeitamente requalificados e regenerados e não os cerca de nove hectares que lá estão com arvoredo completamente sem qualquer tipo de interesse, do ponto de vista ambiental. Depois dizer que isto é o recuo, naturalmente, do Alexandre Faria, muito por pressão dos seus parceiros de coligação, nomeadamente o PANA, porque eu tenho aqui deliberações de 23 de janeiro de 2012, 8 de abril de 2013, de 18 de fevereiro de 2013, de 24 de julho de 2013, todas com os votos favoráveis do Alexandre Faria e de outros vereadores do Partido Socialista, sendo que havia uma vereadora, que é assim, que faça-se justiça, que votou contra. Mas o Alexandre Faria e outros vereadores do Partido Socialista votaram sempre a favor e algumas dessas deliberações é a aprovar matérias específicas e vinculativas em relação àquilo que vem a ser o plano de pormenor de Carcavelos Sul. Portanto, não se pode, neste momento, e eu considero que há algum momento de responsabilidade, sacudir a água do capote, só porque neste momento eleitoralmente não interessa fazê-lo. Mas de fato, essas deliberações estão aqui e posso obviamente disponibilizá-las e partilhá-las com a própria população, que já tem, aliás, eu tive a oportunidade de fazer um livro a explicar todo o processo da Quinta dos Ingleses, porque parecia que era o Carlos Carreiras que tinha aqui algum interesse escondido em aprovar o plano de pormenor da Quinta dos Ingleses e isso está público, está à vista de toda a gente. Agora de quatro em quatro anos surgem essas situações.

Alexandre Faria, vou lhe dar um minuto para responder a Carlos Carreiras nesta questão, devido a esta insistência de ter feito parte da aprovação de várias questões relacionadas com este projeto.

Não, eu insisto naquilo que já transmiti. As deliberações em que participei foram deliberações para a remissão de pareceres de entidades, que é obrigatório por lei. O que eu penso que é fundamental é nós termos aqui uma visão muito concreta sobre o futuro daquele espaço. E aí acredito que esta visão de nós termos uma habitação mais sustentável, um ambiente que seja ambientalmente responsável e que tenha a possibilidade de perante aquele equipamento que existe e perante uma zona tão estratégica do Conselho, conseguirmos proteger o que efetivamente deve ser protegido, isto é que tem que ser a prioridade em relação às opções do futuro.

Deixem-me seguir ainda para a política de habitação. Acredita que é um calcanhar de Aquiles da governação de Carlos Carreiras? É um setor onde a autarquia não investiu tanto como noutros, por exemplo, na questão da renda acessível, que em especial na área metropolitana de Lisboa ganha aqui uma grande importância.

Nós temos aqui uma situação que me parece importante discutirmos e conversarmos. Ainda bem que trouxeram esse tema, porque julgo que é uma das questões que Cascais necessita de olhar com toda a atenção. Nós temos a necessidade de manter no nosso Conselho aqueles que são efetivamente de Cascais. Neste momento estamos com preços elevadíssimos de metro quadrado, que impossibilitam a quem é de Cascais continue a viver cá e que tenha de recorrer a habitações fora do Conselho. Com isto perdemos talento, perdemos identidade e ficamos também com um Conselho mais descaracterizado. Temos de apostar muito fortemente na questão da habitação a custos controlados, com modelos que sejam através de cooperativas de utilidade pública, seja de toda a forma que permita que o próprio município tenha a possibilidade de controlar o mercado imobiliário, que está de facto extremamente inflacionado. Nós neste momento temos uma especulação imobiliária no Conselho, que leva a que os preços estejam altíssimos, a apostar fortemente numa reabilitação urbana também para os jovens e não só para os jovens. E conseguirmos com isso, sermos um exemplo não só de construções sustentáveis, mas também de possibilitarmos que os nossos talentos, os nossos jovens e as pessoas que querem e podem morar em Cascais, consigam fazer a sua vida cá. Esta é uma prioridade.

Mas é claramente um ponto onde a autarquia tem que meter mais dinheiro, tem que investir.

Eu entendo que a Câmara Municipal pode ter aqui um papel extremamente importante de regulação do próprio mercado. E é importante que isso aconteça, porque se não for de facto a Câmara Municipal a fazê-lo Se não conseguir atingir pelo menos uma percentagem de 30% para que se consiga condicionar o valor do metro quadrado, nós vamos continuar a perder os nossos talentos em Cascais. Há uma frase que me ficou na mente de uma munícipe que me disse, que eu não me esqueço disso, que nós não podemos continuar a perder os nossos. E é isso que me parece fundamental e estratégico para o futuro de Cascais.

Vamos perceber agora também com o Carlos Carreiras como é que a autarquia pretende responder a esta falta de capacidade da classe média para ter uma casa.

Em primeiro lugar, dizer que concordo com o Alexandre, porque o Alexandre o que disse é tudo e nada. Aliás, é um discurso que já nem é de hardware, nem de software, é de vaporware. Portanto, é de quem está completamente desajustado em relação à realidade. O que se passa, e então quando fala em 30%, é mesmo quem não tem conhecimento do que não é realidade em Portugal, é a própria realidade na Europa a nível global. O que nós estamos a fazer, porque isto é uma incumbência constitucional que caberá ao governo central, e o governo central, e bem, colocou esta matéria na chamada bazuca, portanto, no PRR, e a Câmara Municipal de Cascais tem estado a trabalhar com o INH e com o Ministério das Infraestruturas, porque é quem tem esse pelouro da parte da habitação, e temos candidaturas para construir habitação. Mas reparem que o preço, quando se fala em habitação a custos controlados, é bom que se saiba quanto é que isso está designado na própria lei. E neste momento a lei, o que prevê de construção àqueles custos, não é em Cascais. Não há no país inteiro alguém que consiga produzir àqueles custos. Portanto, esse é um problema adicional. Depois, aqui, de fato, há a necessidade de conjugar, e a Câmara tem vindo a disponibilizar aquilo que é possível a Câmara disponibilizar, que são terrenos, mas numa lógica de não é para construir habitação para ser vendida, é para ser alugada, é para o mercado de arrendamento. Neste momento, Cascais é dos concelhos que mais habitação acessível, em termos percentuais, tem em relação ao país, que são 2,5%. A média da União Europeia é 6%. Agora a questão aqui é esta: por muito esforço que se faça, o duplicar só estes 2,5% que não consegue responder às várias questões que existem sobre habitação, é um esforço gigantesco. E nós estamos a concorrer ao PRR, estamos a concorrer ao plano 2030, que também é da União Europeia, para poder fazê-lo. Agora, o reter a própria população e o talento faz-se acolhendo aqui universidades, acolhendo aqui academias de saber e, acima de tudo, criando cadeias de valor que permitam pagar melhor às pessoas, aos trabalhadores. E nisso, ainda ontem saiu uma sondagem, uma estatística de que Cascais é o concelho que o rendimento per capita é o terceiro maior no país, e, portanto, é geral. A questão da habitação a preços acessíveis não é um problema de Cascais, é um problema de todo o país, muito especialmente das áreas metropolitanas. Por isso, tem que ser um programa que tem que ser atacado pelo governo. Foi esquecido durante anos por vários governos e que o último grande plano foi do primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva. E portanto, para se perceber o tempo todo que decorreu sem uma política pública de habitação. Mas eu estou a crer, e neste momento, tenho todos os dados nesse sentido, que o atual ministro da tutela, que é o ministro Pedro Nuno Santos, está atento a isso, está empenhado nisso e tem a força política para desenvolver esses mesmos planos de investimento em habitação acessível.

Já lá vamos a isso, até porque também já vamos a outros problemas que o ministro pode resolver a Cascais. Eu ia relacionar esta questão com a desigualdade, Alexandre, se quiser responder a Carlos Carreiras na sequência da próxima pergunta, poderá fazê-lo. Identifico esta questão da desigualdade entre a chamada Costa do Sol e Costa da Sombra, é linguagem corriqueira, como uma das grandes prioridades. Por que as lideranças dos últimos anos ainda não as conseguiram resolver?

Eu acredito que nós temos, para já, de começar a deixar de usar essa expressão, que me parece bastante depreciativa, inclusivamente para o interior do Conselho. E temos cada vez mais de combater as assimetrias que existem, as diferenças que existem. E para o fazer, temos de uma vez por todas acabar com as AUGI, com as áreas urbanas de génese ilegal que ainda continuam a existir nas duas freguesias do interior, quer em Alcobidece, quer em São Domingos de Rana. Foi um esforço muito grande que foi feito nos anos 90 e que depois não teve ainda a sua conclusão, e é algo que deveremos empenhar-nos ao máximo para que termine, porque temos situações de uma grande disparidade de desenvolvimento entre o interior e o Conselho. Isto atravessa com as questões da mobilidade, atravessa também com as questões que nós temos relacionadas com a diferença de oportunidades que existe e, acima de tudo, combate-se criando novas centralidades e novas oportunidades nas freguesias do interior. Essa será uma fortíssima aposta desta coligação, precisamente porque Cascais tem que ser efetivamente de todos. E porque de algum modo, também entendemos que só com o desenvolvimento harmonioso e com o Conselho coeso e solidário entre si, em termos territoriais, é que poderemos ter uma vila muito mais forte na sua globalidade. Custa muito e de algum modo, deixe-me só terminar para dizer isto, Miguel. Custa muito, e nota-se muito, de fato, que há um interior esquecido e abandonado e que esse, de uma vez por todas, tem que ficar ao mesmo nível dos investimentos que recorrentemente são feitos no litoral do Conselho.

Era isso que ia perguntar, se faz aqui alguma leitura de uma maior aposta nas freguesias mais do litoral e menos nas do interior por parte da autarquia.

Essa é a realidade que nós podemos constatar no território. O que eu penso é que, de algum modo Temos cada vez mais de apostar no interior e de permitir que o interior se aproxime do litoral em termos das apostas que são feitas nos equipamentos, nas academias, nas faculdades, na própria defesa da cultura e da identidade muito própria dessas freguesias. E só assim é que teremos um espaço muito mais uno entre si. E essa é uma fortíssima aposta nossa, sem dúvida.

Carlos Carreiras, como diz aqui o Alexandre Faria, se continuam a notar tanto estas diferenças e não usando a expressão Costa do Sol e Costa da Sombra, usando a A5, por que se notam tantas diferenças entre a parte de cima e a parte de baixo da A5?

Em primeiro lugar, deixem-me tecer aqui uma constatação que o Alexandre está desatualizado em muitas das matérias e já vou dar casos concretos. E terei todo o gosto no princípio do próximo mandato, de que ele possa contactar os serviços e até se quiser fazê-lo já, até era bom, mas de contactar os serviços e tomar consciência da realidade atual. Até porque as AUGI em Alcabideche acabaram e agora há um resquício de outras AUGI muito pequeno em relação a São Domingos de Rana, que estão presas por outro tipo de procedimento e por outro tipo de enquadramento territorial, que estamos a tentar ultrapassar, mas já são muito poucas. Mas não são as AUGI, porque as AUGI, neste momento, em Cascais, mesmo em São Domingos de Rana, já atingem preços, as moradias, muito elevados. Portanto, não é isso que faz as assimetrias. O que faz as assimetrias foi de ter colocado mais gente no interior do Conselho, e isso, de fato, foi a maioria socialista da última vez que governou a Câmara, mais gente no Conselho sem dar equipamentos, sem fazer infraestruturas. E por isso nós temos vindo a fazer um forte investimento nas freguesias, que eu não gosto de chamar de interior, porque chamar alguma coisa de interior em Cascais é estar a ofender, por exemplo, os cidadãos da Guarda ou de Castelo Branco ou seja onde for. Mas, de fato, há freguesias que verificam algumas assimetrias que têm vindo a ser combatidas. Alcabideche já aconteceu isso e, portanto, hoje, de fato, já começa a aproximar-se muito daquilo que é a antiga freguesia de Estoril e a freguesia de Cascais, suas vizinhas, e São Domingos de Rana, muito. E tivemos foi anos em que não houve investimento nessas infraestruturas. E neste momento estamos a fazê-lo. Nunca se investiu tanto, por exemplo, em São Domingos de Rana, como se investiu nos meus mandatos. Vou dar um exemplo. Pode parecer muito simples, mas de fato é verdadeiro. Não havia em São Domingos de Rana, na grande esmagadora maioria do território da freguesia, passeios. Ou seja, nem a mãe a passear o bebê ou um cidadão deficiente conseguia deslocar-se dentro da própria freguesia. Ora, esses passeios estão feitos. A 249, que é uma estrada absolutamente fundamental no Conselho, que é da responsabilidade das infraestruturas de Portugal, é agora que está a ser intervencionada, por via do acordo que a Câmara estabeleceu com as infraestruturas de Portugal e conseguimos desbloquear essa situação. O investimento que está a ser feito na saúde, nas escolas, em equipamentos culturais, é absolutamente fundamental. Eu entrei, do ponto de vista cultural, só as associações é que tinham alguma participação cultural, mas tinham todas as sedes a cair, a chover lá dentro, a perderem o próprio arquivo, a tal identidade do próprio Conselho. Isso tudo foi ultrapassado com o quê? Com investimento. E é esse investimento que nós estamos a fazer, como nunca há memória de se ter sido feito no Conselho de Cascais, quer especialmente na freguesia de Alcabideche, quer muito em especial na freguesia de São Domingos de Rana.

Deixe-me então passar para outro investimento, mas não um investimento da autarquia, um investimento do governo, estou a falar, naturalmente, da Linha de Cascais e do investimento prometido pelo governo. O Carlos Carreiras dedicou ao ministro Pedro Nuno Santos um grande elogio há uma semana no Jornal I. Alexandre Faria, não ficou com ciúmes desta boa relação do presidente da Câmara de Cascais com este ministro socialista?

Não, de maneira nenhuma. Fiquei profundamente satisfeito e orgulhoso por ver que o governo do Partido Socialista está a resolver uma questão importantíssima para o Conselho. Aqui não pode haver sentimentos dessa natureza. O que me parece é que existe, de fato, uma vontade comum de termos finalmente a linha conforme desejamos e é importantíssimo que exista esta coordenação entre a administração central e a administração local. Nós temos discutido vários projetos, como calculam, com este governo e, de alguma maneira, ver que este passo está a ser dado independentemente de estarmos a menos de dois meses das eleições, revela precisamente que não existe qualquer tipo de aproveitamento ou de eleitoralismo nestas matérias. O que interessa é Cascais e o que interessa é resolver os problemas das pessoas. E por isso mesmo é que manifestei não só a minha satisfação, mas também reconheço que é importantíssimo que, independentemente dos calendários eleitorais, se continue a apostar muito forte na resolução dos problemas dos municípios de Cascais.

Mas acha que a autarquia fez o suficiente para tentar resolver essas deficiências da Linha de Cascais?

Eu reconheço, de alguma maneira. Falávamos há pouco das últimas gestões socialistas na Câmara Municipal de Cascais, mas de lá para cá passaram 20 anos. E durante esses 20 anos, há aqui uma questão importantíssima de resolução de problemas que ainda hoje estamos a falar, passados 20 anos. E isso é necessário que também tenhamos aqui alguma capacidade de discernimento, de reconhecermos o que são as competências do governo, mas o que deve ser também a própria iniciativa da Câmara. Tem existido diversas matérias em que eu reconheço que esta Câmara Municipal Se tem substituído a administração central, mas tem-no feito bem, porque nós temos de ter sempre um objetivo primordial que é resolvermos as questões das pessoas e resolvermos os problemas estruturantes que o conselho ainda carece. Voltando só para terminar, respondendo à questão das AUGI, eu não concordo que, de alguma maneira, durante estes 20 anos, se tente agora esconder ou não lembrar os problemas que ainda existem em relação aos bairros de Janes e Legal, que devem ser resolvidos. Eu tenho reunido com várias associações e ainda existem uma série de situações que merecem que o gabinete da Câmara, em relação às AUGI, seja reforçado para que este flagelo termine de uma vez por todas.

Carlos Carreiras, não sente que meteu as mãos no fogo pelo ministro Pedro Nuno Santos? Não está com medo de se queimar?

Deixa-me só atualizar o Alexandre Faria. Das AUGI, estamos a falar de menos de 5% que faltam resolver e pelos problemas que eu há pouco referi do ordenamento do território. Agora, o que se passa na linha de Cascais, que naturalmente nunca pode ser resolvido pela Câmara Municipal de Cascais, embora nós tenhamos manifestado essa intenção, se fosse caso disso, nós resolvíamos o problema ou íamos à procura da solução para o problema. O que é certo é que passaram muitos governos, inclusive do meu partido. Passaram ainda mais que um ministro.

E muitas promessas também.

Inclusivamente alguns do meu partido. E todos eles andaram a enganar basicamente os utentes da linha de Cascais. Não resolveram rigorosamente nada. O cúmulo deste gozo por parte do ministério foi com o ministro Pedro Marques, que é uma coisa que nem sequer dá para contar, porque de fato desrespeitou tudo e todos. E agora entrou, de fato, o ministro Pedro Nuno Santos, que eu tive a oportunidade logo no início de falar com ele e colocar-lhe esta questão. Depois de muitas conversas e muitas cartas trocadas com o próprio senhor primeiro-ministro, que obviamente mantemos uma relação cordial, até porque fomos ambos presidentes de câmara ao mesmo tempo, eu de Lisboa e ele de Cascais. E o que é certo é que o ministro Pedro Nuno Santos, desde o princípio, todos os compromissos que assumiu tem vindo a cumpri-los. E, portanto, é de toda a justiça fazer esse reconhecimento ao ministro Pedro Nuno Santos.

Esta questão da compra dos comboios resolve os problemas da linha de Cascais? Ideias, por exemplo, como o Metrobus deixam de ser necessárias com a chegada destas composições?

Não, nem uma coisa substitui a outra. São coisas completamente distintas. Aliás, isso é preciso depois falar com quem sabe sobre estes meios de transporte. Agora, o que sei é que nós defendemos que possa haver essa circulação, que chamou Metrobus pela A5, em espaço dedicado, o termo correto é transporte público em espaço dedicado, dela ser feita pela A5, e que o próprio ministro Pedro Nuno Santos, porque também tem a tutela sobre esta matéria, que também concorda e está a desenvolver o processo. Neste caso, qual é o fator complicador? Tem a ver com a concessão, que é uma autoestrada concessionada e, portanto, tem que ser negociado com a empresa que tem essa mesma concessão. Mas mantemos o nosso interesse nessa matéria. É um interesse, por exemplo, acerca do que estávamos a falar há pouco, que pode ajudar e muito na questão das assimetrias em relação à freguesia de São Domingos de Rana e também de Alcavideche, mas muito especialmente em relação à freguesia de Alcavideche. Aliás, basta ver o seguinte: é algo que existe de semelhante em Mafra. Mafra, como sabe, não tem linha de comboio, portanto, de transporte pesado para Lisboa, e Mafra é dos concelhos, no censos que acabou de sair, que mais cresceu na área metropolitana de Lisboa, em números que não têm comparação com qualquer um outro. Já agora, Cascais foi dos que menos cresceu, mas em termos de habitantes. Portanto, isso é um fator que pode vir a ajudar a resolver, mas não consegue substituir uma linha como é a linha do comboio, nem sequer uma linha de metro, que também há boas notícias nessa matéria, porque o metro está a chegar até ao Vale do Jamor, portanto, não é em Cascais, é em Oeiras. Permitirá para já que se possa ir de quem quiser de carro até ao Jamor e depois apanha o metro e entra no circuito, portanto, não entra em Lisboa, que é o grande problema existente. E neste caso também, quanto mais se aproximar a linha de metro a Cascais, melhor, porque dá a esperança de que no futuro, seja ele quando for, teremos metro também em Cascais. Mas não, como algumas propostas que já surgiram nesta campanha eleitoral, de alguém que não conhece rigorosamente nada sobre esta matéria, de propor uma linha de metro exclusiva para Sintra, Oeiras e Cascais. Isso é que não há, de todo, nenhuma sustentação técnica que possa permitir uma coisa dessas.

Muito bem, estamos encaminhando para a reta final. Ia pegar aqui na temática da segurança, porque foi um assunto também, uma preocupação partilhada por um conjunto de ouvintes, moradores em Cascais. Alexandre Faria, eu perguntava-lhe se tem sentido esta preocupação entre os cascalenses. Vejo, por exemplo, também que Carlos Carreiras tem partilhado no Facebook alguns dos momentos de atuação das próprias autoridades, como que elogiando esse trabalho. Mas se tem sentido, Alexandre Faria, esse aumento de preocupação no que toca à segurança e se enquanto nisso tem também sentido algum decréscimo naquilo que é o policiamento no Conselho de Cascais.

É um tema bastante importante, é um tema ao qual deveremos dar toda a atenção. De alguma maneira, eu penso que nós temos que ter aqui em análise alguns dos dados que têm sido disponibilizados por diversas entidades oficiais e que naturalmente me preocupam. Isto naturalmente extravasa a esfera municipal, mas temos que ver isto, tal como estávamos há pouco a falar da questão da mobilidade Em termos de articulação com a Área Metropolitana de Lisboa, que é algo que eu registo com muito agrado, porque me parece que tem de ser feito esse enquadramento. Também nas questões de segurança, não podemos deixar de o fazer. Cascais tem registado um aumento do número, sobretudo os crimes contra o patrimônio, que é algo que deverá merecer todo o nosso cuidado e toda a nossa atenção. Para além disso, não só por colocar em causa a própria integridade física das pessoas, mas de 2020 recuando até 2017, na Área Metropolitana de Lisboa, tem sido o conselho que infelizmente tem registado uma subida percentual mais elevada em relação aos restantes municípios aqui mais próximos da Área Metropolitana de Lisboa. E é algo que deve merecer toda a nossa atenção, quer no que respeita aos furtos em veículos motorizados, mas também aos furtos em residências. Este tema da segurança deve ser combatido pelo reforço de meios, naturalmente, também pela possibilidade de nós termos aqui a introdução de determinados mecanismos que nos permita, em coordenação com a administração central, mas mesmo quando isso não acontece, e apesar de ter sido feito algum reforço de meios, é fundamental que se mantenha esta perspetiva de reforço do policiamento. E a Câmara também pode ter aqui um papel ativo, nesse reforço desses mesmos meios, junto das forças da autoridade, até substituindo-se, conforme tem feito já nalguns casos, mas ainda reforçando mais, nos meios disponíveis para esse efeito. Preocupa-me que nós tenhamos aqui, num conselho que precisa de ter alguma estabilidade em relação a este tema, que é um tema bastante sensível. Agora em virtude da pandemia, tem sido um cenário um pouco diferente, mas quer nos períodos de sazonalidade do verão, quer sobretudo, durante a vida em comum de proteção dos nossos munícipes, todos deveremos fazer tudo o que está ao nosso alcance para baixarmos rapidamente estes dados.

Carlos Carreiras, vou devolver-lhe a pergunta, perguntar-lhe o que é que tem estado a falhar para que exista este aumento na insegurança. E peço-lhe que seja o mais rápido que conseguir, porque estamos no limite do nosso tempo e está em vantagem.

Em primeiro lugar, nesse caso, não é uma questão de desatualização, é uma questão mesmo do desconhecimento do Alexandre Faria. Eu pedia-me aqui desculpar com o ministro Eduardo Cabrita, aliás, agora está muito na moda estar sempre a ser criticado e levar pancada. Mas, de facto, não é assim. O RSI, que é o Relatório de Segurança Interna, que é emitido todos os anos, dá, de facto, uma redução muito substancial na criminalidade em Cascais, como dá em geral na própria Área Metropolitana de Lisboa. O que não é normal, porque estamos em tempos de pandemia e, portanto, os próprios dados são menores. Eu faço aquilo que é obrigação de um presidente de câmara fazer, que é de unir o Conselho Municipal de Segurança, onde tudo isso é discutido e tudo isso é coordenado entre as várias forças de segurança. E deixar aqui também um parêntese, a Polícia Municipal não é à luz da lei uma força de segurança, é uma polícia administrativa e a câmara tem vindo a fazer um forte investimento, que não lhe cabe a ela, mas de dotar meio para a própria Polícia de Segurança Pública, para a própria GNR, para o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. E portanto, todas as forças de segurança, tem sido a Câmara a fazer investimento, porque do lado do Orçamento Geral do Estado, o que tem havido é um desinvestimento. Mas enfim, eu não discuto isso. O problema é de Cascais e daquilo que a gente puder, estamos a conseguir cumprir isso e estamos a fazer esse investimento. Agora, a criminalidade em Cascais não aumentou. É preciso ter muito cuidado a pesar as palavras, porque segurança é matéria-prima para Cascais, quer para os residentes, quer para o turismo, quer para aqueles que aqui investem. Portanto, nós de facto mantemos níveis de segurança elevados. Não é um acontecimento que acontece normalmente no princípio do verão, junto a algumas das praias, que alguns, sem erro, nem sequer é provocado por cidadãos de Cascais, que pode manchar todo este trabalho que está a ser feito pelas forças de segurança, que pode manchar o profissionalismo destes homens e destas mulheres que servem nas forças de segurança no Conselho de Cascais.

Carlos Carreiras, entramos na ronda final, portanto a última pergunta será pro Alexandre Faria. A si, Carlos Carreiras, perguntava-lhe, voltando a um dos temas iniciais, à pandemia, tem dito que é mais difícil fazer campanha neste tempo de pandemia. Pergunto-lhe se defende um adiamento das eleições, como pediu, por exemplo, o líder do PSD, Rui Rio, ou se aí é mais uma matéria em que discorda?

Não. É uma matéria em que discordo e na altura manifestei publicamente exatamente isso, porque o que se punha era adiar as eleições por meses, até havia já quem falasse em anos. E isso demonstrava na altura, primeiro, que nós não íamos ser capazes de ser competentes no processo de vacinação. E fomos, e estamos a ser competentes. Estou a falar de somos, todos, em geral, mas muito especialmente com a participação da Task Force e do vice-almirante Gouveia e Melo. E portanto, fomos capazes disso e estávamos a dizer a meses de distância ao estrangeiro, àqueles que também nos vinham visitar, que nós não íamos ser capazes. Como está provado, fomos capazes, estamos a ser capazes e vamos continuar a ser capazes. E, portanto, nesse sentido, eu acredito que as eleições foram marcadas para o período, como está agora também sendo demonstrado, em que a pandemia terá menos efeito Sobre a própria participação eleitoral nas próximas eleições autárquicas.

Deixe-me recolher também a opinião do Alexandre Faria sobre este tema. Estas eleições deviam ser adiadas, Alexandre? E aqui dou-lhe também uma margem mais confortável para responder esta pergunta, até porque está ligeiramente em desvantagem no que diz respeito ao tempo para Carlos Carreiras.

Então aproveito só para dizer que o Relatório de Segurança Interna de 2020 revela e menciona que Cascais é o quarto município da Área Metropolitana de Lisboa com mais participações. Mas sem dúvida alguma que me parece que este tema da segurança deve merecer a concordância e o combate de todos em relação ao que se deve fazer. No que respeita às eleições, nós temos que jogar de acordo com o calendário que nos é indicado e isso não tem, de maneira nenhuma, inibido o trabalho fortíssimo que esta coligação tem feito, do Partido Socialista, do PAN e do Livre, e que de algum modo está mais do que preparada para apresentar um projeto que eu acredito que Cascais irá encarar como aquele do próximo futuro dos próximos 12 anos.

Mas é mais difícil fazer oposição em pandemia.

A pandemia condiciona todos. Agora, de algum modo, temos de compreender que os meios aqui, eu também já escrevi sobre isso, os meios ao dispor de quem está a gerir uma câmara municipal são diferentes, são distintos. Agora, não vou usar isso jamais como desculpa para o que quer que seja, até porque acredito que nós temos aqui uma solução ganhadora e uma solução que vai mostrar que independentemente de tudo isso, e que independentemente de nós podermos utilizar os meios públicos para promover determinadas iniciativas, não quer dizer que não exista a possibilidade também, conforme temos feito, de batermos as nossas ideias, de mostrarmos as nossas convicções e de mostrar que são as causas que vencem as eleições. E é movidos por essas causas que eu tenho a certeza que vamos merecer a confiança de Cascais já a 26 de setembro.

Muito obrigado, Alexandre Faria e Carlos Carreiras. Chegamos ao fim do nosso tempo. Este foi o primeiro debate autárquico da Rádio Observador. As eleições estão marcadas para 26 de setembro. Até lá, ainda vamos voltar a este espaço com mais debates. Até breve.