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Começa agora o Explicador das manhãs 360, esta quarta-feira, sobre a retirada de mais de 3500 pessoas da região de Coimbra devido ao mau tempo. Conosco está a presidente da Câmara Municipal, Ana Abrunhosa.

Muito bom dia, Ana Abrunhosa. Obrigado pela disponibilidade para falar conosco nestes dias tão complicados. Começaríamos por lhe pedir um ponto de situação, como é que está este assunto na região de Leiria. Na região de Coimbra, desculpe. Quantas pessoas já foram retiradas? Qual é o plano para as próximas horas?

Muito bom dia. Nós ontem, depois de uma reunião de emergência com a Agência Portuguesa do Ambiente, que é quem monitoriza as barragens e os rios, tivemos aquilo que já suspeitávamos, que a situação era de elevado risco, porque o rio Mondego é um rio especial, ele corre emparedado e, portanto, considerando que as últimas semanas foram de chuvas intensas e que tinha ontem chovido muito e que os caudais estavam muito elevados, que havia risco de colapso do dique. E por isso, nós já tínhamos, durante toda a semana, feito o planeamento de zonas de evacuação. A avaliação apontava para maior risco na margem esquerda e, por isso, determinámos a evacuação de pessoas que moram em São Martinho do Bispo, na zona ribeirinha, Ribeira de Frades, Taveiro, Amial e Arzila, e também da Conraria e Cabouco. A situação que para nós foi um pouco mais complexa foram três lares que temos em São Martinho e começámos logo pela tarde a tratar dessa situação, mas prolongou-se durante a noite, porque muitos desses utentes estão acamados e estão em situação frágil. E, portanto, o que estava previsto era uma zona residencial onde temos um potencial de 3 mil habitantes e neste momento, nos nossos pontos de acolhimento, temos cerca de 200 pessoas, pois como esperado, muitas das pessoas já tinham até ido para casa de familiares e, portanto, também como é habitual nestas situações, não foram para os pontos de acolhimento. Mantemo-nos vigilantes, muito vigilantes. O risco permanece. Volto a dizer, o risco permanece. Nós tivemos o apoio do exército, dos fuzileiros, dos nossos bombeiros, naturalmente, da GNR, da PSP, da Polícia Municipal. Não nos faltaram meios. Temos botes, caso seja necessário evacuar pessoas que fiquem isoladas com a subida das águas. Estamos há mais de uma semana com uma parte das zonas ribeirinhas praticamente inundadas e, portanto, o grande risco que se colocava ontem, e como infelizmente já aconteceu no passado, era uma fratura, uma quebra nos diques, que não sabemos aonde e, portanto, nessas situações, é como a explosão de uma bomba. Temos por toda a cidade também, deixar esta nota a proveito, porque as ribeiras também urbanas, nomeadamente a ribeira de Seira, já saíram do seu leito. Ontem uma das casas foi levada pela ribeira, estamos a ter alguns desalojados, e estamos a ter o colapso de muros de uma cerca muito antiga e muito conhecida, a cerca de Santo Agostinho, mesmo na parte de cima do nosso mercado, que tivemos também que encerrar o mercado, encerrar a rua. Continuamos a ter queda de árvores, de muros, volto a dizer, colapso de casas e, portanto, com toda a tranquilidade, temos as forças no terreno. O dique está sob vigilância permanente, estamos em contacto permanente com a APA e, portanto, é tempo de tranquilidade, mas é tempo de muita vigilância.

E muita prevenção. Ana Abrunhosa, este período crítico, porque está a explicar-nos que o risco de rebentamento ainda existe, o período crítico vai durar quanto tempo? Tem alguma estimativa? Até porque se espera que chova muito hoje ainda.

Sim. O problema, de facto, foram 15 dias de muita chuva, que causaram muita pressão no dique, mas ontem choveu muito para além do que esperávamos e hoje também está a chover muito e prevê-se que continue a chover. Por volta da hora do meio-dia faremos um briefing com a APA e faremos uma avaliação, até porque também se prevê melhoria do tempo para amanhã e esperamos que tudo continue a correr como está. Nós atuamos como deve ser, por prevenção e não depois das coisas acontecerem. Ontem a APA disse-nos que o risco de quebra do dique era maior do que o do último que aconteceu. Portanto, ficámos mesmo muito preocupados Desconfianimidade. Houve algumas pessoas que não quiseram sair de suas casas, também é normal, mas tenho certeza que não dormiram toda a noite. Portanto, muita vigilância e evitar os comportamentos de risco.

Ana Brilhosa, precisamente sobre as pessoas que foram retiradas, disse que há cerca de 200 nos pontos de recolha.

Nos abrigos, sim, e outras saíram de casa pra familiares.

Tem ideia, e essas que saíram voluntariamente, se quiser, e pelos seus meios, tem ideia de quantas são? Isto é, se as pessoas que de fato saíram, está mesmo nesta casa das 3000, 3500.

É assim, nós estamos a falar de uma zona populacional que tem aquela zona ribeirinha, onde mora este número de pessoas. E, portanto, as nossas orientações, e quem dá essas orientações, por lei, é a GNR e a PSP, é pras pessoas saírem de casa. Nós percebemos, até durante a semana, muitas pessoas já não estavam nas casas e, portanto, não lhe sei dizer quantas é que saíram ontem. O que sei dizer é que, de fato, a maioria das pessoas saiu de casa, escolhendo, naturalmente, o conforto das casas de amigos e de familiares, o que é o normal também nestas situações. Continuaremos a patrulhar e a vigiar estas zonas de risco e sempre ajudar quem precisa, pessoas acamadas precisaram do nosso apoio, mesmo não estando em lares. E há pessoas mais frágeis que poderão sempre contar conosco. E há uma palavra de ordem: prevenção, cautela e sempre acompanhamento e monitorização. É o que estamos a fazer nas ruas, a GNR circula, os bombeiros circulam, a PSP também está presente e temos o exército e temos também barcos, temos botes, perdão, no caso de ser necessário. Nós tivemos uma semana para nos preparar com a esperança de que não seria necessário e o valor supremo é a vida das pessoas, mas estamos a falar de zonas já muito inundadas.

Muito inundadas. Ainda assim, Ana Brilhosa, ao longo da madrugada, fomos também falando com outros autarcas, presidentes de junta, que relatam casos de pessoas que recusaram sair de casa ou que resistiram. Tem ideia se esse número é significativo e se existe, de fato, alguém, neste momento, em zonas que podem ser perigosas?

Sim.

Há pessoas, sim? Tem acesso a essas pessoas?

Sim. Nós demos uma volta ontem à noite e tivemos a oportunidade até de falar com algumas pessoas. As pessoas estão conscientes do risco e tenho a certeza que não dormiram. Absoluta.

Não deviam ser forçadas a sair, isso é possível?

É possível, só que é sempre muito complicado. E por isso estamos presentes ali, porque também quero aqui esclarecer: se o dique rebentar, ainda temos tempo, ou seja, dá tempo, com os meios que temos perto das casas, dá tempo para tirar as pessoas. E aí a ordem é levar toda a gente.

Qual é o tempo entre o rebentamento do dique e a chegada à casa?

Nós temos um par de horas. Nós já estamos a falar de zonas onde as pessoas estão nas casas e as casas já estão inundadas, só que as pessoas estão no primeiro andar. Em outros sítios, as casas ainda não estão inundadas. E aqui temos um par de horas, nalgumas zonas temos uma hora e por isso os meios que temos-

Serão suficientes. O número é significativo de pessoas que ainda estão em casa, já com as casas inundadas?

Não temos essa ideia.

Não tem essa estimativa.

Porque muitas das vezes, ainda hoje de manhã, pessoas que ficaram estavam a sair. Ou seja, também as pessoas avaliam e ficam cansadas. Sabe que nós estamos a falar de uma zona do país, não é só Coimbra, é Montemor, é Soure, que infelizmente vivem demasiadas vezes estas situações. É muito complicado forçar, nesta fase, as pessoas a sair de casa. A nossa obrigação é informá-las e termos os meios ali à disposição. Volto a dizer, em caso de rebentamento de dique, haverá tempo para tirar as pessoas, até porque temos os meios. Temos os botes nas juntas de freguesia. Nós temos homens muito preparados. Temos os autocarros dos transportes urbanos de Coimbra, que ontem também ajudaram. Temos os carros dos bombeiros, temos ambulâncias e, por isso, como mandam as regras e os protocolos da Proteção Civil, estamos em alerta máximo.

Não consegue prever, neste momento, quando é que esse alerta máximo pode ser levantado? Isto é, quando é que se pode dizer às populações: "Ok, passou o perigo, podemos retomar as nossas vidas."

Não consigo, até porque, como eu já vos disse, o dique foi muito pressionado estas semanas Teoricamente, em termos teóricos, já devia ter colapsado. Felizmente, a obra tem se portado bem e, volto a dizer, por volta de meio-dia faremos uma avaliação. Sim, faremos uma avaliação e depois procederemos em conformidade e comunicaremos. Quero também agradecer a todos os órgãos de comunicação social por nos terem ajudado a passar todas as mensagens, foram muito importantes.

E que vão chegando à população. Ana Abrunhosa, já nos disse aqui que a articulação com todas as autoridades, a APA, a Proteção Civil, os bombeiros, tem corrido muito bem, mas também já disse recentemente que nunca chegou a falar com a ministra da Administração Interna, agora demissionária. Esse tipo de articulação não tem feito falta? E pergunto-lhe já se com o primeiro-ministro já conseguiu falar agora com estas horas de aflição.

O senhor primeiro-ministro está a acompanhar. Ele não falou diretamente. Eu compreendo, também já estive do lado de lá. Eu, quando falava a um autarca, tinha que falar a todos. Naturalmente, não é só Coimbra que está em dificuldades, temos outros municípios em verdadeiras calamidades e, portanto, esta é uma situação que não desejávamos. Quero dizer que me sinto acompanhada pelo governo. Tive telefonemas de vários, de muitos membros do governo. Tive telefonema do senhor presidente da República, tive telefonema do senhor presidente da República eleito e devo dizer que o governo tem colocado à disposição os meios de que necessitamos. Nós temos cá equipes de fuzileiros com botes, temos o exército permanentemente conosco desde o primeiro dia e temos os nossos bombeiros, e temos também a solidariedade de bombeiros de conselhos vizinhos. Por isso, nós voltamos a dizer: nem sempre a presença do governo é aquilo que mais nos preocupa. Obviamente que ficamos satisfeitos por saber das suas preocupações.

Ficam confortados.

Sim, mas sabemos. Tive vários membros do governo, o senhor secretário de Estado da Proteção Civil ligou imediatamente a dizer: "Senhora presidente, estamos a acompanhar tudo". O mais importante é que nos facultaram os meios. Temos aqui o exército durante a semana toda, que nos ajudaram a pôr sacos de areia à frente das casas. Temos o exército com botes, com carros, ambulância, aqueles carros gigantescos que podem circular com as cheias e por isso eu apenas tenho uma palavra de agradecimento, porque nos sentimos totalmente acompanhados. Há uma coisa que nós não controlamos, é o tempo, é a natureza e, portanto, temos que agir em conformidade.

Ana Abrunhosa, estamos a chegar ao fim do nosso tempo. Há pouco já disse que várias pessoas não terão dormido naquela zona de risco. E a pergunta é: quantas horas dormiu esta noite e nos últimos dias, Ana Abrunhosa?

Dormi muito pouco, mas essa é a minha obrigação. Minha obrigação e da minha equipa é exalarmos por aqueles que nos elegeram. Eu sou a autoridade máxima de Proteção Civil Municipal. Terei tempo para dormir quando esta situação terminar. Devo dizer-lhe que não é nenhum sacrifício para mim. Faço com muito agrado, porque eu escolhi ser presidente da Câmara Municipal de Coimbra e, portanto, faço com a maior das satisfações, naturalmente, sempre preocupada, sempre também não mostrando o que sinto, porque o que as pessoas precisam de ver é que as coisas estão controladas. E nós temos tudo controlado. Queremos garantir às pessoas que nós estamos presentes. Eu própria circulo muitas das vezes com os bombeiros. Tenho um vereador excepcional, o Ricardo Lino, que nunca dorme, dorme muito menos do que eu e que está presente em todas as situações. Somos uma equipa muito grande da Proteção Civil.

Ana Abrunhosa, esperemos mesmo que consiga dormir brevemente. Será bom sinal para todos. Muito obrigada por ter estado também no nosso programa desta manhã.

Um bom dia. Obrigado.

Obrigada a vós. Obrigada.