Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Andy Burnham é o novo primeiro-ministro do Reino Unido, o sétimo em 10 anos. Substitui Keir Starmer depois de recebido pelo Rei, já ocupou hoje o lugar no número 10 de Downing Street. Até já telefonou e já falou com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ora, Burnham é também do Partido Trabalhista, mas promete mudanças. Mas afinal, o que se passa em Londres para este corrupio no número 10 de Downing Street? É sobre isso que vamos conversar agora. Eu sou Ricardo Conceição, comigo está a Judite França, que é o nosso convidado, Judite.

Enrique Borné é especialista em assuntos europeus e presença habitual da Rádio Observador. Bem-vindo, Enrique. Vamos começar pelo início. Por que Keir Starmer caiu ao fim de menos de dois anos depois ter tido uma vitória eleitoral em 2024, em que conseguiu 165 lugares no Parlamento?

Olá, bom dia. Essa é a pergunta que não tem uma resposta óbvia. Eu acho que há duas perguntas complicadas neste processo. Uma é: por que Starmer caiu? A outra é: o que Burnham vai fazer ou o que Burnham se apresenta para fazer? Vamos começar por quê que ele caiu. Bom, ele cai porque teve um resultado nas eleições regionais há pouco tempo que foram más, cai porque tinha más sondagens, cai porque não fez nada de muito bom enquanto primeiro-ministro, mas não há nenhuma razão muito forte, isto é, não há nada na governação de Starmer que seja um descalabro. Há é sinais no Reino Unido, nomeadamente, o Reino Unido neste momento é o país do G7 com a taxa de juro mais alta em termos de dívida soberana e, portanto, o país do G7 com mais dificuldades de financiar, mas isso não é um problema que a mudança de primeiro-ministro resolva. Portanto, à pergunta por que Starmer sai, a resposta é porque o Partido Labour achou que se continuassem com Starmer, quando houvesse eleições iam ter um mau resultado. Isto não é uma razão brilhante para começarmos este processo, não é?

Exatamente. Enrique, Burnham era o presidente da Câmara da Grande Manchester, vem agora para Downing Street. Houve aqui quase uma conspiração cósmica para que ele conseguisse ir para o Parlamento, porque o primeiro-ministro e os membros do gabinete têm de ter lugar no Parlamento. O que é que nós podemos esperar deste novo líder trabalhista?

Aí é que está. É que não foi bem uma conspiração cósmica, foi bem humana. Ou seja, a líder dos conservadores, no discurso de despedida, que até teve um gesto de elegância bonito para com Starmer, na despedida dizia-lhe uma coisa engraçada. Dizia: "O senhor note que não se sinta um derrotado, porque tiveram que lhe buscar um homem que não estava no Parlamento para competir consigo, porque nenhum dos que estava aqui sentado era capaz de se opor a si e ganhar o seu lugar". Ou seja, a regra no caso britânico é que o primeiro-ministro tem que ser membro do Parlamento e, portanto, o Partido Trabalhista tinha que escolher alguém que fosse deputado. E a solução foi um deputado em exercício de funções demitir-se, abdicar de o ser, Burnham concorrer, ser não surpreendentemente eleito e então sendo o deputado, já podia concorrer. Agora, a pergunta é esta: mas quem é Burnham? O que ele traz? No passado, isto já aconteceu. Os britânicos, o sistema britânico, tem esta tradição parlamentar e, portanto, governa o partido que tem mais deputados e não é necessariamente primeiro-ministro quem foi candidato a primeiro-ministro. Portanto, não é impossível acontecer isto, já aconteceu no passado. Simplesmente, no passado, em vezes anteriores em que isto aconteceu, uma das características principais é que quem sucedia já estava no governo. Se pensarmos, por exemplo, Major quando sucedeu a Thatcher, Brown quando sucedeu a Blair. Aqui estamos a falar de que foram fazer uma espécie de concurso público à procura de um Mister Britain, que era quem é Burnham? O político mais popular no Reino Unido, mas popular enquanto presidente da Câmara da Grande Manchester. Portanto, a pergunta, eu só consigo dar ainda metade da resposta, que é quem é Burnham, é este homem. Quem é que vai ser?

Mas ideologicamente é colocado à esquerda de Starmer, dentro do Partido Trabalhista. Isso significa alguma coisa? Pode significar uma viragem nas políticas ou podemos esperar uma continuidade?

Parece que sim. E havia aqui alguma dúvida, porque Burnham tem uma história, um percurso político que, digamos, dá alguma plasticidade. Ou seja, é um homem que começa a carreira política nos governos de Blair e, portanto, na terceira via da social-democracia britânica e não uma coisa particularmente à esquerda, mas agora tem estado a fazer um discurso que eu diria mais à esquerda, dá aula mais à esquerda. E o discurso que fez hoje, o discurso de, chamemos-lhe assim, tomada de posse, foi à porta de Downing Street quando entrou, diz duas ou três coisas que nos dão pistas. Primeira: começa em 1980. Diz que o Reino Unido fez escolhas erradas nos anos 80. Portanto, eu diria que ele se posiciona como uma espécie de anti-Thatcher. Simplesmente, de 80 até agora já lá vão 40 anos. Se o ponto de partida do novo primeiro-ministro do Reino Unido-

Já muita água passou pela ponte de Londres.

E o segundo tema que ele faz é: fizeram-se escolhas políticas erradas, escolhas econômicas erradas e fizeram-se escolhas de reorganização do poder erradas. Simplificando aqui para entendermos todos, tirou-se poder às comunidades, ao interior do país e, portanto, ele quer fazer uma espécie de devolução de poder às regiões, aliás, fala-se de um primeiro-ministro do norte, não se percebe ainda muito bem. Eu confesso que fiquei um pouquinho surpreendido, embora depois tenha aqui uma nota positiva, mas fiquei um pouquinho surpreendido que o novo primeiro-ministro do Reino Unido tenha como ponto de partida os anos 80, uma espécie de correção ao que aconteceu nos anos 80, um ajuste de contas com os anos 80, e uma reindustrialização. Quer dizer, como se a solução para o Reino Unido fosse tentar recuperar aquilo que entretanto foi sendo fechado, as indústrias que foram sendo fechadas entre os anos 80 e agora. Há aqui uma coisa interessante, no entanto, que é a ideia de que isto é um homem a falar para os left behind ou que se sentem left behind. Isso talvez seja mais interessante.

Ou seja, vai tentar recuperar algum terreno perdido para os populistas como o Farage, ou não?

É isso que de alguma maneira me pareceu. Ou seja, se quisermos procurar aqui a nota positiva disto, pode ser um partido da esquerda central europeia à procura do seu lugar, porque é uma coisa que nós temos visto nos últimos anos. O crescimento dos partidos populistas de direita tem sido acompanhado de uma erosão dos partidos de esquerda, da esquerda social-democrata. Isto é verdade em vários países da Europa, em que se vê a esquerda populista ir buscar eleitores que são tradicionalmente eleitores descontentes que esperam que o Estado os ajude. E nisso, de facto, encontrámos no Burnham um discurso estatista, de vamos ajudar as pessoas que ficam para trás, vamos resolver os problemas dos anos 80 e das indústrias que fecharam. Pode ser, e isso seria uma coisa curiosa, e acho que vale a pena ficarmos à espera para ver, se Burnham encontra um lugar para os partidos sociais-democratas europeus que têm andado à procura de um sítio, porque ele não fez, por exemplo, e desculpa estou longo, mas ele não fez referência nenhuma à agenda que tem sido tradicional na esquerda europeia dos últimos anos sobre a sustentabilidade, as alterações climáticas.

Exato, virou um pouco a agulha.

Nisso, nos temas que costumam chamar agenda woke, ou seja, se quisermos os temas identitários, estiveram completamente ausentes. E portanto, pode ser interessante ver se isto é um novo caminho, que também me pareceu não estar perto da esquerda que está a emergir no Partido Democrata Americano, e que é um pouco uma esquerda radical, não só para os padrões americanos, mas mesmo para os nossos.

Muito obrigado, Henrique. Obrigado pela tua disponibilidade. Henrique Burnay, especialista em assuntos europeus, presença habitual aqui na Rádio Observador.