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Muito boa tarde. Pedro Duarte apresentou a candidatura há um mês. Vamos olhar para estes candidatos que já temos, são 11 candidatos. Sente que, tendo apresentado essa candidatura apenas há um mês, está atrasado, por exemplo, em relação a Manuel Pizarro na campanha na rua?

Sim, boa tarde à cobrimento Rádio Observador e a todos aqueles que nos ouvem. Não, eu julgo que o momento da apresentação da candidatura foi aquele que foi definido desde o início, em função das eleições e em função da cidade. Portanto, não foi em função dos outros candidatos. Há, de facto, candidatos, nomeadamente esse que citou, o Manuel Pizarro, que já foi candidato à Câmara duas ou três vezes e, desse ponto de vista, seria impossível eu ganhar o tempo perdido digamos assim, do ponto de vista de campanha de rua. Mas eu acho que o mais importante é apresentar-nos com o distanciamento suficiente de tempo para que os portuenses possam conhecer os candidatos, possam conhecer os projetos que estão em causa e possam assim perspetivar o futuro que aí vem, nomeadamente nos próximos quatro anos, desde logo neste primeiro mandato. E desse ponto de vista, acho que ainda temos três meses ou cerca de três meses para as eleições, há mais do que tempo para podermos apresentar-nos, confrontarmos ideias, apresentarmos soluções, para que depois o eleitorado, de forma soberana, possa decidir da maneira que achar melhor para a sua cidade.

Não conseguiu convencer Filipe Araújo, o atual vice-presidente da Câmara do Porto, a integrar a sua lista à autarquia. Pode ser um problema na dispersão de votos de duas candidaturas que se colocam no espectro político do centro-direita?

Do ponto de vista estritamente analítico, eu sou obrigado a reconhecer que sim. Acho que parece mais ou menos evidente aquilo que muita gente me tem dito já na rua e algumas das pessoas que me acompanham na candidatura, que pensam de forma um pouquinho mais estratégica, que de facto essa candidatura é uma espécie de bengala do Partido Socialista, que no fundo só poderá ter esse efeito do ponto de vista eleitoral. Mas eu confesso que enquanto candidato, não quero ter essa postura nem vou ter. Eu vou respeitar todos os outros adversários, que aliás eu nem gosto de chamar adversários, acho que são concorrentes. Acho que o Porto deve também aqui dar uma lição de fazer uma campanha eleitoral pela positiva, em que evidentemente cada um vai defender as suas ideias e é natural, eu diria que até é saudável que as ideias não sejam por vezes convergentes. Não temos todos que defender as mesmas coisas, mas podemos fazê-lo sempre com a perspetiva de que estamos todos a tentar o melhor para a cidade, com caminhos eventualmente diferentes, mas temos todos o mesmo objetivo comum. E quando assim é, nós não somos propriamente adversários, temos de nos respeitar com clima muito saudável, muito positivo, muito construtivo, irmos para a campanha eleitoral e depois tentarmos granir argumentos com os portuenses que, em última instância, decidirão da forma que acharem melhor.

Rui Moreira consegue três mandatos à frente da Câmara Municipal do Porto. Há aqui uma divisão desse movimento que criou quando iniciou este percurso com vários independentes. Uns estão na candidatura que está a dirigir, outros na de Filipe Araújo. Pergunto-lhe se ainda espera o apoio oficial de Rui Moreira.

Eu não sei se há exatamente uma divisão desse termo. Há, de facto, cidadãos que individualmente estiveram a apoiar Rui Moreira e que estão em diferentes candidaturas, incluindo a que citou há pouco de Manuel Pizarro. E eventualmente até espelhadas noutras, que não reconheço. Acho que há, de facto, eu diria, o núcleo duro mais relevante que esteve na gênese do movimento do Rui Moreira, e esse eu tenho o privilégio de contar com a generalidade dessas pessoas. O presidente Rui Moreira tem dito que prefere, designadamente nesta fase, que ainda está em funções e que tem precisamente dentro da sua equipa opiniões divergentes sobre o futuro da cidade, prefere não tomar posição. Eu acho que isso é uma atitude muito respeitável e, do meu ponto de vista, não me incomoda nada esse posicionamento. Estou muito confortável, eu mesmo disse que a minha candidatura não depende de ninguém, eu sou absolutamente livre, absolutamente independente desse ponto de vista e vou defender o meu projeto para a cidade, evidentemente respeitando muito aquilo que foi feito no passado. Tudo aquilo que eu pretendo construir é em cima daquilo que temos hoje. Não é destruindo nada, não é contrariando nada, é de facto só acrescentar àquilo que tem vindo a ser feito nos últimos anos.

Falava há pouco de ter o núcleo duro desse movimento. Está a falar de Francisco Ramos, que é seu diretor de campanha. Acha que o fato de ter esse núcleo duro é um apoio tácito do atual presidente da Câmara?

Não queria fazer essa leitura com sinceridade, porque mesmo que eu pensasse, não ficarei bem. Mas genuinamente não interpreto assim. Acho que as pessoas são livres e tomam as suas posições por si próprio. E o caso de Francisco Ramos, que de facto foi o fundador e o primeiro presidente do movimento Rui Moreira desde sempre, é pra mim um excepcional apoio por si mesmo e portanto não é por representar seja quem for. Acho que é um grande cidadão do Porto, empenhado civicamente, apesar de nunca ter tido nem pretender ter qualquer posição política ou qualquer cargo político, ele sempre o rejeitou, mas do ponto de vista cívico é de facto uma pessoa que desinteressadamente gosta da sua cidade e empenha-se em soluções. Há 12 anos empenhou-se fortemente na solução do Rui Moreira. Neste caso, felizmente para mim, está muito empenhado também. É muito importante ajudar-me também neste projeto.

Filipe Araújo tem dito que entre os principais candidatos, já são 11 candidaturas que temos nesta altura à Câmara Municipal do Porto, mas entre os principais candidatos, Filipe Araújo tem dito que é a única que defende os interesses portuenses sem amarras ideológicas. Identifica esse tipo de amarras na sua candidatura?

Não sei. Eu estou a liderar um projeto que é muito abrangente a todos Três grandes partidos da democracia portuguesa, como o PSD, como o CDS, como a Iniciativa Liberal. E temos já um grupo de cidadãos muito vasto, umas centenas largas. Nesta altura, creio que ultrapassámos já os 900 cidadãos que subscreveram o manifesto, que se autointitularam de Independentes do Porto, que estão a apoiar a minha candidatura. Eu creio que é, desse ponto de vista, o maior movimento cívico desta natureza que foi gerado na cidade do Porto desde sempre. E portanto, eu acho que é muito vasto e muito alargado aquilo que é a base da minha candidatura. Eu queria, contudo, dizer que isso parece-me importante também da democracia, que nós termos ideologias e termos convicções e pensamento que é conhecido e termos partidos políticos na nossa democracia não é um problema. E no dia que alguém disser que é contra os partidos, tem que dizer também que é contra a democracia, porque ninguém conhece nenhum regime democrático no mundo, nunca ninguém inventou, que não tivesse como base partidos políticos. E portanto, quando se inventar um regime democrático sem partidos, poderemos falar sobre isso, mas nunca ninguém inventou. E portanto, se não tivermos partidos, não temos democracia. Eu queria apenas deixar este alerta, sem criticar ninguém, é um alerta geral e abstrato. É muito bom que nós, por causa de uma luta ou uma corrida eleitoral em que não conseguimos eventualmente ter o apoio, apesar de o caso desse candidato, todos sabemos que tentou o apoio de vários partidos, e pelo fato de não ter conseguido esses partidos, de repente se fazer uma campanha contra os partidos ou à margem dos partidos, porque isso é trair a democracia. Também da democracia, eu acho que nós devemos preservar aquilo que são os seus pilares fundamentais.

Na apresentação da candidatura, identificou diversos problemas na cidade. À semelhança dos outros candidatos, elegeu a habitação e a segurança no leque de prioridades. O diagnóstico é o mesmo, onde está a diferença?

Eu diria que eu tenho essencialmente colocado dois problemas emergentes na cidade para os quais a Câmara deve encontrar soluções de curto prazo. E esses dois problemas são, em primeiro lugar, a segurança, de fato, e o segundo é o trânsito ou, se quiser, a mobilidade dentro da cidade. E a habitação é um problema distinto, sendo um problema grave, é um problema que eu coloco num outro patamar, na medida em que precisa de uma solução mais abrangente em termos até nacionais, porque também o tenho dito, aqueles que tentam vender a ilusão de que vai ser a cidade do Porto a resolver o problema da habitação no país, é um erro. Nós gerarmos oferta que de repente vai trazer mais pessoas para dentro da cidade do Porto, quando ela hoje já tem muitas dificuldades, precisamente pela concentração excessiva de pessoas, de carros, de ruído, de confusão, muitas vezes, de turismo, etc. Nós estamos só a aumentar um problema. E eu tenho me focado essencialmente com medidas emergentes, eu diria, na segurança, porque a tranquilidade para nós vivermos é fundamental para vivermos a cidade. Nós queremos a cidade como eu quero, um projeto que promova a qualidade de vida, o bem-estar das pessoas, nós podermos usufruir daquilo que são os nossos jardins, as nossas ruas, as nossas praças, o convívio entre as pessoas. Eu interpreto a cidade precisamente desta forma. Acho que a cidade é uma comunidade, no fundo, de pessoas que têm à vontade para poder conviver umas com as outras e passearem dentro da cidade e usufruírem dos espaços da cidade, seja de que natureza for. Para o fazermos, temos que ter a segurança suficiente e a tranquilidade para não termos medo de andar na rua. Ora, isso tem vindo a degradar-se nos últimos anos de forma muito intensa na cidade e nós temos de inverter rapidamente esta hipótese.

Mas estava a falar de medo, é uma questão de perceção?

É uma questão de perceção baseada, com certeza, em fatos muito concretos. E eu não quero entrar nessa discussão de relatórios e afins. Eu ando na cidade, eu conheço muito bem a cidade do Porto e falo todos os dias com muitos portuenses e todos os dias ouço histórias cada vez mais recorrentes de práticas de crimes que nós não estávamos habituados. E isto é inaceitável. Nós hoje em dia temos zonas da cidade onde as pessoas pura e simplesmente têm medo de ir, de entrar, contornam, dão a volta às vezes por caminhos mais longos, porque têm medo de passar até de carro em determinado tipo de zonas. E principalmente senhoras e jovens mulheres têm receio de, a partir do momento que escurece, de andarem de metro na cidade. Isto não acontecia há dois ou três anos. Temos idosos que não vão à rua e ficam quase aprisionados dentro de casa, muitas vezes em circunstâncias até de solidão, ficam aprisionados porque têm medo de sair, porque alguém lhes pode aplicar um golpe de forma qualquer.

Pedro Duarte, são casos que conhece, foram pessoas que lhe disseram isso.

E que eu conheço na prática. À porta da minha casa, o meu carro foi assaltado há uns dias atrás. E isso não são histórias, são casos que eu conheço de forma muito concreta e muito real. E se falar com qualquer portuense, eles sabem. É claro que há zonas piores do que outras, sabemos, dentro da cidade, mas isto é objetivo. A insegurança é hoje um problema, não é fictício, é real, é objetivo. Todos os portuenses sabem muito bem do que eu estou a falar.

Quando falava que há dois ou três anos as coisas pioraram, o que aconteceu para que as coisas piorassem?

Eu acho que há hoje em dia dois focos essenciais para este aumento da criminalidade e portanto, da insegurança. O primeiro, provavelmente o mais importante, tem a ver com um aumento claro de consumidores de droga, portanto, tráfico, e naturalmente consumidores que para consumirem acabam por praticar esse tipo de crimes. Isso verifica-se nalgumas zonas da cidade de forma muito clara e muito concreta. O Porto de repente tornou-se uma espécie de um hub de droga de toda a região Norte e às vezes até com consumidores que vêm de Espanha, o que é absolutamente inaceitável.

Mas este é um problema recorrente da cidade do Porto. O que está a dizer é que piorou

Exatamente. Tem vindo a agravar-se por um conjunto de circunstâncias que os especialistas poderão explicar melhor do que eu. Eu já os ouvi, portanto tenho algumas ideias, mas não quero ser eu a falar sobre isso, porque é uma matéria mais técnica ou até científica, e de mercado, até deste mercado que sendo ilegal também é um mercado. Mas a verdade é que tem vindo a aumentar. E associado a isto tem vindo a aumentar a criminalidade. E há um segundo foco que tem a ver com um conjunto de redes de imigração ilegal que estão a causar circunstâncias que não eram usuais na cidade do Porto. Eventualmente, numa outra zona diferente da cidade, a toxicodependência está-se a sentir de forma muito intensa, eu diria mais nos extremos, quer na zona ocidental, quer na zona de Campanhã do outro lado. Na zona mais do centro histórico, tem mais a ver com esta matéria, de haver um conjunto de imigração que manifestamente é ilegal e que tem a ver até com redes que têm trazido um tipo de violência que não era habitual dentro da cidade do Porto. E, portanto, nós temos de atacar estas duas causas fundamentais para o aumento da criminalidade, da violência e da insegurança na cidade do Porto. Também há o outro problema da mobilidade, que eu não queria menosprezar nem desvalorizar, porque também é muito importante e temos de encontrar soluções também para eles. E também aí, tal como para a matéria da segurança, eu tenho algumas propostas muito concretas.

Já vamos à mobilidade, creio que ainda vamos ter tempo para isso. Falar aqui também da questão da habitação. É um problema não só da cidade do Porto, acontece em todo o país, mas o Porto como uma grande cidade sente também esta crise no setor da habitação. E olhando aqui para algumas das medidas, daquilo que já é conhecido, aponta para uma redução da dimensão dos bairros de habitação social. Isso está entre as medidas que defende. Percebe-se isto não pressiona ainda mais o problema do arrendamento vivido na cidade do Porto?

Não. É importante que isso fique claro, tem a ver apenas com o dimensionamento e a concentração da habitação social dentro do mesmo local. Portanto, não é uma redução do número da habitação social, eu não defendo isso.

Portanto, retira de um local e cria-se noutro? Como é que se faz isto?

Exato. Nós temos um problema na cidade do Porto que os bairros sociais foram, alguns deles, pensados num momento muito diferente do atual, nos anos 60, anos 70 do século passado. E têm hoje uma dimensão que é excessiva, o que faz com que em alguns casos, estamos a falar de poucos casos, não é a generalidade, mas alguns casos há bairros sociais que pela sua dimensão são uma espécie de pequenas cidades dentro da cidade.

O que eu lhe estou a perguntar é: como é que reduz esses bairros? E a ideia é criar outros mais pequenos, redimensionar os que existem agora?

Exatamente, espalhando pela cidade aquilo que é habitação social, no fundo, e não guetizando aquilo que é habitação social. É muito importante que isso fique claro, isto é uma medida de médio longo prazo, porque nós não vamos derrubar bairros, nós não vamos despejar pessoas. Nós não vamos criar qualquer distorção nem qualquer desconforto na vida das pessoas.

Mas o que acontece às habitações onde estão agora estas pessoas, nestes bairros sociais, ficam vazias, são disponibilizadas a outras pessoas? O que acontece a essas casas?

Nós temos de olhar para os espaços públicos que existem junto dos bairros, porque aqui o grande problema que eu coloco hoje em dia não tem a ver com as habitações sociais, com as casas se quisermos, tem a ver com aquilo que é o enquadramento na cidade do próprio espaço público. E nós temos que criar espaços públicos e melhorar os espaços públicos nos bairros sociais, precisamente virando-os para a cidade e abrindo-os à cidade. E nesse sentido, aquilo que pode ser feito, como digo, a médio prazo, é à medida que há casas que vão ficando vagas nesses bairros, porque mientras tanto as pessoas ou atingem um patamar de rendimento diferente e deixam de estar ali localizadas ou porque, por exemplo, é uma inevitabilidade humana, acabam por falecer e portanto por deixar os espaços vazios, nós podermos na nova habitação social, podermos espalhá-la pela cidade para criar um enquadramento diferente dentro daquilo que é habitação social. Porque aquilo que eu quero, é esta a ideia fundamental, ou duas ideias se quiser, fundamental. Por um lado, melhorar os espaços públicos dos bairros sociais. E em segundo lugar, dar a maior dignidade possível às pessoas que vivem nos bairros para terem melhores condições e para se sentirem parte da cidade. A pior coisa que poderíamos ter é uma cidade dividida em dois, em que temos a população dos bairros sociais e temos os outros que não são dos bairros sociais. E se nós não invertermos o que tem acontecido desde há décadas, não é um problema recente, há um risco de isto acontecer. De repente temos uma cidade dividida em dois. Entre as pessoas dos bairros e as que não são dos bairros. Isso para mim não é um modelo de cidade que seja aceitável.

Pedro Duarte, fica prometida uma conversa ainda no futuro até às eleições autárquicas sobre este e outros temas, principalmente a mobilidade que também definiu e que tem sido apontada também entre todas as candidaturas como uma prioridade a resolver na cidade do Porto. Teremos tempo, certamente, para fazê-lo até às eleições autárquicas. Certo é que o nosso tempo nesta tarde política chegou ao fim. Agradeço de qualquer forma a sua disponibilidade por ter estado connosco nestes últimos minutos aqui na Rádio Observador.

Muito obrigado e boa tarde.