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Começa agora o Explicador das manhãs 360, esta segunda-feira com representantes dos candidatos que passaram à segunda volta. São nossos convidados Adalberto Campos Fernandes, apoiante de António José Seguro, e Cristina Rodrigues, apoiante de André Ventura. A moderação é do Paulo Ferreira e do Bruno Vieira Amaral.
A campanha eleitoral foi renhida, mas a noite eleitoral foi relativamente breve. Rapidamente se percebeu que António José Seguro e André Ventura passariam os dois à segunda volta. Adalberto Campos Fernandes, muito bom dia, começo por si.
Bom dia.
António José Seguro pediu na semana passada uma vitória na primeira volta, ficar à frente nesta primeira volta. Conseguiu esse resultado, mas ainda assim com um resultado acima daquilo que apontavam as sondagens. O que funcionou aqui? Convenceu os indecisos? Foi o voto útil? Conseguiu entrar no eleitorado de centro-direita?
Bom dia. Foi um pouco tudo isso. Em primeiro lugar, uma grande vitória de ordem pessoal, quer dizer, um candidato que parte praticamente sozinho, com poucos apoios, com muita gente envergonhada nesse apoio e que desenha uma estratégia que o mostra ao país, o mostra como ele é. De facto, a certa altura, na campanha, foi escolhido um mote que era "um de nós". Ele foi percebido pelas pessoas como um homem simples, que efetivamente representa os valores da moderação, da democracia, da tolerância e do respeito pelos outros. Eu acho que pouco a pouco, com uma campanha muito consistente, muito coerente, que nunca cedeu à tentação de entrar no lamaçal, na agressividade, no despique, foi persuadindo muita gente. Tem-se falado muito dos votos partidários, nós não damos muita importância a esse aspecto, porque achamos que os votos são os votos das pessoas, cada uma considerada, mas ainda assim, ele alarga muito aquilo que é o perímetro do seu principal partido de origem e que naturalmente o apoiou, e vai buscar votos ao centro, vai buscar votos à esquerda, vai buscar votos à abstenção, provavelmente. E portanto, mostrou acima de tudo que o país não se resigna a este combate de um centro-direita que tem receio e que tem medo do afrontamento com o radicalismo e que há, de facto, um país que se levanta e que diz que há limites para tudo e acima de tudo, há limites para respeitar a democracia, para respeitar a diferença e que o combate se faz por ideias e não por ataques e pela violência verbal. Portanto, foi uma boa noite para António José Seguro em primeiro lugar, mas eu creio que foi talvez a melhor das noites dos últimos tempos para a democracia, para o país e para o futuro dos nossos filhos.
Bom dia, Cristina Rodrigues, bem-vinda também a este Explicador. E foi uma boa noite para André Ventura. André Ventura conseguiu fixar o eleitorado do Chega, 82% das pessoas que votaram no Chega nas legislativas votaram agora em André Ventura, mas agora tem o desafio de convencer o restante eleitorado da direita.
Olá, muito bom dia a todos. Queria começar por dar os parabéns aos dois candidatos que conseguiram passar à segunda volta. Não queria usar novamente a mesma palavra, mas realmente estas eleições levaram uma grande volta e, portanto, não foram aqueles que se perspectivava que efetivamente conseguissem passar, a passar, e acho que isso é de valorizar. Foi a escolha dos portugueses, obviamente. Relativamente à sua questão, efetivamente há aqui uma fragmentação da direita. O fato também é que é neste momento André Ventura quem lidera essa direita e agora terá que haver uma escolha dos portugueses. Honestamente, acho que os restantes partidos à direita não vão dar esse apoio de forma expressa, mas também, para ser sincera, acho que ele é desnecessário. Aquilo que André Ventura precisa é mesmo do apoio dos portugueses e isso nós temos a certeza que ele tem, e tem cada vez mais essa confiança. André Ventura conseguiu derrotar o candidato que era apoiado pelo governo, neste momento pelo maior partido com representação na Assembleia da República, e acho que isso é também de valorizar. Foi feita uma campanha, na verdade, até um pouco à semelhança daquilo que o Adalberto mencionava. André Ventura fez também uma campanha sem picardias pessoais, sem ofensas, andou focado em estar com os portugueses, estar na rua, ouvir as pessoas e aquilo que nós acreditamos é que houve essa recompensa a André Ventura precisamente por isso. E julgo que esse será agora um caminho que é para continuar, uma campanha, obviamente, em que nós sabemos que os dois candidatos têm uma visão muito diferente para o país, mas ainda assim, com todo o interesse em debater as ideias, em que todas as pessoas fiquem absolutamente esclarecidas sobre o que um quer e outro quer. E depois deverão votar, obviamente, em concordância com isso.
Adalberto Campos Fernandes, acha que ou pelo menos esperava que a liderança do PSD e também da Iniciativa Liberal tomassem uma posição de indicação de voto para a segunda volta e obviamente uma posição favorável a António José Seguro?
Não, sinceramente, acho que do ponto de vista da tática política, ninguém esperaria que aqui numa noite eleitoral, os partidos ou as suas lideranças se comprometessem com apoios. Acho que nesse aspecto foi sensato e até foi adequado, embora nós tenhamos visto que ontem à noite mesmo o líder da Iniciativa Liberal já declarou o seu apoio a António José Seguro e muitos membros destacados do PSD o fizeram. O que se vai passar daqui para frente não é tanto um desenho, é uma geografia meramente cromática em termos da origem dos votos e dos partidos O que vai acontecer é uma divisão na sociedade portuguesa, claramente, do ponto de vista até ético, cultural e político, sobre aqueles que acham e contam uma narrativa falsa de que 50 anos de democracia nos trouxe ao pior dos mundos e aqueles que acham que temos que respeitar as gerações que nos antecederam pelo quanto de positivo foi feito por este país. O país de 2026 não tem nada a ver com o país de 64. Nós avançamos muito, criamos muita coisa na área da saúde, da educação, na cultura, na ciência. Portanto, esta ideia, que é uma ideia muito simplista, de que nós temos uma trajetória de desastre, de catástrofe, é uma ideia maldosa. Nós temos muitos problemas para resolver e essa seriedade tem que ser posta no debate político. Efetivamente, podíamos ter ido mais longe, podíamos ter feito melhor, podíamos ter menos problemas para resolver hoje do que temos no momento. Mas esta narrativa do caos, esta narrativa de que Portugal está à beira do colapso, por exemplo, dizer que Portugal é o país mais corrupto do mundo, quando está nos rankings internacionais na posição 70, aproximadamente. Nós temos que trazer para esta campanha discussão séria dos problemas que temos, mas temos que ser rigorosos e sérios. E se o fizermos, naturalmente que há pessoas que optam e seguem o discurso mais agressivo, mais baseado em suposições e até insinuações, e há outros que vão discutir a vontade de fazer a mudança através de um registo que é de compreender que para problemas complexos não existem soluções simples. Portanto, eu espero que nós tenhamos daqui para frente uma movimentação não tanto dos partidos, mas da sociedade, das pessoas que de fato têm uma consciência, que é a consciência que as aproxima de uma personalidade como António José Seguro, e as outras pessoas que num quadro de total liberdade entendem seguir por outro caminho. Mas atenção, a liberdade não é algo que esteja absolutamente definitivo e conquistado na vida dos países e das democracias. Nós estamos a assistir no plano internacional, verdadeiramente a coisas que alguns de nós há 20, 30 anos consideravam inimagináveis. Portanto, é preciso termos a consciência de que a vida é complexa, os problemas que existem para resolver são complexos e têm que ser feitos com lucidez e com serenidade. E portanto, é essa disputa que vai estar em cima da mesa e num quadro de respeito, porque a pior coisa que pode haver é que alguém que se quer dar ao respeito, não respeite o outro. E seguramente que esse não é o registo do António José Seguro.
Cristina Rodrigues, André Ventura vai ter que, obviamente, alargar a sua base de apoio em relação a esta primeira volta. Como é que vai apelar a um eleitorado, nomeadamente o do PSD, que tem sido tão criticado por ele próprio e colado àquilo que é o eleitorado e à obra do PS?
Bom, isso é algo que vamos ter que ver agora. Uma coisa eu tenho a certeza: é que nos últimos 50 anos, obviamente, coisas boas e coisas más. Agora, há coisas que as pessoas não querem e que não esperam que o André Ventura faça é passar uma borracha por cima de tudo o que correu mal e que hoje se sentem as consequências de tudo o que correu mal. E ele não terá qualquer problema em responsabilizar quem tiver que responsabilizar sobre essa matéria, seja de esquerda ou seja de direita. E acho que é isso que as pessoas contam com o André Ventura. E nomeadamente, o André Ventura nunca vai tentar maquiar um problema de corrupção, que é um problema sistêmico e grave que Portugal enfrenta. E se António José Seguro não tiver a coragem de fazer o mesmo, essa responsabilidade ficará com ele. Também lhes digo, ninguém espera que realmente ele vá à frente carregar a bandeira contra a corrupção. Sabemos isso perfeitamente e ninguém conta com António José Seguro para isso. E aquilo que nós vimos agora aqui também do Adalberto, é que é um pouco mais do mesmo e realmente isto marca a diferença muito grande entre ambos os candidatos. Temos um candidato que é do sistema, temos um candidato que é pela ruptura do sistema e portanto, veremos qual é que será a preferência dos portugueses numa série de outros temas. Obviamente, não se cinge apenas à corrupção. Temos as questões da imigração, temos as questões da segurança. Diga.
Eu gostava muito. Eu tenho muito respeito, aliás, tenho debatido muito com a Cristina nestas últimas semanas e naturalmente que eu respeito a sua posição. Mas a Cristina vai ver que não vai funcionar essa ideia de pôr na boca dos outros aquilo que os outros não disseram. Sabe que nós que vivemos a vida até em ambiente mais de trabalho e de relação com os factos, nós temos a noção de que as coisas são o que são. Ninguém disse que em Portugal não existem problemas de corrupção. Existem, têm que ser atacados com violência, com firmeza e de forma eficaz.
Ora, mas não foi aquilo que disse há pouco.
Não, mas deixe-me terminar, por favor. Deixe-me terminar de fazer a minha explicação.
Mas é que eu estava a falar e interrompeu-me. E eu até achei que era o jornalista que me estava a interromper.
Deixe-me só, Adalberto Campos Fernandes. 30 segundos, Adalberto Campos Fernandes, para terminar a ideia da corrupção. Voltamos à Cristina Rodrigues.
É muito simples, ó Cristina. Evidentemente que Portugal tem problemas de corrupção, tem problemas de segurança, tem problemas de imigração. Agora, nós podemos ser sérios na abordagem dos factos, quantificar, avaliar a magnitude e encontrar soluções que sejam objetivas e eficazes. O que nós não podemos, e isso é que eu acho que de fato é de evitar e esperemos que no debate, na campanha, isso aconteça, é fazer de tudo um processo de generalização e depois pensarmos, porque falámos muito alto e porque somos muito coreográficos, que a generalização se sobrepõe à razão.
Cristina Rodrigues.
O que há para resolver tem que ser resolvido. Portanto, estaremos com certeza juntos, até do mesmo lado da barricada para resolver problemas. Não estamos é para fazer generalizações que são manifestamente injustas e erradas.
Cristina Rodrigues, por favor.
Bom, o que eu estava a dizer era efetivamente que em temas como a corrupção, como a imigração, como a saúde, como a segurança, mesmo a fiscalidade ou até estas questões relativas a apoios sociais, há uma diferença enorme entre ambos os candidatos. E acho que é aí que se deve focar o debate naquilo que cada um defende em termos de visão, obviamente, naquela que é a posição de um presidente da República, obviamente, mas que nós sabemos que tem competências fundamentais no exercício da nossa democracia e precisamos de perceber exatamente qual é que é a posição de um e qual é que é a posição de outro. E percebermos que as pessoas depois terão que fazer também, obviamente, a sua escolha.
E teremos tempo para observar também essa clarificação de posições por parte dos candidatos. A campanha para a segunda volta inicia-se oficialmente na próxima semana. Teremos outras oportunidades, Adalberto Campos Fernandes e Cristina Rodrigues, para debater aqui na Rádio Observador também essas propostas dos candidatos. Muito obrigado pela vossa participação neste Explicador e uma boa semana.
Bom dia.
Obrigada.