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Este é o Explicador das manhãs 360. Esta segunda-feira olhamos para mais uma subida do preço dos combustíveis. É uma das mais altas desde que começou a guerra entre os Estados Unidos e o Irão. São nossos convidados, num primeiro momento, Filipe Garcia, especialista em mercados financeiros, e logo depois conversamos com Gonçalo Lobo Xavier, da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição. A moderação é do Paulo Ferreira e do Bruno Vieira Amaral.
Filipe Garcia, bom dia. Obrigado mais uma vez por estar conosco no Explicador. Estamos perante uma nova subida semanal dos combustíveis. Esta é uma das mais altas de sempre. Temos gasolina e gasóleo com preços de referência acima dos €2 e isso também começa a tornar-se habitual. Devemos começar a assumir que estes são os preços regulares normais dos combustíveis?
Olá, bom dia. Efetivamente, esta subida acaba por refletir aquilo que está a acontecer nos mercados internacionais e o que vemos hoje, por exemplo, nos mercados internacionais, é que o gasóleo está novamente em alta, a gasolina também, embora não muito expressiva. Mas, por exemplo, o gasóleo está a subir mais 2% hoje e se pusermos isto em €/L, já está nos 1,04 €, o que significa mais 90% face àquilo que estava a 27 de fevereiro, antes da guerra começar no Médio Oriente.
Esse preço que nos disse é um preço de produto sem impostos e sem uma série de margens até ele chegar ao consumidor final.
Exatamente. Depois, acresce aqui mais ou menos o dobro daquilo que é a margem de distribuição, o imposto sobre combustíveis e o IVA. A questão se é o novo normal ou não, sempre depende um pouco daquilo que é a duração do conflito. Nós estamos já com seis meses de guerra. Entretanto, surgiu também um fator novo, que foi a forma como a Ucrânia começou a atacar as refinarias e as plataformas de distribuição da Rússia, em termos de refinados. E importa dizer que a Rússia era responsável por cerca de 40% das importações europeias de gasóleo, o que significa que não só temos a questão do Médio Oriente que está por resolver, como temos também a situação na Ucrânia e Rússia também por resolver, o que leva a crer que não haverá uma estabilização assim tão rápida quanto isso. E já agora, por quê? Porque quando nós estamos a falar, por exemplo, de preço de petróleo, há uma componente importante que está relacionada com as expectativas, ou seja, alguma especulação sobre o que é que serão as condições de produção da oferta e da procura no futuro. Quando estamos a falar de produtos refinados, o mercado tende a oscilar muito mais com base em oferta e procura real, ou seja, do momento. E se houver uma resolução dos conflitos, parece-me ser difícil haver uma estabilização, aliás, um recuo para os preços de antes da guerra, porque houve mesmo capacidade destruída e, portanto, há neste momento menos produto no mercado e significa que mesmo que os conflitos acabassem amanhã, não iríamos ter quedas nos preços com a mesma velocidade com que subiram.
Porque, de facto, as condições de produção do setor ficaram alteradas. Filipe Garcia, além do preço que todos pagamos a mais pelos combustíveis, há uma contaminação normal deste fator a outros setores de atividade. Isso já se está a notar nos indicadores de inflação. Isto é, essa contaminação para outros produtos e serviços.
Na verdade, não se está a notar muito. Apesar de haver uma participação enorme do transporte rodoviário de mercadorias na economia europeia e em Portugal, em concreto, na economia europeia andamos entre 65% a 70% dos transportes. No caso de Portugal, é acima de 90%. Aquilo que os dados vão mostrando é que a inflação tem subido, sobretudo pela evolução dos preços energéticos e de alguma forma, de preços de alimentação. Mas quando olhamos para as métricas da inflação subjacente, ou seja, que retira esses efeitos, ainda não se tem notado essa contaminação. Agora, parece-me o seguinte: um dos fatores que normalmente faz com que a inflação comece a entranhar na economia é quando os salários começam também a subir. Nós não temos visto isso, mas se chegarmos ao final do ano, portanto, chegarmos ali à zona de novembro, dezembro, com níveis de inflação em alta, é muito provável que isto acabe por afetar as negociações salariais para 2027 e, dessa forma, comece também a fazer com que haja efeitos mais permanentes. Por outro lado, quando falamos, por exemplo, na eletricidade, sabemos que tem havido subidas recentes naquilo que são os preços pagos pela indústria, ainda não tanto para os particulares, mas ao passarmos para 2027, muito provavelmente começaremos a ter esse efeito de uma forma mais pronunciada. Portanto, como se disse desde o início deste conflito, a chave está no tempo. E como já estamos em seis meses em que, sobretudo desde o falhanço do cessar-fogo de junho, a situação continua complicada, parece ser uma questão de tempo até que a inflação volte a subir, mas também importa dizer que estamos ainda bastante abaixo dos níveis que foram vistos após o início da guerra com a Ucrânia.
Sem dúvida. E para fechar, Filipe Garcia, apesar dessa não evidente contaminação ainda ao resto da economia, a aposta é de que o BC, apesar disso, volte a aumentar juros já esta semana.
Sim, eu diria que isso é certo. Ou seja, não só é aquilo que é a expectativa do mercado, que neste momento inclui uma probabilidade de 100% que isso vá acontecer Como os responsáveis do BCE não têm feito qualquer esforço no sentido de mudar essa opinião do mercado e dos restantes agentes económicos. Portanto, essa subida vai acontecer e, neste momento, o mercado até está à espera que aconteçam mais duas além dessa durante o ano que vem. Isto é, espera-se uma subida agora em dezembro, há também uma probabilidade de cerca de 88% que haja outra subida em dezembro, mas se não for em dezembro, seria no ano seguinte.
Em janeiro.
E neste momento, já se está à espera de mais 25 pontos base em setembro, o que levaria as Euribors a 12 meses, eventualmente a um topo, a um pico na casa dos 3,40, alguns na primavera do ano que vem.
Portanto, esse efeito vai contaminar as despesas de certamente muitas famílias.
Sem dúvida.
Felipe Garcia, obrigado pela presença neste explicador. Bom dia e boa semana.
Muito obrigado.
E damos agora também as boas-vindas a Gonçalo Lobo Xavier, diretor-geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição. Muito bom dia, obrigado por ter aceitado o nosso convite. Em que medida é que este novo aumento do preço dos combustíveis se irá refletir no preço dos produtos?
Bom dia, muito obrigado. Nós realmente estamos há seis meses a enfrentar esta enorme pressão em toda a cadeia de valor. É claro que hoje as pessoas vão sentir quando forem às bombas, os consumidores, todos nós, vamos sentir isso quando abastecem os seus carros. Mas também é evidente que isto não se traduz, no imediato, num aumento galopante dos preços que vão ver nos produtos, sejam eles alimentar ou não alimentar. Agora, eu julgo que todos percebem que, e nós temos vindo a dizer isso, um negócio de retalho depende de muitas dinâmicas e depende de toda uma cadeia de valor que abastece, desde a logística, aos transportes, à própria produção, seja a agroindústria, seja a indústria têxtil. Todos os setores industriais estão a sentir uma enorme pressão e onde uma componente dos custos deste fator de produção, dos custos de energia, é muito relevante. E, portanto, não é imediato que isto se vá sentir, mas se falar com empresas de transporte, empresas de logística, com agricultores, todos eles hoje vivem este drama dos custos galopantes de energia e que não são sentidos em todos os Estados-membros da mesma forma, mas que em Portugal está a ter, de facto, um peso muito grande.
Um grande impacto. E esse impacto acaba por ser transversal a todos os produtos ou há produtos particularmente vulneráveis a esta subida e que irão refletir de forma mais imediata o aumento do preço dos combustíveis?
É evidente que indústrias intensivas e grandes consumidoras de energia sentem de maneira diferente. Se me quer perguntar naquilo que as pessoas sentem no seu dia a dia.
Era nesse sentido, sim.
É visível que o custo das proteínas, para não individualizarmos produtos, mas que as pessoas percebem bem, que vão desde os ovos à carne, ao peixe, todos esses produtos que estão dentro da lógica de uma cadeia de valor que implica rações, que implica alimentação animal, que implica logística, que implica transporte, vão sentir de maneira diferente.
Entendi.
Se juntarmos a isso um aumento de procura em alguns segmentos e uma certa escassez de oferta, não escassez, não posso utilizar esta palavra, mas uma diminuição da oferta, percebe-se que o mercado está muito pressionado e que nós temos que, por muito esforço que se faça, logística e por muita concorrência que felizmente há em Portugal, mais tarde ou mais cedo, os produtos têm que refletir este aumento transversal em toda a cadeia de valor.
E Gonçalo Lobo Xavier, há alguma possibilidade das empresas de distribuição conseguirem amortecer o impacto deste aumento? As empresas têm capacidade de absorver alguns dos custos com este aumento dos combustíveis?
Com franqueza, nós temos dado um exemplo, as empresas, sobretudo se quer referir ao retalho alimentar, têm conseguido amortecer, quer por via do esmagamento das margens, mas sobretudo por via da eficiência, têm conseguido de alguma maneira, e isso está a ser refletido nos vários estudos e no alinhamento que se faz do chamado cabaz alimentar. Têm conseguido, muito por via de eficiências que todos os dias procuram, também na área da sustentabilidade, que permite alguns ganhos de causa, mas sobretudo por um esforço notável de equilíbrio entre eficiência, logística, negociar bem, comprar bem e conseguir apresentar uma diversidade de produtos na prateleira para uma escolha livre do consumidor, que há produtos, diria, para todos os orçamentos. Agora, isto nós temos vindo a dizer, torna-se cada vez mais difícil. As margens são muito baixas, isto está mais do que demonstrado, acho que toda a gente já percebeu isso. Eu digo sempre isto E isto está demonstrado nos vários estudos e nos vários relatórios e contas. O caso do retalho alimentar é um negócio de volume, não é um negócio de margem, é um negócio de muito volume, mas de facto as margens estão a ser esmagadas cada vez mais, mas os negócios têm que ser sustentáveis e é preciso continuar a valorizar os salários e continuar a valorizar as empresas para elas serem competitivas.
E nesse sentido... Sim, diga para concluir.
Repito que nós sofremos muito e não nos estamos a queixar, estamos só a marcar aqui uma evidência. Nós sofremos muito da perda de competitividade face a um mercado tão importante que é a Espanha, que tem tido outros mecanismos para fazer face a esta escalada.
E esses mecanismos poderiam ser postos em prática pelo governo. O governo poderia estar a fazer mais neste momento para até equilibrar essa posição em relação à Espanha?
Nós percebemos, num choque energético externo e tão abrupto, o Estado deve evitar que o aumento dos preços transforme simultaneamente num aumento automático da receita fiscal. E, portanto, o mecanismo do Estado da compensação através do ISP tem sido adequado. Ainda na sexta-feira o governo apresentou mais um esforço na redução. Foi positiva a decisão do governo de reforçar a redução do ISP, evitando que a subida dos preços se traduza automaticamente num aumento da receita fiscal do Estado. Isso é um bom princípio, neutralizar a receita adicional de IVA é economicamente justificável. Agora o Estado também tem que pugnar por um equilíbrio orçamental da República e, portanto, percebe-se que não pode ir muito mais além do que tem conseguido. Agora, nós o que preferimos é que haja respostas temporárias, previsíveis, proporcionais por parte do Estado relativamente à componente de impostos. Agora, o governo ao tomar esta medida positiva de reforçar a redução do ISP, mostra que não quer ganhar do ponto de vista fiscal com a subida dos combustíveis. Parece-me que isso é uma mensagem que dá.
É um bom princípio.
Agora, de facto, não resolve o problema. Nós vemos os agricultores a pedirem mais apoios e uma redução proporcional ou pelo menos tão interessante como a que há em Espanha. Nós vemos os nossos parceiros dos transportes também a pedirem e a solicitarem que haja aqui um maior equilíbrio e um maior investimento por parte do governo. Nós, no retalho, somos sensíveis a estes pedidos, mas temos que perceber que a margem de manobra do governo não é tão elástica quanto se possa pensar.
O IVA zero nos bens essenciais poderia ser uma solução, mesmo que temporária, para fazer face ao aumento dos combustíveis?
Nós dizemos sempre que o IVA zero, quando foi tomada a decisão do IVA zero ainda em 2022, se não estou em erro, foi num contexto de inflação que não tem paralelo com o que estamos a viver agora. Eu compreendo que politicamente se lembrem muitas vezes do IVA zero, porque de facto foi uma medida bem aplicada, com efeitos diretos nos cidadãos e que do ponto de vista do retalho foi irrepreensível a sua aplicação. Agora, repito, foi num contexto muito pior do ponto de vista da inflação do que estamos a viver agora. E, portanto, nós não podemos dizer que defendamos uma medida dessas. Achamos que pode ser ponderada, mas realmente se formos analisar do ponto de vista macroeconômico, os dados que levaram a que se utilizasse este mecanismo do IVA zero não são comparáveis com o que temos agora. Parece-nos que do ponto de vista fiscal, há ainda margem para fazer alguma coisa, embora se perceba que o governo tem uma margem pequena, mas ainda podemos ir mais além. O IVA zero seria uma medida excepcional e diria que não estamos ainda em um período em que ela se justifique, embora seja sempre uma decisão política e uma decisão do Ministério da Economia e das Finanças e nós assim a acataremos. Mas esse é o comentário que faria. Não estamos num cenário macroeconômico tão difícil como o que estávamos a enfrentar quando ela foi tomada em 2022.
Muito bem. Gonçalo Lobo Xavier, diretor-geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição. Agradeço a sua disponibilidade para participar neste Explicador. Um bom dia e uma boa semana.
Bom dia. Obrigado, até breve. Obrigado.