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Bem-vindos a mais um Explicador especial eleições legislativas. O Observador está a promover debates em todos os distritos do país e hoje estamos em Leiria, dedicados ao distrito de Leiria. Comigo tenho o cabeça de lista do PS, Eurico Brilhante Dias, é deputado e líder parlamentar do Partido Socialista nesta legislatura que agora termina. Também o Telmo Faria, que é o cabeça de lista da AD, coligação PSD, CDS, PPM, é empresário, foi presidente da Câmara Municipal de Óbidos também durante vários anos. E ainda o Gabriel Mithá Ribeiro, candidato pelo Chega, é atualmente deputado do partido. Bem-vindos aos três. Eu ia começar pela atualidade e pelo debate de ontem, Eurico Brilhante Dias. Todos os comentadores deram a vitória a Pedro Nuno Santos. Isto marca um novo capítulo na campanha que agora arranca oficialmente?
Não sei se marcou um novo capítulo. Aliás, nessa mesma manhã tínhamos tido uma sondagem que dava uma vitória ao Partido Socialista. Eu penso que acima de tudo o que ficou claro para todos é quem tem capacidade de liderança, quem tem um projeto político e quem tem experiência para governar. E que é verdade, o país avançou muito nos últimos oito anos, avançou em dimensões muito diferentes. Avançou nos salários, avançou nas pensões, avançou nas exportações, avançou no investimento estrangeiro, avançou no emprego, combateu o desemprego, avançou também no investimento no Serviço Nacional de Saúde, combateu uma pandemia e uma guerra na Ucrânia. E apesar de tudo, e evidentemente que há problemas que persistem, há problemas que ainda temos que resolver, mas só o PS e a liderança do Pedro Nuno Santos e o programa do Partido Socialista parece estar à altura de resolver esses problemas. E se há algo que ontem ficou evidente foi que a AD, em particular o PPD/PSD, já que os outros dois partidos nem presença no Parlamento têm neste momento, é que a AD não tem programa político e teve oito anos para o fazer e entre as contradições das suas lideranças, chega ao fim de oito anos sem um programa credível para governar o país. Isso pareceu-me muito evidente ontem e é a marca fundamental do debate. Um é candidato a primeiro-ministro e o outro é candidato, no caso o doutor Luís Montenegro, a continuar a ser líder da oposição. Naturalmente, o PPD/PSD o deixar.
Telmo Faria, deduzo que discorde desta forma como o debate foi visto e que Luís Montenegro tenha tido um desempenho que deixou orgulhosos a Aliança Democrática.
Olá, muito bom dia. Eu quero começar por vos solicitar a todos. Parece-me que as expectativas eram tão baixas em relação ao candidato Pedro Nuno Santos, que ele ontem conseguiu estar um pouco melhor daquilo que esteve nesta série bem longa de debates que foram realizadas. Não concordo nada com esta ideia de que o país avançou. O país avançou em alguns domínios, mas o país está com imensos problemas e, portanto, é preciso enfrentá-los com capacidade, com soluções. E a AD vem apresentar um programa de libertação desta asfixia socialista, desta asfixia fiscal.
Já é a linguagem que o Chega costuma usar, essa da asfixia socialista.
Não, é uma asfixia porque o peso fiscal-
Não, lamento, mas essa linguagem da asfixia socialista é própria da extrema-direita, não de um partido democrático, o PPD/PSD, que com o PS sustentar a democracia portuguesa.
É a minha linguagem, é a minha interpretação.
Isso não é uma interpretação, isso é uma linguagem, é um léxico da extrema-direita, Telmo.
Vamos deixar ouvir a resposta do Telmo. Telmo.
Eu acho que-
Sim, mas não podemos deixar que a linguagem política alastre desta forma. Isso é uma espécie de-
Acho que se tira bem do peso-
Lamento estar a asfixiá-lo neste momento, é verdade.
Mas agora que já deixou o seu ponto claro, Telmo Faria, só para concluir.
Eu acho que podemos ser um pouco mais cordiais e deixar os outros expressar as suas opiniões.
Essa afirmação não é cordial, Telmo Faria.
Já ficou claro, Eurico.
Essa afirmação não é cordial.
Já ficou clara a sua posição, Telmo Faria, para concluir a ideia e para responder.
Eu estava a tentar explicar que o país precisa de uma libertação fiscal, que o país precisa de uma nova esperança e que precisa de mais ambição. E é preciso, em primeiro lugar, democraticamente, saber ouvir os outros. Eu estou nesta candidatura. Diga?
Democraticamente, sim.
Eu estou nesta candidatura para expressar ideias, para lutar pelo meu distrito e para ter presença no meu distrito.
Muito bem. Vamos, Gabriel Mithá Ribeiro, também chamá-lo aqui ao debate. Neste momento já não há dúvidas de que o não de Montenegro ao Chega é mesmo um não. O líder do PSD disse-o no debate frente a André Ventura. O voto no Chega deixa de ter tradução porque não vão passar de partido de protesto.
Não. Creio que não. Agradecer o convite ao Observador, cumprimentar os outros dois participantes, o deputado Eurico Brilhante Dias e o Telmo Faria. Eu, por acaso, infelizmente, tive um problema familiar ontem e ainda não vi o debate, só ouvi resumos nas notícias. E não creio que tenha alterado o que vinha antes, que é o crescimento significativo do Chega. E também concordo com o que foi dito, quer dizer, o país não avançou, nós estamos com problemas profundos no ensino, na saúde, na justiça, na reforma do Estado Por aí fora. Portanto, o papel do Chega vai continuar a ser estratégico, o Chega é bem mais do que um partido político, representa um movimento social e até um pouco mais do que isso, há dimensões de transformação, e eu digo com todas as letras civilizacionais, que nós propomos. Mas há aqui uma nota que eu gostaria de deixar sobre esta conversa inicial, este uso destes termos como extrema-direita pelo senhor deputado Eurico Brilhante Dias. Eu não posso concordar com este tipo de pontos de vista, porque há aqui um detalhe, que é bem mais do que um detalhe sobre o Chega, que eu gostaria de deixar claro para a opinião pública. Nós temos tido pouco espaço de marcar as nossas posições e o que está a acontecer é aquilo que classicamente é uma tradição stalinista, que o senhor deputado Eurico Brilhante Dias trouxe para esta conversa.
Cá estamos no discurso da extrema-direita.
É isso mesmo.
O senhor deputado continua como esteve nos últimos dois anos no Parlamento, a ser de facto um deputado que não é capaz de fazer um discurso urbano e cordato quando tem à sua frente quem discorda de si e utiliza uma linguagem que é mesmo de extrema-direita, deixe-me dizer.
Ponto também já vincado para concluir.
Não, eu acabei de ser interrompida.
Eu chamo de stalinista ao Partido Socialista, que é um partido da família social-democrata.
Sim, mas ficou-
Então posso?
O interesse dos leirienses.
Ficou já claro também o ponto do Eurico Brilhante Dias. Ia-lhe pedir para concluir a ideia, Gabriela.
É mesmo um discurso antidemocrático.
O senhor deputado Eurico Brilhante Dias nem me deixa falar. Está a dar um exemplo do que é o stalinismo puro e duro.
Não, eu deixo falar, mas não deixo insultar.
Mas vamos deixar concluir Eurico Brilhante Dias, até porque à distância estas interrupções são importantes para marcar o ponto de vista, mas agora é importante também ouvirmos a Gabriela Mitra Ribeiro.
Pois, é que eu fiquei com a ideia interrompida. E a ideia é esta: o que o Partido Socialista introduz e o PSD vai atrás é aquilo que classicamente se designa por violência simbólica, violência identitária e, no limite, a violação mental. Estes senhores acham que decidem por eles mesmos autocraticamente aquilo que os outros são. Isto é, foram eles que decidiram que nós éramos racistas, fascistas, antidemocráticos, extrema-direita, por aí fora. Isto é o clássico de alguém querer definir autocraticamente aquilo que os outros são. Isto era o que os nazis faziam aos judeus, isto era o que os comunistas faziam aos burgueses e aos camponeses abastados. Portanto, nós temos o direito de nos definir por nós mesmos aquilo que somos.
E de expor as suas ideias, é isso que estamos a pedir.
Essa atitude do senhor deputado Eurico Brilhante Dias não pode passar em claro. Nós não podemos continuar a tolerar alguém que decide-
Não passará, sabemos nós bem quem não passará.
Mas não passam vocês. Vocês acham que são donos da identidade íntima, da minha identidade íntima. No dia que o senhor quiser discutir abertamente comigo temas como racismo, fascismo, antidemocracia, por aí fora, vai ver que anda a dizer asneiras, a violentar o pensamento e nem sequer tem ideias arrumadas. Agora tomam conta da comunicação social e fazem o que querem.
Está percebido o ponto de ambos. Vamos passar às ideias e vamos começar pela economia, porque é importante na região de Leiria. Enfim, são assuntos transversais a todo o território, mas Leiria vive também muito da indústria. Eurico Brilhante Dias, Pedro Nuno Santos quer que o Estado defina setores estratégicos para se apostar. Concorda com isto? Ou seja, não corre o risco, por exemplo, de uma região como Leiria ser forte em setores que o Estado não vá escolher como estratégicos?
Não, mas deixe-me dizer, desculpe, Miguel, mas tenho que dizer.
20 segundos para isso e depois a Gabriela.
Ficou claro uma vez mais no debate de ontem, e é que para além da estratégia económica que tem o Partido Socialista e da profunda ausência de projeto político-económico apresentado pela AD, é que o doutor Luís Montenegro, e mais uma vez visto hoje no debate, ficou claro, na sua omissão de não responder o que fará se o Partido Socialista ganhar, confirma que quer governar das duas maneiras, desde que a direita tenha maioria. E isso eu não posso deixar passar. O que ficou claro é que o não é não, é não se a AD ganhar, esperando que o PS viabilize o governo não votando uma moção de rejeição, como foi dito pelo Pedro Nuno Santos, pelo secretário-geral do Partido Socialista. Mas quando se diz o que acontecerá se o Partido Socialista ganhar, aquilo que temos é um silêncio e uma não resposta, o que significa que aquilo que o doutor Luís Montenegro tem na cabeça é que se não ganhar as eleições, mas a maioria estiver à direita, vai fazer um governo com o Chega, associando-se ao Chega ou tendo o apoio do Chega. E isso tem que ficar muito claro para os nossos ouvintes. O que está em causa hoje é que ou a esquerda ganha, e se ganhar há uma maioria de esquerda e um governo liderado pelo PS, ou então o PSD com os seus apoiantes à direita quererá governar em quaisquer circunstâncias.
Vamos aqui à parte da economia.
De referir também que quanto à economia...
Eu depois vou lhe dar tempo, Telmo, mas é mais fácil se agora...
Como o Miguel fará comentário, com certeza.
Eu não o interrompo.
Eu gostaria de dizer muito objetivamente que aquilo que nós temos assistido desde o ponto de vista económico, e é importante sublinhá-lo, é que nós temos tido progressivamente uma transformação da economia portuguesa, tendo hoje mais valor acrescentado, mais exportações e mais investimento. Não só o distrito de Leiria tem dado um contributo muito importante, como é muito importante em áreas muito específicas, em áreas em que as tecnologias têm mudado de forma profunda. Evidentemente, o setor automóvel, as peças de plástico, o setor dos moldes, mas há outros setores de forte incorporação nacional, como é o caso da pedra, mesmo os produtos derivados da floresta. A agricultura, que atingiu mais uma vez um recorde único de exportações em hortícolas e frutícolas no nosso país no ano passado, sublinhado até por um grande protagonista da região Oeste e que lidera a Portugal Fresh Nós temos tido este movimento. Agora, o que nós temos que fazer é continuar a impulsionar este movimento, captando mais investimento e ao mesmo tempo promovendo mais exportações. Portugal tem vindo a atingir valores recorde de captação de investimento e exportações. Leiria tem no seu distrito, no coração da sua atividade industrial e também no setor primário, as condições de continuar a aumentar emprego, a ter emprego de mais qualidade e com mais exportações. E não é por acaso que no nosso distrito nós temos hoje mais emprego. Só em função da evolução, não só recente, mas a partir de 2015, temos mais 30 mil postos de trabalho, aproximadamente, de trabalho dependente, para além do trabalho independente, e temos aumentos de salários médios que correspondem a um aumento nominal de salário médio nos últimos oito anos.
E por isso faz sentido esta especialização e não continuar literalmente o caminho.
2023, de 30% de salário médio desde o ponto de vista nominal. Isso permite-nos dizer que não só a estratégia é correta, como o distrito é um distrito fortemente aberto ao exterior, como foi sempre, que continua a apostar com as agendas mobilizadoras e algumas delas muito importantes. Por exemplo, uma na área da embalagem é particularmente importante pelo cruzamento que tem entre setores.
Para concluir.
E que aquilo que nós temos que fazer é dotar a economia portuguesa, e neste caso, a economia do distrito, de norte a sul, em setores que eu conheço muito bem, que apoiei a entrar em mercados externos, desde a carne de porco no mercado com a China, que abriu de forma definitiva comigo como secretário de Estado da Internacionalização, o apoio dado à pera rocha e à maçã da Recobança, que têm vindo a entrar cada vez em mais mercados internacionais, que temos que continuar a apoiar os moldes num momento de forte transição energética e por isso os projetos no setor automóvel têm tido avanços e recuos, e é muito importante continuar a apoiar a indústria de moldes.
E esses setores não passarão ao lado, é o que deduzo da sua intervenção.
Desculpe, Miguel, não ouvi.
Deduzo que esses setores que considera estratégicos na região não vão passar ao lado daquilo que será a aposta.
Não só não passam, como estão hoje fortemente mobilizados em torno das agendas mobilizadoras.
Muito bem.
Que estão em implementação no território e que são uma grande preocupação da nossa parte quanto à sua implementação no quadro do programa de recuperação e resiliência.
Muito bem.
As economias mais resilientes do país, que têm dado um contributo fundamental para estes 50% do PIB.
Então, Faria, eu vou lhe dar tempo para responder àquela primeira reação do Eurico Brilhante Dias sobre o não é não ainda, até porque tem menos tempo do que os restantes, mas deixe-me já lançar-lhe a próxima pergunta, que é também sobre economia e que é na aposta do PSD na reforma fiscal, quer para fixar os jovens, quer para garantir o aumento de salário médio e reduzir também os custos às empresas. A minha pergunta é se a questão da descida do IRC não é poucochinho para os empresários.
Em relação à questão do não é não e da posição política assumida, o doutor Luís Montenegro foi o primeiro a dizer que só governaria se ganhasse as eleições. Foi o primeiro que trouxe, e já há largas semanas, essa clarificação no espaço político. O que temos assistido por parte do Partido Socialista tem sido uma confusão completa do ponto de vista das suas posições. Semana passada declarou um voto contra a viabilização de quem ganhou as eleições nos Açores e ontem pareceu dar a entender de que iria viabilizar um governo da AD caso ganhe as eleições. Mas não sei se ficou suficientemente claro, caso não ganhe as eleições, se não volta a repetir este novo paradigma, que para mim é uma ameaça ao sistema eleitoral, ensaiado a partir de 2015, com uma convocatória, uma chamada de partidos do extremo do quadro parlamentar, mas que são partidos que têm um posicionamento mais radicalizado e com propostas mais agressivas quando comparado com toda a história de mais de 40 anos de moderação política e de crescimento progressivo do país no nosso espaço parlamentar. E portanto, nós sempre tivemos uma tradição que é de governos minoritários, são mais os governos minoritários que os governos de maioria absoluta em 50 anos de democracia, mas foi interrompido com esta vontade. Eu diria que se abriu uma caixa de Pandora dos extremismos a partir de 2015 e o doutor Montenegro tem reposto de uma forma muito clara aquilo que é a sua vontade de regressarmos àquilo que predominou até essa altura no nosso sistema político. Portanto, é muito importante preservar o sistema político, não convocar os extremos para o poder. E eu não sei se isso está suficientemente claro, se numa semana vamos apoiar, se na outra semana vamos recuar ou qual será a tonalidade da narrativa. Em relação a esta questão sobre o distrito, que me parece muito pertinente, também aqui assistimos a uma narrativa, nomeadamente ouvindo a intervenção do deputado Eurico Brilhante Dias, a uma narrativa de glorificação do mérito, dos méritos atingidos, mas só não explicou, só não enfatizou que esses méritos são dos empresários, não são do governo.
Claro. E do governo. E das políticas públicas.
Os méritos do crescimento e das exportações e do avanço de alguns setores São dos empresários, não são do Governo.
Claro, não tem nada a ver com as políticas públicas do Governo.
É muito importante clarificar, porque a nível político parece que há um preenchimento.
Agora descobriu a palavra narrativa. Temos narrativa.
Um entumbar das véias do CNE por parte do Governo.
Isso não é sério desde o ponto de vista político.
Parece-me que os nossos empresários continuam com gravíssimos problemas e sentem ameaças e estrangulamentos ao seu crescimento. Não vale a pena estarmos aqui a falar sobre os sucessos aqui e acolá de determinados setores no fundo, a norte do distrito. Nós temos uma capacidade empreendedora muito forte, isso é do conhecimento público. Leiria é um distrito que tem economicamente uma grande capacidade de intervenção e tem que ser protegido e apoiado. É por isso que Luís Montenegro e a AD vêm falar de uma baixa do IRC, vêm falar sobre uma diminuição dos impostos sobre o trabalho, nomeadamente sobre o IRS, sobre a necessidade de nós conseguirmos reter mais jovens. Mais de 30% saem para o estrangeiro. Portugal perdeu a capacidade de atrair os grandes centros de inovação e desenvolvimento industrial, que iriam contribuir para a criação de um tecido industrial fértil, com capacidade de absorção do capital humano e das tecnologias geradas na academia. Nós perdemos isso, nós não temos competitividade internacional capaz de atrair isso.
E essa reforma quer dar esse...
Não só no campo da investigação e desenvolvimento industrial, que seria fundamental para o aumento da fertilidade industrial e empresarial no distrito. Nós não só não temos isso, como não vemos grandes investimentos internacionais a serem captados para o território, desde a Ford-Volkswagen, com esse impacto no PIB, por exemplo.
E é isso que querem fomentar.
Temos problemas com a falta de mão de obra, não temos mão de obra nas empresas, há aqui estrangulamento ao crescimento empresarial. Temos problemas na nossa mobilidade, temos problemas na falta de habitação para fixar os nossos trabalhadores.
Eu ia pegar nesse assunto, Telmo Faria. Tenho que passar ao Gabriel Mithá Ribeiro. Este assunto da habitação é também importante.
Tem que estar tudo conectado com a economia e com o crescimento económico. São ameaças ao crescimento económico.
Sobretudo quando Leiria tem boas acessibilidades face a Lisboa, pode também vir a beneficiar da alta velocidade. Gabriel Mithá Ribeiro, há aqui o risco de Leiria vir a sofrer com a pressão criada pelos aumentos do custo de vida na capital e pela facilidade com que pode chegar a Lisboa? Acha que a região devia preparar-se melhor para isso e isso não está a acontecer?
Sem dúvida. Mas antes eu queria deixar uma nota sobre a intervenção, uma vez mais, do deputado Eurico Brilhante Dias. Eu tenho que dizer claramente, a política tem que sair do infantário, não é do armário. Isto é, o PS lança fantasmas. Sr. Deputado, deixe-me falar. Caramba, vem-me aqui dar lições de democracia e está sempre a interromper.
Os debates são assim, não são monólogos. Eu sei que o senhor prefere, mas isto é um debate.
Vamos ouvir Gabriel Mithá Ribeiro, sim.
Vou recomeçar. A política tem que sair do infantário, que é para onde remetem o discurso político de pessoas como o senhor deputado Eurico Brilhante Dias. Lançam fantasmas absurdos sobre o Chega e uma parte do PSD vai atrás, como foi o caso do discurso do candidato Telmo Faria, para garantir o poder quase eterno à esquerda. Eu tenho que dizer claramente que há um espaço da moral social comum entre o PSD e o Chega. Se o PSD não quer ver isso, quer colocar linhas vermelhas dentro do campo da direita, o problema é do PSD. Mas há uma diferença profunda em ser de direita e ser de esquerda. Ser de direita é ser autorresponsável em primeiro lugar e remeter a responsabilidade para o interior do sujeito. Foi assim que nasceu a consciência social, foi assim que nasceu a consciência individual. A esquerda introduziu um absurdo que é a externalização da responsabilidade. Se eu sou pobre, a culpa é do rico, se eu sou negro, a culpa é do branco, se eu sou do terceiro mundo, a culpa é do Ocidente, por aí fora. Portanto, há aqui um campo moral claro entre o PSD e o Chega e que nós não queremos discutir como temos de discutir, porque vamos atrás de conversas infantis como é esta que o PS põe diante de todos e o PSD infelizmente vai atrás. Agora, quanto a Leiria, à questão económica, eu fiz um trabalho de campo muito intenso desenvolvido nestes anos e é evidente que é uma das zonas mais dinâmicas do país. Infelizmente, por causa desta visão globalista, progressista, multicultural, Leiria foi durante as últimas décadas sugada pelo crescimento excessivo a norte do Porto e a sul da grande área metropolitana de Lisboa. Esta coisa dos globalistas estarem sempre virados para fora, para o multiculturalismo, para o que é a diversidade, depois esquecem-se do quintal. Isto é, Lisboa e Porto sugaram a região de Leiria de duas formas, enquanto zona intermédia, mas também a zona interior, e nós temos hoje um problema grave de coesão territorial. Portanto, esta questão, estou absolutamente de acordo, a aposta na ferrovia para abrir o distrito ao exterior, a aposta inclusive na atividade portuária, embora seja no distrito de Coimbra, no Porto da Figueira da Foz, a questão da requalificação do IC8 para articular a zona litoral mais desenvolvida com a zona interior, tudo isso é fundamental para o distrito, pode, deve e tem que ser estrategicamente feito.
Mas há aqui alguns aspectos. Eu falei com muitos empresários ao longo destes dois anos e os empresários do setor, que é uma das forças vivas mais importantes do distrito de Leiria, queixam-se muito que são maltratados pelo Estado. Há uma espécie de ditadura fiscal e de inspeções que os oprimem. Não foi um, não foram dois, não foram três empresários que me disseram isso. Portanto, qual é o problema aqui? Um dos aspectos que eu gostaria de acrescentar é este: nós temos que mudar um pouco a valorização das figuras sociais, isto é, a escola, a cultura, os meios artísticos. Nós valorizamos muito minorias, ativistas, artistas, revolucionários políticos. E temos esquecido de dar muito maior dignidade social e cívica a figuras como a figura do empresário, a figura do polícia, a figura do professor, inclusive a do agricultor, do pai e da mãe. Portanto, um dos aspectos que tem que ser feito é romper com este maltrato à figura cívica do empresário, que tem sido feito essencialmente pela esquerda, e o PS faz isto, e o PSD não tem contrariado.
E é isso que querem implementar. Eu acho que ficou já patente a ideia, Gabriel. Até porque estamos aqui a queimar o nosso tempo e havia muitos assuntos importantes a falar, mas eu não queria mesmo terminar sem ir à saúde e por isso apelava aqui já à vossa capacidade de síntese. Eurico Brilhante Dias, tivemos aqui breves dificuldades, mas julgo que já está em condições novamente conosco. O governo quer construir o novo Hospital do Oeste no Bombarral num prazo de cinco anos. Por si, este projeto é para avançar, ou seja, como diz Pedro Nuno Santos, o importante é fazer, apesar de alguns autarcas continuarem insatisfeitos?
Há aspectos que pra mim são muito importantes. O primeiro, no que diz respeito ao Hospital do Oeste, é uma clara convergência de posições. E isso é, pra mim, particularmente importante desde o ponto de vista político. O Hospital do Oeste é uma velha ambição, tem mais de 20 anos de discussão, até com perspectivas muito diferentes entre o Oeste Norte e o Oeste Sul, mas há uma realidade que não podemos ultrapassar. O Oeste precisa de um hospital novo, um hospital qualificado, com mais valências, por exemplo, com uma boa unidade de cuidados intensivos. E esse é um passo que tem que ser dado e a construção tem que avançar. Segundo, parece-me evidente que os partidos políticos, sem prejuízo da localização relativa, em particular nas Caldas da Rainha, defendem naturalmente, cada um deles, o seu conselho, defendem uma história e um patrimônio, que é o caso das Caldas. Mas é preciso dizer, foi a CIM que avançou com o estudo. A CIM avançou com o estudo com o acordo dos presidentes de câmara, aliás, com o acordo do presidente de câmara que à data, nas Caldas da Rainha, era do PPD/PSD, e esse estudo foi reenviado e enviado ao governo, que fez uma análise e que tomou uma decisão de localização. Decisão de localização, aliás, que teve como resposta do doutor Luís Montenegro a ideia que me parece, neste caso, feliz. Quer dizer que precisamos de um hospital, a decisão está tomada, tem que avançar. Agora, isso não significa que, evidentemente, eu não considere que as Caldas da Rainha, pela sua tradição, pela história, por serem as Caldas da Rainha, precisamente, não devam ter, no quadro da reforma das Unidades Locais de Saúde, um espaço para ter uma unidade de natureza hospitalar complementar e integrada, que essa é a forma adequada de continuarmos a defesa de serviços também hospitalares no quadro da rede do Oeste nas Caldas da Rainha. O Hospital do Oeste é um elemento fundamental pra qualificar, pra ter novos serviços, pra ter os melhores serviços de saúde pra o conjunto da população do Oeste, mas não deve ser, evidentemente, o único serviço de natureza de saúde no Oeste, muito menos deve ser a única forma de olharmos para o conjunto do território na prestação de serviços de cuidados também hospitalares.
E por isso é pra avançar, mas com complementaridade.
Isso tem vindo a fazer com que eu tenha defendido, também com o PS, que devemos respeitar a decisão, que é uma decisão unânime e que teve o apoio não só do PSD em outras circunstâncias, desde o ponto de vista de metodologia, como teve o apoio do presidente do PPD/PSD, que apoiou a decisão, assim como devemos, naturalmente, avançar respeitando as Caldas da Rainha e respeitando que nas Caldas da Rainha devemos ter uma solução hospitalar integrada e complementar no quadro da Unidade Local de Saúde do Oeste. Agora, a prioridade são os cuidados de saúde. E por isso, ao lado de todo o Oeste, ao lado dos habitantes das Caldas, na defesa daquela que é uma decisão que há muitos anos já devíamos ter tomado.
E que tem que avançar. Telmo Faria, discorda desta localização? Por que os autarcas da região não se entenderam ao longo destes anos? Não é isso também que está a contribuir para atrasar o projeto?
Sabe, é muito interessante quando é pra tomar decisões desta importância estratégica para uma região, que agora se tenha responsabilizado os autarcas e o governo se ponha numa distância dizendo: "Bem, nós não temos essa responsabilidade na definição da localização". Eu lamento que não se tenha aproveitado a oportunidade. Olhe, eu fui presidente de câmara entre janeiro de 2002 e 2013. E nós discutimos o hospital e eu sempre defendi um conceito de cidade da saúde, ou seja, não apenas a construção de um novo hospital para uma região, mas a construção De um ecossistema de saúde que pudesse combinar não só os vários setores de saúde, as várias outras ofertas de saúde, como acima de tudo, que pudesse potenciar, em termos de investigação e desenvolvimento, áreas muito necessárias ao desenvolvimento da saúde no futuro. E nós falhamos. Nós quando queremos criar uma complicação, levantamos o tema das localizações. É assim também no caso do Aeroporto Internacional de Lisboa. Eu saí da autarquia há 11 anos, não se resolveu nada. A única coisa que se fez foi um anúncio, mas se formos ver agora a dotação orçamental para esta localização do Bombarral, vejam lá o dinheiro que lá está: é zero. Nós não estamos aqui a tomar verdadeiras decisões ou a criar, a partir dessas decisões, um conceito de mobilização e de construção de esperança.
E por isso com a AD pode mudar esta decisão?
Não é questão de alterarmos decisões que tenham ou não sido tomadas. Eu quando falo na questão de termos desperdiçado o momento para aproveitarmos o potencial de uma cidade como Caldas da Rainha, é porque realmente as Caldas da Rainha foram muito maltratadas. E agora está-se aqui a acenar com umas cenouras, mas isto é tudo retórica e crítica. Nós estamos habituados a não decidir efetivamente e a não construir e a não fazer. Isto é tudo retórica, este slogan do "Mais ação" devia ser dito por toda a oposição, porque é isso que o país reclama. Não podemos é identificar aquilo que achamos que as pessoas dizem. Não há match entre aquilo que nós fizemos no passado e aquilo que realmente nós somos. Nós temos tido uma falta de ação. Olhe, na saúde, se subirmos mais-
Para terminar.
Acha normal, já para não falar na falta de médicos por todo lado, na falta de médicos de família, etc. Acha normal que se tenha investido €1 milhão numa unidade de cuidados de convalescença do Hospital Pombal? €1 milhão, está tudo pronto desde setembro de 2023 e não há dinheiro no Serviço Nacional de Saúde, que tanto nós queremos cuidar, para abrir estas instalações que não são de resposta concelhia, são de resposta regional.
Fica essa crítica.
Isto é o exemplo do que o Partido Socialista está a fazer ao país.
Fica essa crítica também. Gabriel Mithá Ribeiro, e para terminar aqui, para ficarmos também com os tempos equilibrados, dois minutos sobre a questão do Hospital do Oeste. Qual é a posição do Chega? É para avançar com o projeto como foi anunciado pelo atual governo?
Primeiro, uma nota: nós estamos num distrito com a população envelhecida, empobrecida, com emigração e a questão da saúde é absolutamente estratégica. Nós defendemos, próxima da posição apresentada aqui pelo colega Telmo Faria, por uma questão de coesão territorial, a localização entre Caldas e Óbidos. No entanto, a decisão foi para o Bombarral. Esperamos nós que seja mesmo para avançar. Agora, também era preciso clarificar o quanto antes, isto compete ao governo em funções ou o que venha a seguir, se será uma PPP, se será uma aposta pública, como se vai avançar. Isso era importante. Agora, há aqui um outro aspecto, uma nota complementar. Na questão do hospital, estamos absolutamente de acordo. O hospital tem de avançar, é absolutamente fundamental para o distrito. Mas eu antes de terminar, queria deixar uma última nota, aliás, tem a ver com o método de pensamento de Aristóteles ou de Descartes, que eles diziam sistematicamente isto: quando nós temos um problema grande, a melhor forma de resolver o problema é fragmentar em unidades menores e resolver caso a caso. É a questão da saúde. Quer dizer, nós temos que olhar cada vez mais para as pequenas unidades de saúde, para os centros de saúde, UCC, por aí fora, e encontrar as respostas de proximidade mais eficazes para esse tipo de unidades. Depois, então, olhar, neste caso tem que ser ao mesmo tempo, mas depois então olhar para as grandes unidades, no caso dos hospitais. Só que no distrito Leiria, o problema é transversal a todas estas dimensões, um pouco como acontece no país, o ensino, a saúde, a habitação, por aí fora, o que atesta o falhanço muito evidente da governação nas últimas décadas. Quando falha na saúde, falha a nível central, falha nas diferentes regiões, quando falha na habitação, quando falha no ensino, por aí fora. Nós estamos no fim de um ciclo de governação que conduziu o país a uma situação que é muito difícil para todos. E as eleições de 10 de março espero que sejam a resposta necessária à mudança profunda que o país precisa.
E fica também essa nota a terminar. Obrigado Gabriel Mithá Ribeiro, Eurico Brilhante Dias e Telmo Faria pela disponibilidade, por se terem juntado ao debate da Rádio Observador.