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Temos Explicador na Rádio Observador. Hoje contamos com a reação dos três maiores partidos à rentrée política do PSD e ao discurso de Luís Montenegro. Contamos com António Mendonça Mendes, vice-presidente do grupo parlamentar do PS, Pedro Pinto, presidente do grupo parlamentar do Chega e também com Sebastião Pogalho, porta-voz do PSD. A conduzir este Explicador está o Luís Soares.
Bem-vindos os três a este Explicador. Obrigado por terem a disponibilidade para se juntar a nós. Pedro Pinto, começava por si. Era este o discurso de Luís Montenegro que esperava ouvir numa rentrée política?
Olá, bom dia a todos e muito obrigado pelo convite. Ao fim e ao cabo, depois dos últimos discursos do Luís Montenegro, era isto que nós esperávamos ouvir, porque Luís Montenegro é um primeiro-ministro completamente desfasado da realidade. Aliás, ao ouvir ontem Luís Montenegro, fez-me lembrar os tempos de António Costa quando discursava e quando pintava um país cor-de-rosa. Neste caso, Luís Montenegro pintou um país cor-de-laranja, um país que só para ele e para a elite do PSD é que existe, porque não existe para o português comum. Os portugueses comuns, nenhum deles se revelou, certamente, no discurso do Luís Montenegro. Quando fala apenas das grandes obras do futuro do país, nós percebemos claramente que Luís Montenegro não percebe o que é que custa aos portugueses ir meter combustível ou gasolina, onde o combustível vai aumentar mais 10 cêntimos na próxima semana. Percebemos que não vai ao supermercado e não sabe quanto é que custa o cabaz alimentar, onde o cabaz alimentar tem aumentado sucessivamente, apesar de uma ligeira baixa nos últimos dias, mas tem aumentado sucessivamente já há alguns meses. Ou seja, é um primeiro-ministro que está completamente fora do que é o país real e dos problemas das pessoas. O problema da habitação é um problema que também não tem soluções. E depois, a preocupação é quando o primeiro-ministro não fala nos reais problemas, ou seja, quando não fala de imigração, quando nós temos a imigração completamente descontrolada na mesma, ao contrário do que querem vender e do que querem fazer parecer. Quando temos o aumento da criminalidade que também tem aumentado no nosso país, quando a economia que se fala tanto: a economia está melhor, mas o crescimento económico foi menor, por exemplo, que Espanha, que está aqui ao lado, ou países como a Polónia ou como a Eslovénia, que são países que deviam estar muito atrás de nós e há 10, 15 anos estavam muito atrás de nós e já nos passaram à frente. Ou seja, era isso que Luís Montenegro devia falar, mas não, preferiu pintar um país cor-de-laranja. São opções que este governo fez, é uma opção de estar muito parecido com o Partido Socialista. Não nos surpreende, sinceramente.
António Mendonça Mendes, faço-lhe a mesma pergunta, mas acrescento aqui esta provocação que Pedro Pinto fazia: foi um discurso que poderia ser parecido com o de António Costa?
Bom dia, em primeiro lugar. Não podia ser parecido com António Costa, porque são projetos diferentes de país. Aquilo que eu gostaria de sublinhar na intervenção de ontem do primeiro-ministro é que é uma intervenção que não tem nenhum futuro. É uma intervenção autojustificativa, defensiva, uma intervenção que passa ao lado daquilo que são os desafios que o país tem para o futuro. Portanto, não me parece que este discurso tenha sido muito bem-sucedido e principalmente porque é um discurso que nos traz mais perguntas do que propriamente respostas. Vou dar o exemplo. Foi anunciada uma recompra da participação na REN. Eu não tenho muita certeza que o melhor sítio para se fazer esse anúncio seja num comício partidário. E um primeiro-ministro que se queixa que o país está sempre a passar ao lado das grandes coisas, parece-me que é um primeiro-ministro que falta àquilo que é o sentido de Estado, que é o sítio onde deve apresentar com detalhe esse tipo de opções, que era e é na Assembleia da República, não parece que seja num comício partidário. Portanto, pareceu-me um primeiro-ministro bastante perdido, muito satisfeito consigo próprio, mas com muito poucas razões para estar satisfeito com aquilo que são os resultados para o país.
Sebastião Pogalho, para uma resposta a estas considerações, este foi um discurso alheado dos problemas do país, por exemplo, como dizia Pedro Pinto?
Bom dia a todos. Obrigado ao Observador pelo convite. Cumprimento também o Pedro e o António. Bom dia antes. Repare, eu não vou estar a responder porque no lugar dos partidos da oposição, certamente teríamos críticas se fôssemos um partido da oposição. Mas respondendo à sua pergunta em concreto, parece-me que não se pode dizer que haja um desfasamento da realidade do discurso do primeiro-ministro, porque ele foi essencialmente sustentado em números. E se o escutarmos, entendemos isso. A mim parece-me relevante, por exemplo, quando falamos das matérias da habitação, e aí concordamos os três que é uma matéria que deve ser prioritária e que aflige grande parte da população portuguesa neste momento, pareceu-me ser um número bastante positivo o facto de, ao dia de hoje, já terem sido concluídas 28.700 das casas do PRR que estavam previstas. Como sabe, a meta prevista eram 26 mil até o final de agosto. Agosto ainda não terminou e já vamos em 28.700. Portanto, parece-me que isso é um dado positivo. Parece-me que também é positivo, mantendo-nos nos números, o facto de mais de 100 mil pessoas já terem beneficiado das políticas de habitação jovem do governo, como a isenção de imposto social de IMP. Acho que isso me parece uma resposta à habitação sólida e credível, assente em números. E em relação à economia e ao crescimento econômico. É verdade que foi um ano difícil, não só para Portugal, mas como para a zona euro, devido não só aos traços finais do PRF, como também ao ambiente de instabilidade internacional a que ninguém consegue fugir. Mas eu gostava de referir que, por exemplo, no último trimestre, isto são dados que já são públicos, Portugal cresceu 2,5% e a França cresceu 0,2. Portanto, também me parece que do ponto de vista das comparações, não estaremos assim tão mal. Em relação a algo que também tem sido dito, não foi destacado por nenhum dos meus homólogos, por assim dizer, mas que acho que merece uma resposta pelo aquilo que tem sido dito, é que tem sido acusado o discurso de ontem de ausência de medidas. Eu não consigo perceber, porque lembro-me de várias reentradas de partidos de governo e não me lembro de nenhuma reentrada de um partido de governo com tanta envergadura política. Acho que era interessante os senhores jornalistas fazerem esse exercício de historiografia e contabilizarem mesmo as medidas que foram anunciadas ontem, em comparação com outras reentradas de partidos de governo no passado, porque não me parece que tenha sido nada despido de medidas. E mesmo para concluir, só para responder à picardia do António Mendonça Mendes. Bem, a aquisição de uma participação da Rede Elétrica Nacional por parte do Estado português já foi comunicada à CMVM, não foi comunicada só no comício partidário. E o Parlamento está fechado para férias, como o senhor deputado bem sabe. Portanto, a não ser que o senhor deputado esteja a defender: um, que a operação não seja realizada, dois, que a oportunidade seja desperdiçada, ou três, que não se dissesse nada sobre o assunto e se avançasse na mesma, não percebo qual é que é o problema do primeiro-ministro falar sobre isso, quando ainda por cima a operação já foi comunicada a quem de direito ou a intenção da operação já foi comunicada a quem de direito, esperando agora o parecer do Tribunal de Contas. Portanto, eu acho que as questões aqui que se colocam é: tocam ou não na vida dos portugueses estas 28 mil casas que foram concluídas antes do prazo que estava previsto? Tocam. Tocam ou não na vida dos portugueses os 100 mil beneficiários das medidas para a habitação jovem em dois anos de governo? Tocam. E será ou não importante para o país e para a defesa do interesse nacional e estratégico que Portugal deixe de ser o único país da União Europeia que não tinha uma participação nacional na sua rede elétrica? Eu acho que é importante, mas gostava de ouvir os outros líderes da oposição também falar sobre isso.
Pedro Pinto, sem embargo de querer dar aqui alguma resposta a Sebastião Bugalho, queria também perguntar-lhe que temas pretende o Chega levar agora para esta nova temporada política, que de certa forma acaba por começar agora depois das férias.
Olha, em primeiro lugar, eu acho que um tema que todos os portugueses pensam e que é importante os portugueses perceberem é vai haver ou não uma remodelação governamental. É que não adianta Luís Montenegro não falar do ministro da Administração Interna, ocultar todos os problemas que têm havido com o ministro da Administração Interna, não o convidar inclusive para estar no Pontal ontem, mas dizer se vai ou não mudar o ministro da Administração Interna. Acho que é importante para o país. Se vai ou não dar credibilidade, porque este ministro não tem credibilidade, está ferido na sua credibilidade, se vai ou não dar credibilidade a um dos ministérios mais importantes do seu governo. Se vai ou não continuar o ministro da Educação, que é outro ministro que os portugueses já não acreditam nele. Inclusive, a última vez que foi ao Parlamento, voltou a mentir aos portugueses, no caso, por exemplo, daqueles pais de Viseu. Se vai ou não mudar a ministra da Saúde. Ou seja, os portugueses precisam saber isto também. É que, ao contrário daquilo que pintou, a saúde continua o caos nos hospitais. Ontem pintou-se um grande quadro sobre a saúde em Portugal e havia 10h de espera das pessoas nas urgências dos hospitais. E havia maternidades fechadas. E continua a haver 1,6 milhão de portugueses sem médico de família. Há uma série de centros de saúde em Portugal que nem ar-condicionado têm, porque estão avariados. Ou seja, este é o estado da saúde em Portugal. Esta é a ministra da Saúde que pode continuar neste governo. Os portugueses precisam destas respostas. E é isto tudo que nós vamos levar certamente também ao Parlamento. E não vamos deixar cair o assunto Luís Neves. Por muito que Luís Montenegro tente dizer que há muito ruído ou que há muito barulho e que a oposição prefere fazer barulho, nós não vamos deixar cair estes assuntos, porque são assuntos importantes para dar credibilidade a este governo. Eu creio que Luís Montenegro devia, ele próprio, dizer que nós queremos dar credibilidade ao governo, queremos dar credibilidade ao país e explicar as situações destes ministros, particularmente do ministro da Administração Interna. Mas não, aquilo que Luís Montenegro quis foi dizer assim: "Estejam todos calados, que nós só fazemos bem, temos aqui o trabalho da nobreza, louvem o trabalho da nobreza, contemplem o nosso trabalho e o povo não interessa para nada." Foi isso que Luís Montenegro quis dizer ontem. Nós iremos totalmente contra essas afirmações. E deixe-me só dizer ao Sebastião Bugalho que o Parlamento português não fecha. O Parlamento português não fecha por completo. A Assembleia da República está aberta e pode até reunir de forma urgente, se for preciso. Aliás, como até já aconteceu.
Já reuniu, mas ninguém manifestou indisponibilidade para isso, como o Pedro Pinto disse.
Não, mas aquilo que eu estou a dizer é o que o Sebastião disse. O Sebastião disse que a Assembleia da República está fechada.
O Parlamento não tem férias. O meu amigo não está de férias. O Parlamento neste momento.
O Parlamento não tem férias.
Espero que esteja com o gabinete arrumado.
Certamente já estive mais vezes durante o mês de agosto do que a grande maioria dos deputados.
Eu estou a torcer pela segurança do seu gabinete.
Não, eu estou a dizer que já estive mais vezes durante o mês de agosto do que certamente a maioria dos deputados do PSD. Eu não faço, por exemplo, é jogar à bola, nem brincar com os portugueses enquanto os portugueses estão em dificuldades.
Como o meu amigo não joga à bola, mas está sempre convidado.
Eu também sei que sim, estou obrigado a convidar.
Fica esse convite. António Mendonça Mendes.
Se eu marcaria vários gols ao PSD, eu quero uma coisa que ficava mal.
Não sei se o meu amigo não vai é entrar à baliza, mas pronto.
Fica esse convite. Vamos tentar marcar esse jogo tão breve quanto possível.
Eu fui central.
António Mendonça Mendes.
Eu também. E entrava sempre duro, entrava sempre muito mais duro do que este governo. António Mendonça Mendes, deixe-me recentrar novamente o debate. António Mendonça Mendes, amanhã o PS vai também assinalar a rentrée política em Olhão. Esta podemos considerar uma resposta à festa do Pontal de ontem do PSD?
Não. Desde logo, porque o PS tem a sua agenda e cada partido tem a sua agenda e o seu calendário, portanto, não é nenhuma resposta, mas evidentemente enquadra-se dentro daquilo que é o quadro de disputa democrática normal que existe. Aquilo que é importante nós apontarmos são os problemas que efetivamente afligem as pessoas. Nós hoje não temos a situação da habitação melhor do que tínhamos há dois anos, porque aquilo que nós vemos como resultado Das políticas desse governo é o aumento do preço, quer da venda de habitação, quer do arrendamento. Nós hoje na saúde não estamos melhor do que estávamos há dois anos. Eu arrisco mesmo a dizer que nós estamos pior do que estávamos há dois anos. Nós temos menos cirurgias, nós temos menos consultas. Nós conseguimos verificar que, e passou um pouco despercebido, talvez seja a isso que o primeiro-ministro se refira quando diz que nós não discutimos as questões mais importantes, passou despercebido que o Ministério da Saúde contabiliza a passagem de receitas como consultas. Isto é manipulação grosseira de estatísticas, mas aquilo que mais releva aqui é mesmo as dificuldades que as pessoas têm no acesso à saúde e que este governo não tem conseguido responder. Assim como este governo não tem conseguido responder àquilo que é a ajuda às famílias e às empresas pelo aumento do preço dos combustíveis. A volatilidade que nós assistimos aos aumentos semanais e descidas e subidas de €0,10, €0,15 semanalmente é uma enorme instabilidade, quer para as famílias, quer para as empresas. Nós não estamos a discutir que este governo descontinua totalmente as medidas de apoio às empresas, ao transporte público de mercadorias, ao transporte público de passageiros, decorrente do aumento dos combustíveis. E portanto, nós temos um governo, neste momento, muito centrado no autocontentamento, muito justificativo, o que aliás é bastante surpreendente face à juventude que ainda tem este governo, mas é um governo que já se apresenta manifestamente cansado.
Sebastião Bugalho, este é um governo cansado, como dizia António Mendonça Mendes, e passível de uma remodelação, como dizia há pouco também o Pedro Pinto?
Mas não deixa de ser extraordinário, se o meu caro amigo reparar, que os mesmos que dizem que o governo está cansado são os mesmos que acusam o governo de ser triunfalista. E eu nunca vi ninguém cansado a celebrar uma vitória, portanto, tem que se decidir, ou o governo está contente a mais ou está cansado a mais. As duas são necessariamente incompatíveis. Eu não o interrompi, meu caro António, mas esteja à vontade.
Não é interromper. O António fez ciclismo há 40 anos e ganhou a... e vai celebrar agora-
A medalha olímpica, sim.
A medalha olímpica, e acho que acabou cansado.
Não, é verdade, mas eu acho que a metáfora do António Mendonça Mendes é muito feliz. Não, mas a metáfora do António Mendonça Mendes é muito feliz, porque está a reconhecer que o trabalho deste governo é o trabalho de um maratonista e não é de um sprint que vai acabar de um dia para o outro. Então eu revejo inteiramente nesse revivalismo histórico do senhor deputado e agradeço o contributo para o meu raciocínio. Mas seguindo em frente, eu acho que há aqui um ponto e nesse capítulo, ambos os partidos da oposição, tanto o Chega, pela voz do Pedro Pinto, como o PS, pela voz do António Mendonça Mendes, coincidiram, que é a ideia de que há um desfasamento da realidade. O Chega diz que o governo se comporta como se fosse uma nobreza e o PS diz que o governo está numa fase de autocontentamento. Portanto, basicamente, como se o governo estivesse numa e o país estivesse noutra. Eu gostava de perguntar, ou pelo menos de averiguar, se algum desses dois partidos acham que o alargamento do passe verde para €20 nas áreas metropolitanas em que com €20 por mês qualquer cidadão pode utilizar qualquer comboio. Eu gostava de lhes perguntar se eles acham que isso é uma proposta para a nobreza, se é uma proposta para autocontentamento ou se acham que de fato pode melhorar a vida dos portugueses. Eu gostava de perguntar se a entrega-
Não, só das áreas metropolitanas, Sebastião. O país não é só Lisboa e Porto.
E não há passe verde para o resto do país, excetuando o comboio, ó.
Mas o que interessa é ver passe verde, por exemplo, para Porteléns, não há comboios. Sebastião, mas o que interessa é ver passe verde para comboios.
Mais uma interrupção sem resposta. Não conseguem dizer se são contra a medida.
Eu estou a fazer uma pergunta concreta.
Do mesmo modo.
Sebastião, eu estou a fazer uma pergunta. Põe-me lá.
Ó Pedro Pinto, desculpe lá.
Não interrompeu quem interrompeu. Não diga que não interrompeu quem interrompeu. Pronto, é só dizer.
O doutor Pedro Pinto, vestido das suas qualidades de central, quer aqui ver se me corta o raciocínio, mas eu vou continuar.
Não.
E para terminar, porque estamos já em cima do nosso tempo.
O Chega e o PS criticam o discurso, mas não conseguem assumir que são contra as propostas do discurso, nem contra a entrada na REN, nem contra a medida dos passes verdes alargados para a área metropolitana a €20 para todos os comboios das áreas metropolitanas de Porto e Lisboa. Portanto, criticam a forma, mas não conseguem comprometer-se com o conteúdo, nem contra, nem a favor. Eu espero que no orçamento de Estado haja um pouco mais de clarividência e clareza da parte dos partidos da oposição.
Da parte do Chega até vi sempre.
Fica esse desafio. Sebastião Bugalho, Pedro Pinto, António Mendonça Mendes, muito obrigado por terem vindo ao Explicador das manhãs 360 de fim de semana. Obrigado, bom fim de semana.
Um abraço. Bom programa.
Obrigado. Abraço. Obrigado