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O mundial já entrou em pleno na segunda de três jornadas da fase de grupos. Portugal ainda tenta recuperar de um empate com sabor amargo no jogo frente aos congoleses, mas nem só de bola jogada se faz este mundial. É também sobre isso que vamos falar neste explicador. Eu sou o Ricardo Conceição e comigo está a Judite França.
E conosco está o enviado do Observador aos Estados Unidos para cobrir este mundial de futebol, Miguel Cordeiro. Olá, Miguel, bem-vindo. Onde é que estás agora? E já agora, que horas são?
Olá. Aqui é 12:16, portanto 12:15, horário Palm Beach. Estamos a aproximar-nos da hora de almoço e está muito calor. Nós estamos em Palm Beach. Já estivemos no treino da seleção. Houve conferência de imprensa no horário de cá, 09:15. O treino começou às 10, já com muito calor, aos 15 minutos a imprensa já com o suor a aparecer apenas naqueles 15 minutos fora da sala de imprensa. É curioso que aqui nos Estados Unidos, nós sentimos o mesmo no Texas, mas na Flórida sente-se também. Na rua está muito calor, muito abafado, muita umidade. E depois dentro dos edifícios é um gelo autêntico, os ar-condicionados trabalham no máximo.
Tens que levar um casaquinho de malha quando entras.
É exatamente isso, é quase isso. Para perceberem, no quarto tenho que desligar o ar-condicionado, senão não conseguimos dormir, porque eles têm sempre tudo no máximo. E o mesmo acontece nas entradas dos hotéis, nas entradas dos edifícios. Para se perceber a diferença, eu expliquei isto no Diário do Mundial esta manhã. A diferença de temperatura é tal que quando nós estamos dentro de um edifício e saímos para a rua, quem tem óculos fica com as lentes emaciadas. Para se perceber a diferença de temperatura e a umidade que está também nesta região.
E Miguel, hoje dizias há pouco que houve conferência de imprensa logo de manhã, foi com o Rúben Dias. Já está ok e a seleção, depois do que aconteceu, também já está ok?
São duas perguntas com respostas diferentes. Bem, Rúben Dias diz que está ok, diz que está pronto, está preparado, que lhe custou ficar no banco, que não foi uma decisão fácil, mas que foi a decisão correta, mas que não gosta nada de ver o jogo fora do relvado, de estar fora do relvado, que gosta de estar a jogar. Mas disse que estava pronto, disse que estava tudo ok, que estava preparado para o próximo desafio. Ainda sobre a defesa, Tomás Araújo a fazer trabalho à parte. No treino de hoje esteve a fazer trabalho específico. Esta é a expressão utilizada sempre pela federação, foi a mesma expressão utilizada na semana passada para referir a situação de Rúben Dias. E portanto, Rúben Dias ok, Tomás Araújo nesta altura out. Quanto à seleção, se está ok, o clima não é o melhor. Nós vimos alguma animosidade na conferência de imprensa, creio que foi percetível também naquilo que foi transmitido pela Rádio Observador.
Animosidade? Para com?
Para com a imprensa. Rúben Dias para com a imprensa. É óbvio que respondeu a tudo, não é essa a questão, mas certo mal-estar.
Azia.
Sim, eu acho que é a palavra certa. Azia, mas não só pelo resultado, isso é natural, em jogadores profissionais altamente competitivos, isso é muito natural, mas depois há outras coisas que se vão somar a isso no futebol de hoje. As redes sociais, a televisão, os comentários, as famílias, que certamente dizem de Portugal ou as que estão aqui, comunicam com Portugal aquilo que se está a dizer em Portugal e tudo isso vai se criando numa bolha em que no mundo do futebol essa bolha só rebenta quando há uma vitória. Quando há golos, já se sabe. Quando há golos, está tudo bem. Quando a bola não entra, quando não se vence, quando não se atingem os objetivos.
Ou seja, Miguel, as críticas, e temos tido aqui horas e horas de análise, páginas e páginas de artigos e de comentários, as críticas a Ronaldo e Martínez estão a fazer mossa?
Rúben Dias diz que não liga a isso. Seja a Ronaldo, seja a quem for, não liga a isso. Outros jogadores também têm dito que é natural. Ainda pegando novamente em Rúben Dias, disse que é natural, disse que a seleção já conhece este ambiente. E de facto, se nós formos olhar para todos os jogadores desta seleção, todos eles, exceto Ronaldo, entraram já numa realidade em que as conferências de imprensa, os comentários e a análise são sobre dois temas: sobre a seleção e sobre o Ronaldo. E portanto, já estão todos habituados a isto, não conhecem outra realidade. Rúben Dias, que já tem muita experiência pela seleção, desde que entrou até o momento de hoje, em todas as conferências de imprensa, certamente teve que responder a questões sobre Cristiano Ronaldo. E portanto, está habituado a isto. Martínez não foi propriamente tema na conferência de imprensa de hoje, mas o que nós temos é as notícias, naturalmente, que indicam que Martínez está mesmo de saída, os rumores de que está mesmo de saída no final do mundial. Temos também, quanto à relação com a federação, as imagens de ontem. Os jornalistas ontem não estiveram no treino porque não foi aberto à imprensa. A Federação Portuguesa de Futebol divulgou as imagens e nessas imagens vê-se Pedro Proença a conversar com Roberto Martínez, uma palmadinha no ombro, a mostrar que tudo está bem, que a família está unida. Tudo a tentar parecer que está tudo ok, mas no treino aberto não pareceu assim tão tudo ok.
Tão pacífico.
Tão pacífico. Os jornalistas normalmente têm esses 15 minutos, tivemos os 15 minutos, tudo certo, mas os jogadores a treinar muito à distância, passaram duas vezes perto dos jornalistas, de alguma vontade até para que os jornalistas deixassem a zona do treino para que a equipa pudesse treinar em paz.
Miguel, tu és uma testemunha privilegiada do Mundial. Houve aqui um dado muito curioso na tua intervenção aqui na Rádio Observador na quarta-feira, no jornal das 17h, a uma hora do jogo, estavas em Houston, à porta do estádio, e não conseguias encontrar um português. Eu sei que tentaste, até procuraste adeptos com bigode, mas havia muitas pessoas com a camisola de Portugal. Isto está relacionado com o quê? Com a distância, com o preço dos bilhetes? É uma realidade que não é nossa?
Há mais realidades até para colocar nessa equação. Porque há a distância natural. Se me fala de um mundial, por exemplo, Houston, no Texas, está a 10, 11 horas de Lisboa. Só por aí não é fácil. Depois há os preços, não só do voo, da estadia e dos bilhetes, que são preços dinâmicos. Nós encontramos pessoas que conseguiram bilhetes a 200, 300 € e outras conseguiram a 1500. Para o mesmo jogo. Certamente para bancadas diferentes, mas estavam a entrar pela mesma porta e não estávamos a falar numa zona VIP para estarmos a falar em bilhetes desses valores. Portanto, há esse fator, sim. Há o fator da distância também, naturalmente, mas há a comunidade portuguesa e nós temos falado com muitas pessoas da comunidade portuguesa, muitos que têm vontade de ir ao jogo, muitos que estão a fazer esforços para ir aos jogos porque não querem ver na televisão. Se a seleção está aqui e passaram uma vida inteira a ver a seleção na televisão, agora têm que ver no estádio. Isso acontece, sim. E depois, há o fato de que os adeptos da seleção portuguesa ou os adeptos que vestem as cores da seleção portuguesa não são necessariamente fanáticos, ou portugueses, ou apoiantes acérrimos da seleção portuguesa. Podem simplesmente ser adeptos de Cristiano Ronaldo ou de outro jogador da seleção portuguesa. Atenção, também encontrámos, por exemplo, um adepto que tinha uma camisola do Vitinha e disse que só vinha ao jogo por causa do Vitinha. Isto aconteceu também. Mas estes fatores de Portugal ter muitas estrelas e ter uma muito brilhante, que é Cristiano Ronaldo, faz com que nem todos estejam pela seleção portuguesa e com isso nem todos sejam portugueses. Eu disse nesse direto, quando estávamos à entrada do estádio, que na última hora ou na hora em que eu estava ali a tentar falar com um português, tinha falado com cerca de 20 pessoas e só tinha encontrado três portugueses. E fiquei muito satisfeito quando entrei no estádio e a Federação Portuguesa divulgou os dados. Portanto, três em cada 20 dá 15% e fazendo a conta ao número de bilhetes vendidos a cidadãos portugueses, porque tem que se colocar a nacionalidade, divulgados pela FIFA, eram cerca de 10 mil, o estádio tinha capacidade para 70 mil, estavam 67 mil e a conta dá 15,8%. Portanto, a contagem do Observador bateu certo.
Vá lá.
Conseguiste a amostra certa. Miguel, há também um lado mais político no meio disto tudo. Estamos a falar de um país em que o futebol se joga com as mãos, não é soccer, é futebol americano. Este mundial passa ao lado dos norte-americanos ou está, de facto, a atrair atenção?
Está a atrair atenção. Não passa ao lado. Não é a mesma coisa que em Portugal, em que todas as pessoas veem futebol, naturalmente.
Ou no México.
Ou no México, sim. Mas neste país há muitos desportos com muito mediatismo. O futebol é um deles. Mas, por exemplo, quando nós dizemos: "É o futebol americano". Há pessoas que não veem futebol americano nos Estados Unidos, não gostam. Há pessoas que preferem ver NBA e há pessoas que veem futebol americano e não veem NBA. E há pessoas que preferem ver hóquei no gelo. E depois, mesmo no futebol americano, há pessoas que não veem NFL, veem o college, veem as ligas universitárias. Portanto, há muitas hipóteses. Depois há o beisebol, claro. Há o futebol, o soccer, que tem uma presença forte de dados. Nós recebemos a informação de que o jogo dos Estados Unidos de estreia no mundial foi mais visto, por exemplo, do que alguns dos jogos da final da NBA. Estamos a falar da NBA, um dos esportes mais vistos nos Estados Unidos. Tinham os Knicks a jogar, uma equipa de Nova York. Portanto, sim, o futebol tem peso. A seleção, naturalmente, também tem peso e tem o peso mais importante neste país. Ontem no aeroporto, cruzei-me com um senhor que estava a viajar também de Houston para Palm Beach e estava a viajar para a região de Palm Beach, Miami, porque a família estava a organizar um grande evento para hoje, aqui vão ser 15h, aí serão 20h, para ver em família o jogo dos Estados Unidos. Portanto, há interesse. Não são todos, naturalmente, tal como temos que pensar nos Estados Unidos como um continente, tal como na Europa, há países que gostam mais.
Aqui nós apanhamos a carreira para ir ver o jogo à terra, aí é preciso ir de avião. E aquele caso das seleções iraniana e do Iraque também são casos paradigmáticos que nem tudo está a correr muito bem e que há um mundo em guerra também, não é?
Sim, claro, naturalmente. Mas temos que ser honestos, isto faz parte. O mundial acontece dentro da realidade que temos a existir no mundo. É óbvio que ter a seleção do Irão, que é um país que está em guerra com o país organizador, não é uma logística fácil. Nós sabemos que a logística do Irão é: não podem dormir nos Estados Unidos, não podem permanecer nos Estados Unidos. O que acontece? Eles estão a estagiar no México, viajam, são controlados à saída, são controlados à chegada aos Estados Unidos, viajam para o jogo e assim que termina o jogo, têm que ir diretamente para o aeroporto e voltar para o México. Portanto, é a logística que tem que ser feita. A seleção do Iraque também é muito controlada. Há outras seleções também com casos de jogadores a serem muito controlados, mas acontece com todos. Divulgaram no outro dia a Federação Portuguesa de Futebol imagens do Cristiano Ronaldo a ser completamente controlado também num aeroporto, passar por um detector de metais, a ser controlado, controlarem os objetos também, os objetos pessoais. Faz parte. Os Estados Unidos têm um controle muito apertado. Eu tenho que dizer para a imprensa. Há segurança, claro, mas a imprensa tem um acesso mais fácil. Portanto, nós para entrar no estádio, temos que passar por um detector de metais, deixamos o material todo na mochila, não nos revistam a mochila. Naturalmente, temos equipamento para trabalhar, podemos entrar com garrafas d'água, no nosso caso, com comida, ao contrário de alguns adeptos que têm um controle mais apertado, mas há essa segurança, naturalmente, e estamos a falar de um grande evento. É preciso haver segurança, é preciso haver condições de segurança para se realizar um evento destes.
Miguel, obrigado pelas explicações que aqui nos trouxeste e também por essa visão de quem está no terreno a acompanhar este mundial de futebol. Miguel Cordeiro, enviado especial do Observador ao mundial do México e dos Estados Unidos.