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Este é o Explicador das manhãs 360 esta segunda-feira sobre a atividade sísmica dos últimos dias. É nosso convidado Fernando Carrilho, chefe da Divisão de Geofísica do Instituto Português do Mar e da Atmosfera.

Nos últimos dias têm sido noticiados sismos um pouco por todo o planeta. Os mais graves foram, sem dúvida, os da Venezuela, mas também há registros no Japão, na China, no Afeganistão e no Paquistão, todos estes com intensidades entre os 5.3 e os 6.1. E ontem foi também registrado um abalo de magnitude 4.1, que foi sentido em Portugal, em Lagos e Portimão. Fernando Carrilho, bom dia, bem-vindo a este Explicador. Tem havido, de facto, uma atividade sísmica mais intensa nos últimos dias, mais intensa do que é habitual, ou nós é que temos o nosso radar mais apurado agora depois da Venezuela e estamos mais atentos a estes fenômenos?

Muito bom dia. Obrigado pelo convite para estar aqui neste vosso programa. Não estamos com nenhum pico de atividade à escala global. Eu diria que a atividade sísmica no planeta está conforme é habitual, não há nada de excepcional no que tem acontecido. A parte excepcional, ou aquilo que sai um pouco do que eu estou a dizer é que, de facto, há algum sismo forte, como um dos vários que vão acontecendo pelo globo, que ocorre muito próximo de zonas habitadas, como foi o caso do norte da Venezuela. E depois isso faz, de facto, com que o nosso radar, como você disse, fique particularmente sensível a tudo o que está acontecendo no planeta.

Sendo correntes e sendo dentro daquilo que é normal, há ligação entre estes fenômenos ou são sempre episódios isolados?

Esses são essencialmente episódios isolados. Obviamente que é a atividade sísmica dentro do globo, dentro do planeta, digamos assim, no nosso planeta. Mas são acontecimentos dispersos, quer Venezuela, quer Filipinas, quer Japão. Mesmo estes sismos de menor magnitude que têm ocorrido em Portugal, não têm uma relação direta entre eles. No caso da Venezuela, obviamente, na sequência do sismo mais forte ou daqueles dois sismos, do duplete, aquilo que nós tivemos depois de uma série de réplicas, esses sim estão associados, de facto, àqueles dois acontecimentos, mas é algo cuja associação é estabelecida localmente. Depois, quando estamos a falar do Japão, quando falamos das Filipinas, quando falamos de Portugal, são já acontecimentos em áreas demasiado afastadas para haver possibilidade de estabelecer relação entre elas.

Mas isso nunca acontece, essa relação entre sismos, ainda que de magnitude diferente e em locais diferentes, essa relação nunca acontece ou existe, por vezes, de facto, um pico de atividade sísmica em determinadas regiões que explica a ocorrência destes abalos?

Sim, para acontecer essa relação entre fenômenos, entre eventos sísmicos, tem que haver sempre alguma ligação entre eles. Eu estou, por exemplo, a recordar-me do que aconteceu na Turquia em 2023, em que, de facto, há sismos separados no tempo, um deles é numa outra falha, mas havia uma ligação entre elas. Quando estamos a falar de um sismo na Venezuela e quando comparamos com um sismo no Japão, há uma separação demasiado grande para podermos inferir alguma espécie de ligação entre os fenômenos.

E no caso da Venezuela, o que é que se sabe já sobre a origem destes abalos? Quais foram as falhas tectônicas envolvidas nestes sismos?

Aquilo que se sabe é que os sismos principais, aqueles dois, o 7,2 e o 7,5, tiveram origem numa falha, que nós chamamos uma falha em desligamento, que é uma estrutura em que os blocos têm os seus paredes laterais verticais, em que essa estrutura, o movimento relativo entre os dois blocos aconteceu, com um deslocamento horizontal. É aquilo que nós chamamos um mecanismo em strike-slip, e que são dos potencialmente mais perigosos, uma vez que a energia que é gerada pelo sismo, após a ruptura, fica muito focalizada ao longo da falha. Isso potencia muito os efeitos que o sismo possa ter, e que teve no caso da Venezuela. E estas falhas que deram origem aos sismos na Venezuela, são falhas perfeitamente associadas à fronteira de placas entre a Placa das Caraíbas e a Placa da América do Sul, que é uma falha já relativamente conhecida, é uma fronteira relativamente bem conhecida, que tem uma movimentação já caracterizada na ordem dos dois centímetros por ano. E por isso mesmo, é uma estrutura que produz muita energia, produz muita tensão entre os blocos e essa tensão vai acumulando. E a partir de um determinado momento, não é possível mais manter essa acumulação de tensão e produzem-se sismos como aqueles que se verificaram

Que foram, Fernando Carrilho, particularmente destrutivos, como temos visto. Além dessas razões que já invocou e do tipo de movimentos, há outras características que levam a prever ou a verificar, neste caso, que a destruição pode ser em larga escala?

Sim. Aqui depois o que é que temos? Aquilo que eu falei foi dos aspectos relacionados com a fonte sísmica, ou seja, com a geração do sismo e aquilo que lhe dá origem. Mas depois há outros aspectos que condicionam muito os potenciais efeitos que os sismos tenham. Um deles tem, obviamente, a ver com a distância em que as zonas, as cidades, as aldeias, as vilas estão relativamente à falha que rompe. Quanto mais afastadas estiverem, regra geral, menos impacto vão ter. Mas, por outro lado, há outros condicionantes que também afetam a forma como o sismo impacta. Um deles tem a ver com aquilo que nós chamamos os efeitos de sítio, ou seja, nos locais, nas zonas onde as cidades estão construídas, há um elemento muito importante que é os solos onde as edificações estão implantadas. Portanto, em regra geral, quanto mais brandos forem esses solos, maior é o potencial para haver uma amplificação do movimento do solo, por ação do sismo. Isso faz aumentar o perigo para aquilo que está lá construído. Depois há outros efeitos, como aquilo que nós chamamos efeito de liquefação, em que também quando temos na presença desses materiais, dessa natureza geológica mais branda, no caso de haver movimentos muito fortes, esses solos tendem a adquirir um comportamento tipo líquido, o que faz com que aquilo que está construído em cima seja ainda mais afetado, podendo haver cedências, afundamento, oscilações laterais. Há aqui muitas outras coisas e depois há, obviamente, a ação humana, ou seja, como é que se constrói, em condições é que se constrói. E isso é outro fator que condiciona muito os efeitos dos sismos, porque como é sabido, não são propriamente os sismos que matam, que vitimam, mas sim as casas onde nós vivemos.

E tem-se falado muito a propósito deste sismo, Fernando Carrilho, das normas de construção anti-sísmica. Dá-se muitas vezes o exemplo do Japão, um país que está mais preparado para resistir a este tipo de eventos, mas os edifícios, mesmo com essas normas de construção, conseguem resistir a um sismo com estas características que vimos na Venezuela?

Sim, se forem dimensionados de forma apropriada, o que vai ter sempre um custo adicional, obviamente, mas se forem preparados a pensar no tipo de movimentação sísmica que pode ocorrer, estes fenómenos que se observaram, que foi o colapso de muitos edifícios em Caracas, pelo menos em Caracas, mas não só.

La Guaira também, muitos edifícios.

La Guaira. Os fenómenos de colapso dos edifícios, não digo que desapareceriam, mas seriam muitíssimo mais reduzidos. Os edifícios são afetados à mesma, vão sofrer danos, mas eles vão estar preparados para evitar o colapso e deixarem de provocar o número de vítimas que provocam. No caso do Japão, obviamente, é um país que tem um historial muito grande de sismos e tsunamis, já agora, e ao longo da história, eles sofreram bastante com os efeitos destes fenómenos e conseguiram preparar-se. De facto, é um país exemplar a esse nível. Basta ver o que aconteceu no dia do terramoto ou dos terramotos da Venezuela. Por meio desses dois terramotos, ou mais ou menos na mesma zona, não exatamente no meio, mas ali numa proximidade temporal grande, tivemos um sismo no Japão de uma magnitude de sete que não causa rigorosamente impacto algum no Japão.

Isso tem a ver com a ação humana. A monitorização da atividade sísmica, que é permanente e feita a nível global, oferece algum tipo de capacidade preditiva da ocorrência de terramotos ou isso está completamente fora de questão?

Nessa perspetiva preditiva, como mencionou, pensando na lógica de prever a ocorrência de sismos, não. As redes sísmicas globais, assim como as outras mais locais, não permitem fazer previsão, porque pura e simplesmente o conhecimento humano sobre o fenómeno sísmico não é ainda tal que permita prever ou chegar à previsão sísmica, pelo menos de uma forma generalizada. E pessoalmente, penso que dificilmente isso acontecerá no futuro. O que é possível fazer, e já se faz no Japão, é antecipar, é conseguir detectar os fenómenos sísmicos numa fase muito precoce e de uma forma muito rápida e muito automatizada, digamos assim. É possível, em determinadas circunstâncias, colocar um alerta, um aviso, em diferentes pontos do território, sobre a chegada iminente das ondas sísmicas mais impactantes.

E terá havido, mesmo na Venezuela, avisos nos telemóveis?

Na Venezuela, não.

Não?

Eventualmente, sim. Há um serviço que foi colocado em prática pela Google, nomeadamente. Eventualmente, isso aconteceu na Venezuela, sim.

E isso pode ser também fundamental para limitar o número de vítimas?

Vai depender muito do tempo de antecipação, porque uma coisa é um alerta, vamos imaginar, com 30, 40, 50 segundos de antecipação, que pode dar tempo para algumas medidas de autoproteção da parte da população, assim como para o acionamento de outras medidas que, de uma forma automática ou semiautomática, possam prevenir ou impedir o acontecimento de um desastre. Estou a pensar, por exemplo, num comboio de alta velocidade cuja velocidade possa ser bastante reduzida de maneira a evitar ou reduzir o risco de descarrilamento, por exemplo. Isso é mesmo das coisas que se faz no Japão, mas não só. Mas para o caso da Venezuela, o alerta que tenha sido gerado foi muito em cima da hora, como era expectável, com muito poucos segundos, não dando muito tempo para, por exemplo, evacuação de edifícios, isso não seria possível. Há depois estas limitações, que têm a ver com a distância a que as fontes sísmicas estão dos locais que vão ser impactados.

Muito bem. Fernando Carrilho é chefe da Divisão de Geofísica do Instituto Português do Mar e da Atmosfera. Agradecemos a sua participação neste Explicador. Um bom dia e uma boa semana. Bom dia.

Muito obrigado. Bom dia.