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Explicador da Rádio Observador, o PS anunciou uma abstenção exigente na generalidade relativa à proposta de orçamento do Estado para 2026. Na prática, a proposta do governo segue, depois baixa à discussão na especialidade, onde irá, por certo, sofrer algumas alterações. Importa perceber o que pensa o partido Livre sobre esta matéria. O Livre, que pela voz do líder Rui Tavares, já considerou que a proposta de orçamento do Estado apresentada pelo governo tem falta de ambição, falta ambição ao que o governo quer avançar. Contamos a esta hora conversar com a deputada do Livre, Patrícia Gonçalves, no fundo, também para perceber qual é a posição deste partido perante este anúncio de abstenção exigente por parte do Partido Socialista. Já esta tarde ouvimos aqui na Rádio Observador Miguel Costa Matos, deputado do PS, economista, explicar o que entende por abstenção exigente. No fundo, quer ter margem para poder negociar, na generalidade, algumas propostas com o governo. Para já, o orçamento passará nesta primeira votação na generalidade, desde logo porque tem a abstenção do Partido Socialista, assim chegam os votos de PSD e CDS. Também ainda vamos conversar com Paulo Núncio, do CDS esta tarde. Agora, Judite de França, chamamos à conversa a deputada do Livre, Patrícia Gonçalves.
Bem-vinda, Patrícia Gonçalves, obrigada por estar conosco. Compreende a opção do Partido Socialista, esta decisão de se abster na votação do orçamento do Estado?
Muito boa tarde e obrigada pelo convite para aqui estar. A mim não me cabe julgar a decisão de outros partidos, cabe-me apenas comentar as decisões do Livre. Portanto, relativamente ao Partido Socialista, julgarão com certeza, conforme entenderem melhor. No caso do Livre, nós estamos ainda a avaliar o orçamento de Estado e defendemos que o processo na especialidade deve ser um processo em que nós consigamos realmente implementar medidas ou propor medidas que possam melhorar a vida das pessoas e não deixar passar o orçamento de Estado como um documento puramente técnico, sem cariz político, que é o que o senhor ministro das Finanças e o governo pretendem fazer este ano com o orçamento, dizem eles, sem cavaleiros orçamentais.
Quando é que o Livre tomará essa decisão sobre a proposta do orçamento?
O Livre está neste momento a preparar o processo de especialidade e vai fazer propostas de alteração, que são muito importantes para nós podermos melhorar o orçamento e ter um orçamento que seja mais útil para a vida das pessoas. Lembramos que no passado foi assim que conseguimos aprovar medidas como o Passe Ferroviário Verde, o programa 3C Casa Conforto e Clima, o subsídio de desemprego para vítimas de violência doméstica ou o aumento do abono de família para famílias monoparentais.
Patrícia Gonçalves, então admite, pelo menos nesta fase, na fase da generalidade, que o Livre possa viabilizar o orçamento através de uma abstenção, por exemplo, também? Isso é uma possibilidade em cima da mesa ou não?
Como sabe, o Livre tem um processo de decisão que passa por uma decisão do seu órgão máximo de condutos que é a assembleia, e portanto, essa questão será colocada aos membros da assembleia, que responderão.
Mas há data para essa reunião ou não?
Sim, a reunião da assembleia será poucos dias antes da votação da generalidade. Penso que provavelmente será logo a 26, penso que segunda-feira, se não estou em erro, não sei o que o calendário é à frente.
A votação na generalidade é dia 28.
Então sim, será 26 ou 27 essa reunião e aí teremos a decisão final.
Vamos falar então sobre as eleições autárquicas e começava por lhe perguntar o que é que correu mal em Lisboa.
Lisboa foi um grande desafio. O Livre coligou-se com o PS, aliás, já estava coligado com o PS em 2021, e tivemos uma coligação progressista com o PS, com o Bloco de Esquerda e com o PAN. Nós tínhamos uma proposta muito forte programática para a cidade, para melhorar, de facto, a vida dos lisboetas e das pessoas que cá trabalham e não vivem, mas ficámos aquém, em número de votos, daquilo que seria necessário para mudar a câmara. O que falhou, nós ainda estamos a fazer essas análises, mas de certeza que não falhou a vontade de todos nós de conquistar-
Falhou a candidata?
Diga.
Falhou a candidata Alexandra Leitão? Não foi uma boa opção?
Não é a minha opinião que tenha falhado a candidata. Alexandra Leitão teve uma campanha muito intensa. Ela fez tudo o que estava ao seu alcance para conquistar a câmara, no meu entender. Não penso que seja por aí. Provavelmente falhou as forças de esquerda não se terem todas juntado nesta proposta. E talvez tenha falhado outro elemento fundamental, que é a gentrificação da cidade e ao longo destes últimos anos, muitas das pessoas que têm rendimentos de classe média terem sido afastadas do centro da cidade e da cidade, por não poderem comportar os preços da habitação que se praticam hoje em dia em Lisboa.
Patrícia Gonçalves-
Que são uma consequência das políticas de direita do senhor engenheiro Carlos Moedas.
Permita-me tirar esta conclusão daquilo que acabou de dizer. A culpa é em parte da CDU, do PCP?
Eu não falei em culpa. Eu estou aqui a fazer uma análise.
Para estarmos a perceber que análise faz.
Das diversas componentes. Teria sido muito importante que a CDU se tivesse juntado a esta coligação. O candidato João Ferreira, a vereadora que ainda lá estava, também eram dois, Joana Yara. O grupo do PCP tem experiência na vereação. Não sei que experiência teriam no Executivo, não têm. A Alexandra Leitão, por exemplo, tinha experiência no Executivo, nomeadamente no governo. Portanto, penso que eles poderiam ter se juntado e teriam reforçado esta coligação. Por outro lado, também é importante pensar que em Lisboa nós estamos com o eleitorado a mudar, porque muitas das pessoas que tipicamente votam à esquerda têm abandonado Lisboa ao longo dos anos.
O Bloco de Esquerda foi um peso na coligação?
Não, não penso que tenha sido um peso na coligação em Lisboa. Foram camaradas que se empenharam bastante nas campanhas, nomeadamente das freguesias, em que o Livre teve uma participação mais intensa. Não considero que tenha sido um peso.
Mas nós vimos, por exemplo, muita participação de Rui Tavares, um grande empenho nesta campanha. Obviamente, Mariana Mortágua não esteve. Isso não terá sido um problema? Não encontra aí uma das razões?
Eu gostava de lembrar, o Rui Tavares ainda é vereador da Câmara Municipal de Lisboa, da oposição. Eu inclusive sou vereadora em substituição ainda durante todo este mandato. Estamos agora a fechar estes nossos mandatos como autarcas. E tem então o comprometimento que o Rui Tavares teve nesta campanha e o empenho, uma grande parte dele deve-se ao empenho em ganhar Lisboa. A outra parte deve-se também ao seu papel como vereador ainda da oposição na Câmara. Mas não penso que a ausência de Mariana Mortágua na campanha em Lisboa tenha prejudicado a campanha. As pessoas do Bloco estiveram no terreno e estiveram muito empenhadas na campanha. O que é importante é falar com as pessoas.
Terá sido mais a ausência da CDU e o facto de, na sua opinião, o eleitorado ter mudado um pouco na cidade?
Não é a ausência da CDU.
Sim, a ausência da coligação.
Eles estiveram presentes no terreno, certamente, durante toda a sua própria campanha.
E vimos pela votação que tiveram. Já agora, aproveitando, Patrícia Gonçalves, que está aqui conosco, é deputada do Livre. Temos também de falar do apoio do PS a António José Seguro, que deverá ser confirmado já na reunião do próximo domingo. O Livre poderá seguir este exemplo ou António José Seguro é o candidato da esquerda que a direita gosta e o Livre não entra neste comboio?
Em primeiro lugar, os candidatos presidenciais são candidatos próprios, não são candidatos de partidos. Os partidos depois resolvem apoiar os candidatos que acham melhores, que entendem, de acordo com a sua forma de tomar essas decisões. No Livre, a forma de tomar essa decisão é uma consulta interna aos seus membros, de forma a perceber quais são as preferências dos seus membros. Isso nós faremos e pôremos à disposição dos nossos membros as escolhas que estiverem na mesa na altura em que o formos fazer. Neste momento estamos bastante ocupados com o processo do Orçamento de Estado, mas vamos rapidamente também colocar essa questão sobre as presidenciais e tentar perceber como é que as pessoas do Livre veem esta questão, mas está uma questão que está em aberto, como sabe. Aliás, por isso é que me pergunta.
Exato. Muito obrigado, Patrícia Gonçalves. Obrigado por ter estado neste Explicador da Rádio Observador. Patrícia Gonçalves, deputada do Livre.