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Crise energética pode estar bem na calha para a expressão do ano e ainda nem terminou o primeiro trimestre de 2026. Ainda não está declarada oficialmente em Portugal, mas estamos cada vez mais perto. As proporções que está a tomar, se há exageros ou não, que medidas deve o governo também tomar e todos nós enquanto sociedade, fica para a jogada da semana do Fora do Baralho, sempre com a Susana Peralta, o Nuno Garoupa, o Jorge Fernandes e o Luís Aguiar Conraria. Nesta primeira parte temos uma condenação histórica, um rebentente em acusações judiciais, novos critérios para entrar na faculdade e contas também, o famoso excedente orçamental. Vamos começar até por aqui, Luís, tens uma carta de ouros para os dados económicos conhecidos esta semana, não só a folga nas contas públicas, mas também a redução da dívida e o contributo para a economia dos trabalhadores estrangeiros.
É verdade, foi uma semana fértil em boas notícias e num estudo do Banco de Portugal que é bastante informativo para o debate corrente que nós temos e daí os meus ouros. Aliás, já agora digo aos nossos ouvintes que há umas semanas, lembro-me que também tinha umas copas para dar à economia portuguesa, depois o assunto mudou e eu na altura comentei contigo: "Olha, não faz mal, porque a economia portuguesa, na verdade, tem estado a funcionar tão bem que não faltarão oportunidades para lhe dar copas". E aqui está. Eu acho que há aqui duas coisas boas. Uma é sabermos que tivemos um excedente orçamental. O Hugo Soares fez um comentário a dizer que era um resultado histórico. Não é nada histórico.
0,7% são mais de 2 bilhões de euros.
Vais lá ver, histórico foi quando tivemos o primeiro excedente da nossa história democrática, isso claro, foi histórico. Agora, estes 0,7 não são históricos. Aliás, em 2023, o excedente foi 1,2, portanto, quase o dobro do que foi em 2025. Mas é ótimo, é um bom resultado. E a dívida pública baixou abaixo dos 90%. Nós já tínhamos baixado a barreira psicológica dos 100, dos três dígitos, e já baixámos agora os 90. Diga-se de passagem, que não foram só as declarações do Hugo Soares que foram ridículas. As dos partidos da oposição também foram, porque insistem sempre com aquela ideia de que: "Isto é bom", no caso o PCP diz que isso não interessa nada, "Isto é bom, mas o custo de vida tem estado a aumentar e deviam ser a preocupar com o aumento do custo de vida". A verdade é que o motivo pelo qual este resultado foi tão bom, foi precisamente porque aumentou o emprego em 2025, em mais de 100 mil empregos, e porque o salário médio real subiu, ou seja, os salários subiram acima da inflação. Já tendo em conta o aumento do custo de vida, os salários médios subiram acima disso. Portanto, não faz sentido também as críticas destrutivas dos partidos da oposição. Nem o embandeirar em arco do PSD, nem o discurso derrotista dos outros. Isso relativamente à questão da dívida pública e do déficit. Depois, não é uma notícia, é o resultado de um estudo do Banco de Portugal que esteve a analisar o impacto dos imigrantes na nossa economia e é importante poderes fazer mitos com factos e também aqui os meus parabéns ao Banco de Portugal e os resultados analisaram qual é que tem sido o contributo dos imigrantes para a economia portuguesa. E os nossos imigrantes essencialmente são trabalhadores. A ideia de que vivem dos subsídios, que é uma ideia que está sempre a ser martelada pelo Chega, e não só pelo Chega, diga-se, é uma ideia que neste momento está completamente desmentida. Sempre que alguém dizer isto, ou voltar a dizer isto, a partir deste momento, está literalmente a mentir, porque já tem dados mais do que suficientes para confirmar que isso é mentira. Imigrantes a viverem de pensões ou subsídios de desemprego são uma pequeníssima fração, tão pequena que não merece sequer referência. Portanto, bons resultados para a economia portuguesa e um bom papel do Banco de Portugal a informar o debate nacional.
E esses bons resultados na economia portuguesa justificam a classificação que foi feita por Luís Montenegro esta sexta-feira, diz que estamos na Liga dos Campeões da estabilidade econômica e financeira da Europa.
Acho que sim, porque na Liga dos Campeões estão quase todos os países da Europa. Nós fazemos parte da Europa, portanto também estamos na Liga dos Campeões. Não, falando sério, é evidente que o resultado é bom, evidente que uma dívida de perto de 90%, é 89,7%, ainda é uma dívida muito elevada e como eu já disse aqui há um ano ou dois, só vou ficar mesmo contente quando baixarmos os 60%.
Vamos agora para uma carta de paus, Susana Peralta, para a proposta do governo que contempla novos requisitos para o acesso ao ensino superior.
Sim, veio no Público de hoje a dizer que o governo quer impor níveis mínimos de numeracia e de inglês para entrar no ensino superior. Enfim, ainda não há muitos detalhes, portanto, nós não sabemos como é que vai ser aferido este nível junto dos estudantes e cá estaremos para perceber como é que isso vai acontecer. Mas eu queria dizer que não vejo grande maneira de isto correr bem, porque vamos ver, o governo decidiu alterar as regras do anterior governo, que no fundo obrigavam que todas as pessoas que fossem para o ensino superior tivessem que ter pelo menos dois exames, no fundo, que a nota de acesso tivesse que depender pelo menos de dois exames, e voltou a abrir a possibilidade de ser apenas um e a ideia aí, julgo eu, era fazer um ensino superior mais acessível às pessoas que, por circunstâncias várias, muitas vezes infelizmente ligadas à sua situação socioeconômica, podem não ter um desempenho tão bom, enfim, uma formação de base tão boa no ensino secundário. E também com a ideia de que o ensino superior pode oferecer diferentes pistas, diferentes oportunidades, diferentes caminhos a pessoas com perfis diferentes. Agora vai introduzir um novo requisito e aqui a minha pergunta é: o ministério vai fazer o quê? Vai criar um exame de inglês e de numeracia? Porque aí está a voltar a introduzir um exame, que é uma coisa um pouco bizarra. Por outro lado, isto não está ligado a nenhuma disciplina no âmbito do ensino secundário. Eu não quero trazer aqui o fantasma da PGA, da Prova Geral de Acesso, para quem nos ouve é um bocadinho mais jovem do que eu, mas isto são sempre caminhos abertos a ainda maior desigualdade de acesso, porque quando não está diretamente ligado ao conteúdo de uma disciplina, abre-se aqui todo o caminho para explicações privadas. Ainda na semana passada lancei um trabalho sobre o mercado das explicações, que é realmente um mercado muito desigual. Por um lado. Depois há aqui também um problema, que é a questão da autonomia das universidades. O ministro Fernando Alexandre fala tanto da autonomia das universidades e agora vem aqui impor critérios também para acesso a certos graus, a certas formações de mestrado. Portanto, também me parece bastante bizarro por esse lado. E depois, finalmente, se não for para ter o tal exame centralizado e se for para deixar cada universidade aí já a autonomia para decidir de que maneira é que vai aferir estes níveis de numeracia e de conhecimento de inglês, isto parece-me muitíssimo preocupante, porque nós sabemos que quando criamos oportunidades para o acesso à universidade ser baseado em ingredientes um bocadinho mais idiossincráticos. Os nossos exames nacionais têm muitos defeitos, mas ao menos são horizontais, são organizados de maneira centralizada, são iguais para todos. Nós sabemos que o sistema anglo-saxónico de acesso ao ensino superior, baseado em pequenos ingredientes do currículo, são sistemas muitíssimos mais desiguais, paradoxalmente, isso seria outra discussão para a qual eu não tenho tempo. Portanto, eu não vejo muito bem de que maneira é que isto pode ser uma boa ideia, sinceramente. E depois, quer dizer, numeracia é muito simples, invista no ensino da matemática. Eu juro, prometo aqui ao Ministério da Educação, que se nós conseguirmos resolver o problema da falta de professores e da falta de qualidade do ensino da matemática em certas regiões mais periféricas e que muitas vezes são dentro das próprias áreas metropolitanas, as pessoas vão ter numeracia. E chega.
E chega. Está aqui a justificação da Susana Prado para esta carta de paus. Ainda é preciso esperarmos pelos detalhes desta proposta do governo que quer rever os requisitos para o acesso à faculdade. Da educação, vamos passar para a justiça. Nuno Garoupa, tua carta é de espadas. Trazes muitas vezes justiça aqui ao Fora do Baralho, para o Procurador-Geral da República e para o Conselho Superior da Magistratura, pelas buscas desta semana em Albufeira, a avisar o autarca do Chega, Rui Cristina, e também para o inquérito aos almoços de Isaltino Morais, presidente da Câmara de Oeiras.
Repara, eu queria começar por dizer que faço estes comentários no contexto em que nós estamos, que é continuamos a não ter Provedor de Justiça e continuamos a não ter Diretor Nacional da Polícia Judiciária. Coisa que o primeiro-ministro há uma semana prometeu que ia resolver rapidamente. E aliás, assinalar só aqui para dar uma bicada, que o ex-presidente Cavaco sobre isso não está preocupado e sobre isso não escreve. Agora, o que eu queria falar aqui não é uma crítica aos procuradores, porque os procuradores fazem o seu trabalho com todo o mérito e os meios que estão disponíveis, mas é uma crítica a quem gere o Ministério Público. Porque repara, do ponto de vista de quem está de fora, não se percebe muito bem como é que ao mesmo tempo temos um inquérito a decorrer em Albufeira de declarações que supostamente terá feito o presidente de câmara, eleito pelo Chega, há cinco meses na Assembleia Municipal. Entretanto, ao mesmo tempo, na mesma semana, temos notícias de Oeiras referentes a alegadas despesas que vão de 2017 a 2024, mas que já foram discutidas e denunciadas na Assembleia Municipal de Oeiras, pelo menos desde 2021, se não antes. Portanto, tem mais de cinco anos. Num dos casos cinco meses, no outro caso cinco anos. E acresce que foram publicados e discutidos os números esta semana de que o número de inquéritos no Ministério Público com mais de cinco anos era 600 em 2015, 12 mil em 2025. Portanto, há obviamente um caos total no Ministério Público. Foram de 600 para 12 mil em 10 anos, inquéritos com mais de cinco anos. Ora, o Ministério Público tem a obrigação, e quando eu digo Ministério Público é quem gere o Ministério Público, que é o Procurador-Geral da República e o Conselho Superior do Ministério Público, de explicar como é que há inquéritos que levam cinco meses, como é que há inquéritos que levam cinco anos e como é que há 12 mil inquéritos com mais de cinco anos, sob pena depois de se andar a dizer que isto é em função de prioridades partidárias e que se pretende atingir aquele partido, que se pretende atingir o outro partido. Lamentavelmente, não só o Conselho Superior do Ministério Público não explica, como pelos vistos os partidos na Assembleia da República também ninguém quer saber e ninguém chama o PGR a explicar o que é este caos absoluto
Que está no Ministério Público. A minha carta aqui é não ao trabalho dos procuradores, mas de diversos inquéritos, porque não parece que haja qualquer razão para acreditar em conspirações partidárias, mas sim à gestão de todo o Ministério Público, que com os números que são publicados, está de facto numa situação caótica e ninguém parece estar preocupado sobre isso no Conselho Superior do Ministério Público. Aliás, deixa-me acrescentar, onde faltam os cinco elementos eleitos pela Assembleia da República há um ano.
Vamos ver se é dia 16 de abril desta vez. Pelo menos tudo parece mais encaminhado agora para essas eleições para os órgãos externos. E na justiça internacional, fica para o fim desta primeira parte, mas é muito importante, uma condenação histórica da Meta e do YouTube por serem plataformas feitas de forma a viciar os utilizadores. Jorge.
Sim, houve esta condenação em Los Angeles e a condenação é muito simples: ficou provado em tribunal que o algoritmo causa adição e que isto tem consequências para a saúde mental, especialmente dos mais jovens. Isto dito assim, pode parecer algo estranho e pode nem ser algo que necessite de uma condenação judicial, cuja dimensão, de resto, $3 milhões, nem é muito elevada para padrões americanos e para este tipo de empresas. No entanto, o mais interessante deste processo, e esse é o motivo pelo qual as empresas foram condenadas, é que foram exibidos em tribunal documentos internos das empresas, criados há anos, nos quais fica claro que houve vários alertas internos de várias pessoas, programadores, pessoas que estavam a trabalhar no desenvolvimento do algoritmo, em que era exposto à administração das empresas e aos CEOs: "Nós podemos desenhar um algoritmo que esteja desenhado para maximizar a adição, precisamente. E claro, ao maximizar a adição, maximizamos o lucro." Houve estes alertas continuados e as empresas escolheram esquecer os seus consumidores e a responsabilidade social, se quisermos. Isto é como se alguém que operasse no mercado não regulado dos carros, por exemplo, dissesse: "Não interessa se poluímos muito ou pouco, é absolutamente irrelevante, podemos poluir à vontade." Há vários mercados que são altamente regulados pelo Estado, o mercado automóvel, na poluição, a comida, etc. As redes sociais infelizmente ainda são uma espécie de faroeste. E eu digo ainda, porque eu acho que este caso levanta um precedente muito importante, que levará certamente a muita litigância nos Estados Unidos, em várias jurisdições, vários estados. Eventualmente até poderá ser tudo depois consolidado, até numa class action contra as empresas, aí já poderíamos estar a falar de milhares de milhões de dólares e já poderíamos estar a falar de estragos financeiros sérios. Nós um dia vamos olhar para trás, creio eu, se as coisas correrem bem, porque se correrem mal, aí teremos problemas muito graves. Mas se as coisas correrem bem, eu acho que um dia vamos olhar para trás e para a falta de regulação das redes sociais, e vamos achar uma coisa que é: um dia todos teremos sido contra isto, para citar o nome de um livro recente. Houve um momento, por exemplo, em que a indústria do tabaco também fazia anúncios. Quem viu, por exemplo, "Mad Men", sabe que no início da primeira temporada de "Mad Men", o Don Draper está preocupado porque a dada altura está a vir uma regulação que diz que já não pode dizer que os cigarros fazem bem à saúde. E sabemos hoje todas as regulações que existem para constranger a indústria do tabaco. O Estado fez o seu papel. E um dia estas empresas e as redes sociais também serão alvo de regulação e serão alvo de um cada vez mais apertado controle, porque realmente o online, a esfera online, não pode ser um faroeste em que vale tudo, em que o algoritmo pode tudo e em que não há a mínima preocupação pela salvaguarda da saúde mental dos consumidores, especialmente entre os mais jovens. E por isso é que esta condenação é tão importante e creio que daqui a uns anos vamos olhar para esta condenação como um momento charneira na regulação das redes sociais.
E é por isso que lanças aqui uma carta de ouros a fechar esta primeira parte do "Fora de Bralho". Voltamos já a seguir. Donald Trump está a forçar o mundo a aprender a viver ainda mais na imprevisibilidade. Os mercados, essa entidade que é bem menos abstrata do que parece, estão a ser um exemplo de como tudo o que o presidente norte-americano diz tem impacto. A Agência Internacional de Energia já emitiu um conjunto de recomendações por causa desta crise energética e o governo português anunciou esta sexta-feira mais medidas. Queremos começar por aqui, Susana Peralta, o que achas destas medidas, apoios nos combustíveis para os setores mais expostos? São €150 milhões no total, há um apoio adicional de €0,10 por litro, em setores como os transportes pesados de mercadorias, de passageiros, táxis, agricultores, pescadores, associações de bombeiros e instituições de solidariedade social.
Eu acho bem, na verdade. Vou defender o governo e vou sobretudo apoiar o esforço que têm estado a fazer, ou que parecem ter estado a fazer. Mesmo o ministro Miranda Sarmento deu uma entrevista, já não sei em que televisão, mas em que na sequência da boa notícia que o Luís aqui trouxe na primeira parte, lhe pedem: "Mas então agora já pode fazer apoios para a crise energética", inspirando-se no caso espanhol, que é o que tem estado aí na berra, nas bocas do mundo. E o ministro veio com um discurso cuidadoso, que me parece que é o discurso prudente. Vamos lá ver uma coisa. Nisto não há milagres quando há um estrangulamento no fornecimento energético. O petróleo não está a circular. É evidente que o petróleo que passa pelo Estreito de Ormuz vai sobretudo para a Ásia, mas isso quer dizer que esses outros países que costumam comprar o petróleo que passa por ali, estão à procura de outras fontes de energia. O mercado é o mercado internacional, é o mercado global e há, de facto, menos petróleo e menos gás natural também disponível para comprar no mundo todo. Tal como há, neste momento, menos fertilizantes e outros produtos químicos que costumam passar pelo Estreito de Hormuz. Não há nenhum governo, nem o governo do presidente Sánchez, nem o governo do primeiro-ministro Luís Montenegro, nem o governo do Sébastien Lecornu, que também está sob grande pressão para ir no sentido de Espanha e que também tem estado a resistir quanto a mim bem, sendo que eles lá têm 5% de déficit, têm ainda menos facilidade de fazer esse tipo de medidas. Mas dizia eu, não há nenhuma varinha mágica, porque de facto não vai haver petróleo, nem gás, nem fertilizantes para todos. Esta é a maneira certa, é dizer assim: onde é que estão os setores mais vulneráveis, tanto do lado das famílias como do lado da produção, do lado das empresas. O governo o que está a fazer é: já aliviou a fatura das famílias com o aumento da comparticipação da bilha solidária, que no fundo é gás subsidiado para as pessoas que estão com o orçamento muito contado, que contam os tostões, por assim dizer, não terem que poupar no gás que usam para comer ou para aquecer a água, para poderem ter uma higiene pessoal. Depois também ir aos setores produtivos que estão mais dependentes destes fatores de produção, para procurar mitigar, se já há um estrangulamento geral na economia por causa da energia não estar a fluir no mercado internacional, é ver quais são os setores onde nós conseguimos aliviar um bocadinho este garrote para não piorarmos o estrangulamento. O governo está a fazer bem, depois podemos aqui discutir. É claro, o ISP, por exemplo, a diminuição do ISP é errada no sentido em que é uma medida que é abrangente para a economia. Mas eu acho que de uma forma geral, o governo tem estado a reagir bem, que é com apoios direcionados e não embarcar neste pensamento mágico de achar que ajudando toda a gente, toda a gente vai poder manter o seu nível de consumo, porque não é assim que funciona.
Portanto, Luís Montenegro fez bem em afastar o regresso do IVA zero.
Claro, fez muito bem Luís Montenegro em afastar, atenção que esta deve ser uma das poucas vezes que eu vou dizer bem do Luís Montenegro neste programa. Fez muitíssimo bem, tem estado muito bem. E o ministro Miranda Sarmento, especialmente, de maneira muito clara e muito até pedagógica, na minha opinião, a afastar estas medidas que são medidas erradas, irracionais. E sobretudo, se nós queremos mesmo ajudar quem mais precisa, seja do lado das famílias, seja do lado das empresas, a maneira certa é concentrar o dinheiro nessas pessoas e não gastá-lo na economia toda, porque isso também ajuda essas pessoas, mas ajuda menos do que no cenário em que concentramos o dinheiro nessas pessoas.
Também consideras, Luís, que tudo o que tem sido exigido ao governo, estas pressões para outro tipo de medidas, são pressões erradas? Nós temos de mudar os nossos hábitos no consumo de energia, em vez de esperar que o Estado os patrocine.
Sim, e realmente a generalidade das exigências que fazem, como aqui a Susana referiu, estão erradas. E na verdade, mesmo aqueles apoios extraordinários ao gasóleo específico, mesmo essas medidas vão no sentido errado. Ok? Porque essas medidas vão no sentido de não se fazer o ajustamento que é consumir menos petróleo. E de facto, o que faz sentido e o que funciona relativamente bem, as economias de mercado funcionam bem, às vezes parece que é uma coisa esquisita, mas o capitalismo, especialmente quando funciona com alguma liberdade e não com grandes influências governamentais, funciona bem. E é bom e reage bem a este tipo de crises. Agora, é evidente, onde o capitalismo falha, ou o livre mercado, onde falha claramente é na proteção dos mais vulneráveis, e é aí que devemos concentrar os nossos esforços. Isso é por um lado. Por outro lado, a quantidade de exigências que está a ser feita ao governo é uma loucura, no sentido de parece que tem de já tomar uma série de medidas, um conjunto de medidas, ao mesmo tempo que muita gente nos diz que esta guerra está aí para durar um ano ou dois anos e que a subida de preço do petróleo vai ser permanente e por aí fora. Como se nós agora fôssemos gastar todas as nossas munições, agora nas próximas duas semanas, quando se calhar vamos ter um ano de dificuldades pela frente, isso também não faz sentido. E já agora, finalmente, é preciso ter noção das proporções. Para já, o preço do petróleo, eu não fui ver os dados de hoje, mas para já os preços do petróleo, houve ali uma altura em que chegaram a subir 44% em relação ao dia anterior ao início dos bombardeamentos. Depois já baixou um bocado. Depois subiu, depois voltou a baixar aqui com estas últimas declarações de Trump, não vi os dados de hoje, não sei como é que está hoje, mas estes 44% que houve e que não duraram muito, são comparáveis ao que se passou em 2022 quando foi a invasão da Ucrânia pela Rússia. Nada disto é comparável com o que se passou em 73 e 74 e depois no fim dos anos 70. Ali em 73, 74, os preços do petróleo não aumentaram 40%, aumentaram 300%. Depois em 78, 79, voltaram a triplicar, ou seja, aumentar 200%. Se compararmos os dados de 73 com os dados finais de 79, vemos que o preço do petróleo nesses anos aumentou 1400%. E nós aguentámos. Mal, mas aguentámos. Houve aqui uma revolução pelo meio, houve aqui umas entradas do FMI, até se gosta de culpar os partidos socialistas por esses resgates financeiros e parece que nessa altura não havia dificuldades. Nessa altura, os preços de petróleo aumentaram 1400%. Neste momento, aumentaram 44% e depois baixaram um pouco. Vamos lá pôr água na fervura e olhar para estas coisas com racionalidade, e com essa racionalidade que nos permita ajudar quem precisa.
E aqui estão famílias e setores que precisam constantemente dos combustíveis para laborar.
Vanessa, deixa-me só dizer algo aqui relativamente aos setores. O Luís diz que, e eu concordo, que mesmo ajudar os setores é questionável ser assim tão correto, porque de facto há aqui uma questão que tem a ver com a própria conversão energética da economia. A Europa vai ter que fazer uma transição energética, nem que seja por razões de segurança geopolítica. E o facto de a energia estar cara desincentiva as empresas de usarem o combustível fóssil e também permite que as empresas que trabalham em energias renováveis, noutras fontes energéticas, percebam: "A energia agora está cara, portanto deixa-me lá fazer aqui investimentos". Agora, a questão disto é que estes mecanismos já funcionam mais a médio e longo prazo, funcionam a prazo. E eu, por um lado, percebo esta necessidade de ir a estes setores produtivos rapidamente com ajudas, mas que têm de ser paliativas e temporárias, porque de facto o que nós queremos é esses aspetos dinâmicos que o Luís aqui recordou, de que a economia se converta à custa desta crise. Desculpa, Luís.
E já agora, em relação a este ponto que estavas a levantar, até diria isto: se nós acharmos que este choque é temporário, então faz sentido ajudar estas indústrias, que é uma coisa que dura dois meses, não vale a pena passar a pôr algumas pessoas ao desemprego e empresas irem à falência por um choque que dura dois meses. Agora, na verdade, se nós achamos que isto está aí para durar e se temos aquela visão mais catastrofista, então nesse caso a economia precisa mesmo de se ajustar a um preço de petróleo mais alto. E nesse caso não faz sentido estar a apoiar a sobrevivência de empresas que estão condenadas. Mais vale, mais uma vez, concentrar os nossos esforços nas pessoas que precisarem e, neste caso, se houver empresas a fechar, nos apoios ao desemprego.
Pois, sei que há aqui, de facto, aquele caráter imprevisível desta crise.
Mas olha, voltando. Eu não quero voltar a ser tão catastrofista. Agora se calhar estava a cometer o erro contrário. Ia acrescentar acha para a fogueira em vez de pôr água na fervura. Para já, este choque existe, obviamente, traz dificuldades, não é nada do outro mundo. Para já, é o que nós temos. Não vale a pena entrar em pânico e achar que vem aí o diabo.
Certo é que esta crise energética está a ser uma arma para o Irão, sendo que em menos de 24 horas foi notícia que o Irão quer cobrar portagens no Estreito de Ormuz e também que já deixou passar ao mesmo tempo petroleiros, como sinal de boa fé nas negociações, foi pelo menos esta a expressão dita pelo próprio Donald Trump. A narrativa norte-americana está, Nuno Garoupa, entre dizer que o Irão está derrotado, ameaçar com mais ataques poderosos, ainda mais poderosos, falar em boa fé, enfim, a cada hora o tipo de narrativa pode mudar um pouco. Há estratégia, de facto, ou Donald Trump está a remar ao sabor do vento?
Não, não me parece que o Donald Trump está a remar ao sabor do vento. O que eu acho é que há uma contradição entre os objetivos externos dos Estados Unidos naquilo que é a interpretação da administração Trump, que evidentemente é a segurança total do Estado de Israel, e aquilo que são objetivos internos, porque repara algumas das discussões que a Susana e o Luís estavam a levantar, obviamente, as diferenças que se têm visto em alguns países europeus, também têm a ver com os calendários eleitorais. Evidente, Espanha, neste momento, tem um calendário eleitoral que não é favorável a Sanchez nos próximos meses e, portanto, obviamente, tem uma restrição do ponto de vista de política económica diferente do Luís Montenegro, que só tem eleições daqui a três anos, ou dos franceses, que têm um problema eleitoral grande depois dessas autárquicas em 2027. Donald Trump tem o mesmo problema, é que tem umas eleições daqui a seis meses e, portanto, ele evidentemente percebe que as consequências domésticas desta guerra são bastante prejudiciais àquilo que é os objetivos do Partido Republicano para essas eleições, por razões até um pouco contrárias àquilo que é na Europa, que aqui o problema não é a importação de combustíveis, é a exportação de combustíveis. O que acontece é que os Estados Unidos exporta combustíveis e evidentemente, se os preços estão em alta no mercado internacional, as empresas norte-americanas preferem exportar para fora dos Estados Unidos do que vender no mercado norte-americano e, portanto, os preços no mercado norte-americano estão a ajustar aos preços internacionais, coisa que obviamente o Donald Trump não deseja, nem consegue neste momento muito bem interferir, porque não pode proibir exportações. Por outro lado, os mercados financeiros também não têm reagido bem. E portanto, a questão é, por um lado, pretende-se manter a guerra através de negociações com o Irão ou não, para atingir objetivos de segurança do Estado de Israel, por outro lado, precisa acabar com a guerra rapidamente para tentar ainda recuperar a tempo de não ter uma recessão monumental no verão ou depois do verão. E aqui abre-se uma janela de oportunidade para o Partido Democrata, como já aqui disse várias vezes. Espero que o Partido Democrata desta vez não estrague a sua janela de oportunidade com discussões internas e agendas woke e loucuras que continuam a circular dentro do Partido Democrata, mas evidentemente, do ponto de vista do Partido Republicano, há muita pressão em Trump para fazer alguma coisa, para que não seja uma derrota tão grande como começa a ser possível em novembro para o Partido Republicano.
Jorge Fernandes, depois deste preâmbulo do Nuno Garoupa sobre os desafios que enfrenta Donald Trump, temos negociações supostamente a serem preparadas, o Paquistão como mediador. Antevês aqui o quê para os próximos tempos?
O Nuno colocou bem a coisa. Eu sempre achei que a única maneira de nos vermos livres de Trump e daquela gente toda que anda em volta dele, que é gente muito pouco recomendável, seria pelo ângulo económico. Aliás, já aconteceu isso nas últimas eleições americanas, em que o apelo à democracia, o apelo a uma certa moderação democrática foi a mensagem do Partido Democrata, e foi uma catástrofe. Sempre tive a impressão, desde que Trump tomou posse, que só uma recessão monumental ou uma grande sova económica nos Estados Unidos é que realmente poderia levar a uma derrota dos republicanos. Portanto, provavelmente, uma grande recessão económica será o preço que o mundo vai ter que pagar para acabar com esta abjeção que está a mandar em Washington, que é realmente uma abjeção total. Há impérios que foram derrotados militarmente, há impérios que colapsaram por motivos internos, depois há impérios que se suicidam, e é a isso que nós estamos a assistir em direto. E aqui vou diretamente à tua questão, Vanessa, porque esta guerra está a ser um verdadeiro suicídio do império americano, porque, em primeiro lugar, toda a confiança que havia com os aliados, e não estou a falar só dos aliados europeus, estou a falar do Japão, da Coreia do Sul, da Austrália, os países do Golfo, que durante muitos anos contaram com o apoio americano para substanciar aquele modelo económico de serem hubs comerciais, hubs de transportes, hubs financeiros. Sem o apoio americano, aquilo não funciona, sem o guarda-chuva americano. E o problema central neste momento é que Trump agora tem que ir até o fim. Tem mesmo que ir até o fim, porque ninguém ali no Golfo está interessado em que o regime iraniano fique. Vamos supor que a guerra acabava agora, digamos assim, ou nos próximos dias. O regime iraniano estaria lá, provavelmente mais radicalizado, com muito mais desconfiança relativamente a quaisquer negociações internacionais que possam acontecer, a quaisquer promessas que venham dos Estados Unidos. Portanto, o perigo latente que existe para aqueles países do Golfo é um perigo existencial, praticamente. Trump tem que terminar efetivamente o serviço. O problema central aqui é que nós vemos aquilo que Trump está a propor ao Irão, primeiro aquilo que sabemos das fontes internacionais, embora, enfim, isto é sempre um pouco complicado, não me parece que haja grande interesse por parte do Irão em aceitar aquelas condições. Em segundo lugar, e é absolutamente fascinante, Trump está a tentar negociar ou atingir pontos negociais que até 28 de fevereiro não eram pontos negociais. Isto é, um ponto negocial central agora, ele tem conseguido convencer o Irão a abrir o Estreito de Ormuz. Bem, o Estreito de Ormuz estava a funcionar até 28 de fevereiro, sem qualquer tipo de problema. Toda a gente passava, não havia a ideia de portagem, que agora o Irão inventou para extrair dinheiro. Portanto, Trump conseguiu o pior cenário de todos. O regime não foi derrubado, o regime mantém-se intacto. Continuam os extremistas, provavelmente agora mais extremados, quer dizer, o filho do antigo aiatola agora é quem manda. Depois de lhe terem matado o pai, acho que é mais ou menos fácil de imaginar o que é que lhe irá pela cabeça. Agora, é difícil imaginar que o Irão vá aceitar as condições que Trump impõe, até porque significaria assumir uma derrota total, sendo que essa derrota militarmente não aconteceu. Portanto, as condições que Trump está a exigir seriam condições que um país que foi completamente derrotado aceitaria, e o Irão não foi completamente derrotado. Porque a guerra é uma guerra militar, mas é uma guerra económica, é uma guerra geopolítica, e o Irão ainda tem muitas cartas para jogar. E o Trump meteu-se nesta enormíssima embrulhada, meteu-se a ele, meteu os Estados Unidos, meteu-nos a nós, que é o pior de todos, e agora, nas próximas semanas, veremos o que é que acontece.
Pode haver um preço alto a pagar, é a reflexão que fica do Fora do Baralho de hoje. Fica por aqui a jogada da semana. Eu sou a Vanessa Cruz, ainda volto no domingo, às 20h45 em FM, sempre também em podcast com o Nuno Garoupa, para responder às perguntas dos ouvintes. Estaremos os cinco, quatro ases e a joker, de regresso na próxima sexta-feira na Rádio Observador. É Sexta-feira Santa, mas vamos estar por cá. Bom fim de semana, bons trunfos.