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"Fora do Baralho", episódio extra ao domingo, totalmente dedicado aos ouvintes e às dúvidas que os inquietam. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira. Nas respostas hoje temos o Jorge Fernandes. E a pergunta, Jorge, recupera um dos grandes temas desta semana: o gabinete de André Ventura vandalizado. Falaste disso ao de leve no "Fora do Baralho" de sexta-feira. Agora Pedro Ferreira pergunta: o que nos deve preocupar mais naquilo que aconteceu?
Olá, Sara. Há muita coisa que nos devemos preocupar neste acontecimento da semana passada, em que supostamente, ou alegadamente, o gabinete de André Ventura terá sido assaltado com o intuito de roubar papéis relacionados com o caso Luís Neves e, para além disso, disse ainda o líder do Chega, papéis relacionados com o primeiro-ministro, enfim, alguns materiais que o partido se prepararia para utilizar em contexto da Comissão Parlamentar de Inquérito, que se anuncia para a questão da Polícia Judiciária. Eu confesso que fiquei bastante perplexo, porque num primeiro momento acreditei piamente que André Ventura, de facto, tinha ocorrido qualquer coisa ali na Assembleia da República.
E já não acreditas?
Neste momento, confesso que não. E explico muito rapidamente porquê. Em primeiro lugar, o registo histórico do Chega, quem se lembrar, desde a história dos ratés, que era um suposto atentado à vida de André Ventura, ao refluxo, que era um ataque cardíaco em pleno último dia de campanha, enfim, há um conjunto de histórias mais ou menos mirabolantes que rodeiam o líder do Chega. Isso é a história. Em segundo lugar, devido ao meu trabalho, eu sou investigador e por coincidência ou não, durante muito tempo tive que fazer entrevistas na Assembleia da República e circulei bastante nos Passos Perdidos e nos gabinetes dos deputados, e acho que conheço razoavelmente bem a Assembleia para afirmar que uma coisa daquela natureza é altamente improvável, porque o espaço em si tem vigilância cá fora, há muitas pessoas a circular durante o dia e para além disso, é altamente inverosímel, sabendo nós que a PSP faz rondas à noite e de manhã, que uma coisa daquelas tivesse acontecido. E em terceiro lugar, ainda neste contexto, olhando para as imagens daquilo que se terá passado no gabinete do Chega, aquilo tem todo o ar de uma encenação. Em primeiro lugar, parece mais ou menos claro que se alguém fosse buscar uns papéis com o intuito de roubar, não faria uma coisa daquelas. Isto é, tentaria passar a imagem de destruição, iria ser cirúrgico e buscar os papéis especificamente que estava à procura.
Mas este ponto também vale para o contrário, não é? Se fosse alguém a querer encenar essa situação, também foi um bocadinho over. Se foi uma encenação, também o fez de uma forma tão teatral que podia levantar essas dúvidas, portanto, também não faria sentido que fosse uma encenação tão má.
E esse é que é o problema. Nós quando olhamos, há ali vários quadros que caíram da parede, nenhum dos quadros partiu. Há uma espécie de um porta-retratos com uma coisa de uma Nossa Senhora e um terço milimetricamente pousado. Quer dizer, a probabilidade daquilo tudo cair daquela maneira é simplesmente muito baixa e aparentemente, pelas notícias que sabemos, aquilo que nós sabemos, é que André Ventura não terá mencionado aos agentes da Polícia Judiciária que se deslocaram ao Parlamento, a questão dos documentos roubados.
Entretanto, o Chega já veio garantir que sim.
Eu gostaria que a Polícia Judiciária, sinceramente, esclarecesse isso, porque aquilo que nós sempre sabemos é pela boca de Ventura que houve realmente o assalto e que houve aqueles documentos que foram levados, mas aparentemente, e lá a polícia não terá dito que os documentos foram levados. E depois, há uma outra coisa que faz com que isto tudo seja bastante estranho, que é: o presidente da Assembleia da República não se pronunciou, o presidente da República não se pronunciou. Há uma espécie de uma ideia mais ou menos generalizada aqui, que aquilo foi uma encenação de funkaria e que André Ventura terá tentado fazer aquilo, nem sei exatamente muito bem por quê. E depois há uma derradeira coisa: pen drives em 2026? Já ninguém usa pen drives em 2026. Que o diga o novo ministro da Educação, de resto, que até os exames quer pôr na internet e para serem corrigidos online. Pen drives em 2016 é muito inverosímil. A ideia de que se perderam documentos importantíssimos, que estavam numa pen e em mais lado nenhum. O Chega não conhece cloud, não conhece nenhuma das 1001 coisas que existem hoje em dia e que toda a gente usa, desde o mais simples cidadão até aos serviços mais encriptados e sofisticados do mundo. É aquela coisa habitual que se diz: "soa como um pato, grasna como um pato, anda como um pato, será que não é um pato?" É que tudo aquilo é mesmo muito estranho. Depois ainda a ideia de que Ventura sai do gabinete e deixa a porta aberta. Isso é de uma inverosimilhança. Coisa essa que já foi desmentida, de resto. Isto é, aquilo que sabemos, porque os serviços da Assembleia da República esclareceram, é que independentemente de os deputados deixarem os gabinetes abertos ou fechados, no final do dia A PSP passa uma ronda e fecha todos os gabinetes à chave. A PSP foi ao gabinete de Ventura, percebeu que aquilo estava aberto, presume-se que estava tudo bem, fecha aquilo às chaves e depois o que acontece? Houve uma espécie de milagre? Como é que as pessoas entraram? Tudo aquilo é muito estranho. E depois ainda, o deputado Francisco Gomes que ia gravar vídeos para o TikTok no gabinete de Ventura. Eu não sei.
Supostamente seria num gabinete mesmo ao lado, que tem uma ligação de André Ventura e foi lá dar porque estava a polícia à porta. Essa foi a última explicação de André Ventura.
Acho altamente improvável. Eu trabalho num sítio com muitos gabinetes e se tiver que gravar um vídeo e fazer alguma coisa, dirijo-me ao meu gabinete, não me vou dirigir a um gabinete de um colega, muito menos ao gabinete do chefe. Isso não existe. De facto, há muita coisa muito estranha aqui e eu espero que a Polícia Judiciária rapidamente esclareça isto com toda a certeza, até porque a Polícia certamente depois terá acesso a outras coisas, impressões digitais, imagino que cabelos, sei lá. Todas aquelas coisas que já vimos todos nos filmes. Agora, de facto, olhando para aquela cena toda, aquilo parece uma cena de filme de série B, em que não é muito plausível que aquilo que Ventura diz que aconteceu, tenha de facto acontecido.
Obrigada, Jorge. Se quiser ouvir respostas para as suas perguntas nos episódios extra do "Fora do Baralho", basta escrever para foradobaralho@observador.pt. Um dos ases aqui estará a cada domingo, na rádio e em podcast. Bom fim de semana.