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Fora do Baralho Extra, o nosso episódio dominical em que respondemos aos ouvintes que enviam perguntas ou comentários para o e-mail foradobaralho@observador.pt. Eu sou o Ricardo Conceição e hoje cabe à Susana Peralta responder aos nossos ouvintes. Bem-vinda, Susana.

Olá, Ricardo. Obrigada, bom dia.

E vamos começar pela pergunta que nos foi enviada por João Guedes. No fundo, o João pergunta se o melhor para travar André Ventura e o Chega será votar em André Ventura. Eu vou aqui citar o texto do João Guedes. Escreve ele: "Uma vez que se for eleito presidente, a sua bancada parlamentar perderá força com a sua ausência e ao mesmo tempo será forçado, enquanto presidente, a promover a estabilidade, não o fazendo, e se porventura decidir usar a bomba atômica, instalar-se-á o caos e a sua reputação será necessariamente prejudicada", escreve o João Guedes. Ou seja, Susana, a pergunta é: eleger Ventura seria o pior para Ventura?

Bem, eu queria agradecer imenso ao João Guedes a pergunta e dizer que é uma pergunta bastante interessante, mas eu acho que é muito arriscado esse raciocínio. O que eu acho que o principal risco aqui deste raciocínio do João Guedes é a quantidade de ações encadeadas que o João aqui prevê e que de algum modo podem correr mal. Ou seja, para já, se essa bancada parlamentar perde força com a ausência de André Ventura ou, pelo contrário, ganha força sabendo que tem um peão estratégico muitíssimo importante em Belém, e Belém tem um poder substancial, não só tem o tal poder da bomba atômica, como tem um poder muito grande de influência.

Não é propriamente a Rainha de Inglaterra.

Não é propriamente a Rainha de Inglaterra e é evidente que a bancada do Chega vai agir em concordância. Depois diz que ele enquanto presidente seria forçado a promover a estabilidade e que se acionasse a bomba atômica isso ia necessariamente prejudicar a reputação do André Ventura. Outra vez, nós não fazemos ideia. Há muitas coisas muito abjetas que o André Ventura faz e que não prejudicam a sua reputação ou que, em todo caso, não parecem prejudicar a sua base eleitoral. Quer dizer, eu recordo que o André Ventura entrou nesta campanha com cartazes contra uma minoria étnica perfeitamente gratuita, a dizer que Portugal não era Bangladesh. Neste momento nós temos, por exemplo, prisões do grupo 1143, um grupo armado neonazi perigoso, que a Polícia Judiciária desmantelou com ligações ao Chega. Sai nas notícias que há um deputado do Chega que participou em alguns encontros de cara tapada a militantes do Chega. André Ventura não consegue demarcar-se verdadeiramente e condenar as ações deste tipo de grupos perigosos. E todas essas coisas inarráveis até ver não beliscaram a reputação de André Ventura. Desculpa, sim, Ricardo.

E André Ventura, que começou este caminho para as presidenciais explicando que não queria ser candidato. Aqui talvez a lógica do João Guedes seja um bocadinho castigar o candidato que não queria ser candidato, seria por aí?

Certo, mas o problema disso é o risco que temos. Uma vez que André Ventura efetivamente esteja sentado em Belém, que seja o presidente deste país e que tenha o tal poder de influência e que além disso tenha o poder da bomba atômica, nós queremos mesmo arriscar esse cenário e que tenha poder de veto, já agora, de veto político, de leis civilizacionais importantes, direitos dos imigrantes, das mulheres, das pessoas LGBTQIA+. Nós queremos mesmo arriscar o que o André Ventura pode fazer nesse lugar de poder só neste cenário que é plausível, mas que a mim me parece altamente improvável, que João Guedes aqui traz de boa, mas isso vai enfraquecer o grupo parlamentar do Chega e depois as pessoas vão exigir a André Ventura um comportamento estadista que ele até agora nunca teve e que no fundo estamos quase a castigar o candidato porque ele foi à corrida presidencial sem verdadeiramente querer ser presidente. Eu acho isto tudo muito demasiado arriscado. Portanto, eu pessoalmente não estou disposta a comprar essa lotaria.

Portanto, não vais votar em André Ventura. E vamos aqui a uma outra pergunta do Bruno, que pede para ser identificado como simplesmente Bruno, será só Bruno. E no fundo pergunta se o voto eletrônico não avança por falta de confiança dos eleitores neste sistema ou por falta de iniciativa do poder político, acrescento eu.

Eu também acho que essa é uma excelente pergunta. Eu acho que o que importa é dar um passo atrás e pensar: para que nós queremos o voto eletrônico? Eu acho que nós queremos o voto eletrônico para facilitar o voto e para promover a participação eleitoral. Atenção, que aqui às vezes há alguma confusão, não estou a dizer que seja o caso do Bruno, eu acho que o Bruno não está necessariamente confundido, mas para quem nos está a ouvir, voto eletrônico não quer dizer voto por internet. Não quer dizer voto à distância digital. São duas coisas diferentes. Eu já votei eletronicamente, por exemplo, quando vivia na Bélgica, nas eleições nas quais tinha direito a participar enquanto cidadã europeia, mas era um voto em urna. Eu ia à secção de voto, votava, depois tinha um cartão e esse cartão entrava na urna, mas só que esse cartão era digital, e enquanto o meu voto já tinha ficado registado digitalmente.

Como os Estados Unidos nalgumas-

Portanto, isso quer dizer, repara que esse voto não é especialmente mais fácil do que o voto em papel que nós fazemos aqui. Eu acho que o voto à distância por internet é muitíssimo arriscado e que de facto traz muitos problemas de confiança aos eleitores. Mesmo o próprio voto eletrônico levanta as suas questões, porque não há nada que se compare aos papelinhos que nós podemos ir contar e recontar e recontar. Basta pensar na recontagem de Lisboa. Qualquer um de nós, no limite, podia ir lá ver e via a cruzinha e tinha capacidade. Eu acho que essa confiança neste ato fundacional de um regime democrático, que é o voto, a seleção dos representantes políticos pelo voto, é muito importante e que nós não devemos dilapidar essa confiança, sobretudo num momento de tanta banão do sistema, de tantas pessoas a questionarem tanta polarização. Se nós ainda temos, e ainda temos em Portugal, felizmente, confiança no nosso sistema, na nossa máquina eleitoral, eu acho que devíamos mantê-la. Eu acho que não é de todo a altura de entrar por aí. Eu acho que se a ideia é facilitar o voto, e eu sou muito sensível a essa questão, há muitas coisas que nós podemos fazer antes do voto eletrônico. Ou seja, nós podemos ter mais secções de voto, nós podemos ter secções de voto em mobilidade, nas praias, quando há votos em junho, ao pé das praias. Podemos ter mais dias de voto, podemos ter um dia de semana em que se vota para evitar que as pessoas que têm família longe e que têm o fim de semana. Já temos hoje em dia voto antecipado, generalizado, isso é bom, antes não tínhamos, mas há muito mais coisas que podemos fazer e que são feitas noutros países, antes de avançarmos para o voto eletrônico.

Obrigado, Susana. A Susana Peralta respondeu hoje às perguntas dos ouvintes. Esta semana foi ela o elemento do "Fora do Baralho" disponível para responder. Para a semana será outro. E é muito fácil, basta enviar um e-mail para foradobaralho@observador.pt e aos domingos de manhã, neste episódio extra do "Fora do Baralho", vamos respondendo aos comentários e dúvidas dos ouvintes. Bom fim de semana.