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Prosseguem as cerimónias fúnebres do antigo líder supremo iraniano, o Aiatolá Ali Khamenei. Das ruas de Teerão chegam as imagens de milhares de pessoas a prestarem homenagem a Ali Khamenei. Bruno Cardoso Reis, boa tarde. Bem-vindo a esta edição do Gabinete de Guerra.

Boa tarde.

Sai fortalecido o regime. Estas cerimónias fúnebres acabam também por ter essa consequência de mostrar um regime mais forte aos olhos do mundo?

Acho que essa é claramente a intenção. Ou seja, é uma cerimónia político-religiosa, obviamente, principalmente, oficialmente religiosa, mas o regime iraniano é uma teocracia. Ali Khamenei não era apenas um clérigo, era também o responsável máximo, a autoridade suprema no regime iraniano, em particular em tudo o que tinha a ver com a dimensão militar e também externa. Portanto, há esse objetivo claro de passar uma mensagem de força, sendo que esse tipo de cerimónias são muito difíceis de utilizar nesse sentido. Ou seja, o Irão tem 90 milhões de pessoas, se for 1 milhão, obviamente é uma percentagem, são 2% da população, mas, no entanto, é muita gente.

Claro.

Muitas estimativas apontam para que talvez 20% da população sejam apoiantes da linha mais dura do regime. Isso significa que os outros 80% ou não são ou são mesmo opositores. Mas é evidente que o regime continua a ter capacidade de mobilização de muita gente. É um aparelho muito vasto, há muitos interesses também muito investidos no regime. Também tira partido desta dimensão religiosa, nomeadamente aqui é muito importante toda esta dimensão do martírio, do culto dos mártires, que é central no Irão, no Islão xiita, em particular. Aliás, há aqui um dado interessante que é as cerimónias fúnebres vão decorrer em várias cidades, inclusive em duas cidades iraquianas, portanto, o corpo de Khamenei vai pro Iraque. A seguir, vai para Karbala e Najaf, que são os dois grandes lugares santos do Islão xiita, os locais do martírio da derrota do Imam Ali e do Imam Hussein, que são os fundadores do xiismo e, portanto, há aqui evidentemente uma tentativa de colar Khamenei a esse exemplo. As bandeiras vermelhas que estavam por todo lá no funeral, que são as bandeiras do martírio com um apelo à vingança aos vingadores do Hussein, ou seja, esta ideia dos xiitas como responsáveis por vingar o martírio destes imãs e portanto há aqui, de facto, uma dimensão religiosa, mas depois com implicações políticas. Ao mesmo tempo, temos gritos de "Morte à América, morte a Trump". Agora, só pra terminar, em termos de demonstração de força, acho que há aqui uma questão que é nesta cerimónia há um aspecto profundamente bizarro que é o atual guia supremo, o filho de Ali Khamenei, Mojtaba Khamenei não está presente. Estiveram presentes outros membros da família, mas ele não está presente e a ideia de que isso é por razões de segurança não me parece credível. Ou seja, há ali alvos tão ou mais apetecíveis do que Mojtaba Khamenei, por exemplo-

O líder da Guarda Revolucionária, não é?

Exatamente. E, portanto, se havia um alvo, até militar, a abater, seria esse. É evidente que os Estados Unidos e Israel estão aqui a respeitar uma espécie de trégua tática. Isso também permite aliviar a pressão sobre os territorys, porque o Irão foi avisado que se houvesse ataques essa trégua formal e informal poderia estar ameaçada. Mas parece-me que esse aspecto não é credível. Portanto, isto aumenta as dúvidas sobre quem é que realmente manda no Irão ou se calhar reforça as certezas de que não será propriamente este guia supremo, que ele será uma espécie de fachada e que é sobretudo esta ala dura do regime ou que eventualmente várias fações do regime estão aqui a tentar ganhar peso. Mas realmente nessa mensagem de continuidade e de força há esse grande problema que é a ausência do guia supremo.

Sendo que havia inclusivamente dúvidas sobre se Mojtaba Khamenei estaria ainda vivo ou se não teria morrido na sequência dos ataques de Estados Unidos e Israel à semelhança do que aconteceu com o pai.

Sim, em todo caso, claramente está de tal forma incapacitado, parece-me, que seria impossível ele estar presente. Acho que é a única conclusão racional que se pode tirar disto ou pelo menos, se não é isso, a verdade é que o regime passa aqui uma mensagem de um certo vazio de poder no topo que de facto se torna estranho numa cerimónia tão importante como esta. A ausência, de facto, não parece que seja explicável de outra forma que não seja ele estar impedido de ir por alguma razão, seja porque está muito desfigurado, seja porque está incapacitado, ou seja, eventualmente, porque já não está entre nós, embora isso realmente fosse ainda mais incrível. Não quer dizer que seja impossível. Aconteceu num caso ou outro na história, imperadores ou soberanos manterem-se supostamente vivos durante umas semanas ou uns meses. Há um caso famoso, por exemplo, no Império Otomano, à espera que as fações que controlavam o poder depois anunciassem a morte quando já tinham tudo preparado pra tomar o poder.

Por estes dias, também é notícia a Cimeira da NATO, que arranca amanhã. O que esperar desta cimeira, Bruno?

Vamos ver. À partida, podemos ter a certeza é que há aqui grande expectativa e algum nervosismo sobre o suspeito do costume, ou seja, Donald Trump. Será que o Donald Trump vai fazer mais alguma das suas? Será que vai fazer declarações insultuosas em relação aos seus aliados? Será que vai fazer algum tipo de ameaça? Será que vai pôr em questão o artigo quinto? Todos os anos atualmente se põe essa questão, ao ponto de haver muita gente a defender que o melhor seria não ter estas cimeiras anualmente, começar a intervalá-las, fazer talvez ano sim, ano não, para ver se pelo menos no próximo ano nos livrávamos deste teatro político do Donald Trump. E eu, em relação a isso, não consigo fazer previsões. Acho que a imprevisibilidade é uma coisa muito característica do Donald Trump. Sabemos, por exemplo, que ele voltou a insistir hoje em atacar Giorgia Meloni, a primeira-ministra italiana, que foi no passado uma grande aliada, que ideologicamente é bastante próxima do Donald Trump, e que é um perfeito exemplo de que realmente para Donald Trump a lealdade só funciona em um sentido, que é para ele. Ele nunca deve nada aos seus aliados, que qualquer ideia de que eventualmente ter líderes mais próximos do Donald Trump em termos ideológicos na Europa seria uma garantia de boas relações com os Estados Unidos, claramente não funciona. Donald Trump é demasiado imprevisível para isso poder acontecer. Vamos ver, porque também, e para terminar, há aqui um ponto importante que tem sido muito discutido nos últimos anos, que é a questão do nível de investimento em defesa. A Europa já fez um esforço enorme de reforço do investimento, inclusive superior a muitos outros aliados dos Estados Unidos. Sempre foi o grande aliado dos Estados Unidos, ao contrário também do que tem sido, por exemplo, Israel. Israel nunca combateu ao lado dos Estados Unidos, a não ser em guerras que envolvessem Israel. Mas ao contrário dos aliados europeus, e o mesmo se aplica a aliados asiáticos, a Coreia, o Japão, raramente estiveram ao lado dos Estados Unidos. Mas claramente isso não interessa nada para Donald Trump, que utiliza constantemente isso como uma arma de arremesso. Portanto, não sei muito bem o que é que mais os líderes europeus lhe podem oferecer para tentar atenuar estas críticas. A minha impressão, e aquilo que me pareceria acertado, era que os líderes europeus mostrassem que já chegava deste tipo de postura de procurar constantemente apaziguar Donald Trump e que vão começar a responder na mesma moeda quando são injustamente atacados, criticados por Donald Trump, vão lhe dar réplica.

A ver, vamos o que nos reserva este primeiro dia de Cimeira da NATO será seguramente tema para os Gabinetes de Guerra da semana. Bruno Cardoso Reis, obrigado pela tua presença e disponibilidade para estares neste Gabinete de Guerra. Historiador Bruno Cardoso Reis, todas as semanas ajuda-nos aqui a analisar alguns dos factos relacionados com a atualidade internacional.