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Gabinete de Guerra esta manhã com a análise de Francisco Proença Garcia, militar, investigador e professor catedrático na Universidade Católica. Olá, Francisco. Bom dia, bem-vindo.
Bom dia, Maria João.
Bom dia, Francisco. Obrigada. Começamos pelos Estados Unidos. Pela primeira vez, o Senado aprovou uma resolução para limitar os poderes de guerra de Trump contra o Irão. Francisco, que leitura faz desta decisão e que impacto poderá ter? Vai retirar ao presidente a sua principal ferramenta de pressão máxima ou, por sabermos como é Trump, imprevisível, pode até precipitar uma ação militar antes que as restrições legais se tornem efetivas?
Eu vou mais para a segunda , sabendo que ele é imprevisível. Mas foi ele que utilizou a força, é ele que de vez em quando utiliza a força. E diariamente, vejam nesta semana.
Tem ameaçado, sim.
Já ninguém acredita nele. Vem ao lobo, e depois já ninguém acredita. Mas ameaçou e depois, afinal, "vou retirar" e vai dar até domingo. Vamos ver se no domingo bombardeia ou não bombardeia, porque a fazer tem que ser, de facto, a meu ver, antes dessa decisão ou da aplicação dessa decisão. Mas sendo ele como é, pode fazer uma ordem executiva ultrapassando isso, criando uma paralegalidade qualquer interna e que depois logo se resolverá. É sempre imprevisível. O que é um facto é que ele ainda não resolveu a situação e nós estávamos à espera que fosse a Beijing resolver a situação e veio de Pequim. Ainda não vimos nada, estas coisas na diplomacia levam tempo, mas pelo menos há uma coisa boa: não há bombardeamentos, as populações estão a desenvolver a sua vida com dificuldade, mas pelo menos a não serem atacadas, as infraestruturas a serem preservadas, pelo menos vale-nos isso.
Mas o que esta decisão do Senado nos diz sobre a política interna dos Estados Unidos neste momento?
A política interna dos Estados Unidos, que comemora este ano seus 250 anos de independência, é uma política caracterizada pelos pesos e contrapesos. De maneira que o soberano não é um soberano absoluto. Para já é um regime federal e depois tem os tribunais, tem diversas agências, tem o Senado, que lhe vão limitando o seu poder. Isso é uma prova de que as instituições funcionam. Isso dá-nos esperança de que, apesar de sabermos que, em princípio, esta onda da MAGA e da nova América não vai ser curta, quer dizer, veio para ficar, mas pelo menos este ator principal e os outros que se seguirem, vão ter sempre um contrapeso, ou seja, o seu poder está sempre limitado, o que é uma vantagem para nós e é muito interessante, porque assim podemos acreditar na democracia e mostrar aos regimes autoritários: "Vejam, isso não está a correr bem, nós internamente não estamos a gostar e vamos limitar o seu poder com o peso das nossas instituições". E são as instituições, quando são fortes, que permitem uma boa governação dos países e as pessoas acreditarem no futuro. Porque senão, com esta imprevisibilidade toda do líder norte-americano, quer dizer, o que é que as pessoas acreditam? O que é que elas querem? Sobretudo a estabilidade internacional. De maneira que dá-nos alguma tranquilidade saber que as instituições norte-americanas funcionam e põem limites à atuação do presidente. Agora, pode levar algum tempo? Pode levar algum tempo. Já levou algum tempo, mas estamos a chegar lá, que é importante.
Sobre um possível acordo entre Estados Unidos e Irão, como o Francisco dizia há pouco, Trump voltou a dar dois a três dias a Teerão, mas o Wall Street Journal diz que o governo iraniano mantém a sua posição, ou seja, exige compensações financeiras pelos danos da guerra e o controle sobre o Estreito de Ormuz. Francisco, sabendo que o Irão, ao contrário do Ocidente, joga a longo prazo, os três a quatro meses de resistência econômica que a CIA atribui ao Irão são suficientes para Teerão ganhar este braço de ferro contra o calendário eleitoral de Donald Trump?
Há um braço de ferro, mas vamos ver. Há possibilidade de negociação e o importante é que há negociação. Quando eles dizem que o Estreito de Ormuz e as compensações de guerra. Bom, compensações de guerra podem ser muito facilitadas. Em vez de se atribuir dinheiro pelas compensações, aliviam-se as sanções. Há logo uma grande compensação. De maneira que vem buscar os ativos que tem no exterior, permite comercializar melhor. Pode ser essa a troca. Numa negociação, há sempre um ganho de ambas as partes. De maneira que ele pode ceder no ponto de Ormuz, mas os Estados Unidos cedem, não com compensações de guerra, mas com o aliviar das sanções. Penso que podemos ir por aí, porque a pressão internacional está a ser muita. Nota-se pelas alterações de posições do presidente Trump, que ele está a ser altamente pressionado pelos líderes regionais da Arábia Saudita, do Qatar, aqueles que são seus aliados, está a ser pressionado pelos líderes europeus, está a ser pressionado pelos líderes asiáticos, que são aqueles que mais sofrem, que são aqueles que mais estão dependentes desta região. De maneira que pode ser essa que seja uma saída, uma troca do Estreito de Ormuz, não o Estreito de Ormuz como mantém as águas internacionais. Lembro que a NATO vai discutir na próxima cimeira se vai ou não mandar forças para o Estreito, o que poderá ser um sinal. Bom, vocês vejam, e o Trump aí ganha. Afinal, eles vieram tarde, mas vieram.
Pois, exatamente.
Vamos ver, mas tem que ser encontrada uma solução e quanto mais rápido, melhor, porque dizem que são quatro meses. Bom, quatro meses. Esses quatro meses podem se alongar seis ou oito, nós não sabemos, estamos à espera. Veja o que está a acontecer em Cuba. Veja a capacidade de sofrimento desta população desde 79 e depois todas as restrições que lhe foram impostas, e eles têm aguentado. Agora bombardeamo-nos severamente e eles têm aguentado. No Afeganistão, os talibãs tinham uma coisa muito interessante: "Vocês têm as armas, mas nós temos o relógio, o tempo joga a nosso favor".
O relógio lá está.
De maneira que vamos ver se aqui também joga a favor deles.
Olhemos também para o encontro entre Vladimir Putin e Xi Jinping em Pequim. O presidente chinês diz que China e Rússia devem apoiar-se mutuamente. Já o líder russo fala em relações bilaterais sem precedentes, destacou a cooperação econômica e energética entre os dois países e deixou o convite a Xi Jinping para visitar a Rússia no próximo ano. Francisco, como é que olha para tudo isto? A Rússia e a China estão a criar uma arquitetura de segurança e energia paralela que torna o bloqueio norte-americano irrelevante para a sobrevivência do regime iraniano?
Eles são longos aliados. É a 25ª ou 26ª, quase uma visita anual de Putin à China. A ligação entre eles é permanente, têm uma aliança estratégica. E depois fazem parte de inúmeras organizações. Não nos esquecemos que eles fazem parte do BRICS, estão no G20, estão numa organização de que nós nunca falamos, porque quase não nos apercebemos que existe, que chama-se Organização Cooperação de Xangai. É uma organização que também tem uma vertente de segurança e liderada sobretudo pela Rússia. Os chineses deram essa importância à Rússia. É muito importante. Eles não estão isolados e agora fortalecem essa aliança. Estão a fazer aquele Power of Siberia, é um grande gasoduto que vai trazer milhares de milhões de metros cúbicos de gás para a Rússia. Assinaram um acordo de mais 200 mil milhões agora também para o gás. A ligação entre eles é cada vez mais forte. A Rússia depende cada vez mais economicamente do apoio que a China lhe dá e militarmente também, porque a China dá-lhe a tecnologia de uso dual, que eles depois podem empregar nos seus instrumentos militares. Esta ligação, e o que é curioso é o timing.
O timing, sem dúvida.
Está a ver? Isto mostra que estamos, de facto, a criar uma ordem. É bipolar? Não, é tripolar ou bipolar, mas mais forte do nosso lado, porque eu tenho aqui os russos, que são uma grande potência energética e uma grande potência nuclear. Será bipolar, tripolar, é uma ordem de vários polos. É muito interessante ver este timing e a importância que eles dão à relação com a Rússia. Essa ligação não é de agora, já é antiga, mas está a se fortalecer e nós estamos a forçar. Nós não, quer dizer, nós estamos a brincar com estas atitudes e a Europa com as suas atitudes em relação à Ucrânia, força muito mais esta ligação. Eles vão estar cada vez mais com eles e essas organizações internacionais das quais eles fazem parte, as dependências energéticas, económico-financeiras e a parte bancária das transações financeiras, como os parciais que existem, criam esse laço cada vez mais forte. E eles vêm-se reclamar protetores dos países do sul, que é muito interessante. São dois países do norte que vêm se reclamar protetores dos países do sul e defensores dos países do sul.
Francisco Fonseca Garcia, vamos ver. Muito obrigada pela sua análise em mais um "Gabinete de Guerra". Um bom dia. Obrigada, Francisco.
Muito obrigado