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Bem-vindos a mais um Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Eu sou o Luís Soares, hoje contamos com a ajuda do historiador Bruno Cardoso Reis para este Gabinete de Guerra. Bem-vindo, Bruno. Começamos pelas escolhas nos lugares de topo da União Europeia, que foram conhecidas na quinta-feira. A escolha de António Costa, Ursula von der Leyen e Kaja Kallas na União Europeia é uma boa notícia para a Ucrânia?
Sim, boa tarde a todos. Eu diria que sim. No fundo, desde logo, é uma boa notícia a escolha estar bem encaminhada e estar a avançar com relativa rapidez, embora seja importante perceber que no caso da presidente da Comissão e da alta representante, há uma indicação que é necessária pelo Conselho. Portanto, o processo não podia avançar sem a aprovação desses nomes ontem, mas é preciso agora que o Parlamento Europeu também vote favoravelmente esses nomes. Ainda falta essa etapa fundamental, mas realmente é uma boa notícia, porque todos eles estão bastante comprometidos quer com o processo de adesão, quer com o apoio à Ucrânia, quer com a contenção da Rússia. Talvez o mais simbólico disso seja o nome que é escolhido para líder da diplomacia e da defesa, este cargo de alto representante. A Kaja Kallas é uma líder dos países bálticos, da Estónia, portanto são países e ela própria é alguém que tem sido muito clara há muitos anos sobre uma Rússia muito ameaçadora, sobre os riscos que isso representava e sobre a necessidade de apoiar a Ucrânia para evitar riscos maiores, uma ameaça maior diretamente sobre países membros da União Europeia, como é o caso dos próprios países bálticos. Portanto, desse ponto de vista, parece-me que é uma boa notícia para a Ucrânia e que vem de par, aliás, com o anúncio também da assinatura de um acordo em que a União Europeia se compromete numa série de áreas, seja no treino, seja no fornecimento de equipamento militar, se compromete com um apoio de longo prazo à Ucrânia, procurando no fundo formalizar e institucionalizar isso. Agora é importante dizer que há aqui um lado que complica as coisas, que é, por exemplo, as eleições francesas. A França é aqui um ator muito importante, já há a primeira volta este fim de semana, ou seja, na União Europeia há 27, nós temos eleições que são realmente democráticas, de vez em quando os governos mudam e isso significa mudanças de política e sabemos que têm estado a crescer nalguns países, alguns movimentos de direita mais radical ou até de esquerda mais radical, que são hostis ao apoio à Ucrânia e isso pode representar uma certa ameaça para este consenso europeu. Mas para já, naquilo que depende da União Europeia, as coisas estão a correr bem para a Ucrânia.
Bruno, vamos agora olhar para o que se passa no Médio Oriente. Tem havido protestos, nomeadamente dos judeus ultraortodoxos, que têm bloqueado estradas, por exemplo, contra o serviço militar obrigatório em Israel. Que impacto é que estes protestos têm no país e também no futuro do governo de Netanyahu?
É um impacto duplo. Por um lado, é essa questão mais imediata do governo, ou seja, o governo depende do apoio de alguns partidos, que muitas vezes temos falado aqui, de uma direita mais radical, mais nacionalista, mais identitária, que muitas vezes faz declarações bastante inaceitáveis, até de apoio à limpeza étnica dos palestinianos, e esses partidos estão muito alinhados com estes grupos ultraortodoxos. Isso pode significar que esses partidos que são indispensáveis mais do que nunca para manter o governo de Netanyahu, porque ele perdeu o apoio daquela oposição mais moderada liderada por Benny Gantz, que saiu entretanto. Isso pode ser colocado em causa por causa desta divergência, desta recusa dos judeus ortodoxos há muitas décadas de facto cumprirem um dever, que é um dever universal para homens e mulheres em Israel, com o argumento de que estão a estudar. O problema é que os judeus ultraortodoxos passam décadas a estudar. Nestas academias rabínicas, a pessoa nunca se forma, continua eternamente a estudar. Isso colocava aqui um problema de desigualdade fundamental que agora o Supremo veio pôr em questão. O segundo aspecto fundamental é que isto chama a atenção para o facto de que não é por acaso que Israel procura guerras curtas e em que consiga vitórias decisivas com rapidez. Isso tem-se mostrado cada vez mais difícil, porque os adversários percebem isso, o Hamas, o Hezbollah, etc. Uma das razões principais para isso é precisamente esta questão. As Forças Armadas em Israel não são Forças Armadas profissionais, são Forças Armadas assentes no recrutamento obrigatório, no serviço militar obrigatório e isso significa que os soldados têm de ser retirados da vida civil, têm de ser retirados da economia civil. E se isso acontece durante um período muito longo, começa a criar problemas muito complicados de gestão, por exemplo, da economia israelita, que é uma base também indispensável para sustentar o esforço de guerra.
E falando ainda em apoios, Bruno, há uma carta aberta que foi publicada no New York Times por vários elementos, nomeadamente por Ehud Barak. Eles estão contra a ida de Benjamin Netanyahu ao Congresso Norte-Americano daqui a um mês, que sinal é que isto também dá no que diz respeito às relações entre os Estados Unidos e Israel?
Isto mostra, desde logo, o caráter muito peculiar das relações entre os Estados Unidos e Israel, em particular nas últimas décadas, em que cada vez mais há uma interpenetração da política israelita na americana e vice-versa. Aqui, no fundo, o que nós temos é nomes importantes, inclusive um antigo primeiro-ministro e um antigo general, Ehud Barak, aquele que foi responsável pela proposta de paz mais generosa que alguma vez foi oferecida aos palestinianos, na altura do presidente Clinton ainda, vêm dizer que não faz sentido, seria estar a recompensar Netanyahu por um comportamento altamente destrutivo, inclusive para os próprios interesses de Israel, para a imagem também dos Estados Unidos na região, estar a recompensá-lo por esse comportamento bastante tóxico, trazê-lo ao Congresso Norte-Americano. À partida, entre os republicanos, isto não terá grande impacto, porque há toda uma ala cada vez mais numerosa do Partido Republicano que praticamente apoia, passa um cheque em branco a Netanyahu, mas entre os democratas há um setor importante, muito crítico, mas também há um setor importante que é tradicionalmente apoiante de Israel, inclusive muitos judeus progressistas, vamos dizer assim. E nesse setor, este tipo de apelos pode ter algum impacto, pode tornar mais difícil algo que é indispensável, que é haver aqui um consenso entre os dois principais partidos para esse convite se concretizar. Portanto, vamos ver se tem realmente esse impacto, se acaba por impedir essa ida de Netanyahu. E seria aí um sinal realmente desta crescente tensão, dificuldade de Israel ter aquilo que também até agora tinha conseguido nestas últimas décadas, que era um apoio forte dos dois principais partidos norte-americanos, e não apenas de um.
Obrigado, Bruno Cardoso Reis. Eu sou o Luís Soares, este foi mais um Gabinete de Guerra na Rádio Observador.