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Gabinete de Guerra, Rádio Observador, programa em que falamos dos conflitos em curso, principalmente na Ucrânia e no Médio Oriente. Hoje está conosco Ana Miguel dos Santos, investigadora em assuntos de segurança e defesa. Eu sou Miguel Cordeiro e para começar, vamos ainda falar das presidenciais dos Estados Unidos da América e dos resultados que dão essa vitória a Donald Trump, o impacto que isto pode ter para o conflito, principalmente na Ucrânia. Até porque hoje o primeiro-ministro da Ucrânia disse que o país espera passos claros e rápidos da liderança de Trump em relação ao apoio à guerra. Ora, o Trump diz que sim, que quer dar um passo rápido e claro em relação à guerra, não em relação ao apoio à Ucrânia, mas em relação à guerra, que quer terminá-la de um momento para outro, praticamente. Como é que vê, Ana Miguel dos Santos, esta mensagem da Ucrânia, que quer sim passos claros e rápidos, mas em relação ao apoio às forças ucranianas?
Antes de mais, muito boa tarde, Miguel. Boa tarde aos ouvintes. Muito obrigada pelo convite. Não há aqui nada de novo. O presidente Zelenskyy quer uma definição, naturalmente, está muito cansado, está a verificar e a enfrentar algumas adversidades que também vêm dentro de países europeus da União, aliados, que começam a perceber que esta guerra não vai ter fim e até que ponto é viável continuar a apoiar num esforço de guerra que tem, naturalmente, impacto financeiro e econômico. Da parte de Trump, também não vou esperar outra coisa a não ser um papel muito decisivo, uma postura muito assertiva, se calhar, em contraste com aquilo que nós tínhamos relativamente à administração de Biden, porque ao contrário daquilo que possa parecer, Biden mostrou sempre o apoio à Ucrânia, mas oferecendo sempre muitos constrangimentos.
E até algumas confusões na questão da utilização das armas.
Ora bem, esse é o grande problema, porque se nós, por um lado, dizemos que ajudamos, mas depois oferecemos, eu vou dar aqui exemplo, oferecemos um carro, mas depois tiramos o motor. Ou então tiramos o travão. Só para se perceber que a utilidade da ajuda depende sempre da sua eficácia e aquilo que tem acontecido, e essa também é uma das razões que levaram também, diria eu, a este sentido voto e esta descrença também no apoio a esta guerra em particular, é exatamente o sentir que se está a fazer esforço que não dá em nada. E portanto, quando se entra neste nível, a percepção relativamente ao esforço da guerra, depois já entramos numa fase de fadiga da guerra, é natural que a descrença seja significativa. Agora, o que estamos a perceber, naturalmente, a grande questão era saber se isso iria acontecer antes da tomada de posse. Se a vitória de Trump não tivesse sido tão significativa, eu até acreditava que isso não era possível, porque íamos estar à procura ou numa fase de contestação que não lhe permitia agir de forma mais contundente. Agora, mas claramente, a administração americana, depois destes resultados, vai se começar a alinhar, vão se começar a reposicionar. Aliás, a Europa também está a fazer isso. E claramente, agora espera-se uma resposta de Trump muito mais formal, até porque eu acho que esta fase do Trump vai ser um mandato um pouco diferente daquele que foi no passado. Não só porque ele está mais consagrado no cargo, portanto, tem outra vontade que não tinha.
Tem um forte apoio, Congresso, Senado.
Tem um forte apoio, exatamente. E lá está, foi uma vitória expressiva, incontestada e, portanto, é muito difícil, e com muitas críticas aos democratas. Portanto, não foi só a vitória. Porque quando tu perdes com uma candidata forte, mesmo assim, perdes só na parte ideológica ou na parte política, programática, o que não parece que foi o caso, claramente vais ter um Trump mais institucional, não tão informal, tão contestatário. Mas a matriz comportamental do Trump está lá e, portanto, eu não acredito que ele altere o seu posicionamento relativamente à Ucrânia. O que ele diz é que ele vai obrigar e vai forçar ambas as partes a sentarem-se e a chegarem a uma conclusão, e a chegarem a uma situação de fim da guerra. E o que é que isto vai acontecer? E é isso que Zelensky está a temer neste momento e que teme desde sempre, mas infelizmente, o plano de vitória de Zelensky não refere uma coisa que é essencial, que é a questão da perda do território. E é aqui que se vai desenhar tudo. Portanto, numa negociação, ambas as partes têm que estar preparadas para ceder alguma coisa. Tanto Putin tem que estar preparado para ceder em alguma coisa, naturalmente, como Zelensky também tem que estar preparado, e os ucranianos, para ceder. No caso, aquilo que é mais complicado vai ser a questão territorial. E neste momento, no estado em que estão as coisas, acho muito difícil que não haja essa pressão para essa cedência. E Trump é um pragmático Na negociação e julgo que não vai agir de outra forma.
Há, claro, o papel da América em tudo isto. Há também o papel da Europa. Zelenskiy hoje está em Budapeste, na reunião da Comunidade Política Europeia. Tentará Zelenskiy também garantir um reforço de apoio, um reforço de posições de apoio à Ucrânia depois desta eleição de Donald Trump?
Miguel, eu vou tentar ser realista. Aliás, como procuro ser sempre. Vamos chegar ao final desta reunião e vamos ver todos os líderes a manifestarem o apoio à Ucrânia, porque não podem dizer outra coisa, naturalmente.
Talvez o anfitrião diga um pouquinho menos.
Não, mas vamos lá ver. Regra geral, estou a falar daqueles líderes que foram sempre... Não vai haver alteração relativamente àquela que é a sua expressão pública, o seu discurso para fora. Para dentro, o que se está a tentar fazer, e aliás, ainda esta semana tu referiste o Viktor Orbán, mas nós temos aqui outro elefante na sala que está a surgir há algum tempo e que levou à demissão de Dmytro Kuleba, o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, a propósito de um incidente diplomático que existiu entre a Polônia e a Ucrânia relativamente à classificação como genocídio de episódios históricos entre estes dois países. E esta semana o Deputy Prime Minister da Polônia veio numa entrevista pública dizer que a Ucrânia estava a querer empurrar a Polônia para a guerra. E isto é uma mudança muito importante. Por quê? A Polônia, nós não podemos esquecer que o ator e apoiante, desde a primeira hora, da Ucrânia mais importante e mais relevante, é o país que está a fazer o maior investimento europeu na defesa, é onde os Estados Unidos estão a investir.
Historicamente está numa posição geográfica que fica sempre ali entre os conflitos.
A geografia não a podes alterar, naturalmente, e portanto adaptas-te a ela, adaptas-te com ela. Só a natureza é que tem essa capacidade. Mas o que eu quero aqui dizer é que as contestações, eu diria, a descrença, esta falta de apoio, já começa a surgir e a vir de outros atores mais inesperados, e isso está aqui a mudar alguma coisa. E portanto, o Zelenskiy vai sair de lá, naturalmente, sempre a pedir a mesma coisa. Hoje vimos Macron, nessa mesma reunião, a dizer que a Europa tem que ganhar autonomia estratégica. Agora, o que eu digo é, no imediato, mesmo que politicamente se queira essa autonomia estratégica, ela não é fazível de um dia para o outro, demoram anos, mesmo neste investimento em matéria de defesa. E portanto, no imediato, nós temos que ter soluções e não podemos prescindir da NATO e da umbrella americana, do chapéu americano. No imediato não o podemos fazer, mas temos que construir e trabalhar para essa autonomia e para esse reforço, como é evidente. Isto pensando em termos futuros. Relativamente à Ucrânia, nós temos aqui um grande elefante na sala, que vai ser difícil de resolver, até porque isto vai ter que ser gerido mesmo com pinças para que nem a Europa perca muito a face relativamente também à Rússia e ao seu posicionamento. Porque isto, no fundo, tu estás a abrir uma caixa de Pandora. Tu não podes nunca ter um discurso diferente de que não podes invadir um país, não podes violar as fronteiras, não podes violar o direito internacional. Não podes fazer isso agora. Julgo que Trump poderá ajudar a encontrar aqui uma solução que seja útil, espero eu, para todas as partes.
Falemos um pouco do conflito no Médio Oriente. Hoje há a informação de que Israel comprou 25 caças F-15, nova geração, à Boeing. Isto, de facto, são realidades muito diferentes face ao conflito na Ucrânia, por exemplo, a Ucrânia que, para tudo que é armamento, precisa de ajuda de toda a gente. Israel, que neste caso também não está na posição da Ucrânia, no outro conflito no Médio Oriente, mas com disponibilidade para gastar 4,8 mil milhões de euros em 25 caças F-15 de nova geração. Estamos a ver isto desde o início desta fase, deste conflito, desde há um ano, Israel a reforçar os sistemas de defesa e a comprar também sistemas de ataque, neste caso, 25 caças. Qual é a importância que assume esta compra e como é que Israel se está a preparar, de facto, para o conflito em curso e para aquilo que ainda pode seguir neste conflito, com Líbano a entrar também, com Irão a poder entrar também no conflito?
Vou dar duas respostas, ou melhor, duas chavetas, duas alíneas. A primeira é: nós estamos em guerra. Se me tivesses feito esta pergunta há dois dias, ou melhor, antes das eleições, eu dir-te-ia só isto: Israel está em guerra e, portanto, a sua defesa não é nada de novo, porque Israel é dos países mais protegidos, tem o sistema de defesa antiaérea mais forte do mundo. Não significa que seja absolutamente invencível, 100%. Tem as suas falhas, mas ele está armado para isso, pela sua condição histórica, a sua condição geográfica. Estes fatores, no fundo, acabam por obrigá-lo a ter que ter este sistema de alerta. Agora, é evidente que também não é despiciendo o facto de nós já termos visto que Israel não está a diminuir o seu esforço de guerra e o seu combate ao terrorismo para garantir a segurança dos seus cidadãos, e isso não está a acontecer. Portanto, continua nesse esforço de guerra, aumentando o seu impacto em termos de território. Agora, esta compra também é anunciada, e agora aqui o fator eleições europeias, é anunciada no momento pós-eleitoral americano, ganha Trump, e portanto, claramente, ele sente, eu já disse isto, não é a primeira vez, sente as costas quentes para continuar nesse esforço.
Ana Miguel dos Santos, muito obrigado por ter estado conosco nesta edição de Gabinete de Guerra. Voltamos a fazer a análise aos conflitos amanhã, aqui na Rádio Observador.