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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Espaço para análise dos mais recentes desenvolvimentos das guerras na Ucrânia e também no Médio Oriente. Hoje com a Liliana Reis, especialista em Relações Internacionais. Boa noite, Liliana, bem-vinda. Vamos começar pelo conflito na Ucrânia. Volodymyr Zelensky está hoje no Reino Unido, foi recebido pelo rei Dom Carlos III no Palácio de Windsor e depois também pelo primeiro-ministro britânico em Downing Street. Keir Starmer disse hoje que o Reino Unido é o maior apoiante e aliado de Kiev. Pergunto-lhe que importância têm estes encontros do presidente da Ucrânia com os líderes europeus e se a resposta política da Europa tem sido efetiva.

Muito boa noite a todos. Em primeiro lugar, cumpre-me aqui sublinhar uma questão: é que esta coligação de vontades hoje reuniu-se no Reino Unido após o Conselho Europeu de ontem, que também se realizou por parte dos Estados-membros da União Europeia. Ou seja, este encontro hoje vem reforçar aquilo que provavelmente já ontem tinha estado em cima da mesa por parte dos chefes de Estado e de governo da União Europeia. Relativamente ao Reino Unido, tem sido desde o primeiro dia, e nós recordamos ainda antes com Boris Johnson, um dos principais aliados da Ucrânia e de Zelensky ao longo deste processo da agressão russa à Ucrânia. Neste momento, aquilo que se vislumbra é que haja uma articulação por um lado, a coligação de vontades e sobretudo por um dos seus líderes, que tem sido o Reino Unido, aliás, é o Reino Unido e a França, e também a União Europeia, quando já se começava a dizer que, na verdade, era a coligação de vontades que estaria a ser a força motriz deste apoio à Ucrânia. As decisões que estavam, de certa forma, a ser, pelo menos por parte quer dos europeus, em grande medida, não apenas pela França, mas também pela Alemanha, a ser discutidas era, por um lado, a utilização dos ativos russos na Europa para a reconstrução da Ucrânia. Só que nós vimos ontem a oposição da Bélgica e hoje a Bélgica voltou a reiterar a sua oposição, porque pretende uma garantia jurídica. O próprio FMI já veio questionar esta medida e quer que este acordo também inclua o G7 e o G20. Nós sabemos que estava em discussão cerca de € 140.000 milhões por parte da União Europeia para a utilização ao nível das reparações de guerra, mas também da reconstrução da Ucrânia. E houve uma oposição, como dizia, muito vocal por parte da Bélgica. Aliás, a Bélgica alberga o Euroclear, que é, na verdade, a central de valores mobiliários que tem, neste momento, a maior parte dos ativos russos. Isto por um lado. Depois, por outro lado, estavam também mais 11 pontos. A nível da discussão que se faria a propósito da ajuda à Ucrânia, estavam reunidos 12 pontos ou estavam em cima da mesa 12 pontos. Posso destacar dois ou três, como a libertação das crianças que a Rússia raptou, e que a própria Melania Trump tinha estado bastante empenhada neste processo. Estava também em cima da mesa a entrada quase imediata da Ucrânia na União Europeia, ou seja, aqui uma via verde para acelerar o processo de adesão, mas também não sei se virá a contar ou não com a oposição de alguns Estados-membros. Repare, nós no início desta guerra tivemos aqui algumas dissidências por parte da União Europeia. Talvez a mais visível de todas tenha sido, desde o primeiro momento, a Hungria, através de Viktor Orbán. Mas com o evoluir dos meses, aliás, e já vamos em três anos, nós começamos a perceber que havia alguma fragmentação no quadro dos Estados-membros, com a Eslováquia também em algumas matérias a opor-se, agora a Bélgica claramente aos ativos russos. E aquilo que neste momento me parece o mais difícil é efetivamente conseguir que os Estados Unidos, que não pertencem a esta coligação de vontades, mas que são os únicos que poderão dar as tais garantias de segurança, assumam um compromisso efetivo com a Ucrânia. E aquilo que nós percebemos desde o início desta semana, é que há uma volatilidade enorme por parte do presidente dos Estados Unidos numa posição coerente. Vimos o recuo também durante esta semana em relação à cimeira que se preparava para realizar em Budapeste entre Donald Trump e Vladimir Putin. Mas neste momento, o que a coligação de vontades procurará fazer, e as palavras do secretário-geral da aliança foram nesse sentido, claramente, é incluir os Estados Unidos na vinculação a estes 12 pontos desenhados pela coligação de vontades. Não sei, no entanto, se Donald Trump na próxima semana terá outra posição ou não. Neste momento, parece-me Aliás, até porque ele cancelou a reunião, porque isso poderia ser uma perda de tempo. Neste momento, parece-me que Donald Trump começa a perceber que efetivamente Putin não pretende recuar ao nível daquilo que tem sido a sua linha, nomeadamente conquistar mais território e de não recuar na anexação dos quatro oblasts, e isso é inadmissível para os europeus, porque é a amputação de um Estado soberano pela força e que viola todos os princípios do direito internacional.

E precisamente Vladimir Putin enviou um dos principais negociadores russos aos Estados Unidos, dias depois de os Estados Unidos terem avançado com sanções econômicas e depois também de, como já disse, Donald Trump ter cancelado a tal cimeira prevista para Budapeste. Isto pode ser encarado como uma tentativa de Vladimir Putin de salvar, de certa forma, a relação da Rússia com os Estados Unidos?

Eu diria que sim, por isso é que eu estava a dizer que é muito difícil antecipar o comportamento de Donald Trump relativamente à Ucrânia. Parece-me que esta ida de Kirill Dmitriev, que é o enviado especial russo para o investimento e cooperação econômica aos Estados Unidos, e repare, antecedendo a cimeira importantíssima que decorrerá na Malásia também nos próximos dias, é também uma tentativa novamente de aproximação com a Rússia, pelo menos do ponto de vista econômico e ao nível do investimento, para ir numa posição de maior conforto para uma reunião que se espera. Aliás, ele já disse que estaria disponível para se reunir com Xi Jinping nessa cimeira da Malásia. Agora, o que Putin também tinha dito é que as sanções adotadas, a propósito das sanções que me falava, pelos Estados Unidos, quer contra a Rosneft, quer contra a Lukoil, eram muito graves e teriam repercussões nas relações bilaterais com Washington. Ora, e envia, ao mesmo tempo, este enviado especial. Há aqui, efetivamente, pelo lado de Vladimir Putin, um jogo de xadrez muito calculado com Donald Trump, que me parece que este ainda não conseguiu perceber que há uma aliança que parece inquebrável entre Xi Jinping e Vladimir Putin, e que é muito mais sólida do que aquela que Donald Trump entende. Aliás, Donald Trump, desde o início, aquilo que foi revelando, era que pretendia fazer o que Nixon fez no início da década de 70 em relação à Rússia. Só que neste caso, ao contrário, no início dos anos 70, houve uma aproximação dos Estados Unidos à China, para ter o decoupling com Stalin e com a União Soviética. Neste momento, aquilo que Donald Trump pretendia era esta aproximação, este rapprochement à Rússia, para conseguir fazer com maior facilidade o decoupling com a China. Só que me parece que ele ainda não percebeu é que esse decoupling é quase impossível, uma vez que, como eu dizia, as relações entre a China e a Rússia são muito sólidas porque pretendem o mesmo, pretendem uma alteração da ordem internacional que os beneficie. E essa ordem internacional é claramente antagônica com aquilo que são as ambições de Washington.

Muito bem, vamos agora avançar para o conflito no Médio Oriente. O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, promete que o Hamas vai ser desmilitarizado, nem que seja obrigado a isso. E pergunto-lhe como é que a Casa Branca pode forçar esta desmilitarização do Hamas com tropas no terreno ou também se isto pode ameaçar o cessar-fogo.

O Marco Rubio, secretário de Estado norte-americano, está neste momento numa visita a Israel e ele veio dizer que tem que se precipitar o mais rapidamente possível a constituição desta força de segurança internacional em Gaza e que ela deve ser composta com países em que Israel se sinta confortável. Ou seja, com países que neste momento possam estar com os mesmos objetivos de Israel em relação a Gaza, nomeadamente países também do Médio Oriente. Agora, relativamente à desmilitarização, a não ser que esta força de segurança o consiga, parece-me pouco provável que as IDF o consigam fazer de uma forma solitária. Até porque, e aliás, eu já tinha referido também num programa anterior, que o mais difícil seria mesmo a desmilitarização do Hamas e, por outro lado, que parece-me ainda um objetivo mais improvável de ser atingido, que é a desradicalização da população, porque do ponto de vista sociológico, isto demorou anos a ser construído, ou seja, a radicalização da sociedade demorou e manteve-se durante muito tempo. Agora, essa desradicalização do dia para o outro demorará também, provavelmente, uma ou duas gerações Por isso, parece-me, a esta altura, que apenas esta força de segurança internacional poderá conseguir a desmilitarização. Ainda assim, não será uma tarefa nada fácil, até porque há aqui alguns parceiros, como por exemplo, a Turquia, e recordo-me de hoje ter lido que Erdogan disse que o Hamas estava a cumprir o acordo, quem não estaria a cumprir o acordo seria Israel. Aliás, de quem acusou de violar o cessar-fogo. Repare-se que Israel também ainda não recebeu todos os corpos dos reféns que foram mortos e provavelmente o Hamas nem sequer sabe onde está parte desses corpos. Mas nós tivemos já aqui esta sinalização por parte da Turquia, relativamente ao posicionamento que tem e com quem é que está. Não sei, neste momento, se também Netanyahu pode estar a contar com alguns apoios que com o evoluir da situação, podem também recuar relativamente ao plano previsto.

Para terminar, alguns movimentos palestinianos, incluindo o Hamas e a Fatah, concordaram hoje com a entrega temporária da Faixa de Gaza a um comitê independente de tecnocratas, isto no seguimento do cessar-fogo alcançado no território. E pergunto-lhe se esta proposta dos Estados Unidos, agora com luz verde do Hamas e Fatah, tem agora condições para avançar.

Pelo menos tem um maior suporte. Daquilo que nós já conseguimos perceber é que há um maior suporte, até porque também Marco Rubio veio dizer que os Estados Unidos não apoiarão, por exemplo, a anexação da Cisjordânia. Ou seja, há uma tentativa por parte dos Estados Unidos de mapear e pontuar aquilo que são, de certa forma, também as próprias ambições por parte do atual governo israelita. E por isso, pode recolher aqui algum apoio de outras entidades palestinianas, não apenas da Fatah, mas já há outras entidades que também vieram mostrar disponibilidade para essa situação e que poderá trazer condições de sucesso que não estariam garantidas se, por um lado, estas entidades extra Hamas não estivessem empenhadas e, por outro, os Estados Unidos também não estivessem comprometidos com essa situação.

Obrigada, Liliana Reis, por ter estado conosco na Rádio Observador, o gabinete fica por aqui.

Muito obrigada.

Estaremos de regresso na próxima semana.

E muito bom fim de semana. Obrigada.