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Este é o Gabinete de Guerra da Rádio Observador. É nosso convidado o major General Isidro Morais Pereira. Eu sou a Judite França. Bem-vindo, obrigada por se juntar a nós. Vamos começar pela notícia que dá conta de que o Hamas aceitou formalmente a resolução de cessar-fogo aprovada no Conselho de Segurança da ONU e diz-se pronto a negociar. Podemos finalmente esperar por um acordo que Israel aceite os termos da ONU?
Antes de mais, muito boa tarde. Eu diria que estou otimista, mas com algumas reservas, porque esta declaração do Hamas formal que aceita o conteúdo deste acordo de cessar-fogo proposto, portanto, aprovado por uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas, até sob a forma de resolução, apenas com a abstenção da Rússia, 14 votos a favor, tem um aspecto que não é claro. Porque Israel tem dito que concorda com o cessar-fogo, desde que ele inclua pausas temporárias no conflito até que o Hamas seja derrotado, enquanto que o Hamas sempre disse e continua a afirmar que aceita o acordo, desde que este garanta o fim da guerra. Deixando, no fundo, nas mãos de Washington, a garantia de que Washington seja capaz de exercer uma influência suficientemente forte sobre Israel para que Israel cumpra uma proposta. Nós conhecemos mais ou menos este acordo em três fases, com entrega de reféns em diversas classes, mas é preciso dizer que o Hamas disse que concordava com este acordo, mas que está pronto para negociar detalhes. E o diabo está, de facto, nos detalhes. Vamos ver se nesta negociação dos detalhes, finalmente Israel e o Hamas chegam a um acordo, porque já tivemos o exemplo do acordo que o Egito disse que o Hamas teria concordado e que depois Israel não concordou porque não era bem isso que Israel queria. Portanto, são estes pequenos detalhes que nos levam a manter algumas reservas. De qualquer forma, tal como Antony Blinken tem dito, é positivo que as negociações continuem, que se calhar vão demorar alguns dias, até algumas semanas, mas são sempre um sinal de esperança que finalmente a paz chegue a este enclave, à Faixa de Gaza, e que se possa começar a pensar numa solução de futuro, numa solução de dois Estados e na reconstrução de tudo aquilo que está destruído para que haja uma luz ao fundo do túnel. Agora eu, sinceramente, só vendo. Aqui há algo que me parece que é fundamental. Eu vou sublinhar, e para terminar, este aspecto: o Hamas pretende um cessar-fogo completo e uma retirada total e incondicional das tropas da Faixa de Gaza. Israel, pelo menos até ver, está de acordo com pausas temporárias necessárias até longo prazo, mas não desiste de derrotar o Hamas, de forma que este não possa constituir ou não se consiga voltar a constituir como uma ameaça no futuro. Vamos ver até que ponto é que este diferendo e os tais detalhes, porque há aqui detalhes, e este não é um detalhe, este é, de facto, um aspecto extraordinariamente importante. Parece-me que, neste momento, os Estados Unidos estão muitíssimo interessados em que haja um acordo, até porque as eleições aproximam-se, as eleições nos Estados Unidos já são em novembro, estão a virar da esquina e naturalmente que o Partido Democrata não quer perder os seus votantes mais à esquerda que defendem um pouco esta causa pró-palestiniana. E é uma questão que compreendemos, que os Estados Unidos está a fazer tudo para que exista novamente paz. O próprio Joe Biden declarou que já basta de conflito, esta guerra tem que acabar, é tempo de acabar. Está bem, são palavras muito bonitas, mas na prática é preciso conseguir que, de facto, as partes concordem e que se faça a paz. Vamos ver, vamos aguardar com expectativa, porque as próprias palavras de Antony Blinken também não são completamente afirmativas, que haviam sinais, há sinais de esperança, isto são palavras do próprio secretário de Estado norte-americano. Isto é um sinal de esperança, mas é necessária uma palavra definitiva por ambas as partes. Portanto, vamos ter que continuar a aguardar, porque eu julgo que ainda há um longo caminho a percorrer para que a paz seja celebrada neste conflito.
E estão todos ainda a pisar gelo fino, como se costuma dizer.
Exatamente. Ainda se pisa gelo fino, ainda há muitos detalhes por discutir.
Passemos agora à guerra na Ucrânia e comecemos pelo encontro entre o presidente ucraniano e o chanceler alemão, a propósito de uma conferência sobre a reconstrução da Ucrânia, que está a decorrer na Alemanha. Em cima da mesa está mais ajuda em matéria de defesa, nomeadamente a expansão do sistema de defesa aéreo da Ucrânia e a produção conjunta de armas. Major-General, Zelenskyy disse que esta ajuda será coordenada com a Alemanha antes da Cimeira da Paz, do Conselho Europeu e da Cimeira da NATO. É uma posição conjunta que terá acolhimento junto destas instituições, exatamente por ser uma posição conjunta?
É uma posição conjunta. Quando há uma posição conjunta, quando se acrescenta a vontade da Ucrânia à vontade da Alemanha, e nós não podemos esquecer que a Alemanha é a terceira maior economia do mundo e é o segundo maior contribuinte líquido para a Ucrânia, quer em termos de ajuda ao esforço de guerra, mas também à ajuda econômica. Portanto, aqui um acordo conjunto tem sempre mais força do que uma palavra singular, quer por parte da Alemanha, quer por parte da Ucrânia. É curioso, e eu julgo que isto é de sublinhar, que quando se fala, e o título deste encontro, desta conferência, é sobre a reconstrução, que se fale mais em armamento antiaéreo, que se fale mais em cooperação no domínio do desenvolvimento de novas armas em estreita colaboração da indústria ucraniana com a indústria alemã. E para dizer que isto até acaba por fazer todo sentido, porque nós temos que falar, sim, de reconstrução, mas antes de mais, temos que evitar ou temos que tudo fazer para evitar que se continue a destruir um país, que é aquilo a que temos vindo a assistir há mais de dois anos. Um país que está a ser destruído diariamente, colocamos sempre a questão. Já se fez um cálculo, são precisos mais de mil milhões, são precisos quase um trilhão de dólares para reconstruir a Ucrânia. E pergunta-se: vale a pena começar a reconstruir aquilo que foi destruído, se ele pode ser destruído no dia seguinte? Há determinadas áreas que vale a pena. Nós sabemos que a Ucrânia, neste momento, tem problemas severos e que têm que ser resolvidos, que é o problema da energia. A Ucrânia, neste momento, tem grande parte do seu sistema produtivo de energia elétrica destruído. Cerca de 50% está completamente off, está destruído. E é preciso, no mínimo, eu não direi reconstruir as centrais termoelétricas ou as hidroelétricas, porque elas podem ser destruídas no dia seguinte, mas pelo menos a rede de transporte de energia tem que ser refeita para que, no mínimo, a energia que a Ucrânia não é capaz de produzir, possa ser canalizada aos outros países da Europa Ocidental para que os ucranianos no próximo inverno não morram de frio. Isso vale a pena ir reconstruindo. Agora, tudo o resto, temos que ser cautelosos, porque o investimento tem que ser feito, fundamentalmente, e é isso que está a passar, em alavancar mais sistemas de defesa antiaérea, que é isso que a Ucrânia não se cansa de pedir. E é por isso que o Zelensky voltou novamente a esta questão. O mínimo, e esse levantamento foi feito, e ele ainda hoje voltou a referir-se que a Ucrânia necessita, pelo menos, de mais sete sistemas de defesa antiaérea tipo Patriot, de longo alcance, mais sistemas de médio alcance, tipo Iris-T e NASAMS, e ainda um reforço dos sistemas de curto alcance, como por exemplo, os Stinger e os Gepard. E isto tem tanta mais importância que no final deste mês ou no mês seguinte, agora durante o verão, até o final do ano, nós sabemos que a Ucrânia vai finalmente receber os F-16. E esses aviões, que são aviões que foram modernizados, são aviões muito capazes, têm que ser protegidos quando estão nos seus aeródromos militares de manobra. E daí a importância do fornecimento de sistemas de defesa antiaérea baseados em terra, justamente aqueles que eu referi. Portanto, é de facto uma conferência em que o grande tema é a reconstrução da Ucrânia. Acho muito bem que se comecem a fazer planos para reconstruir tudo aquilo que foi destruído. Já se fala em cativar os ativos russos do Banco Central da Rússia, que estão detidos quer no espaço europeu, quer no espaço norte-americano. Já começa a haver alguma concordância entre ambas as partes, pelo menos os juros desses montantes poderem ser alavancados para ajudar, quer militarmente, quer em termos de economia à Ucrânia. Mas, no fundo, neste momento, parece-me que muito mais importante do que pensar na reconstrução da Ucrânia a sério, é preciso pensar em dar meios à Ucrânia para que ela se possa defender e possa evitar mais destruição do que aquela que foi efetuada. Isso é que é verdadeiramente importante e é por isso que Zelensky pede mais armamento e mais defesa antiaérea e, de facto, a questão da reconstrução é relegada para segundo plano, de alguma forma.
Entretanto, a presidente da Comissão Europeia, na mesma conferência, disse que as negociações de adesão à Ucrânia à União Europeia irão começar no final deste mês. Isto significa que a Ucrânia já conseguiu cumprir todos os requisitos de reforma que são necessários para se tornar membro da União?
Tudo indica, e o último relatório que eu tive oportunidade de ler acerca do estado de cumprimento dos requisitos, e são muitos, a que a Ucrânia tem que obedecer para poder candidatar-se a membro de pleno direito da União Europeia, o estado do andamento do cumprimento era extremamente positivo. Do relatório, de facto, ainda não estão todos cumpridos de forma integral, é um facto. Não é fácil um país em guerra poder cumprir integralmente todos os requisitos. Mas de qualquer forma, parece-me que a Ucrânia está, de facto, no bom caminho E é de facto um sinal muito claro e de grande esperança que Ursula von der Leyen está a dar não apenas a Volodymyr Zelensky, mas sobretudo ao povo ucraniano. E o povo ucraniano precisa de facto de um sinal de esperança, porque há dois objectivos, um deles a adesão à União Europeia e o outro a adesão e a tornar-se membro de pleno direito da NATO. Esse é mais difícil de alcançar, porque seria de facto uma verdadeira exceção admitir no seio da NATO um país que está em guerra. Isso traria imediatamente a NATO para a guerra, como nós sabemos. Portanto, não será de esperar que no próximo mês, em julho, durante a Cimeira de Washington, se declare que a Ucrânia está em condições para poder integrar a NATO como membro de pleno direito.
Já é um grande passo.
Parece-me que é um grande passo a adesão à União Europeia e mais um passo nas negociações tendentes a incluir a Ucrânia no grupo da União Europeia. Parece-me que é um sinal claro por parte da União Europeia e também por parte da Ucrânia, que parece estar a fazer o trabalho de casa. Dito isto.
Para concluir, senhor Major-General.
E para concluir, isto é um grande otimismo da minha parte, mas temos sempre que pensar que continuamos a ter alguns países no seio da União Europeia e também da NATO, como a Hungria, sobretudo a Hungria, mas também a Eslováquia, que naturalmente irão colocar os seus obstáculos, os seus entraves. Portanto, vai ser um processo negocial longo, vai ser um processo negocial duro, difícil, mas no fundo, acho que a Ucrânia vai acabar por integrar naturalmente a União Europeia, assim esperemos, porque é um bom sinal de esperança.
E felizmente essas negociações começam já no final deste mês. Major-General Isidro Morais Pereira, obrigada pela disponibilidade e participação. O Gabinete de Guerra volta amanhã.
Muito obrigado.