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Gabinete de Guerra, Rádio Observador. Temos connosco esta tarde o Bruno Cardoso Reis, historiador e investigador. Bruno, boa tarde. Temos duas guerras a acontecer neste momento, uma na Ucrânia e outra no Médio Oriente, na Faixa de Gaza. O que propunha começarmos a olhar para a presença de Volodymyr Zelensky em Bruxelas. Está a marcar presença no Conselho Europeu, que começa a discutir a situação da guerra na Ucrânia antes da discussão sobre os altos cargos para a União Europeia. Bruno, esta presença de Zelensky ou a posição da União Europeia face à guerra na Ucrânia pode influenciar de alguma forma esta negociação para os top jobs da União Europeia?
Boa tarde a todos. Sim, no fundo, seria difícil ignorar que estamos num contexto de guerra no continente europeu, ou seja, regressou uma guerra de conquista em grande escala, como nós não víamos desde a Segunda Guerra Mundial, desde 1945. Há ameaças repetidas de responsáveis russos em relação a países membros da União Europeia e, portanto, isso é um contexto incontornável. Os países europeus realmente precisam de investir mais e precisam de investir melhor, de forma mais coordenada em defesa, porque até já investem alguma coisa, mas são 27 um pouco a gastar cada um para o seu lado. Isso seria muito mais eficaz se realmente se conseguisse somar todo esse esforço de investimento. E, portanto, há implicações muito grandes também em termos de toda a gestão económica da guerra, não só a questão das sanções, mas múltiplas implicações, por exemplo, na questão dos mercados da energia, etc. Portanto, tudo isso são realmente questões. E há aí um efeito, ou seja, do meu ponto de vista, é um efeito que para já parece ser o correto, que é fundamental numa altura destas, em que não só temos aqui o Putin às portas, mas temos uma guerra no Médio Oriente, temos conflitos crescentes entre grandes potências, o risco de Donald Trump, que se declarou um inimigo da União Europeia quando foi presidente no anterior mandato, voltar a ser presidente dos Estados Unidos a partir de janeiro. É fundamental rapidamente haver uma decisão, não haver aqui um arrastar desta decisão da escolha quer do presidente da Comissão, quer do presidente do Conselho Europeu. É fundamental não dar aqui um espetáculo público de divisão, de impasse, de incapacidade de tomar uma decisão num contexto internacional que é muito adverso. Em particular, a responsável que está indicada, que é dada como mais provável para chefiar a diplomacia e defesa da União Europeia, o chamado alto ou alta representante, que seria a primeira-ministra da Estónia, Kaja Kallas, realmente, à partida, seria o sinal mais evidente da importância deste contexto externo e, em particular, da ameaça russa. Os países bálticos foram dos mais vocais e dos que há mais tempo foram alertando para a seriedade da ameaça russa, da estratégia de Putin e, em particular, também esta primeira-ministra Kallas. Se essa nomeação se confirmar, será um sinal bastante claro que a União Europeia continua determinada a apoiar a Ucrânia e a contrariar este expansionismo russo.
Mas tens a expectativa que as discussões no Conselho Europeu entre os líderes do governo dos 27 seja uma discussão fácil? Nós vimos Giorgia Meloni já a manifestar-se muito contra os nomes que estão a ser propostos para estas três áreas fundamentais e Viktor Orbán também veio dizer hoje que vai votar contra um acordo que classificou como vergonhoso. Essa divisão europeia existe?
Sim, há divisões. Há um caso digamos habitual, que é o de Orbán, mas vamos ver se ele ficar isolado, o que é que acontece, quais são as implicações disso. Não vejo que ele tenha propriamente uma alternativa muito melhor de um socialista europeu relativamente a António Costa, que de um modo geral é visto como alguém que consegue manter um bom relacionamento mesmo com outros líderes, outros chefes de governo no polo oposto, inclusive com o próprio Orbán, mas pode ser que ele queira esticar a corda, mas realmente não vejo muito que tenha uma alternativa viável. O caso Meloni é um pouco mais sério. A Itália é realmente um dos países centrais, um dos países fundadores, um dos países de maior dimensão, é a terceira maior economia da União Europeia, a seguir à Alemanha e à França. Portanto, isso tem outras implicações, mas apesar de tudo, também aí o fundamental é sempre perceber se estamos a falar, parece-me mais provável, Meloni garantir aqui que foi ouvida e que, sobretudo, a Itália consegue ter um vice-presidente da Comissão, consegue ter uma pasta importante na nova Comissão, ou se não, ou se no fundo essa questão vai para além da barganha da negociação de lugares. Para já, eu inclinar-me-ia mais para essa hipótese, mas não quer dizer que não seja realmente um choque mais sério. À partida, o primeiro grande teste será realmente, por um lado, a decisão no Conselho em relação a António Costa e, por outro, a decisão no Parlamento Europeu, por voto secreto. E portanto, nós sabemos que à partida, Ursula von der Leyen tem uma maioria. Se os três grandes partidos europeus, as três grandes famílias políticas, socialistas, liberais e conservadores, o Partido Popular, se todos cumprirem aquilo que acordaram, teria uma maioria de 410 eurodeputados, portanto, bem mais do que 461. Tem acontecido no passado, à volta de 10% dos deputados que era suposto votarem, depois, na verdade, não votarem. Isso daria já uma maioria que andaria à volta dos 369, 370 eurodeputados. Portanto, vamos ver se ainda assim von der Leyen consegue ser eleita, até eventualmente com uma margem maior do que aquela que seria expectável, ou se não, ou se fica muito próximo da margem que precisa, isso apesar de tudo, seria um relativo enfraquecimento, ou eventualmente até se não consegue ser eleita, isso aí podia significar realmente voltar a discutir toda a distribuição de lugares que está em curso.
Bruno, olhemos também para a guerra na Faixa de Gaza, no Médio Oriente. O ministro da Defesa israelita está nos Estados Unidos e disse durante esta visita, isto são declarações hoje de manhã, que o exército israelita seria capaz de fazer o Líbano regressar à Idade da Pedra se entrasse numa guerra direta com o Hezbollah. Qual é o risco, neste momento, de alastrar o conflito para toda a região e não apenas na Faixa de Gaza?
O risco existe sempre. Até agora não se tem verificado porque, do meu ponto de vista, as partes não têm interesse nessa escalada em termos racionais. Mas há pressões políticas, há setores muito radicais, quer em Israel, quer no Hezbollah, quer no Irão, que é o principal apoiante do Hezbollah, que são muito críticos, por exemplo, do fato de não se ter dado mais apoio ao Hamas, não se ter forçado Israel realmente a abrir uma segunda frente, uma segunda zona de combate, não apenas em Gaza, mas também no sul do Líbano. Portanto, esse risco existe sempre. O que temos assistido nesta última semana, nestes últimos 10 dias, é um escalar da guerra verbal, digamos, da guerra de propaganda. O Hezbollah ameaçar, mostrar imagens com drones de cidades israelitas, inclusive ameaçar um Estado membro da União Europeia, Chipre. Israel a responder nestes termos, a dizer que tem capacidade para arrasar completamente o Líbano, o que também sabemos ser verdade, mas, por outro lado, o Hezbollah tem capacidades militares e de mísseis muito superiores ao Hamas. Tem um apoio, tem uma relação muito mais direta, é um movimento xiita filiado até em termos religiosos com o guia supremo iraniano, com o Aiatolá Khamenei. Portanto, a possibilidade desse conflito escalar de forma muito perigosa realmente devia preocupar toda a gente, a começar pelos estados da região, mas também os estados europeus, inclusive a começar por Chipre. Esse risco existe sempre. Esperemos que o esforço de contenção por parte dos Estados Unidos, que tem sido a sua grande prioridade em tudo isto desde outubro, evitar uma escalada regional de grande intensidade, que esse esforço se mantenha e continue a ter resultados, assim como dos países árabes moderados, que também não têm interesse na escalada, e dos setores moderados no Líbano e em Israel, que também se opõem a uma escalada, a um intensificar do conflito, a um alargamento do conflito.
E esta visita aos Estados Unidos pode significar mais um pacote de ajuda norte-americano militar para Israel. Qual é o objetivo destas visitas israelitas a Washington?
É manter os pontos com um aliado muito importante. Essa aliança passa também por esse apoio militar. Há o que já sabemos, é que os Estados Unidos mantêm que vão suspender, vão manter suspenso o fornecimento a Israel das munições mais pesadas, que à partida são armas ofensivas especialmente destrutivas e que poderiam ser usadas contra Gaza e inclusive causar danos muito significativos entre a população civil. Isso mantém-se, mas Israel continuará a receber outro tipo de armamento, por exemplo, aquele que precisa para contrariar os ataques com mísseis e drones do Hamas e do próprio Hezbollah, que para já tem sido em relativa pequena escala, mas se tem verificado quer no norte de Israel, quer em zonas vizinhas da Faixa de Gaza. Portanto, no fundo, é garantir que apesar destas tensões, apesar da clara insatisfação do presidente Biden com as opções que têm sido tomadas por Benjamin Netanyahu, que não há aqui um completo corte, nomeadamente nas comunicações entre o governo israelita e os Estados Unidos, apesar de terem perspectivas muito diferentes sobre como é que este conflito deve evoluir.
Bruno, hoje, esta manhã, o Gabinete Central de Estatística da Palestina partilhou uns números que são reveladores do impacto que a guerra está a ter no enclave, mas não só. O PIB palestiniano global sofreu uma contração de 35% no primeiro trimestre deste ano. Na Cisjordânia foi de 25%, na Faixa de Gaza, 86%. São números muito expressivos, mas que não surpreendem ninguém. Ainda há pouco, quando Joe Biden apresentou o plano para um cessar-fogo na região, uma das medidas a médio e longo prazo era a reconstrução quer da Faixa de Gaza, quer da Cisjordânia. Estes números tornam essa intenção cada vez mais necessária numa altura em que se começa a discutir cada vez mais o cessar-fogo.
A questão económica tem a sua importância, mas no fundo, o que isto se nos traduz é a destruição de grande parte das infraestruturas, das habitações, de todo o tipo de infraestruturas básicas que se estudam em Gaza. Depois há um efeito indireto também na Cisjordânia, até pelo receio de que o conflito se acabe por intensificar e alargar essa região. Mas evidentemente aqui a principal tragédia é realmente a questão das mortes, das baixas e dos feridos graves entre a população civil de Gaza. Aí o que é extraordinário é que realmente, apesar de ter uma ala dura bastante resistente a acordos, apesar de ter vários ministros que fazem declarações absolutamente inaceitáveis e inqualificáveis a defender a limpeza étnica, etc, a verdade é que o governo de Israel, muito contrariado, aceitou uma proposta de cessar-fogo que incorporava, aliás, uma série de questões em que o Hamas tinha insistido nas negociações que se arrastavam já há meses, e depois o Hamas continua a recusar essa proposta de cessar-fogo. Portanto, o que é extraordinário realmente é haver um movimento de resistência palestiniano, assim autodesignado, de resistência islâmica, isso quer dizer Hamas, que aparentemente considera que o seu principal objetivo realmente é continuar a combater Israel e no fundo aceita, e provavelmente uma parte da sua liderança até considera positivo, haver o máximo sofrimento de baixas entre a população palestiniana, porque isso é uma vantagem do ponto de vista da guerra, da informação, da propaganda contra o Estado de Israel. Portanto, esperemos que nomeadamente o apelo papal que ainda hoje foi feito no sentido de que as duas partes aceitem o cessar-fogo realmente se verifique e que não se confirme o meu receio, que é quanto mais isto se arrasta, mais complicado será que se chegue realmente a acordo e inclusive que o próprio governo de Israel, que agora já não tem elementos moderados, acabe por recusar também o cessar-fogo e portanto retirar a aceitação que tinha dado.
Bruno Cardoso Reis, historiador e investigador no Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Esta tarde a ajudar a lermos o que está a acontecer na Faixa de Gaza e também o que está a acontecer na Ucrânia e particularmente em Bruxelas. Bruno, obrigado. Boa tarde.
Boa tarde. Obrigado.
E o Gabinete de Guerra da Rádio Observador volta já amanhã.