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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Nos próximos minutos vamos falar sobre os conflitos em curso na Ucrânia e também no Médio Oriente. Eu sou o João Gamo, hoje contamos com o Major-General Isidro Morais Pereira, a quem digo desde já uma boa tarde, Major-General. Eu começo por lhe perguntar, que ao olhar para o Médio Oriente, temos esta notícia a marcar esta tarde: Israel resgata mais um refém da Faixa de Gaza, que estará numa condição médica estável, um cidadão de 52 anos que foi resgatado de um túnel no sul do enclave. Ainda assim, o exército israelita não partilha pormenores deste resgate para não comprometer ações futuras. Eu pergunto-lhe, Major-General, como é que esta operação acontece e se podemos esperar ver esta notícia mais vezes?
Sim, eu julgo que Israel tudo fará num futuro próximo e a médio prazo para resgatar da forma que resgatou este cidadão, que felizmente encontra-se num estado de saúde razoável, como referiu. E curiosamente, trata-se de um israelita que é muçulmano, quer dizer, é um homem que é muçulmano, professa a religião islâmica. No entanto, vive numa região de Israel, tanto quanto consegui apurar, em perfeita harmonia com todos os judeus. Nós sabemos que existem comunidades islâmicas em Israel que vivem em harmonia com os outros israelitas que professam uma religião diferente, que é a religião judaica. Portanto, é uma boa notícia, é uma notícia que deve naturalmente encher de alegria os familiares e vê-se a uma imagem que eu consegui ter acesso, em que de fato há um irmão deste senhor com 52 anos no hospital. Este também foi conduzido pra uma instalação hospitalar em Israel. Está a ser avaliado o seu estado de saúde, os primeiros reportes é que o estado de saúde dele é razoável e é um bom indicador que Israel não desiste dos seus, desta forma, tentando resgatar pela força alguns, pelo menos, dos que nós acreditamos que ainda estejam vivos. Quer dizer, daqueles cerca de 100 reféns, não será provável que se encontrem todos vivos. Aliás, seria muito pouco provável que isso acontecesse, mas segundo os reportes ou a avaliação que fazem as Forças de Defesa de Israel e as agências de informações, que uma quantidade razoável, eu julgo que são mais otimistas do que a realidade, mas isso é uma opinião pessoal minha, que cerca de dois terços destes reféns que ainda se encontrarão ainda com vida. Esperemos que sim e veremos, já que de outra maneira, ao final do dia de ontem, as notícias relativamente às negociações a decorrer no Cairo não são animadoras de forma alguma, embora os Estados Unidos, através dos seus porta-vozes, continuam a insistir numa toada de grande otimismo, que as negociações estão a decorrer. Neste momento, em termos de importância dos tópicos pra discussão, para que as negociações não fossem paradas, puseram à frente os pormenores sobre aquilo que é realmente importante, porque nós sabemos que o grande diferendo que opõe o Hamas a Israel são duas questões fundamentais. Quer dizer, o Hamas está disposto a negociar desde que Israel retire incondicionalmente todas as suas forças da Faixa de Gaza. Ora, nós sabemos que Israel não está disposto a essa situação, muito embora já tenha, de alguma forma, flexibilizado aquilo que era a sua proposta inicial. Portanto, estão em causa, no mínimo, aqui os dois corredores, o corredor Filadélfia, que corresponde grosso modo à fronteira entre Israel e o Egito, a fronteira sul, são cerca de 14 km. Israel tinha proposto a existência de 14 checkpoints, neste momento dispensou alguns deles. Não, oito checkpoints, dispensou cinco, não dispensa de ter no mínimo três, pra controlar todos os movimentos que podem existir do Egito pra Faixa de Gaza e vice-versa. E depois aquele corredor Netzarim, que foi uma estrada aberta que corta a Faixa de Gaza ao meio e que se dirige desde o território de Israel até ao Mar Mediterrâneo. Portanto, isso é uma forma de controlar o movimento de terroristas de norte para sul e de sul para norte. É outra forma de evitar que o Hamas possa empreender um conjunto de tarefas, um conjunto de atividades destinados a reagrupar-se e a readquirir novamente uma capacidade efetiva de combate. Portanto, nós sabemos que Israel não desiste, são palavras do próprio primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, não desiste do seu propósito de enfraquecer ou neutralizar a capacidade militar do Hamas, já que neutralizar o Hamas enquanto movimento político não me parece possível, até porque grande parte dos seus dirigentes se encontram fora da Faixa de Gaza e até da Cisjordânia. Encontram-se muitos deles no Líbano, exilados, outros no Qatar. Portanto, eliminar por completo este movimento é uma miragem, não é algo que seja palpável e que seja realizável no curto prazo, mas pelo menos a capacidade militar, disso Israel dá provas de não querer desistir. Portanto, há aqui questões de fundo Que têm que ser resolvidas. A proposta americana é que vamos resolvendo os pormenores, tais como quantos reféns serão entregues por semana. Também havia um diferendo: Israel pretendia cinco, no mínimo, reféns vivos por cada semana, entregando em troca alguns palestinianos presos nas prisões israelitas, normalmente em um número superior de três a quatro vezes mais. Mas o próprio Hamas está dito que só estaria disposto a entregar três reféns vivos de cada vez. Parece-me que o Hamas também tem alguma dificuldade em entregar aquilo que é a joia da coroa, quer dizer, no fundo, o seguro do Hamas são os reféns. Se o Hamas neste momento perdesse os reféns, estaria completamente condenado. Até as notícias que têm sido veiculadas acerca do líder, na altura líder da fação militar do Hamas, neste momento também é o líder político, Yahya Sinwar, que já terá abandonado os túneis, porque os túneis têm sido sujeitos a ações de combate intensas e que ele andará algures na Faixa de Gaza até disfarçado de mulher, em vestes de mulher, para poder continuar a controlar a atividade do Hamas. Vamos lá ver, as Forças de Defesa de Israel, na estimativa que fazem é que neste momento a capacidade militar ou combativa do Hamas está reduzida a 10% daquilo que era no pós 7 de outubro. Mas ainda há uma capacidade residual da qual Israel não desiste. No fundo, e relativamente à pergunta que me fez, é provável que no futuro a curto prazo e a médio prazo, ou seja, nos próximos dias, nas próximas semanas, possamos assistir a operações de resgate, libertando mais reféns. Eu digo que é possível, porque quanto mais diminuta for a capacidade de combate das Brigadas Al-Qassam do braço armado do Hamas, mais fácil será, naturalmente, as Forças de Defesa de Israel levarem a cabo operações de resgate de reféns com sucesso.
Major-General, deixe-me virar aqui a página para falarmos também um pouco sobre a guerra na Ucrânia. Volodymyr Zelensky disse hoje que quer apresentar a Joe Biden um plano para terminar a guerra já em setembro e diz que a operação que está a ser levada a cabo em Kursk faz parte desse mesmo plano, isto numa altura em que a Ucrânia diz que já controla uma centena de aldeias russas em Kursk. Que plano pode ser este e por que Kursk parece ser uma peça fundamental?
Nós não nos podemos esquecer que Kursk é território russo. Neste momento a Ucrânia tem cerca de 1300 km² que controla de fato, e está na perspectiva de poder estender estes 1300 km² para mais cerca de 700 km², que é toda uma faixa que fica a sul do rio Seims, o rio sobre o qual as pontes permanentes foram destruídas e mesmo as pontes militares improvisadas pelos russos têm sido alvo diário da artilharia ucraniana. Portanto, esta incursão de 1300 km² pode transformar-se rapidamente numa incursão de cerca de 2000. E de fato, a Ucrânia não parece querer desistir facilmente deste terreno, até porque embora o ímpeto das operações ofensivas tenha diminuído, aquilo que se está a verificar é que a própria Ucrânia já está a organizar o terreno, já está a cavar trincheiras para defender o terreno que conquistou. Este terreno é naturalmente uma espinha cravada na garganta de Vladimir Putin.
Claro.
Muito embora Vladimir Putin, na prática, esteja mais interessado neste momento em conquistar o Donetsk do que propriamente em expulsar os ucranianos de Kursk. Portanto, as decisões que ele tem tomado ultimamente são indicativas dessa intenção. Não é algo que estejamos a tentar adivinhar, mas é algo que deduzimos pelas decisões que Vladimir Putin tem tomado, porque ele proibiu os militares russos de desfalcarem a frente oriental, sobretudo na região de Pokrovsk e Toretsk. Nós sabemos que é onde estão a decorrer os combates mais intensos e onde a Rússia tem conseguido alguns avanços nos últimos dias. Aliás, até em termos comparativos, na última sexta-feira, as informações que nós tínhamos, confrontadas, vindas por um lado da Ucrânia, vindas por um lado da Rússia, confrontadas com institutos ocidentais baseados em observação geoespacial, a realidade é que as forças russas se encontravam a cerca de 13 km de Pokrovsk. Ontem, a mesma informação dá já um avanço de cerca de 5 km em poucos dias e as forças russas na região do Donetsk encontram-se neste momento a cerca de 8 km de Pokrovsk. Face à iminência da tomada de Pokrovsk, eu diria, e é preciso ter esta noção, Pokrovsk não é uma cidade qualquer. Pokrovsk é muito parecido com Bakhmut. Bakhmut tinha 70 mil habitantes antes de ser objeto de destruição completa, como nós sabemos. Pokrovsk era uma cidade de 60 mil habitantes, uma cidade já de uma dimensão média, uma dimensão razoável. Mas não é só a cidade em si que é importante. O que é importante é que Pokrovsk é um nó rodoviário e ferroviário extraordinariamente importante para o apoio logístico às forças ucranianas que defendem nesta região do Donetsk. E a queda de Pokrovsk facilita, e muito A continuação da ofensiva russa em direção às duas principais urbes do Oblast de Donetsk que estão por conquistar, que é Kramatorsk e Sloviansk, como nós sabemos. Há mais de um ano a esta parte que Putin vem fixando ao seu aparelho militar deadlines ou linhas de tempo para conquistar o que falta do Donbass. E o Donbass, para termos a noção, equivale, grosso modo, na prática, a Luhansk e Donetsk, que é esses dois oblasts que correspondem às autoproclamadas repúblicas independentes de Luhansk e Donetsk. Se recuarmos a 2014, esta insurgência que surgiu nesses dois oblasts foi na sequência da tomada da Crimeia, como nós sabemos, e por intervenção indireta de forças russas nesta região. Vladimir Putin hoje faz um discurso às suas patentes militares e a todos os altos dignitários do governo, em que refere claramente à questão econômica da Rússia e à prosperidade econômica da própria Rússia, e diz que só é possível a Rússia voltar a ter crescimento econômico sustentável se a operação especial que está a decorrer na Ucrânia for coroada de êxito. Putin, neste momento, pretende dizer aos seus colaboradores e ao povo russo que esta operação especial terá que ter êxito, porque dela depende a prosperidade econômica daquilo que é a Rússia na próxima década. Tudo indica que a Rússia não vai desistir da conquista, pelo menos de parte. Nós sabemos que quando o Putin se lançou nesta nova aventura expansionista, a ideia era conquistar Kiev em três dias e o resto da Ucrânia em sete dias. Isto é sabido hoje em dia e é um dado incontestado. Putin não conseguiu, fracassou, como nós sabemos, e foi fixando objetivos menos ambiciosos. Ainda há cerca de duas semanas atrás, o discurso de Putin era mais orientado para a conquista daquilo que tem vindo a ser designado por geopolíticos que rodeiam o Kremlin e por próprio Vladimir Putin, de um conceito que é a Nova Rússia. Nova Rússia, que é um conjunto de territórios que vêm desde o Oblast de Kharkiv, passam por Luhansk, Donetsk, Zaporizhzhia, Kherson e vão ligar basicamente àquilo que é a Moldova. Neste momento, parece que o objetivo não é um objetivo tão ambicioso, mas pelo menos parece que o objetivo desta operação especial não se limita ao Donbass. Penso que Vladimir Putin pretende conquistar, por ora, o Donbass, mas não desistiu daquilo que é este novo conceito de Nova Rússia e que no fundo permita à Rússia uma coisa que é, sob o ponto de vista geoestratégico e geopolítico, extraordinariamente importante, que é controlar inteiramente o mar de Azov e o Mar Negro. O acesso a mares quentes, como nós sabemos, porque o resto a Rússia só tem acesso aos mares frios. Em Murmansk, ao Ártico, e depois também na fachada leste, o acesso ao Pacífico, mas muito a norte, como nós sabemos, ao mar frios.
Agradeço ao Major-General Isidro Morais Pereira, que esteve conosco no Gabinete de Guerra a analisar os dois conflitos em curso na Ucrânia e também no Médio Oriente.
Muito obrigado.