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Está reunido mais um gabinete de guerra. Hoje temos como convidado o Major-General Isidro Morais Pereira, especialista em assuntos internacionais. Junta-se aqui ao Bruno Vieira Amaral e também ao Miguel Videira.
Major-General Isidro Morais Pereira, boa tarde. Bem-vindo mais uma vez à antena do Observador. Neste dia em que Oleksiy Arestovych, conselheiro de Volodymyr Zelensky, apresentou o pedido de demissão na sequência do ataque russo a Dnipro. Um edifício residencial ficou completamente destruído. O último balanço aponta para 44 mortes. Arestovych sugeriu que o edifício tinha sido atingido não por um míssil russo, mas pela defesa antiaérea da Ucrânia. Uma declaração aproveitada por Moscovo para declinar qualquer responsabilidade pelas vítimas mortais que resultaram deste incidente. Major-General, é uma perda de vulto para o regime liderado por Zelensky?
Eu não diria que é uma perda de vulto. Eu considero até que é o contrário. Eu julgo que é mais uma limpeza de vulto, porque um homem que aquente faz uma apreciação desta natureza e que agora vem reconhecer como errada, ele próprio a dizer que se enganou, porque se precipitou. Julgo que ou se precipitou por falta de conhecimento, ou se precipitou porque teria objetivos escondidos por trás. Eu julgo que as bombas-relógio deixadas pela Rússia um pouco por todo o seu antigo império soviético continuam ativas, continuam semi-adormecidas e a qualquer momento se manifestam. Eu não estou com isto a dizer que Arestovych se aja ao caso, mas é incompreensível que Arestovych tenha dito algo como aquilo que disse, porque mesmo que fosse um míssil antiaéreo da Ucrânia, um míssil que poderia ter embatido numa trajetória baixa contra o míssil russo Kh-22, um míssil antiaéreo que carrega cargas explosivas relativamente baixas comparado com o Kh-22. O míssil Kh-22 foi concebido fundamentalmente para destruir meios navais e até para destruir porta-aviões. É preciso ter a noção que este míssil carrega uma carga explosiva, um payload, de cerca de uma tonelada de TNT. É um míssil com uma capacidade explosiva brutal, enquanto o míssil antiaéreo carrega cargas de TNT muito mais baixas. Estamos a falar entre 35 a 70 quilos de TNT.
Portanto, descarta por completo a possibilidade de terem sido as baterias, até as defesas antiaéreas da Ucrânia a provocarem o colapso do edifício.
Parece-me que cada vez é mais claro de que este míssil, que é um míssil, como nós sabemos, eu já referi, Kh-22. Na terminologia da NATO, este míssil era conhecido pelo míssil AS4 Kitchen, que era a designação NATO, e que foi lançado, ao que tudo indica, por um Tupolev Tu-23M3 Backfire, portanto, foi lançado de avião. Foi um míssil que foi adaptado às suas funções iniciais. É um míssil com uma precisão relativamente baixa e que acabou por embater num complexo residencial de grandes dimensões. Aliás, um pouco à semelhança daquilo que tem sido feito ao longo destes 11 meses, quase um ano, de guerra na Rússia. Quer dizer, não é a primeira vez que nós assistimos a este tipo de ataques cobardes e à revelia daquilo que é consignado no direito internacional humanitário, a populações indefesas.
Senhor Major-General, mas a demissão deste responsável é o reconhecimento do erro?
É o reconhecimento claro do erro. Aliás, é isso que conseguimos ver na sua própria conta pessoal, onde ele se demite alegando que se precipitou e que se enganou. Pura e simplesmente, porque não é credível que um míssil antiaéreo possa ter causado uma destruição daquela natureza. Não sei se me permite, mas vamos imaginar. Estes mísseis antiaéreos funcionam fundamentalmente por choque, vão ao encontro da ameaça. Portanto, detetam-na, entram na trajetória balística através de um algoritmo, algoritmo esse que é detetado por um determinado movimento que o radar deteta, é por sua vez transferido para um computador e o computador calcula o algoritmo e esse algoritmo é lançado às armas e as armas lançam um míssil ao encontro do míssil que é lançado com efeitos atacantes. Normalmente, estes mísseis embatem um no outro e ao embaterem um no outro, e quando é em trajetórias baixas, causam uma destruição de ambos. Ambos ficam destruídos e, naturalmente, resultante dessa destruição, acontecem uma série daquilo que nós chamamos na linguagem militar, um conjunto de estilhaços a um conjunto de partes De ambos os mísseis que podem provocar, como provocaram já em algumas situações, até a destruição de vivendas, até podem provocar a morte de pessoas se lhes acertarem em cheio. Uma destruição como esta que vimos, completamente devastadora de um prédio com aquelas dimensões, não pode ser provocada como resultado da explosão ou de partes da explosão resultante do encontro desses dois mísseis. Não é admissível isto, é pura e simplesmente descartável.
Senhor Major-General, acha que este ataque russo foi um ato deliberado ou de fato houve ali um erro? Porque se admitia também a possibilidade do alvo ser uma central térmica que estaria por trás do edifício que foi atingido. Qual é a sua perspectiva?
Bom, eu acho que, para sermos justos, devemos considerar as duas possibilidades, porque se não existisse nas proximidades ou nas redondezas desta área residencial um objetivo dessa natureza, nós podíamos descartar de imediato relativamente à intenção. Noutros casos assim não foi, porque nem na região, nem nas redondezas havia qualquer tipo de objetivo militar e, portanto, a conclusão terá que ser naturalmente atingir as populações por forma a quebrar a sua vontade de apoiar os seus militares e o moral das populações por forma a dobrá-las e a prejudicar a vontade delas apoiarem a defesa do seu país como um todo. Neste caso, existindo esse objetivo e como este míssil não é um míssil de grande precisão, principalmente quando é utilizado para finalidades para as quais não foi concebido, essa possibilidade também não deveremos descartá-la de imediato. Ora, na minha análise, porque a Rússia já não é a primeira vez, este já é um dos incontáveis ataques a estruturas residenciais ao longo desta guerra. Portanto, por isso é que tanto poderá ser de uma forma intencional, como poderá ter sido um erro por falta de precisão deste míssil e que terá errado eventualmente o alvo, com as consequências devastadoras a que nós temos assistido. Todos os dias acrescentam mais um morto ou mais dois mortos.
Quarenta e quatro mortes, é esse o último balanço avançado, sendo que as operações de resgate já terminaram.
Hoje é também notícia, senhor Major-General, a possibilidade de um novo encontro entre altos responsáveis dos serviços secretos da Rússia e dos Estados Unidos, uma possibilidade que é admitida pelo chefe dos espiões russos. Qual é a utilidade destes encontros? Para que servem, na prática, estes encontros entre serviços secretos da Rússia e dos Estados Unidos? Nós sabemos que estes encontros têm vindo a verificar-se de forma periódica. Fundamentalmente, estes encontros têm como tema principal as questões das armas de destruição em massa e continuar as conversações por forma a evitar, de parte a parte, portanto, por parte dos Estados Unidos, o reafirmar de que a utilização de armas de natureza não convencional é absolutamente inaceitável, e do lado da Rússia, obter a confirmação de que não está em causa a utilização deste tipo de armas, a não ser nas condições que a Rússia tem vindo a referir, que a sua integridade territorial esteja severamente ameaçada ou que esteja na iminência de o ser. O que temos vindo a constatar é que estes territórios que foram anexados à Federação Russa, estou-me a referir não apenas à Crimeia, que já o foi anos atrás, mas com estas novas quatro províncias, ou oblasts, como lhe quisermos chamar, que foram anexados e ratificados em documentos legais, aprovados na Duma e ratificados pelo próprio presidente. Temos aqui que estes territórios poderiam ser considerados, tout court, território russo e que poderiam provocar, ao abrigo desta doutrina, a utilização de armas de destruição em massa. Porém, isso não tem acontecido, nem vai acontecer, e a probabilidade de acontecer é quase residual. Portanto, aquilo a que nós estamos a assistir é à Rússia. Ainda hoje assistimos, desculpe, só para terminar este raciocínio, a um discurso do Ministro da Defesa, Shoigu, a projetar um plano para a modernização e a reorganização das Forças Armadas russas com um programa a médio prazo, até 2026, procurando uma maior eficácia no campo de batalha, não apenas um aumento de efetivos, aqui até nos lucros de efetivos, ele referiu cerca de 1 milhão e 500 mil militares em armas, mas também aumentar a sua eficácia e a forma como estão equipados e armados. Isto, sobretudo, olhando para as questões convencionais. Se a intenção por trás fosse utilizar armas de destruição em massa, o conflito ficaria resolvido dessa maneira. Não seria preciso entrar aqui num processo de reestruturação tão profundo daquilo que é o aparelho militar russo. Portanto, penso que por essa parte, estes encontros são periódicos, não são nada de mais, é algo que se tem vindo a verificar e também é algo que a Rússia anseia, porque no dia em que os Estados Unidos decidirem que acabam com este tipo de encontros No fundo, a Rússia vai entender que é uma desconsideração. Nós não podemos esquecer que esta Rússia é o núcleo duro daquilo que era uma das grandes superpotências até 1989 ou 91, pra ser mais preciso, quando se assistiu ao desmembramento do Império Soviético. Havia duas superpotências, estávamos a viver no mundo bipolar, Estados Unidos de um lado, União Soviética do outro. Isto é uma forma de continuar a considerar a Rússia também como um ator global. E eu julgo que os Estados Unidos também, ao manterem estas reuniões com determinada periodicidade, é uma forma de ir considerando a Rússia no concerto global da importância que os Estados têm a nível global. Portanto, eu julgo que é uma forma até de acalmar a Rússia, de certa forma.
Senhor Major-General, Sergei Naryshkin, espero estar a pronunciar bem o chefe dos espiões russos, afirma também que é impossível a Crimeia regressar ao domínio da Ucrânia. E será possível as autoridades ucranianas aceitarem um acordo de paz que não contemple a soberania em relação à península anexada pela Rússia em 2014?
Vamos ver. Nós sabemos que os 10 pontos que foram naturalmente exigidos ou que são colocados em cima da mesa por Zelensky e pelo governo ucraniano pra poder haver negociações, contemplam a devolução da Crimeia. Agora, aquilo que na prática se pede, muitas vezes fica aquém. Pra haver negociação, terá que haver sempre algumas cedências. Não sei se a Crimeia estará incluída nesse tipo de cedências, mas uma coisa é certa: no dia em que houver negociações, elas vão estar sempre muito dependentes daquilo que forem os resultados da guerra, das vitórias no campo de batalha. Uma coisa é este chefe dos espiões dizer que a Crimeia está completamente fora de causa. Só estará fora de causa se a Ucrânia não for capaz de a reconquistar. Porque se a Ucrânia for capaz de a reconquistar, ela nunca poderá estar fora de causa. Aquilo a que as afirmações deste senhor remetem-nos, naturalmente, é para uma resolução que só é possível através de conquistas no campo de batalha, porque se a Crimeia fizer parte do pacote de território ou de uma porção de território que seja libertada pela Ucrânia, naturalmente, a Ucrânia não irá abrir mão deste território que é reconhecidamente seu, à luz daquilo que está considerado no Direito Internacional e na Carta das Nações Unidas.
Senhor Major-General, noutro assunto, a União Europeia confirmou hoje um pacote de ajuda à Ucrânia de 3000 milhões de euros, de um total de 18000 milhões. É fundamental este apoio e até quando é que na União Europeia haverá união e consenso para manter o ritmo deste apoio, que é bastante significativo?
Recuando um pouco, este apoio corresponde a um outro apoio que foi declarado por Washington. Washington decidiu apoiar a economia, porque a economia ucraniana, pra funcionar, foi calculado que precisava de ser ajudada com cerca de 36000 milhões de dólares ou euros. E os Estados Unidos da América deram um passo em frente e decidiram que iriam auxiliar a economia. Não estamos a falar no esforço de guerra, não estamos aqui a falar no apoio em armamento, em munições, no contexto militar. Estamos só a falar no contexto económico, para que as pensões sejam pagas, para que o aparelho de Estado continue a funcionar, para que a Ucrânia continue a funcionar como um Estado. E aquilo que foi pedido à União Europeia é que correspondesse com igual montante. E como nós sabemos, aqui não foi fácil, porque a Hungria colocou alguns problemas, houve outros países que também colocaram, mas entretanto, esse pacote acabou por ser aprovado. E esse pacote foi aprovado para vigorar em 2023. Os Estados Unidos libertaram a primeira tranche, foram os primeiros a libertar, e agora a União Europeia está a libertar a primeira tranche desses 18000 milhões, que são um global de 36000 milhões de euros ou dólares, que vão permitir que a Ucrânia continue a funcionar, que as suas instituições continuem a funcionar, quer a educação, quer os hospitais, quer o pagamento das reformas às pessoas e os ordenados, todo o aparelho de Estado. Portanto, isso é algo que está decidido para 2023. Aquilo que será decidido para 2024 vai depender da forma como este conflito se desenvolve. Porque se este conflito, entretanto, tiver um fim à vista ou terminar lá pra finais do verão, poderá ser uma possibilidade. Se este conflito se prolongar pra além de 2023, entrar por 2024, eu julgo que a Ucrânia, pra continuar a sobreviver, vai precisar, no mínimo, de um idêntico pacote.
Mais ajuda financeira, uma inevitabilidade.
É uma inevitabilidade. Quer dizer, e o Ocidente vai ter que pensar outra vez de que lado é que quer estar e se, de fato, quer continuar ou não a apoiar o esforço de guerra da Ucrânia e apoiar a Ucrânia pra que ela possa ser um Estado viável. Eu julgo que, pra já, temos 2023 devidamente apoiado. Aquilo que vai acontecer para o futuro vai depender muito dos resultados daquilo que vão ser os combates no campo de batalha e o evoluir da situação nas operações. Vai depender muito disso.
Senhor Major-General Isidro Moraes Pereira, muito obrigado pela sua participação e pela sua análise a estes últimos desenvolvimentos da guerra na Ucrânia. Um conflito que opõe a Ucrânia e a Rússia, mas que afeta todo o mundo. Foi mais um Gabinete de Guerra.