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E hoje é o Major-General Arnaut Moreira que se junta ao nosso gabinete de guerra, vai ajudar a responder às dúvidas da Judite França, Bruno Vieira Amaral e Vanessa Cruz. Vanessa, esta foi mesmo uma das piores noites da guerra na capital ucraniana, Kiev, e do lado russo. Há acusações de ataques com drones em Moscovo.
A Rússia acusa mesmo a Ucrânia de ataque terrorista. Kiev já veio negar qualquer responsabilidade ou envolvimento direto. Major-General Arnaut Moreira, bem-vindo. É a segunda vez em poucas semanas que temos um episódio parecido. Primeiro foi aquele drone que sobrevoou o Kremlin no início do mês. Os Estados Unidos, nessa altura, suspeitaram logo de um dedo dos serviços de informações ucranianos e agora, hoje mesmo, há pouco, o porta-voz da Casa Branca veio dizer que não apoia ataques dentro da Rússia. É provável que seja isto que está a acontecer, que haja aqui envolvimento ucraniano e, portanto, também um sinal de que a guerra pode escalar para um outro patamar?
Pois, eu tenho imensas dúvidas sobre este envolvimento ucraniano. Aliás, como tenho, apesar daquilo que o Departamento de Estado norte-americano disse, de que o ataque sobre o Palácio do Senado no dia 2 de maio tenha sido executado a mando das autoridades de Kiev. De qualquer maneira, o que se passa aqui são dois aspetos que me parecem muito importantes. Primeiro, isto não podia vir mais a calhar. Isto é, numa altura em que se intensificam os ataques brutais de Moscovo sobre Kiev, um incidente deste gênero vem, de alguma maneira, procurar equilibrar na narrativa russa e até justificar aquele conjunto de ações de plataformas aéreas ofensivas lançadas sobre Kiev. Portanto, este incidente não favorece a Ucrânia, porque a Rússia vai certamente explorar esta narrativa. Segundo lugar, não posso excluir que isto tenha sido conduzido pelo próprio serviço FSB da Federação Russa. E por que eu não posso excluir? Não posso excluir porque juntam-se três elementos de análise que me parecem muito importantes. O primeiro é este: eu tenho um passado ligado à intelligence e a primeira coisa que fiz foi à procura das fotografias. Ora, as fotografias que me apresentam deste prédio mostram duas coisas. Que houve efetivamente um impacto na fachada do prédio, mas num sítio onde não podia causar estragos. Isto é uma enorme coincidência, que um ataque sobre um prédio vá exatamente cair sobre uma esquina onde provoca o mínimo de estragos. Depois, a intensidade da explosão. Só partiram as janelas que estavam junto do sítio do impacto. A dois metros do impacto, as janelas não estão partidas, o que significa que foi utilizado um engenho explosivo propositadamente com pouca capacidade de detonação. Isto é muito importante, porque pode mostrar ou pode alimentar esta narrativa de que houve intenção do FSB de provocar estragos, sim, mas o mínimo de estragos possíveis, de maneira a não pôr em causa a estrutura do prédio. Outra questão. De acordo com o Ministério da Defesa, não foi apenas este o drone que impactou. Houve mais drones. De acordo com o Ministério da Defesa, terão sido autour de oito, que terão sido abatidos pelos meios da defesa antiaérea de Moscovo. Ora, entre esses meios, estão, sobretudo, um sistema muito sofisticado, que é o sistema Pantsir S, que é um sistema de míssil canhão. Ora, sempre que este sistema dispara, o controle aéreo dos aeroportos manda cessar aquilo que são as aproximações, isto é, o tráfego aéreo é desviado de Moscovo. Ora, não houve nada disto. O aeroporto continuou a funcionar, como de costume, como se houvesse o sentimento de que estes drones não iam na direção do aeroporto. Mas é muito estranho utilizar um sistema de defesa antiaérea que dispara mísseis para o espaço aéreo, sem que isso tenha qualquer interferência naquilo que é o controle do tráfego aéreo sobre a região. E depois ainda há mais um problema: a reação do presidente da Câmara foi muito pronta, muito rápida e cheia de informação. Cheia de informação, como quem sabe de antecedência aquilo que se vai passar. Portanto, eu tenho imensas dúvidas sobre isto. Primeiro, porque isto não oferece à Ucrânia nenhum tipo de vantagem numa altura em que a Ucrânia é claramente vítima de um ataque brutal. Depois, porque mesmo sendo forças de natureza ligadas à resistência ucraniana que tenham feito atuar estes drones, estes drones foram conduzidos de forma imensamente descuidada. E depois, porque aquilo que são os efeitos das explosões não correspondem efetivamente a um ataque. Ataque, sim, é aquele que está a ser feito de Moscovo sobre Kiev. Portanto, isto a mim parece-me que há aqui um conjunto de coincidências muito grandes para podermos atirar pela borda fora a teoria de que foi a própria Federação Russa que conduziu estes ataques.
Mas este tipo de ataques pode fazer parte de uma tal contraofensiva que a Ucrânia anunciou?
E que ainda não se viu, não é?
Sim. A Ucrânia está a formatar o campo de batalha e essa formatação tem a ver com os sistemas e as instalações onde estão reunidos o conjunto de equipamentos, por um lado, de tropas por outro e, sobretudo, de apoio logístico, munições, combustível, etc., que são importantes para o esforço de guerra por parte da Federação Russa. Isso está a ser conduzido. O ataque a Moscovo, do meu ponto de vista, se foi conduzido por alguém ligado à Ucrânia, é fora de tempo e não tem vantagem nenhuma para aquilo que é a formatação do campo de batalha que tem que ser feita pela Ucrânia antes do lançamento da sua contraofensiva.
Ao mesmo tempo, temos a capital da Ucrânia novamente sob ataque e esta terá sido uma das piores noites em um ano e três meses de guerra. Hoje também o Ministério Russo dos Negócios Estrangeiros disse que tem o direito de tomar medidas mais drásticas depois do ataque em Moscovo. Temos aqui capital contra capital, Kiev poderá ser um alvo preferencial a partir de agora?
Kiev tem sido a joia da coroa para os ataques do Kremlin. E eu, muito rapidamente, num minuto explico isto. É que aquilo que é o equipamento sofisticado que a Federação Russa dispõe, que são os mísseis de cruzeiro, os mísseis balísticos e os drones, só são úteis contra coisas que não mexem, isto é, coisas que têm coordenadas GPS fixas. Não são úteis contra o movimento de uma unidade militar, porque as unidades militares mexem-se e as coordenadas, entretanto, já foram introduzidas uma hora atrás e não são úteis nisso. Ou seja, a Federação Russa está a conduzir aqui uma guerra diferente da verdadeira guerra convencional. Ela não tem capacidade de atuar sobre a guerra convencional, então está a atuar sobre aquilo que é a capacidade psicológica das pessoas em aguentar este estresse permanente, de não as deixarem dormir e estarem permanentemente a ser bombardeadas. Qual é o problema aqui? O problema é que Moscovo esperava chegar a esta altura do campeonato com uma maior capacidade de provocar danos sobre Kiev. E entretanto, como o Ocidente reagiu prontamente e dotou Kiev de um conjunto de sistemas antiaéreos que têm provado a sua eficácia, Moscovo está aqui um pouco desesperado. Qual é a manobra seguinte? A manobra seguinte é ir gastando cada vez mais artigos críticos que a Federação Russa também não consegue produzir. A Federação Russa não consegue alimentar os gastos que tem tido neste tempo preparatório da contraofensiva ucraniana. E portanto, para poder ser eficaz, tem que enviar simultaneamente mais mísseis de cruzeiro, mais drones, mais mísseis balísticos. Ora, tudo isto é extraordinariamente caro, difícil de produzir e vamos chegar também aqui a uma situação crítica. Não se vão esgotar, do meu ponto de vista, apenas as capacidades ocidentais em fornecer sistemas antiaéreos. As próprias capacidades russas têm que ser muito bem geridas, porque a capacidade de reposição de sistemas de plataformas aéreas muito avançadas também é reduzida neste momento por parte da Federação Russa.
Obrigada pela sua análise, Major General Arnaud Moreira. Contamos consigo, como sempre, na sexta-feira para o "Domínio da Guerra", às 9:30 da manhã com a Maria João Simões. Obrigada.
Muito obrigado. Uma boa tarde.