Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Este é o Gabinete de Guerra das manhãs 360 esta quinta-feira com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Olá, Bruno, bom dia, bem-vindo.
Olá, bom dia, obrigado.
Olá, Bruno. Os Estados Unidos voltaram a atacar o Irão, houve explosões em Teerão e noutras regiões ao longo do Estreito de Ormuz. Bruno, Trump diz que Teerão está a pagar o preço pelo impasse nas negociações. Está é o desespero a falar?
Parece, em todo caso, ser uma tática negocial, pelo menos no entendimento de Donald Trump e dos seus próximos. Esta ideia de que se pode usar a força militar para tentar forçar o Irão a assinar um acordo. O problema realmente é que isso não tem estado a funcionar. A ideia de Donald Trump de que muito rapidamente depois de mostrar o poderio militar americano conseguiria um acordo muito melhor, muito mais amplo, muito mais exigente do que o acordo que foi assinado por Obama, que como nós sabemos, uma espécie de bête noire, de inimigo de estimação de Donald Trump. Isso realmente não se confirmou, até ver. E aliás, aquilo que está em cima da mesa, à partida, será o tal memorando de entendimento, será um acordo mais limitado, sobretudo para resolver este problema que foi criado pelo próprio conflito, que é a questão do fecho completo ou quase completo do Estreito de Ormuz a uma navegação segura e os problemas terríveis que isso cria para a economia global e de que aliás, estivemos a acabar de ouvir falar.
E Bruno, Teerão tem fôlego para manter este bloqueio total no Estreito de Ormuz ou este passo vai finalmente forçar a administração Trump a avançar com a invasão terrestre que tem tanto tentado evitar?
O perfil de forças que os Estados Unidos têm não apontam para uma invasão terrestre em grande escala. Agora, é verdade que tivemos nestes ataques um certo foco da parte dos Estados Unidos, numa série de ilhas e de zonas costeiras, que realmente são cruciais para o controle da zona do estreito, Bandar Abbas e a ilha de Qeshm, por exemplo. Isso pode significar que aquele outro cenário, que parece mais possível, não vou dizer provável, mas mais possível, tendo em conta o tipo de forças que estão lá, que é algum tipo de ação, digamos, anfíbia, algum tipo de ação de forças especiais, também dos fuzileiros, algum tipo de desembarque para controlar alguma destas ilhas. Também se fala em ingen de carro, que é crucial para a exportação de petróleo, isso pode ser mais realista. Aquilo que tem evitado que isso aconteça e que torna também esse cenário, apesar de tudo, menos certo, vamos dizer assim, é o facto de Donald Trump insistir sempre que esta é uma guerra diferente, não é bem uma guerra, é uma excursão ou um exercício, porque é importante recordar isso. Donald Trump, um dos pontos em que sempre insistiu e que foi, de acordo com as sondagens que nós temos também, dos principais motivos que levou muitos americanos a votar nele, foi esta promessa. Desde logo, baixar os preços.
Exatamente.
Que ele não tem estado a cumprir. Pelo contrário, esta guerra contribui exatamente para o oposto, mas também que não se iria envolver em guerras no Médio Oriente. E, portanto, aquilo que Donald Trump tem tentado dizer é: bem, pelo menos não guerras com tropas no terreno, não guerras com muitas tropas e muitas baixas, como aconteceu no Iraque ou no Afeganistão. Agora, o problema de base que está por trás dessa questão, e que é uma questão crucial, é que realmente não é evidente quais são os objetivos militares que possam ser facilmente atingidos pelos Estados Unidos, que possam obrigar o Irão a negociar, a aceitar um acordo, a fazer o compromisso político que Donald Trump quer. Isso, aliás, é um problema clássico nas guerras, que não é só derrotar o inimigo em batalha, é conseguir que o inimigo aceite que está derrotado e que o custo político de um compromisso que formalize essa derrota nos termos convenientes para o vencedor militar, é algo que é visto como aceitável.
O investigador iraniano, que é também professor universitário nos Estados Unidos, Amir Dabas, diz que Trump foi enganado e que a guerra transformou o Irão numa potência regional real. Concordas, Bruno?
A mim parece-me que o Irão, militarmente, sofreu um desgaste importante. Também está economicamente com grandes dificuldades, isso é verdade. Agora temos sempre aqui este problema, que é o regime iraniano. É um regime teocrático, autoritário, no essencial. É verdade, tem uma ala mais moderada, que é geralmente eleita, nomeadamente o presidente, mas que não é quem realmente decide. Quem decide é o guia supremo, que parece estar muito alinhado com esta ala mais dura do regime, que está disposto, e tem mostrado isso ao longo destas décadas, a fazer pagar um enorme preço à população iraniana em vidas e também em termos económicos, para realmente afirmar as suas ambições regionais. Desse ponto de vista, eu acho que o Irão perdeu nalguns aspectos, ou seja, por exemplo, perdeu o regime de Bashar al-Assad, em parte como resultado deste conflito com Israel. O Hezbollah está também militarmente muito enfraquecido, mas o Hamas obviamente também. Portanto, perdeu nalguns dos seus peões. Agora, é verdade que conseguiu fazer algo que lhe dá aqui um trunfo novo enorme, que é mostrar que mesmo sem uma marinha convencional, com meios não convencionais, com drones, simplesmente com minas, com a ameaça sobre o estreito, consegue um enorme problema para a economia mundial. E, portanto, este efeitoDa guerra sobre o Estreito de Ormuz, realmente deu um novo trunfo ao Irão e, nesse aspecto, deu novamente um certo protagonismo regional importante, porque obviamente o estreito é muito importante para o resto do mundo, para todo o mundo, em termos, nomeadamente, do mercado de energia, mas é ainda mais importante para os países do Golfo, que são grandes portadores de energia. Isso é crucial para a sua economia e grande parte dessas exportações têm de passar através do estreito.
O certo é que, apesar desta troca de ataques, Trump insiste que um acordo está muito próximo. Bruno, tu tens sublinhado que o estilo diplomático de Trump é profundamente errático e que as promessas de acordo rápidos começam a perder toda a credibilidade. Quem é que está a fazer pior a leitura deste conflito? A Casa Branca, com a sua pressa de fechar negócios por telefone, ou os generais iranianos, que já perceberam que as ameaças da destruição total de Trump são apenas blefe?
Há também esta ideia, que eu acho que merece alguma credibilidade, que isto também faz parte de uma estratégia de manipulação dos mercados. E aliás, temos tido algumas indicações, inclusive de negócios também com base nessas informações. Mas o problema de tudo isso é que, basicamente, é muito difícil avaliar as intenções do líder de uma potência tão importante como os Estados Unidos, quando as declarações do seu líder máximo, do seu presidente, têm muito pouco a ver com os factos, com aquilo que depois acontece no terreno. E, portanto, temos aqui, de facto, uma crise de credibilidade do presidente. Há esta teoria também da estratégia do Mad Men, até evocando uma figura como Richard Nixon, que era um presidente muito problemático em certos aspectos, mas alguém com uma grande visão estratégica e com muita capacidade no campo externo. Mas o problema dessa teoria é que, no caso do Nixon, a ideia era fingir que o presidente estava descontrolado e era meio louco, mas era a fingir. O presidente realmente tinha uma visão estratégica, isso não era sério. O problema é que quando realmente o presidente parece louco e sobretudo parece completamente imprevisível, isso já não é a teoria do Mad Man, é mesmo uma espécie de realidade. E, portanto, o que podemos concluir daqui, pelo menos para já, é que realmente os Estados Unidos são um grande fator de incerteza. E eu acho que isso complica a questão na negociação também neste sentido, que é: o regime iraniano também é um equilíbrio entre diferentes grupos. Há um grupo mais moderado e que está mais preocupado com a economia e com a situação econômica muito má, nomeadamente o presidente, e aparentemente também o presidente do Parlamento iraniano. Mas esses setores não são os únicos. Há uma linha muito mais dura que acha que é mais vantajoso continuar a guerra, desde logo para o seu próprio poder, por exemplo, os setores da Guarda Revolucionária. E, portanto, quando é muito difícil perceber se o presidente norte-americano realmente vai aceitar um acordo e em que termos, isso complica muito a vida a esses setores mais moderados, que no Irão poderiam ser decisivos para conseguir vender um acordo internamente.
Bruno Cardoso Reis, muito obrigada pela tua análise. Bom final de semana.
Obrigado, igualmente.
Obrigada, Bruno.