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Boa tarde, Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Hoje vamos olhar para o Médio Oriente e também para os mais recentes desenvolvimentos na questão da Gronelândia. Temos conosco Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Boa tarde, Jorge.

Boa tarde, António.

Muito obrigado por estar conosco mais uma vez aqui na Rádio Observador. Vamos começar pela questão da Gronelândia. Donald Trump publicou na Truth Social imagens geradas provavelmente com recurso à inteligência artificial, onde surge a hastear a bandeira dos Estados Unidos na Gronelândia com a legenda "Gronelândia Território Americano 2026". Como é que devemos ler esse tipo de desenhos? É apenas propaganda interna para a base do presidente norte-americano, ou ele está também a tentar testar os limites da comunidade internacional?

António, as duas. Eu acho que respondendo muito diretamente, as duas dimensões estão a ser consideradas. Neste caso concreto, além da insensibilidade e da infantilidade de estar a fazer desenhos, o que não é propriamente o que se espera de quem lidera a maior potência mundial, a verdade é que está a querer marcar posição tanto internamente como externamente. E por que agora? Passou um ano desta administração 2.0, ele procura, de alguma forma, explorar o sucesso da Venezuela, esconder um pouco o insucesso na Ucrânia, o taco, ou seja, a retirada, em última análise, em relação à China, mas depois internamente quer marcar posição, seja sobre a sua base de apoio, seja marcar posição para as midterms, e seja marcar posição contrariando o Congresso. Nisso eu acho que poderíamos considerar que, aliás, Davos está a decorrer agora e vai nos ajudar imenso na interpretação de todos estes processos. E não há dúvida que a NATO is a NATO, e a Europa está a sentir isso, não deixando de considerar que a Gronelândia é importante estrategicamente, a nível de rotas logísticas, a nível de proteção militar antimíssil, etc. Nesse aspecto, tem razão. Mas termina aqui a razão de Donald Trump. Ele teve 17 bases no passado, os Estados Unidos tiveram 17 bases, só têm uma porque retraíram estrategicamente e não se justifica qualquer tipo de ação, até porque dentro do artigo quinto poderia, dentro da NATO, voltar a ocupar e com a colaboração dos países aliados, vir a marcar uma presença mais forte na região. Não justifica essa carta a ameaçar a Noruega, a dizer que a Dinamarca não protege, que o Reino Unido ofereceu o Diego Garcia, portanto não podem confiar e por isso têm que atuar na Gronelândia. Quer dizer, tudo isso é completamente ridículo. E só para terminar, que aqui levantam-se três grandes cenários, aliás, até o levantamento é evidente na sequência de um estudo do Copenhagen Institute. Que passa, e eu não vou citar corretamente, mas será esta a ideia: três cenários, um de dissuasão da Europa, outro de dependência e outro de capitulação e portanto a arquitetura de segurança europeia está afetada, mas é preciso agir, sem dúvida alguma.

Referiu a questão da Europa, tivemos nos últimos minutos a informação de que o Parlamento Europeu chegou a acordo para travar a ratificação do acordo de comércio livre com os Estados Unidos. Tinha sido concluído o ano passado e ao não ser ratificado, não irá entrar em vigor. Vem na sequência também das promessas reafirmadas hoje por Ursula von der Leyen de uma resposta firme, unida e proporcional da Europa às taxas que Donald Trump ameaçava dar aos países que estivessem contra o controle norte-americano da Gronelândia. Que leitura podemos fazer destes últimos desenvolvimentos em relação à postura da Europa?

Esta resposta liga exatamente com uma pergunta anterior, sem dúvida alguma. Estamos a falar do quê? Do instrumento anti-coerção que foi aprovado em 2023. Basicamente, haveria aqui uma tripla modalidade possível, uma primeira que é chamada trade bazooka, ou seja, não permitir o acesso de empresas dos Estados Unidos ao mercado europeu, depois uma retaliação que provoca tarifas, ou suspender o acordo União Europeia-Estados Unidos, que foi o que foi agora anunciado. Em boa verdade, ele não tinha sido ainda implementado. É uma sinalização que não vai ser ratificado. É sinalizadora, é eficaz, mas evita, de alguma forma, uma escalada na minha perspectiva. Agora, o problema da Europa é que parte de um ponto de partida muito baixo. Esqueceu completamente a segurança, está muito atrasada nesse campo, acreditou na paz kantiana e agora está a tentar recuperar. Vimos isso na crise do Covid, vimos isso na invasão da Ucrânia em 2022 e depois internamente falta unidade, falta a consideração do interesse vital comum e muitas vezes sobreposto por interesses secundários nacionais. E claro, há pressões de atores internos, sem dúvida alguma, mas sem essa capacidade há aqui uma ameaça existencial, que não é só territorial, é também a nível do nosso modo de vida democrático, liberal. Liberal refiro-me na parte social, naturalmente, e não na parte Apenas política. Como o Vanderlei disse, está no tempo de ter uma nova Europa independente, em que o aperto de mão entre amigos demonstra que realmente não estamos a falar entre amigos.

Jorge, já falamos aqui da Europa e dos Estados Unidos, mas temos aqui outro peão importante na cena internacional que é a China. Pequim denunciou hoje no Fórum Econômico Mundial em Davos, aquilo que classificou como um regresso à lei da selva nas relações internacionais e também nas guerras comerciais e criticou a apresentação de tarifas, dizendo que é a defensora do comércio livre. Este caso da Gronelândia e as reações que está a provocar, estamos perante aqui uma reconfiguração da ordem internacional, com novos blocos a surgirem, novas alianças?

Excelente pergunta, António. Completamente. Estamos a um ano da administração Trump 2.0, em que verdadeiramente, e pegando mais uma vez no final da resposta anterior, não há amigos, só interesses. A velha expressão da diplomacia da canhoeira está em perfeita evidência, é uma projeção de poder sobre o direito internacional, há uma anarquia completa, transacionista. Portanto, há definitivamente uma nova ordem neste um ano da administração 2.0 Trump. Os Estados Unidos, o Trump nunca gostou da ordem internacional liberal, considera que não o favorece. Portanto, há aqui uma reconfiguração das placas tectônicas, sem dúvida. Um novo conceito de esferas de influência, que não é idêntico ao do tempo da Guerra Fria, mas a verdade, se reparar que há três, cinco anos, do que nós falávamos era o decoupling da China, e agora a preocupação passou para os Estados Unidos. E como Napoleão, eu não vou citar mais uma vez corretamente, mas mais uma vez fica aqui a ideia. Napoleão dizia: "Não interrompas o adversário quando está a cometer erros". Por isso a China e a Rússia, neste momento, compraram pipocas e estão a assistir ao filme.

É uma boa imagem.

Estou a tentar acompanhar, é sempre difícil, o que está a decorrer em Davos, mas gostei muito da intervenção do primeiro-ministro canadiano Carney, que estamos numa fase de ruptura e não de transição. É o que estamos a sentir agora neste momento.

Jorge, vamos agora olhar para o conflito no Médio Oriente e esta questão do Conselho de Paz para Gaza, proposto pelo presidente norte-americano. Há aqui uma certa tensão entre Paris e Washington em relação à Gronelândia, não falámos nisso para trás, mas esta tensão entre Emmanuel Macron e Trump também tem a ver com este conselho de paz. Os Estados Unidos ameaçam impor tarifas agora num valor inacreditável, 200% sobre vinhos e champanhes franceses, caso a França não aceite integrar este conselho de paz. Emmanuel Macron dá sinais que vai rejeitar este convite. Que leitura é que podemos fazer deste braço de ferro entre Washington e Paris?

O secretário do Tesouro norte-americano, o Bessent, já veio tentar aliviar um pouco a tensão, mas ela está lá. Está aqui uma pressão dirigida, ainda é só uma ameaça, ainda falta efetivar, mas o certo é que Trump já criou a instabilidade. É aquela técnica de negociação que ele adora, criar aqui uma ideia de loucura que depois pode ou não se concretizar. Ganhou o efeito de taco, ou seja, no último momento recuar, mas nem sempre o faz, o que deixa sempre aqui alguma instabilidade, principalmente em relação aos atores que são diretamente afetados. Agora, uma coisa é certa, haverá uma reação concertada da União Europeia. A União Europeia não quer simplesmente dar dinheiro e não ser ouvida. No caso concreto de Macron. Macron sempre tentou aqui uma pessoalização das relações internacionais, não teve grandes resultados nem com o Putin, nem com Trump. E a verdade é que agora acaba por aumentar o tom também. Em Davos, mais uma vez, disse que a União Europeia receberá de um grau mais de investimento da China e que prefere relações fiáveis a relações de bullying. Portanto, é uma direta, que não podemos dizer que é indireta, é uma direta a Donald Trump e que a Europa, obviamente, e aqui alargo um bocadinho, com diversos estilos, mas vai marcando uma posição, visto que há danos irreversíveis nas relações e, portanto, muita coisa está aqui em jogo e a Europa quer ser ouvida, quer ter autonomia estratégica, sem dúvida.

Enquanto Macron dá sinais de rejeitar o convite, ao mesmo tempo vamos sabendo que estes convites para integrar o Conselho de Paz para Gaza, que os Estados Unidos querem criar, foram feitos a vários países. Há a notícia de que Rússia, China, Israel terão recebido convites, assim como os Emirados Árabes Unidos, a Ucrânia, Turquia e inclusivamente Portugal. Este tipo de composição neste Conselho de Paz, que tipo de equilíbrio ou de desequilíbrio pode criar?

Tenho receio de ainda não termos informação suficiente, visto que ela está a ser dispensada aos poucos, muito ao estilo de Trump, que adora este caos, sem dúvida alguma, que ele o sabe jogar muito bem. Atenção que toda esta nossa análise é numa perspetiva de longo prazo de relações internacionais com uma diplomacia fiável. Naturalmente, para os interesses imediatistas de Trump, se calhar funciona. Ele daqui a 10 anos, se calhar não se preocupará muito o estado em que deixa o ambiente global. Nesse sentido, ele vai largando aqui alguma informação. Ele quer a liderança e ter os outros atores na fotografia. A instabilidade interessa a muitos, não há dúvida. Seja uma China que pretende aquela região pacificada por razões comerciais e passagem das rotas logísticas, seja uma Arábia Saudita, seja o mundo muçulmano de uma certa forma e portanto daí termos atores que vêm com bom grado estar presentes. Restará questionar se gostarão de estar numa foto sob liderança de Donald Trump. Tenho muitas dúvidas quanto a isso. Mas há outros atores que não estão minimamente envolvidos porque querem recuperar estatuto. Estaremos a falar de uma Rússia, estaremos a falar do Irão. Há aqui a questão específica dos proxies do Irão que também irão de alguma forma criar instabilidade e portanto esta paz por capitulação, que é a especialidade de Trump, traz uma estabilidade momentânea mas poderá não trazer uma estabilidade a longo prazo, que é esse o grande problema. Se por um lado ele procura, e com atores que veem nisso uma grande vantagem, uma estabilidade no sentido de alargar inclusivamente os Acordos de Abraham, por outro lado temos situações complexas que poderemos considerar, como a questão do Qatar, da Turquia, que Israel não aceita dentro dessa força, mas que por outro lado naturalmente é visto como importante pelos Estados Unidos e portanto cria aqui um mosaico muito complexo de encaixar, que só os desenvolvimentos nos próximos dias irão dar definitiva orientação. Seja como for, é um processo que se inicia com alguma instabilidade, não parece que reúna as condições necessárias para ter absoluto sucesso, até porque naturalmente mesmo dentro de Israel há uma pressão interna muito forte para que não se aceite este tipo de negociações e pelo contrário, se considere este território e a Cisjordânia como parte integrante de Israel. Começa logo aí a grande dificuldade. Depois a nível global naturalmente as placas tentam se ajustar, mas não acredito que Donald Trump consiga liderar o mundo nessa direção.

É uma análise que dentro de anos será com certeza bastante interessante de fazer. Obrigado Jorge por mais uma vez ter tido a disponibilidade de estar conosco aqui na Rádio Observador. Até uma próxima oportunidade. Tivemos conosco Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. O Gabinete de Guerra está de regresso aqui à antena da Rádio Observador, mais logo ao final da tarde.