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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço para fazer um ponto de situação sobre os conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente, hoje com o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, bem-vindo, boa tarde.

Obrigado.

Vamos também olhar para o que se está a passar no Mar das Caraíbas. Os Estados Unidos abateram hoje uma embarcação suspeita de envolvimento no tráfico de droga. O anúncio foi feito pelo secretário de Guerra norte-americano, Pete Hegseth. Seis homens morreram e o responsável pela defesa e pela guerra dos Estados Unidos promete continuar a caçar estes alegados narcotraficantes como se fossem da Al-Qaeda. O que está aqui em causa, Bruno?

Essa realmente é a grande questão. Há aqui uma coisa que é evidente, que isto é parte da estratégia de Donald Trump para mostrar que com ele não se brinca, que as fronteiras são para fechar, que os traficantes são para eliminar, portanto que ele vai ter aqui uma mão dura que não existiu antes em relação a tudo que sejam ameaças externas relativamente aos Estados Unidos. Agora, há várias coisas que depois suscitam mais dúvidas. Uma é, desde logo, a maior parte da droga que vai para os Estados Unidos não vem da Venezuela, que parece ser aqui, para já, o alvo principal. Mais uma vez, este navio, esta lancha de transporte de droga, alegadamente viria da Venezuela e transportaria droga, mas à partida, só 10% dessa droga é que vai para os Estados Unidos. A maior parte vem através da África, aliás, para a Europa. Também já há ataques na costa do Pacífico, com lanchas de alegadamente tráfico à partida Colômbia. Aí sim, essa é a principal fonte realmente de abastecimento de cocaína dos Estados Unidos. Mas enfim, Donald Trump, como qualquer líder populista, não se preocupa muito com esses detalhes. Em termos de imagem, isto parece ser exatamente o tipo de imagens que ele quer. Mas realmente, em termos de controle do tráfico de drogas, a maior parte dos analistas acham que não será muito eficaz. Ainda há uma outra dúvida, que é: há realmente aqui uma concentração significativa de meios navais e até de uma força expedicionária de Marines, que tem around 1500 fuzileiros norte-americanos, que está concentrada nas Caraívas, sobretudo a partir de Porto Rico. E portanto, aí também há esta especulação que no fundo isto pode ser uma espécie de ameaça de intervenção militar na Venezuela. Aquilo que eu tenho dito, aquilo que me parece é: olhando para o perfil da força, não seria a força necessária para invadir a Venezuela. Basta nós compararmos com a intervenção militar americana no Panamá, que é a última importante nesta região, em 1989. O Panamá é 10 vezes mais pequeno do que a Venezuela e essa força tinha around 27 mil soldados, além das tropas americanas que já estavam na zona do canal do Panamá. Portanto, claramente, no máximo que poderemos ter aqui é uma força para fazer algum tipo de raide, algum tipo de ação em terra, mas não propriamente uma invasão em grande escala. Apesar de tudo, os meios têm estado a continuar a acumular-se, há de facto mais ataques e temos este problema, que é termos não um, mas três líderes populistas. O próprio presidente Maduro, obviamente, é um exemplo máximo do efeito destrutivo do populismo, mesmo num país como a Venezuela, que tem as maiores reservas de petróleo do mundo. A Venezuela hoje em dia é o campeão não da exportação de petróleo, cuja produção caiu quase 25%, mas da exportação de refugiados. É o país com mais refugiados no mundo, talvez seis milhões, mais do que muitos países em guerra, mas realmente é um líder que vive bem com isso e que vive bem com estes choques verbais com Donald Trump. Outra coisa é se os choques já irão escalar para um choque armado mais sério. Mas isso também tem riscos para Donald Trump, que está aqui claramente a jogar com estas imagens, mas também prometeu aos seus eleitores que não iria envolver-se numa guerra em grande escala em lado nenhum e, portanto, no fundo, uma invasão e ocupação da Venezuela seria uma operação militar muito ambiciosa e muito arriscada. E depois o próprio presidente Petro, da Colômbia, também tem este perfil de um líder populista. Portanto, vamos ver se este choque de populistas não leva aqui, no fundo, a uma escalada arriscada, eventualmente, que escape ao controle, às intenções iniciais, até dos próprios líderes.

Pode ser uma forma de Donald Trump desviar atenções de outros palcos internacionais, como por exemplo, a Ucrânia e o Médio Oriente, focando as atenções aqui nas fronteiras dos Estados Unidos?

Eu acho que é sempre, e sobretudo com Donald Trump, uma questão de focar a atenção nele, ou seja, dele ter mais palco mediático, seja com que pretexto for e em que zona for. Portanto, acho que é sobretudo isso. E desse ponto de vista, lá está, percebe-se que tenha alguma lógica. Obviamente, tem havido contestação também do ponto de vista da legalidade deste tipo de exercício, ou seja, realmente Donald Trump tomou aqui alguns cuidados, no sentido que, à partida, isto combate-se por uma via policial legal, mas é verdade que ele declarou estes narcos, estas organizações criminosas, como organizações terroristas, portanto, está a tentar utilizar a doutrina legal que foi, como referiste, desenvolvida relativamente à Al-Qaeda, esta ideia de unlawful combatants, portanto, combatentes que não respeitam as leis da guerra, terroristas que não combatem de acordo com as normas habituais de um conflito armado e, portanto, tem que se lidar com eles de uma forma que não é a que se usa em relação à criminalidade normal, vamos dizer assim, e que está mais próxima de um conflito armado. Mas mesmo isso suscita também dúvidas, mas tudo isso, do ponto de vista de Donald Trump, são ganhos. No fundo, ele pode sempre dizer: "Isto mostra que quem se opõe a isto realmente não quer combater a sério as drogas, o tráfico de drogas, sou eu é que faço isso com mão dura".

A imagem do líder forte. Na Ucrânia, Bruno, hoje esteve em cima da mesa várias notícias sobre isso, a citar várias fontes diplomáticas, sobre a possibilidade de usar os ativos financeiros russos que foram congelados na Europa para comprar armas à indústria norte-americana, uma reivindicação de Kiev, mas não houve consenso europeu. A Bélgica terá bloqueado este empréstimo à Ucrânia. O que é que está aqui em causa e isto faria a diferença na guerra da Ucrânia?

Fazia uma enorme diferença. São mais de 100 bilhões de bens congelados russos, e significaria vários anos de apoio a um nível próximo do atual. Realmente seria punir a Rússia pela sua invasão, garantidamente. Agora, realmente o problema aqui é que os europeus continuam a agir como se estivessem em tempos de paz e não em tempos de guerra, nomeadamente, neste caso, a Bélgica. Eu percebo que se tenha aqui um mínimo cuidado em termos jurídicos pra encontrar uma fórmula que diga: "bem, isto não é um simples confisco arbitrário, realmente nós estamos a usar estes bens". Aparentemente, é a fórmula que está em cima da mesa. Vamos usar estes bens como um empréstimo à Ucrânia, um empréstimo que será pago pela Ucrânia quando a Ucrânia receber as reparações de guerra que são devidas por a Rússia manifestamente ter agido aqui de forma ilegal, violando princípios fundamentais da Carta das Nações Unidas, uma guerra de agressão, uma guerra de conquista. Claro que a Rússia irá sempre contestar isso, mas isso vê-se depois nos acertos, nos acordos que serão necessários para pôr fim a um conflito. Então pode-se dirimir isso usando os argumentos legais que forem bem esgalhados agora. Mas o ponto aqui é que a Europa continua a autolimitar-se, a estabelecer linhas vermelhas, a agir com uma preocupação estrita com a legalidade, quando do outro lado temos uma guerra de agressão da Rússia que ameaça não apenas a própria Ucrânia e o território ucraniano, mas de acordo com os próprios líderes europeus, inclusive belgas, ameaça a segurança, a ordem regional europeia, ameaça a ordem global, no fundo, esta ideia de que podemos voltar a ter um mundo em que as grandes potências fazem o que querem e as pequenas e médias potências, países como a Bélgica ou Portugal, sofrem o que têm de sofrer.

Bruno Cardoso Reis, muito obrigado por ter estado conosco no Gabinete de Guerra, aqui na Rádio Observador, onde falamos sobre a guerra na Ucrânia e também sobre os ataques a navegações no mar das Caraíbas, perto dos Estados Unidos da América.