Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

O que se passa no conflito da Ucrânia e no conflito no Médio Oriente é o que analisamos todos os dias no "Gabinete de Guerra". Eu sou o Miguel Cordeiro, vou estar à conversa nos próximos minutos com Ana Miguel dos Santos, especialista em assuntos militares. Muito boa tarde, obrigado por estar conosco.

Boa tarde, Miguel.

Boa tarde. Vamos começar pelos conflitos na Ucrânia e por esta reunião de hoje entre Mark Rutte e a liderança francesa. Macron já falou, diz que a Europa está determinada em gastar mais em defesa. Disse isto depois desse encontro com Mark Rutte, que já tinha dito também que o aumento do apoio à Ucrânia e investimento na defesa é importante nesta altura. Como é que vê o que sai deste encontro e garantias de investimento na defesa e também de apoio à Ucrânia?

Boa tarde novamente, Miguel. Boa tarde aos ouvintes. Eu, sinceramente, olhando para os últimos dois anos e meio, vejo mais como o mesmo. Quer dizer, estas garantias já existem há muito tempo, não são novas, portanto as palavras são muitas e os discursos de apoio têm sido muitos, mas depois falta a ação, falta a eficácia, falta a materialização deste conjunto de intenções. E, portanto, mais do que estar muito expectante com o discurso, estou mais expectante em perceber no que é que isto se vai traduzir. Sinceramente, não estou muito entusiasmada, nem vindo de Macron, que é um líder com muitas titubeias e já teve muitas oscilações e, portanto, eu espero que sim. Isto não me retira a esperança, mas sinceramente, é ainda pouco, isto tem que se traduzir em mais alguma coisa, designadamente com os sistemas de longo alcance e sua possibilidade de utilização em território russo. Enquanto continuarmos a exigir e a demandar um conjunto de limitações que obstaculizam a eficácia na utilização do material e do apoio que damos, não sei muito mais o que hei-de dizer.

Precisamente sobre isso, estamos a ver muitas reuniões, muitos encontros, muitas declarações depois do resultado das eleições americanas. Nas semanas antes, estivemos quase num impasse, tudo em standby. Agora vemos muitas movimentações acontecer dos principais agentes. Ainda hoje, França e Reino Unido uniram esforços na pressão a Joe Biden, pedem que seja autorizado à Ucrânia utilizar mísseis de longo alcance antes de Trump tomar posse. De facto, temos agora este espaço temporal para que os países aliados, Estados Unidos da América e da Ucrânia, façam pressão para que isto possa acontecer ainda antes de Trump chegar?

Miguel, a sensação que eu tenho é que andamos sempre a correr atrás do prejuízo. Andamos sempre a apagar fogos. Tu disseste, e muitíssimo bem, que tivemos tanto tempo para fazer esse trabalho. Tivemos uma cimeira da NATO em Washington, ainda recentemente, uma cimeira da paz, tantas oportunidades, e agora é que começa a pressão. Isto, além de tudo, também descredibiliza diante do adversário, no caso, de Putin. Portanto, se queremos mostrar credibilidade, se queremos mostrar essa maturidade, e não é só para o adversário, é também para os cidadãos, porque no final do dia são os cidadãos que apoiam com os seus impostos este esforço de guerra. O que se pede é também mais integridade e até mais honestidade na forma como se gera guerra. O discurso político em fase de guerra, nestas alturas, não pode estar dependente de dúvidas diárias, de poucas certezas, de decisões pouco claras, de decisões híbridas, de decisões dúbias. Eu espero que sim, eu alimento essa esperança e há essa vontade de fazer essa pressão para evitar que depois Trump tenha argumentos para inverter essa decisão. Agora, tenho dúvidas que ela venha a acontecer, porque se elas já existiam por parte da administração americana, e vamos lá ver, a administração americana, a América, as Forças Armadas americanas, os serviços de segurança, de intel, etc, não alteram critérios e doutrinas militares depois do dia das eleições. Isto não se altera assim. Os órgãos que ajudam na formação da decisão e que aconselharam o presidente Biden também são sensíveis àquele que tem sido o posicionamento da nova administração, e portanto, não sei se vamos conseguir obter uma decisão favorável em tempo útil.

De qualquer forma, Blinken está em Bruxelas, vai reunir-se com aliados da NATO. O que me está a dizer é que não espera uma decisão a sair deste encontro nesta fase.

Não, acho muito difícil. Acho mesmo muito difícil e até acho muito difícil de justificar. Biden teve tanto tempo, eu uso o argumento ao contrário e basta inverter o argumento. Se até agora Biden não conseguiu tomar essa decisão e tinha muito mais margem Para o fazer, em termos de legitimidade, agora torna-se mais difícil. Eu não digo que seja impossível, mas é muito mais difícil e é uma fratura interna muito grande. Não sei se ele tem, neste momento, o poder suficiente para o fazer.

Entretanto, o presidente da Finlândia falou sobre o plano Trump para acabar com a guerra na Ucrânia. Ainda estamos a falar disso. O presidente da Finlândia quer que o plano Trump seja levado a sério. A frase é: "Nós, na Europa e no resto do mundo, temos que perceber que Donald Trump está muito empenhado em conseguir um acordo de paz o mais rapidamente possível." A frase é de Alexander Stubb, o presidente da Finlândia, em declarações à agência Bloomberg. De acordo com o presidente da Finlândia, existe uma margem de tempo relativamente curta para essas negociações promovidas por Trump, sendo entre o dia das eleições e o dia da tomada de posse. Como é que vê esta declaração do líder finlandês?

Até foi na semana passada que falamos um pouco sobre isso.

Sim.

Os líderes europeus já não estão todos a tocar com o mesmo acorde ou com o mesmo ritmo. Recorda-se que nós até falámos sobre isso, a percepção que existe já na maior parte dos líderes é de que vai ser muito difícil continuar a alimentar esta guerra sem existir cedência de território, sem a Ucrânia ceder ou sentarem-se à mesa das negociações. Portanto, há já esta percepção e começa já a existir, até porque o esforço de guerra implica investimento econômico, e nós não estamos propriamente numa altura muito fácil do ponto de vista da economia. Basta olhar também para aquela que é a situação política em França, na Alemanha, e portanto, não é fácil e a pressão vai começar a existir. E eu julgo que vai começar aqui lentamente, depois da vitória de Trump, que foi uma vitória tranquila, ao contrário daquilo que se esperava, porque independentemente da questão das sondagens, mesmo que se achasse que ele pudesse ganhar, nunca se imaginou que fosse com esta expressão. E isto traz alguma tranquilidade. Não temos visto convulsão nas ruas, não temos visto contestação aos resultados. Portanto, isto acaba por legitimar ainda mais a vitória de Trump e dar-lhe outra propriedade também para discutir e para colocar aqui também algumas questões. Ou melhor, para defender a sua agenda. E isso já se começa a sentir e se calhar alguns líderes europeus também já estão a aproveitar esta inversão para começar a pôr a Europa a falar, porque repare, nós temos que ser realistas. A Europa, mesmo que trabalhe para a sua autonomia estratégica, não vai conseguir. Isto é falarmos de gigantes quando comparados com os Estados Unidos e o mundo. Portanto, a Europa não consegue, neste momento, hoje, se fosse atacada, vamos imaginar a hipótese de haver aqui um ataque noutros países da Europa, a Europa sozinha não consegue. Por exemplo, imaginando que a China ou a Rússia invadissem, se isto fosse possível, a Europa não consegue defender sem o apoio, naturalmente, do chapéu americano. E portanto, nós temos que falar em autonomia estratégica, porque a Europa não pode estar só dependente dos Estados Unidos. Sim, mas esta autonomia leva tempo a construir e portanto, no imediato, nós vamos ter mesmo que falar, lidar e trabalhar com a administração de Trump. Portanto, no imediato, não podemos estar a fazer grandes compimentos e andarmos a assobiar para o lado numa lógica contra Donald Trump. Eu acho que isso toda a gente sabe, mesmo que diga outras coisas. E portanto, o que se está a tentar também fazer é perceber se há aqui espaço para parar esta guerra que não interessa a ninguém.

Muito bem, vamos falar ainda um pouco do Médio Oriente, mas aqui com um caso paralelo. Nós falámos a semana passada o que aconteceu no jogo do Maccabi Tel Aviv, nos Países Baixos, confrontos entre adeptos. França está a preparar um grande contingente policial para o jogo entre França e Israel, um jogo que acontece em Paris na próxima quinta-feira. Há muitos policiais a serem preparados, o estádio vai ter uma lotação reduzida, são esperados apenas entre 15 a 20 mil adeptos no Stade de France, um estádio que tem 80 mil lugares. As autoridades estão a ser reforçadas, há também vários avisos aos adeptos. Há aqui receios de que possa acontecer algo semelhante ao que aconteceu na semana passada nos Países Baixos e que isso possa levar também a complicações diplomáticas?

Sem dúvida. E o estado de alerta está, neste momento, no estado de alerta máximo e portanto, só isso obriga, naturalmente, a um reforço policial e é bom que ele haja, porque aquilo que nós temos estado a assistir é inadmissível. Isto é inadmissível e nós não queremos, naturalmente, isto em nenhuma parte do mundo, em particular na Europa, que ainda continua a ser um bastião de liberdade e de tolerância, e é por esses princípios que temos sempre que trabalhar e lutar. E portanto, admito que esse reforço de segurança tenha que existir. É evidente que os incidentes diplomáticos poderão decorrer sempre, e é isso que se pretende evitar, naturalmente, num momento de tanta tensão e ainda por cima em França. Esperemos que não aconteça nada, porque continuarmos a ver isto é inadmissível.

Ainda a reunião entre Biden e o presidente israelita acontece na Casa Branca esta tarde. O que podemos esperar desta reunião? Sabemos que também há decisões agora a serem tomadas e pressões depois das eleições. Há muita coisa em jogo, há essencialmente vontade de intensificar as discussões em torno do cessar-fogo. É a isto que deveremos estar atentos no final desta reunião? É isto que podemos esperar também, algo mais claro no que toca ao cessar-fogo?

Miguel, se relativamente a Zelenskyy ele está muito mais nervoso relativamente à nova administração, Netanyahu está menos nervoso. Aliás, eu admito que esta reunião seja mais uma reunião de passagem de pasta, em que Netanyahu vai tentar dar um sinal mais interno para o povo israelita de que os Estados Unidos continuam a estar e não vamos ter aqui muitas surpresas ou muitas novidades. Eu julgo que aquilo que está em cima da mesa, e este tem sido o grande problema até que levou à demissão de Yoav Galant, tem sido exatamente com o futuro, o que fazer no dia a seguir, quem toma conta de quem dirige o quê, quando e onde. Portanto, o tal plano sobre o futuro do dia a seguir ao fim da guerra. E esta é, sem dúvida, a questão que está em cima da mesa e que o governo israelita não consegue ainda oferecer também uma resposta. E naturalmente, não só esse, como o Hamas também não e nem as outras entidades que gerem território palestiniano.

Ana Miguel dos Santos, especialista em assuntos militares, muito obrigado por ter estado conosco nesta edição de Gabinete de Guerra.

Obrigada, Miguel. Boa tarde.

Boa tarde