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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador, em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Bruno Cardoso Reis, Gabinete de Guerra em curso. Seguimos agora com essas últimas notícias. A Eslováquia mantém a ajuda humanitária à Ucrânia, mas vai deixar de dar apoio militar. E a primeira-ministra da Estónia revela que o Conselho Europeu está a ser marcado por conversas sobre a fadiga da guerra. Há cada vez mais sinais disso, deste cansaço, Bruno, e outros países podem vir a suspender também, na sequência disto, o apoio militar?
Acho que teremos de ver, nomeadamente as sondagens, se há uma mudança significativa da opinião pública. Acho que aí os líderes também têm uma função fundamental. No fundo, aquilo que as sondagens e os estudos de opinião sobre questões internacionais nos mostram é que tipicamente estas questões não são questões prioritárias para as pessoas. São questões de segunda e terceira ordem. E portanto, isso dá alguma margem também aos líderes para, por um lado, eventualmente não terem muito em conta essas oscilações e, por outro, também procurar influenciar ativamente essa opinião. Acho que é revelador, é significativo, eu diria que é preocupante, nomeadamente do ponto de vista da Ucrânia, que haja este testemunho de que mesmo entre as lideranças europeias haverá alguma fadiga em relação ao apoio à Ucrânia. Eu estou certo que Putin conta com isso. Aliás, já muitas vezes falámos disso. Considero que a teoria da vitória russa do regime de Putin é muito esta ideia de que nós não vamos desistir de continuar a invadir, a ocupar, a tentar conquistar o máximo de território da Ucrânia e os países ocidentais, que são indispensáveis para a Ucrânia conseguir ter alguma possibilidade de recuperar algum desse território e mesmo para se conseguir manter uma defesa mais eficaz do lado ucraniano, vão acabar por se cansar desse apoio. Teremos de ver se Putin realmente tem razão ou não. No caso da Eslováquia, realmente houve uma mudança de governo, essa é uma realidade com que Putin também conta. Nós temos realmente eleições onde as pessoas realmente votam e escolhem e podem escolher um governo diferente, ao contrário da Rússia. Houve aqui realmente uma vitória deste populista de esquerda, Robert Fico, que se aliou a um partido também de direita mais radical, populista mais de direita radical. E havia a expectativa de saber qual seria aqui depois o papel do terceiro partido mais votado, mas que é o segundo partido mais importante nesta coligação, que é um partido dissidente do partido de Robert Fico e que é mais pró-europeu e mais pró-Ucrânia, mas claramente ele não teve peso suficiente para impedir esta alteração da postura da Eslováquia. Agora, é verdade, aí concordo com Dmitry Peskov, que comentou isto dizendo: "Bem, na verdade, a Eslováquia também já não dá grande ajuda militar à Ucrânia, portanto não é assim tão relevante que venha a anunciar que vai deixar de dar ajuda militar". Na prática, isso já tinha basicamente acontecido. Pode ser aqui um sinal de uma viragem. Se for assim, então isso seria significativo.
Vamos ter de acelerar, mas tenho aqui ainda duas perguntas, Bruno. A BBC avançou que o Ministério da Defesa da Rússia tem estado a recrutar prisioneiros para combater na Ucrânia para as unidades do exército conhecidas como Storm Z. Creio que, e podes explicar-me, estes prisioneiros podem vir aqui também para o lugar dos mercenários da Wagner. Isto significa que estão a existir perdas militares muito significativas para a Rússia?
Sim, exatamente. Acho que tem a ver com as dificuldades em substituir o papel da Wagner, mas tem a ver até com uma tradição que já existe na Rússia, no passado, em períodos negros da história russa, mas principalmente no período stalinista, que é haver aqui unidades militares penais. Esta ideia de que a alternativa é ou ficas no Gulag ou vais combater. A tentativa de compensar o facto de as pessoas livres não terem interesse em servir voluntariamente, de mesmo o recrutamento obrigatório ter problemas, porque há estimativas de que quase um milhão de russos, muitos deles jovens, saíram da Rússia desde o início da invasão. Uma forma de tentar compensar isso é através destas unidades militares penais. Claro, a Wagner fazia isso com outra autonomia e com outra capacidade também de criar incentivos financeiros e portanto, acho que é a combinação de todos esses fatores: baixas muito elevadas, grande dificuldade de recrutamento e o fato de que a Wagner preenchia aqui um papel de alguma utilidade que agora deixou de preencher.
Último ponto agora na nossa ordem de trabalhos. A Ucrânia suspendeu temporariamente o novo corredor do Mar Negro por risco militar. É esta a justificação. Uma nova crise aqui, Bruno, para a exportação de cereais?
Sim, é uma má notícia em termos de segurança alimentar a nível global, em termos de inflação de preços dos alimentos, e vem nos recordar que a dimensão naval é uma dimensão importante desta guerra. Não está tão presente, não é tão visível, não é tão ativa e tão intensa e tão continuada como a dimensão terrestre ou mesmo aérea, mas é uma dimensão muito importante. A Ucrânia tem conseguido aí vitórias importantes, mas há uma assimetria de base enorme em relação à Rússia e é normal que a Rússia também procure reagir a isso, contrariar isso, e portanto temos aqui um sinal de que as coisas estavam a correr muito bem, aparentemente, para a Ucrânia. Agora, terão tido aqui algum contratempo, algum sinal, alguma informação de que haveria um risco acrescido, uma ameaça acrescida do lado russo.
O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30, tem nova edição depois da síntese das 16h30 e está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.