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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço em que analisamos os principais focos do conflito, hoje com o especialista em Relações Internacionais, Orlando Sá Monge. Boa noite, obrigada por ter aceitado o nosso convite. Começamos pelo Médio Oriente. Menos de um dia depois da assinatura digital do memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irão, Donald Trump garante que o petróleo está a fluir e afirma que agora o mundo estará mais seguro porque Teerão nunca poderá ter uma arma nuclear. Dividiria esta questão em duas partes. Primeiro, ainda a parte do nuclear. Donald Trump parece muito confiante quanto ao facto do Irão vir mesmo a abdicar do armamento nuclear, sendo que é uma questão que ficou de ser negociada daqui a 60 dias para um acordo final, embora Teerão tenha também dito que não irá adquirir nem desenvolver armas nucleares. Pergunto-lhe se acha que vai ser mesmo assim, que no acordo final o Irão vai efetivamente comprometer-se a abdicar tudo isto.

Muito boa pergunta. Muito boa noite, obrigado pelo convite. Logo no dia que soubemos deste memorando, deste primeiro esboço, Trump publicou nesses seus famosos posts, qualquer coisa como: "Os navios podem começar a ligar as máquinas". Deu a entender que estaríamos a voltar ao status quo e hoje o verbo é mais de fluir, o petróleo vai fluir e ainda bem, para benefício de toda a humanidade. Esse foi um dos únicos pontos nos quais podemos ver que o Irão, esta República Islâmica, cedeu alguma coisa às exigências dos Estados Unidos, porque de resto, e como tem sido dito, muitos dos pontos parecem-nos que é mais Trump com a pressa de fazer acordo ou com alguma incapacidade em retirar mais efeitos deste memorando a ter que ceder. No entanto, eu não seria assim tão rápido a ir para essas conclusões. Creio que nós estamos aqui a subestimar esta forma de estar da República Islâmica, que é sempre muito tenaz, intransigente. Estamos a falar de uma teocracia, que nem sempre se baseia nas ideias mais científicas ou racionais, mas sim em uma crença enorme e até estão dispostos muitas vezes a dar a vida em nome dessa crença. Ou seja, estão preparados, até mentalmente e psicologicamente, para uma guerra com o grande Satã, com os Estados Unidos e com Israel, desde sempre, e está-lhes mesmo na massa do sangue, pelo que qualquer tentativa de racionalizar, de tentar trazê-los para a mesa, trazê-los a uma assinatura, é sempre também uma vitória importante do lado dos Estados Unidos, porque no fundo aquilo que temos visto é isto mesmo, é o petróleo a fluir, significa que a pressão sobre a economia mundial está a diminuir. A pressão inflacionista, a pressão sobre o preço dos petróleos, a possibilidade de termos agora até um mundial de futebol mais calmo e em que as várias seleções, inclusive a do Irão, poderá estar nos Estados Unidos em total tranquilidade, porque na realidade aquilo que também está em causa são estas visões do mundo diferentes. O contrário é que não se poderia verificar. Teríamos muita dificuldade em ter uma equipa americana a andar livremente no Irão hoje em dia, porque seria perseguida pelo regime. Ora, aqui nós vemos estes posts também, claro que temos que em termos de análise, analisar o Irão, que assim que Trump diz "podem ligar as máquinas", também lembrou que "a nossa espada", e estou a citar o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, "a nossa espada está sobre o estreito de Ormuz". Este estilo da ameaça mantém-se. Mas eu gostaria de sublinhar que trazer o Irão a uma racionalidade, obrigar a uma pequena cedência, não faz parte da sua natureza. É no mundo ocidental que nós temos um espírito de compromisso, de ajustamento permanente, de olhar para os problemas com alguma distância e saber que por vezes temos de seguir políticas de imperfeição, ou seja, para já não temos um acordo, temos um memorando, mas ainda assim é um passo, já obriga alguma coisa o outro lado. Agora, a sua pergunta tinha também a parte mais importante de todas, que é o nuclear. O nuclear não foi passível de trazer para já para este acordo. Ora, pode também ser a tentativa dos Estados Unidos, de uma maneira engenhosa, de dividir o problema em várias fases para que agora possa, uma vez trazido o Irão para a negociação e uma vez revelada muita informação sobre todas as suas táticas, porque repare também aqui estamos todos a subestimar a capacidade dos países ocidentais, que são muito mais livres e ricos, poderem responder no futuro melhor a estas investidas do Irão. Um exemplo muito concreto, os dragaminas, a possibilidade que temos de desenvolver navios ou equipamentos militares da Marinha que possam remover minas sobre estreitos, não só neste estreito, noutros estreitos no futuro que estejam sob ameaça. Obviamente, vamos investir muito mais nesse tipo de capacidade e vamos ter muito mais cuidado com elas. E temos mais possibilidades de o fazer, precisamente temos uma sociedade mais próspera, que agora vai apostar também nessas qualidades para um dia fazer frente a futuras ameaças do Irão ou de outro regime do mesmo gênero que tente aprisionar águas internacionais. E, portanto, aqui a resposta também conta. O nuclear é a mesma coisa. Claro que eles, para já, comprometem-se, e de uma maneira leve, a não desenvolver armas com alcance nuclear. Mas a letra daquilo que está escrito neste memorando até me parece um pouco mais vaga e mais na zona cinzenta típica da negociação do Irão, que deixa tudo muito na margem cinzenta para que possam reinterpretar no futuro de outra maneira. Parece-me que a formulação foi mais laça do que, se calhar, o próprio acordo de 2015. Mas é o acordo de 2015 que ainda assim permite algum tipo de enriquecimento de urânio, embora só a níveis para uso, no fundo, energético. O que me parece é que nós não podemos também tentar aqui antecipar muito mais. Há alguma redundância em relação a dizer que não vão desenvolver essas armas. O Irão tentará sempre desenvolver essas armas, nem que seja de forma mais escondida e encapotada. O que aqui um futuro acordo terá que tentar vincar será a forma como a verificação e o escrutínio terá que ser feito por agências internacionais para que se esconda o menos possível e também a forma de diluir o atual urânio enriquecido. Ora, também do lado de Trump, a administração deixa as suas ameaças. No fundo, também se diz que depois destes 60 dias, se as conversações não correrem bem, se o Irão não for num bom caminho, também se podem voltar aos bombardeamentos. Isto é sempre, infelizmente, termos que os Estados Unidos da América encabeçarem esta posição de terem que bombardear e que todos condenamos, porque o uso da violência deve ser sempre condenado. Mas o que é facto é que nós estamos sempre a contar que os Estados Unidos apareçam e que consigam diminuir o nível de pressão sobre o mundo, sobre estes grupos, neste caso, este governo em particular, que alimenta muita da instabilidade regional e até internacional. Pelo que acho que não devemos saltar para as conclusões muito rapidamente no que diz respeito a este acordo e esperar para então que estes 60 dias de conversações diminuam o impulso de vingança que o Irão sente neste momento para que tenha um regime normal. E acho que também muitas vezes cabe aos Estados Unidos e até ao mundo ocidental como um todo, e seria bom que a Europa estivesse mais articulada, até em libertar algumas das sanções e, de facto, permitir que alguns dos ativos que eram do Irão, mas que estavam congelados, voltem à economia do Irão, até pela razão do próprio povo, porque há sempre um certo efeito, por muito que seja a guarda revolucionária a guardar para si todos os recursos do país, há sempre algum efeito de gotejar, o trickle-down, há sempre algum efeito sobre a economia real que pode ser um bocadinho benéfico e se chegar às pessoas do Irão, isso então é o mais importante.

Entretanto, a assinatura presencial do memorando de entendimento que estava agendada para a Suíça foi cancelada. É pelo menos o que avança o ministro paquistanês dos Negócios Estrangeiros, país mediador. J. D. Vance já veio reafirmar que pretende ir à Suíça, diz que não sabe exatamente quando, mas portanto terá sido o Irão a recuar aqui nesta ida à Suíça. Pergunto-lhe por que Teerão não quererá reunir de perto com Washington.

Eu creio que as relações tiveram cortadas desde 1979, 80, principalmente desde 80, e desinvestidas do Irão sobre as embaixadas e toda a atitude que têm de estabilização do Médio Oriente deixam sempre numa posição de não conversação com Washington. O que é facto é que nesta feita e desde 28 de fevereiro, que ainda assim de forma mais ou menos indireta, e aliás, mesmo no ano passado, por via de Omã, agora por via do Paquistão, tem sido possível algum contacto indireto. Termos um memorando que é apenas assinado digitalmente é pouco. Acho que o Irão aqui é criticável, porque devia ir de facto à Suíça, que também se prestou a este trabalho de mediação tão importante para as boas relações internacionais. Por outro lado, nós nestes pontos também não sabemos tudo e eu não sei se não há aqui alguma inexperiência por parte do próprio J. D. Vance, que tem vindo a responder nesse sentido, a dizer: "Não, eu consigo articular as posições", porque pode também haver aqui um ligeiro problema da maneira como foi comunicado o arranjo ou entre gabinetes, porque até é estranho as declarações de J. D. Vance, no qual ele parece um bocadinho perdido. Não só não estava à espera do timing e do momento deste acordo, que também me espantou, como agora também já não sabia muito bem qual é que seria a ocasião e até quando é que começavam os 60 dias que estão no acordo a contar. Enfim, ele se calhar com a melhor das boas intenções, não nos podemos esquecer que é um político que é conhecido há muito pouco tempo, foi eleito senador e rapidamente passou para ser vice-presidente e esperaríamos que se calhar a Suíça pudesse reatar essas conversações, porque era importante firmar no papel, e sabemos que muitas vezes no papel não quer dizer que se passe na realidade, mas era um primeiro passo para uma exigência mútua de um primeiro acordo que por muito imperfeito que seja, pode ser o início de um mundo um bocadinho mais tranquilo, pelo menos a nível regional.

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, garantiu hoje que as operações no Líbano vão continuar. Isto depois de ontem o Irão ter avisado que qualquer ataque israelita a Beirute será visto como uma violação do memorando de entendimento. Hoje, J. D. Vance também já veio dizer que Israel tem de respeitar o processo de paz e disse também que os ataques a Beirute não foram aceitáveis. O que é que podemos esperar de Israel? Vão continuar estes ataques contra o Hezbollah e acha que isto pode vir a acabar por comprometer o memorando finalmente alcançado?

Eu creio que, se calhar, mais uma vez estamos num daqueles assuntos que o Irão gosta de trazer para a tal zona cinzenta. Ou seja, diz claramente que o Líbano está dentro do acordo, mas não exige ao Hezbollah que pare definitivamente com os ataques ao norte de Israel e por isso sabe que não inibirá o direito à autodefesa de Israel e por isso tem sempre aqui uma margem para um dia se poder escapar a este memorando, alegando que houve uma quebra de cessar-fogo entre o Líbano e Israel. Ora, como sabemos, não há guerra entre o Líbano e Israel. Pelo contrário, há conversações profícuas e o Estado de Israel também, mas o do Líbano, até através do seu presidente Joseph Aoun, tem encetado conversações com o primeiro-ministro israelita e com o Estado israelita. O problema é mesmo esta zona que devia estar totalmente desmilitarizada desde a Resolução 1701, que é o do sul do rio Litani, mas sabemos que muitos destes grupos pertencentes ao Hezbollah estão de facto mais a sul de Beirute, o que até tem despoletado alguns destes ataques mútuos que depois quebram a dinâmica do cessar-fogo, e isto acontece desde o dia 8 de abril, desde que ele foi assinado. Eu creio que na total boa-fé das partes, entre Irão e Estados Unidos, acho que já devia estar mais internalizado o facto de que a escaramuça vai continuar entre o Hezbollah e Israel para não fazer depender o cessar-fogo e o início das conversações desta realidade, porque se tentarmos no contrato inicial resolver todos os problemas, então se calhar não haveria quase razão para problema algum. As guerras existem precisamente porque há certos pontos nos quais o desacordo é tão forte que faz as partes continuarem, neste caso, num tic for tac, num ataque de pergunta e resposta. Todos sabem que não vai ser cumprido. Ora, se todos sabem que não vai ser cumprido, já devia estar internalizado no acordo e o próprio acordo não obrigar o Hezbollah e Israel a fazerem para já parte do acordo, tal como se fez com o nuclear. Se não se consegue acertar já hoje, a não ser, e ainda seria melhor, que o Irão conseguisse efetivamente exigir ao Hezbollah que parasse com os ataques, coisa que também não aparece no acordo mais uma vez.

O nosso tempo chegou ao fim. Obrigada pela sua análise, Orlando Sá, professor de Relações Internacionais. Obrigada. O Gabinete de Guerra regressa amanhã.