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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Nos próximos minutos vamos falar sobre os conflitos em curso na Ucrânia e no Médio Oriente. Eu sou o João Gama, tenho comigo o Luís Tomé, professor catedrático e diretor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa, a quem desejo desde já boa tarde. Luís Tomé, obrigado por estar connosco aqui na Rádio Observador. Boa tarde. Eu proponho começarmos pela Ucrânia, pela guerra na Ucrânia. Cinco mortos, 30 feridos, resultado do ataque russo em larga escala à Ucrânia. Já ouvimos Volodymyr Zelensky classificar o ataque russo desta segunda-feira em vários pontos do território ucraniano como um dos maiores ataques já lançados pelo Kremlin contra a Ucrânia, a envolver mais de uma centena de drones e mais de uma centena de mísseis. Voltámos à fase da guerra na Ucrânia, Luís Tomé, desta magnitude de ataques de larga escala todos os dias?

Não sei se voltámos, porque ciclicamente a Rússia tem feito este tipo de ataques. Este aqui tem a particularidade de, aparentemente, ter visado essencialmente alvos civis e, em particular, infraestruturas energéticas, e ter utilizado, de facto, um grande número de drones, uma centena de drones, essencialmente iranianos, e uma centena de mísseis norte-coreanos. Razão pela qual os dirigentes, quer o presidente Zelensky, quer o ministro dos Negócios Estrangeiros ucranianos enfatizaram não apenas a brutalidade e o terror do ataque a 15 regiões ucranianas por parte da Rússia, mas precisamente por estar a utilizar capacidades cedidas por parceiros aliados da Rússia para, em contrapartida, dizer que as inibições, as fraquezas e as respostas inadequadas dos seus aliados ocidentais impedem a Ucrânia de pôr fim, com justiça, a esta guerra. E, portanto, como sempre, e mais uma vez num contexto como este ataque massivo russo, Kiev vem pedir que os seus apoiantes lhes permitam utilizar armas ocidentais de ataque em profundidade ao interior do território russo e, por outro lado, permitir que tenham mais capacidades aéreas e que os aliados utilizem essas capacidades suas para defender os céus mediante mísseis e drones russos perto dos respetivos espaços aéreos. Portanto, é uma oportunidade para a Ucrânia voltar a insistir na ideia de que não pode estar a combater de uma forma desigual com uma mão presa atrás das costas.

E esses pedidos da Ucrânia aos países aliados, depois de ataques desta magnitude, são capazes de chegar a ouvidos mais amigos? É capaz da Ucrânia ter aqui mais poder de persuasão para com os aliados da NATO sobre essa matéria?

Eu diria que isto, e o que vamos ver a seguir, é uma espécie de déjà vu. Isto é, a Rússia sempre foi eficaz até agora na dissuasão dos aliados ocidentais, a começar pelos Estados Unidos e NATO, não dissuasão da Ucrânia. E repetidamente vão sendo ultrapassadas certas linhas vermelhas que se temiam poder desencadear uma contraofensiva, uma retaliação a uma escalada russa que faria o conflito ir para lá do território ucraniano ou levar Moscovo a utilizar capacidades que ainda não utilizou. Ora, uma das coisas que a Ucrânia tem insistido em demonstrar, aliás, a própria incursão pelo território russo o tenta demonstrar, é que não há razão para que os seus parceiros ocidentais receiem essa escalada. E, portanto, tal como aconteceu no passado, ciclicamente, mediante a pressão russa na ofensiva contra a Ucrânia e a pressão de Zelensky, ministro dos Negócios Estrangeiros e companhia ucranianos, os parceiros e aliados ocidentais vão ultrapassando limites e constrangimentos que antes tinham fixado. E, portanto, penso em crer que também desta vez vai haver uma maior permissividade, embora sempre atrasada e depois de muitos apelos de Kiev, dos parceiros ocidentais para que os ucranianos possam utilizar armas cedidas pelos ocidentais na defesa e na contraofensiva em relação à Rússia. Mas nós também estamos a assistir a uma narrativa paralela que é a Ucrânia dizer que cada vez mais quer depender e utilizar armas suas, desenvolvidas pela própria Ucrânia. Infelizmente, a Ucrânia não tem capacidade para desenvolver todas as armas, todos os sistemas de defesa e de ataque e vai ter sempre de utilizar aquilo que lhe vai sendo cedido pelo Ocidente.

Também temos notícia de hoje de que um drone terá entrado no espaço aéreo polaco durante este ataque de larga escala russo contra a Ucrânia. Depois deste ataque de drones da manhã desta segunda-feira, o que eu pergunto, Luís Tomé, não é a primeira vez que isto acontece, se este tipo de acontecimentos, de ataques a furarem fronteiras dos países aliados da NATO e da União Europeia, se podem de alguma forma chamar os aliados mais para perto da guerra da Ucrânia com a Rússia.

Não, se for este tipo de eventos, como disse e bem, que já repetem há muito tempo, não creio que a NATO se deixe cair nesta armadilha. Isso sempre evitou fazer. Já houve incidentes mais graves, quer na Polónia, quer, por exemplo, na Roménia. Esta informação está por confirmar Mas para todos os efeitos, entrou no espaço aéreo. Aquilo que deveria ter acontecido era ter sido abatido prontamente pelo sistema de defesa que deve estar em alerta do lado polaco, mas não creio que qualquer deste tipo de evento, seja de detritos de alguns mísseis, seja mesmo em violação de espaço aéreo por drones, possa arrastar a NATO para o conflito. É evidente que há uma certa narrativa ucraniana que o pretenderia fazer, mas não configura um ataque que justifique uma entrada da NATO, porque aí, sim, passaríamos para outro tema do conflito que todos querem evitar.

Nesta altura temos uma contraofensiva ucraniana na região de Kursk. O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica já está a visitar a central nuclear de Kursk devido à gravidade da situação que entende que combates naquela zona possam trazer para a segurança da central nuclear. Estamos a correr o risco de uma guerra nuclear? Temos confrontos ao pé da central nuclear de Kursk, também em Zaporíjia. Estamos a brincar com o fogo?

Sempre que há atividade militar perto de uma central que produz energia atómica, os riscos são sempre significativos. Nós já assistimos a isto na central de Zaporíjia. Agora, ainda a alguma distância, mas há combates mais próximos como nunca houve até agora, da central nuclear de Kursk. E é o próprio diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica que diz que ele próprio vai liderar pessoalmente essa missão de visita à central nuclear de Kursk, e é ele que sublinha a gravidade da situação.

Exatamente.

Na verdade, nós não temos notícia que justifique uma afirmação deste tipo, mas por alguma razão o diretor-geral vai ele pessoalmente e utiliza uma expressão num tom grave como este, de gravidade da situação que o leva a ir. É evidente que ele pode estar a dramatizar um pouco para que as partes se coíbam de fazer algo que possa pôr em perigo a central nuclear, que seria de facto uma catástrofe, mas não deixa de ser significativo esta visita do diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica.

Luís Tomé, no Médio Oriente, na guerra na Faixa de Gaza e também deste fim de semana, a troca de ataques entre o Hezbollah e Israel, que subiram de tom. O Irão veio dizer também no domingo que não receia uma escalada militar com Israel. Estou aqui a falar de uma declaração do ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, que escreveu na rede social X a garantir que a reação do Irão será medida e bem calculada, mas que não tem uma escalada, apesar de ser algo que não procura, ao contrário de Israel, escrito pelo ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano. É esperada uma escalada ainda maior da tensão na região e até onde é que essa escalada pode ir antes de termos oficialmente uma guerra regional no Médio Oriente?

A pergunta colocada como pode, nós só podemos dizer que pode ir até ao limite, e o limite é esse que acabou de descrever, é uma guerra generalizada no Médio Oriente, sendo que, obviamente, estando uma guerra aberta entre o Hezbollah e Israel, isso configuraria uma guerra de comportamento regional, pelo menos, porque os Estados Unidos estariam sempre ao lado de Israel e obviamente o Hezbollah é um dos membros do eixo da resistência do Irão e, portanto, certamente que o Irão e outros membros do eixo da resistência entrariam. Mas eu sublinharia, por um lado, o fato de imediatamente a escalada ontem, foi uma clara escalada, depois de muitos meses de ataques diários de mútuos entre o Hezbollah e Israel. Ontem foi uma escalada, mas que foi contida de imediato e, portanto, um sinal de que ambas as partes continuam a evitar a guerra total e, por outro lado, ambas as partes continuam a medir forças com o outro lado, a tentar restaurar uma certa dissuasão. O Hezbollah a querer fixar alguns limites para Israel a conter no Líbano contra o Hezbollah e obviamente Israel a tentar restaurar a dissuasão que perdeu desde 7 de outubro. Por outro lado, não deixa de ser significativo que nestas mesmas declarações, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão venha dizer que o ataque de ontem mostra que Israel perdeu a sua capacidade de dissuasão e que o balanceamento de poderes na região lhe é desfavorável. Agora, é notório que o próprio Irão está dissuadido de atacar Israel para já pela morte do líder do seu conviúdo, o líder do Ahmadinejad, em Teerão. Aliás, isto coincide com o fato de Israel receber o avião 500 de abastecimento militar dos Estados Unidos desde 7 de outubro e, portanto, estão já 50 mil toneladas de equipamento militar entregues pelos Estados Unidos a Israel nesses 500 voos e mais de 100 desembarques marítimos. E os Estados Unidos são o grande dissuasor, quer para o Irão, quer para os outros elementos do eixo da resistência. É significativo, aliás, que o ministro dos Negócios Estrangeiros, mais uma vez, mas não só, o próprio chefe das Forças Armadas e outros dirigentes iranianos, venham enfatizando que a resposta será sempre calibrada, será sempre decisiva, essa tal retaliação, seja pelo Irão diretamente, seja por outros membros do eixo da resistência. Ele até verbalizou que cada um dos membros do eixo da resistência fará a sua própria vingança. Como sabemos, durante semanas, foi sendo discutido, o líder do Hezbollah disse o mesmo ontem Foi sendo discutido se haveria uma resposta conjunta do Irão e dos vários membros do eixo da resistência ou se cada um faria o seu ato de vingança. E pelos vistos a opção foi pontualmente, ciclicamente, cada um ir fazendo a sua vingança, a sua retaliação contra Israel, mantendo um permanente clima de um certo terror de Israel, sempre a ter de olhar para várias frentes. Parece ter sido essa a opção. Há aqui dissuasões mútuas, mas estamos no fio da navalha, estamos sempre a ver alguma escalada que é apesar de contida, mas é mais um grau face ao que acontecia antes. Se não houver contenção de todas as partes e uma solução política, podemos chegar até ao limite da escada e ter um confronto global.

E nesta altura em que há uma escalada do conflito no Médio Oriente, há também um impasse nas negociações para um cessar-fogo e para a libertação de reféns. O Egito veio dizer hoje que não aceita que Israel mantenha forças no corredor de Filadélfia, na fronteira entre o Egito e a Faixa de Gaza. Este impasse nas negociações acredito que seja de esperar, não são negociações fáceis, mas numa altura em que temos uma grande escalada do conflito por toda a região, já não há esperança para um acordo de cessar-fogo em Gaza?

Próximo eu tenho muitas dúvidas. E tenho muitas dúvidas porque, na verdade, nós conhecemos e reconhecemos os esforços dos mediadores, Catar, o Egito e os Estados Unidos em particular, mas também sabemos que os decisores dos dois beligerantes, desde logo o primeiro-ministro israelita Netanyahu e o novo líder do Hamas, Sinwar, não estão interessados neste momento num cessar-fogo. O Netanyahu não quer fazer mais concessões sob pena do colapso da coligação governamental e do sair do poder, ser julgado nos tribunais israelitas e no Tribunal Penal Internacional, e espera conseguir ainda matar mais alguns dirigentes do Hamas, a começar, naturalmente, Sinwar, para reclamar o êxito de um dos objetivos que lançou em Gaza e dizer que restará a tal dissuasão que falávamos. E o Sinwar quer preservar o que resta da estrutura militar e política do Hamas, quer dar ao seu grupo terrorista um papel na administração, não apenas de Gaza, mas da Palestina no futuro. E é ele que sempre acreditou e defendeu que a morte de milhares de civis é um sacrifício necessário para avançar no tal caminho que começaram e que espera ele o aumento da pressão sobre Israel force Telavive a fazer concessões. Cada uma das partes tem razões para aliviar a pressão dizendo que se mantêm interessados nas conversações do cessar-fogo, mas se Netanyahu acha que as conversações atenuam a pressão de Washington e neutralizam uma retaliação maior do Irão e do eixo da resistência, o Sinwar espera que o Irão e os outros parceiros do eixo da resistência acabem por entrar decisivamente na guerra contra Israel. Neste momento nenhum tem interesse, o resto é um bocadinho de fumo ou areia para os olhos, porque não há interesse dos decisores dos dois beligerantes, neste momento, no cessar-fogo de forma séria e de boa-fé, tanto que esta informação do Egito contraria aquilo que o primeiro-ministro Netanyahu tinha afirmado ao secretário de Estado Blinken da última vez que se encontraram. Andamos permanentemente neste faz de conta.

Luís Tomé, professor catedrático, diretor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa, esteve conosco no Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Luís Tomé, muito obrigado, muito boa tarde. O Gabinete de Guerra, Rita, está de volta já amanhã.