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Começa agora mais um Gabinete de Guerra das manhãs 360, hoje com a análise de José Filipe Pinto, professor catedrático em Ciência Política e especialista em movimentos extremistas e relações internacionais. Bom dia, professor. Muito obrigada por se juntar a nós neste dia de aniversário da Rádio Observador.
Muito bom dia, Maria João, e permita-me que, na sua pessoa e na equipe das manhãs, felicite a Rádio Observador pelo seu quinto aniversário, porque quando um meio de comunicação desagrada a uma ditadura, é porque está a prestar um excelente serviço à democracia.
Muito obrigada, professor. Começamos pela nomeação de Mark Rutte como novo secretário-geral da NATO. Que impacto terá isto na guerra da Ucrânia?
Eu julgo que temos três aspectos a considerar. Primeiro, Mark Rutte é um apoiante inequívoco da causa ucraniana, como demonstrou a sua promessa enquanto primeiro-ministro dos Países Baixos, do fornecimento dos Leopard e dos F-16. Segundo, o senhor Teflon, Mark, o epíteto pelo qual é conhecido devido à sua resiliência, colhe tanto junto de Biden como de Trump. E não podemos esquecer que a administração norte-americana condiciona, e isto é um eufemismo, enormemente as decisões da NATO. E terceiro e último, Mark Rutte é um bom gestor, é um hábil negociador, mas a meu ver, não é um inventor do futuro. Por isso, julgo que vamos ter uma continuação dos acordos bilaterais sem a intervenção direta da NATO. E acho que, neste momento, essa é a estratégia que melhor serve os interesses da organização na conjuntura atual.
Professor, o telefone vermelho está de volta. Eu pergunto isto depois de Lloyd Austin ter falado ao telemóvel com o ministro russo da Defesa, Andrei Belousov, a quem disse que era importante estabelecer linhas de comunicação abertas.
Maria João, o telefone vermelho nunca deixou de existir e continuou pousado nas duas secretárias enquanto Putin e Biden recorriam àquilo que eu denomino mensageiros, mas de uma forma nem sempre às claras e com discursos muito diferentes, consoante as afirmações fossem públicas ou privadas. O problema, a meu ver, é que agora há um segundo telefone de cor amarela, que já solicitou a ligação à rede. E neste mundo de múltiplas ordens, como a escola realista ensina, quem tem poder usa-o sempre em benefício próprio. A vantagem da existência de dois telefones é que, a meu ver, reduz a possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial, embora à custa de uma nova corrida ao armamento, crescentemente na dimensão tecnológica.
Entretanto, a Ucrânia tem um novo general, Andriy Hnatov, que para Zelensky tem a missão de destruir o ocupador. Mas, José Filipe Pinto, o que significa esta mudança de generais na linha da frente ucraniana?
Pois, tem um novo general, mas agora que o futebol ocupa tanto espaço mediático, esta substituição trouxe-me à memória algo que aconteceu quando, felizmente há muito tempo, Portugal estava a sofrer a maior goleada perante a Espanha e o selecionador português resolveu substituir o guarda-redes. Então o espectador gritou: "Ponga los dois". Isto significou o quê? Não é uma substituição, tal como não foi a Zaluzhnyi, que vai solucionar o problema, porque o problema reside na desproporção de meios humanos e de armamento, sobretudo a nível aéreo. Mais do que mudar de protagonistas, há que assegurar o máximo possível de meios para não chegar à mesa das negociações numa situação de quase capitulação. Portanto, esta substituição é mais um passo de Zelensky para tentar reforçar o moral das tropas, mas que não tem, a meu ver, grande efeito.
Vamos agora ao conflito no Médio Oriente. Importa falarmos sobre a questão da mobilização dos ultraortodoxos em Israel, que, professor, pergunto, pode fazer cair Netanyahu?
Mesmo que não seja suficiente para fazer cair Netanyahu, não deixa de abalar os alicerces do governo. Repare, o exército poderá receber mais à volta de 66 mil soldados com esta mobilização, mas os partidos ultraortodoxos, que consideram que o estudo da Torá é tão importante como a ação do exército para a defesa de Israel, vão exigir um elevado preço compensatório para não abandonarem a coligação governamental, mais a mais agora que Benny Gantz saiu do gabinete de guerra e este foi dissolvido. Não é fácil, de maneira nenhuma, para estes partidos ultraortodoxos aceitarem uma decisão política, porque consideram que o Supremo não pode ir contra algo que contraria um acordo que vem desde a fundação de Israel, mas que os israelitas seculares não aceitam de bom grado. Os privilégios das escolas talmúdicas são objeto de crescente contestação em Israel, até porque é fácil apelar ao alastrado da guerra, ao Líbano, à Cisjordânia, quando não se participa diretamente nela. Portanto, Netanyahu, que está a prazo, como todos os titulares de cargos, é evidente que estará, a meu ver, a prazo muito curto, a menos que consiga fazer mais concessões aos ultraortodoxos. E, evidentemente, isso só contribuirá para aumentar aquele seu grau de isolamento naquilo que se chama arena internacional.
Entretanto, o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo disse que estão a trabalhar naquilo a que chamou um grande tratado com o Irão. Zakharova parecia estar a referir-se ao acordo de cooperação bilateral que está a ser negociado entre Teerão e Moscovo e que reflete um aumento sem precedentes dos laços entre os dois países. Professor José Filipe Pinto, isto não deve ser visto com muita atenção por parte do Ocidente e o que isto nos diz sobre o papel da Rússia na guerra em Gaza?
Maria João, mais do que com muita atenção, terá de ser motivo de grande preocupação e tanto para o Ocidente como para Israel. E não é apenas pelo fato do Irão estar a enriquecer urânio e de ambicionar liderar a ordem islâmica. É que a tecnologia russa, e a Rússia dispõe de tecnologia, pode vir a ser disponibilizada ao Irão e vir a ser incorporada nas armas com que o Irão, que é uma ditadura teocrática, alimenta o esforço de guerra dos seus proxies no Médio Oriente. Esta é uma situação em que a religião acaba por legitimar o recurso à violência. E Putin, apesar de ortodoxo, sabe isso muito bem. E a situação é tanto mais grave quando nós percebemos que antes deste acordo, Putin foi a Pyongyang. E isso significou o quê? Que verdadeiramente está aqui a criar-se um eixo em que a tecnologia russa pode ser colocada ao serviço do desenvolvimento militar, tanto da Coreia do Norte como do Irão, e daí nada de bom virá, porque os grandes inimigos de qualquer um destes países, mas principalmente do Irão e da Coreia do Norte, são os Estados Unidos. E o grande inimigo, sendo os Estados Unidos, acaba por ser o Ocidente. Dito de uma forma mais simples, a Rússia está a participar, se não direta, pelo menos indiretamente, na questão do Médio Oriente. E evidentemente, havendo dois lados em competição, nós percebemos que quem apoia o Irão acaba por estar ao lado das forças do Hamas, do Hezbollah e da Jihad Palestiniana.
Professor José Pinto, muito obrigada pela análise no Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Um bom dia para si, professor.
Um bom dia para si, Maria João.
Muito obrigada.
Obrigado.